A Contribuição Da Psicologia Social Na Formação Da Consciência Emancipada E Na Saúde Mental Do Cidadão

Publicado em 22/05/2010

Nascida da crítica ao modelo de Psicologia empírico e positivista, a Psicologia Social sempre buscou mostrar o homem como um ser político e concreto, sujeito dos grupos e das comunidades. Buscando junto com eles a promoção de mudanças, essa linha da psicologia volta-se à população e à nossa realidade, trabalhando direta e concretamente nas comunidades carentes no sentido de entender os problemas e promover a saúde mental, atuando muitas vezes em conjunto com outras ciências, como por exemplo, junto à Sociologia. Mantendo a sua meta de estudar as inter-relações sociais e seus atores no processo de sociabilização, ganha cada vez mais espaço. Também estudando o psiquismo humano, visa compreender como se processa a construção do mundo interno do homem a partir de suas relações sociais vivenciadas, Enquanto outras linhas de atuação do psicólogo trabalham com o sujeito de forma praticamente individual, por meio da Psicologia Social, podemos trabalhar em grupos, junto à sociedade, en loco dos sujeitos sociais, junto à realidade brasileira, muito além das palavras impressas nos manuais da psicologia. Não ser apenas o “conselheiro atrás de uma mesa de consultório”; mas sim, personagem direto na orientação de mudanças no seio social.

Ser um psicólogo social também pode significar a missão de despertar a consciência emancipada de muitos. Mas como despertá-la? Como mostrar aos homens que eles são produtos das relações sociais por eles mesmos estabelecidas? Entendemos que há duas formas de atuação: na pesquisa e/ou na intervenção direta.

Na pesquisa, atualmente temos uma linha de investigação ganhando cada vez mais espaço: a Psicologia Sócio-Histórica. Esta abordagem vem se apresentado como uma alternativa em Psicologia, pela possibilidade de analisar a dimensão subjetiva da realidade, de maneira que a realidade social se converte no ponto central de reflexão. Por meio desse referencial, fundamentado em uma concepção histórica do desenvolvimento do psiquismo, é possível caracterizar o comportamento nas suas dimensões humanas na sua inserção social. O homem é historicamente construído, agente e construtor da história e cultura em que vive, com as quais interage, dialeticamente. O fenômeno psicológico, em uma visão Sócio-Histórica, vai se desenvolvendo ao longo de tempo, conforme a condição social, econômica e cultural de cada um. Nega-se assim, a pré-existência de uma natureza humana; por meio de várias transformações qualitativas, onde cada uma gera condições para outras, surgem nossas capacidades através de um processo histórico, em uma conversão do social no individual. Há um relacionamento dialético entre o mundo psicológico e o mundo social, possibilitando-nos conhecer a expressão.

Sendo o fenômeno psicológico construído por meio de nossas interações social e material, nossa subjetividade é fruto das atividades humanas. E, nesse processo, a linguagem torna-se a mediação que permite a internalização da objetividade, permitindo-nos construir sentidos pessoais dessa subjetivideade.

Ela trabalha com duas formas de metodologias: as representações sociais e análises de conteúdo, em processo construtivo/interpretativo, colaborariam para a construção de conhecimentos compromissados com a transformação da realidade estudada, para além da mera explicação da mesma.

Já a intervenção direta, permite-nos a realizar pesquisas-ação ou pesquisas-participante. Envolver-se como membro de grupo, deixando, de certa forma, o status de psicólogo para ser também cidadão que acredita em mudança e tem o conhecimento e as técnicas para orientar de forma sucinta o grupo a buscar essa mudança. Realizar através da Psicologia Social Comunitária, projetos em conjunto, onde o grupo, ou parte dele, decida em conjunto o que precisa, ou o que deseja construir como projeto social. Ao psicólogo social cabe desenvolver projeto com o grupo e não desenvolver projeto para o grupo; orientar a convivência e tomada de decisões diretas de seus membros; distribuição e execução de papeis sociais e tarefas; permitir o nascimento, desenrolar natural do sentido de responsabilidade e envolvimento de cada um; facilitar para que tenham acesso às informações e lhes é de direito, inclusive com relação à construção de sua cidadania e de seus estados de direitos. Mostra-lhes que são seres históricos, personagens de uma história não estática, mas em constantes transformações; só que o homem, quando isolado, não faz história, precisando está em grupo para, unindo energias, possam gerar mudanças e, sua participação, não seja mera estada lá, mas sim, um personagem fundamental na busca de revolução. E assim, o processo de consciência emancipada desses membros ocorrerá naturalmente. O homem terá uma nova expressão de se relacionar com o mundo objeto. O saber das emoções, dos sentimentos e de seus desejos. Tendo a consciência de sua existência como cidadão, desenvolverá mudanças de atitudes, passará atuar sobre o mundo, transformando-o de acordo com as suas necessidades.

