A HONRA DE TER UMA RÉPLICA OFICIAL DA PRIMEIRA CAMISA 10 DO REI PELÉ – POR EMÍLIO FIGUEIRA

No meu livro de memórias CONFISSÕES DE UM BOM MALANDRO, citei que tenho em meu acervo uma réplica oficial da primeira camisa 10 usada pelo Pelé. Muita gente tem me perguntado sobre essa réplica e o porquê a possuo. Resolvi contar neste artigo. E, mais do que contar minha relação com essa camisa, é a oportunidade de recontar as histórias de Dondinho, pai do Pelé, como e onde o Rei do Futebol realmente iniciou sua carreira e do saudoso Bauru Atlético Clube, o carinhoso BAC.

Essa história começa em abril de 1989, quando mudo de Guaraçaí para Bauru. Eu já era jornalista, mas com apenas 19 anos queria me divertir. Aos domingos à noite havia uma Domingueira Dançante nas dependências do BAC. Com o meu já falecido tio Edson, pegávamos um ônibus até o centro da cidade e subíamos nove quarteirões a pé até o clube. De fato era muito animado, divertido, havia milhares de jovens. E quase sempre eu e meu tio tínhamos que descer os nove quarteirões correndo para não perder o último horário de ônibus para o nosso bairro. Era uma deliciosa aventura!

No início de julho uma nota intitulada “A noite do Adeus” publicada no Jornal da Cidade, anunciava o final das Brincadeiras Dançantes. Sem pretensão nenhuma, dias após escrevi uma crônica nesse mesmo jornal defendendo a continuidade das mesmas e sua importância para nós jovens. Ocorreram outras manifestações a favor. E para minha surpresa, recebi em minha residência uma carta-ofício do clube dizendo:

“Foi, também, em função do seu estímulo que resolvemos continuar. Queremos, inclusive, convidá-lo para a próxima DOMINGUEIRA. Você será nosso convidado especial e receberá a camisa 10 do BAC. Obrigado”. A carta era assinada por várias autoridades, entre elas o presidente do clube José Pedro Macéa, o saudoso Pedrão que depois foi um grande amigo.

Realmente foi uma noite muito agradável, animada pela banda Rádio Taxi. Na cerimonia recebi de presente do Bauru Atlético Clube, essa réplica da primeira CAMISA 10 usada pelo Pelé. Só depois fiquei sabendo que Isso era quase uma honraria que o BAC dava às pessoas de destaques e tenho tudo documentado em ofício e matérias de jornais da época.

 

PORQUE PELÉ FOI ESTREAR NO BAC DE BAURU

 

Dondinho, atacante do Bauru Atlético Clube que levou  seu filho Pelé para o clube

A ida de Pelé para Bauru está ligada a de seu pai, Dondinho (João Ramos do Nascimento – 1917-1996), atacante que nas décadas de 1940 e 1950 ganhou fama jogando no Bauru Atlético Clube. Em 1946, a equipe azul e branca se sagrou campeã do interior do estado paulista. A aptidão do atacante para o jogo aéreo lhe valeu o apelido de “O Maleável”, pela forma como se curvava para alcançar a bola.

Antes, porém, atuou apenas em um jogo entre Atlético Mineiro e São Cristóvão e marcou um gol em 7 de abril de 1940. Uma lesão no joelho nesse mesmo jogo impediu seu sucesso pelo Galo. Ele se lesionou após uma entrada do zagueiro Augusto da Costa, mais tarde jogador do Vasco da Gama e da Seleção Brasileira.

Pelo BAC, Dondinho atuou em 199 jogos, e marcou 137 gols. Ajudou o clube a conquistar sua maior glória: o de campeão do interior, em 1946. Foi no próprio BAC, em 1952, que Dondinho parou de jogar, aos 36 anos de idade.

Mas Dondinho trouxe de Minas Gerais nada menos que um rei. O menino Edson acompanhava o pai em todos os jogos e, claro, não demorou a arriscar os primeiros dribles. Pelo talento extraordinário, aos 13 anos, foi chamado para fazer parte da equipe juvenil, que reunia garotos até 17 anos.

Pelé e seu pai Dondinho moraram nas dependências do BAC, durante alguns anos. Vestiu sua camisa 10 pela primeira vez em 1954, não demorando a se destacar junto com seus companheiros. No campeonato da Liga Bauruense de Esportes daquele ano, a equipe disputou 33 partidas e marcou 148 gols, uma média de 4,5 por jogo, levantando a taça com seis rodadas de antecipação.

A carteira de Pelé, Edson Arantes do Nascimento, na Liga Bauruense de Esportes, Departamento de Futebol Juvenil, com validade até 31 de dezembro de 1956.

No ano seguinte, o clube contratou o ex-jogador Waldemar de Brito para realizar um trabalho, na tentativa de encontrar novos talentos. O treinador não demorou a ver o incrível dom do meio-campista e convenceu a família a deixá-lo ir para o Santos Futebol Clube na baixada santista.

Segundo o jornalista esportivo Juca Kfouri, em sua coluna de 17 de março de 2007, depois de Pelé, a camisa 10 passou a ser vestida pelo melhor jogador do time, tanto no Brasil quanto no exterior. No time do Santos e no do Cosmos de Nova York, ele utilizava esse número por ser o meia-esquerda. Em sua estreia na Seleção Brasileira, Pelé atuou com a camisa de número 9, a camisa de número 10 ele só começou a utilizar a partir do Mundial de 1958, cuja distribuição da numeração se deu de forma aleatória por um membro da FIFA, posto que, a delegação brasileira havia deixado de fornecer aos organizadores daquele mundial a numeração dos atletas.

A HISTÓRIA DO BAURU ATLÉTICO CLUBE

 

Importantes historiadores recontam uma trajetória de glórias no documentário “Bauru Atlético Clube Patrimônio Histórico de Bauru”. Conhecido como BAC ou Baquinho, entrou para a história do futebol brasileiro e mundial por ter sido o primeiro clube com departamento profissional onde Edson Arantes do Nascimento, Pelé, eleito pela FIFA e órgãos oficiais do esporte o maior jogador de todos os tempos, iniciou sua carreira.

Pelé já com a camisa 10 do BAC, embaixo, o terceiro da esquerda para a direita (Reprodução)

Com 13 participações no Campeonato Paulista de Futebol, o BAC foi fundado em 1 de maio de 1919, com o nome de Luzitana Futebol Clube, tendo como seu primeiro Presidente o benemérito Antônio Garcia, que foi o doador do terreno. Em comemoração ao cinquentenário da cidade de Bauru, 1 de agosto de 1946, mudou seu nome para Bauru Atlético Clube, BAC. Nesse ano foi Campeão Estadual Amador.

Durante décadas, o BAC, organizou shows com os maiores nomes da música brasileira. Nélson Gonçalves, Emilinha Borba, Agnado Rayol, Roberto Carlos, Jamelão entre outros. O Carnaval do BAC traz saudades pela sua movimentação e grandiosidade. As piscinas inauguradas no começo dos anos 1970 foram outro ponto marcante.

No final da década de 1990, o clube começou a perder os associados por diversas razões. Com o passar dos anos, contudo, o setor foi perdendo espaço para os prédios e condomínios com áreas de lazer próprio.

Em 2006, o Conselho do clube não teve outra solução a não ser vendê-lo. Com dívidas e um quadro de sócios reduzido, toda a área foi negociada com uma rede de supermercados de Marília. O estádio Lusitana, onde Dondinho, Pelé Gino Bacci e outros craques do futebol jogaram, foi demolido, assim como qualquer outra lembrança.

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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