Oferecendo-lhes uma consciência de cidadãos, estaremos, enquanto psicólogos sociais, compreendendo que a saúde mental é mais do que uma simples questão psicológica; são também questões política, sociais e culturais, interessando a todos os que estão comprometidos com a vida e a boa formação educativa da nossa população…

Nas Representações Sociais, segundo Moscovici, há forma de conhecimento socialmente elaborado e compartilhado, construindo um conjunto social, por meio de um objeto prático. Como metodologia, usa-se entrevistas, questionários, observações, pesquisa documental e tratamento de textos escritos como coleta de dados. As RS focam núcleos estruturantes em suas análises, buscando conhecimentos das atividades psíquicas dos homens e sua realidade física e social em seu grupo, nas relações cotidianas de trocas, no poder da sua imaginação. Moscovici, também fala de ancoragem (o sistema pelo qual inserirmos o conhecimento em nossa mente) e a objetivação (quando já de posse desse conhecimento, passamos a classificar, nomear, rotular e, obviamente, representar a realidade a nossa volta). Por meio das RS podemos identificar o desenvolvimento individual (identidades pessoais e sociais) e o coletivo (expressão dos grupos e suas transformações sociais), em um duplo movimento e forma de interpretação e comunicação, mas igualmente, de produção e elaboração de conhecimento.

Falar de ideologia, é falar de algo de muitas definições e conceitos, principalmente por parte da sociologia, para quem trata-se de um sistema de ideias peculiar a determinado grupo social, condicionado quase sempre pela experiência e interesses desse grupo. Buscando uma conquista ou conservação de determinado status social, esse grupo muni-se de doutrinas políticas, econômicas ou filosóficas como funções de ideológicas. Ideologia, dentro da sociedade, pode estar em harmonia com valores da mesma, ou opor-se a eles. Pode ser uma ideologia do socialismo com suas muitas versões históricas; uma ideologia da livre empresa, discurso do capitalismo atual; uma ideologia da sociedade industrial, marcadas pelas variáveis dos momentos históricos que percorrem, no conjunto das concepções, ideias, representações, teorias, que se orientam para a estabilização ou legitimação ou ainda reprodução da ordem estabelecida.  Podemos também defini-la como conjunto daquelas formas de pensar, estilos de pensamento, pontos de vista que são vinculados aos interesses, às posições sociais de grupos ou classes. Em sentido estrito, uma forma conservadora que o termo pode tomar, em oposição à forma crítica, que ele chama de utopia, contrariando aos que defendem a ideologia como algo a serviço do poder. Embora a ideologia seja algo de sentidos amplos, hoje é algo esquecida, algo que falta no homem atual, caminhando de forma alienada, sem qualquer anseio ideológico. Mas acredito que essa característica individual atual, seja algo apenas transitório; historicamente, o homem é um ser social que sempre viveu em grupo como uma necessidade. A solidão não faz parte de nossa natureza. Um processo de reorganização grupal, onde passaremos a dar bom-dia ao nosso vizinho e conversar mais com nossos semelhantes, deverá surgir em breve. E com ele, teremos o resurgimento das ideologias.

 

Estimulação à participação social e política

 

Já que direitos e normas sociais existem em prol da pessoa portadora de deficiência como vimos nos dois artigos anteriores, chamo a atenção do que é preciso ser feito para eles serem efetivamente cumpridas. Acredito como sempre, na necessidade de se investir mais na informação específica nesta área. Precisamos criar caminhos para que essas leis cheguem ao conhecimento de todos os envolvidos nesta temática, e das demais autoridades competentes. Esse será o primeiro passo de cidadania.

Tão importante quanto trabalhar com a sociedade, será necessário também, realizarmos um trabalho com os próprios portadores de deficiência para que se conscientizem e se reunam em movimentos Associações, Centros e com a sociedade em geral, para brigar e fazer valer esses direitos. Criar novas associações, entidades e outros meios para tal, pois pegando uma carona na Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes, parágrafo 7º, “as pessoas deficientes têm direito à segurança econômica e social e a nível de vida decente e, de acordo com suas capacidades, a obter e manter um emprego ou desenvolver atividades úteis, produtivas e remuneradas e a participar dos sindicatos”. E, em outro documento, encontraremos: “As organizações e outras entidades em todos os níveis devem garantir às pessoas portadoras de deficiência participação nas atividades na medida mais ampla possível”(PAMl, Parágrafo 94). Acredito que só um movimento social, sem esperar que “algo caia do céu” e tendo a frente os próprios interessados, poderá trazer resultados positivos, pois aqui podemos citar um pensamento do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho: “O país somos nós. Não podemos ficar com essa coisa de que a salvação vem de cima, de que a salvação é o Estado”!

É o próprio Programa de Ação Mundial para Pessoas com Deficiência, o PAM, quem diz em seu Parágrafo 25, que “o princípio de igualdade de direitos entre pessoas com e sem deficiência significa que as necessidades de todo indivíduo são de igual importância, e que estas necessidades devem constituir a base do planejamento social, e todos os recursos devem ser empregados de forma a garantir uma oportunidade igual de participação a cada indivíduo. Todas as políticas referentes à deficiência devem assegurar o acesso das pessoas deficientes a todos os serviços da comunidade”.

Precisamos tomar a consciência que os problemas das pessoas portadoras de deficiência, são, quase sempre, os problemas de todos os envolvidos nesta área. Por isso, nasce a necessidade da união da classe, pois é errado incentivar um indivíduo a ir sozinho a busca de soluções para tais problemas, o que pode afetar, de uma certa forma, a convivência social. Ninguém vive sozinho e nem deve ignorar interesses comuns, principalmente para proteger seus interesses particulares. De forma geral, segundo Dallari (in: O que são direitos da pessoa), “cada indivíduo sofre influência da sociedade em que vive mas, ao mesmo tempo, exerce alguma influência sobre ela”. Com o deficiente não é, e nem pode ser diferente! “O simples fato de existir, ocupando um espaço, sendo visto ou ouvido, precisando vestir-se e consumir alimentos já é uma forma de influir. Por isso, todos os problemas relacionados à convivência social são problemas de coletividade e as soluções devem ser buscadas em conjunto, levando em conta os interesses de toda a sociedade”, refleti Dallari.

Existe ainda, a questão dos próprios portadores de deficiência terem a necessidade de tomar decisões. Essa é uma prática comum no dia-a-dia de qualquer pessoa; decisões são tomadas sobre todos os assuntos. Além dos assuntos corriqueiros, precisamos tomar decisões, desde a melhor forma de reabilitação, até em nosso movimento social, visando a integração. Muitos por motivo de comodismo ou pelo medo da responsabilidade de decidir, se calam. Dallari observa que “quase sempre essas pessoas procuram esconder o verdadeiro motivo, simulando desprendimento, dizendo que acatarão de boa vontade o que os outros decidirem”. Omitir-se, é uma fuga à responsabilidade, quase sempre, ligada à falta de consciência quanto à necessidade de vida social; perdendo assim, a oportunidade de participar de importantes decisões e preferindo deixar que outros decidem sozinhos assuntos que também trarão benefícios para si; permitindo ainda, que outros decidam em seu lugar, poderá acarretar grandes prejuízos e arrependimentos sem retrocesso. Isso precisa começar a ser evitado e combatido aqui nesta área.

Chega daquela época onde só os profissionais, técnicos e doutores decidiam o que era melhor para o deficiente e isso era acatado como verdade absoluta. É preciso – e essa é uma nova tendência mundial – dar voz ao deficiente, para que ele diga o que é melhor para si, ao seu tratamento e em sua vida pessoal. Aliás, é preciso haver diálogo e consenso entre ambas as partes, pois se todos reconhecerem essa necessidade e assumirem positivamente sua responsabilidade, os conflitos serão superados de modo mais justo e mais de acordo com as necessidades comuns, em benefício de cada indivíduo e de toda a sociedade. Além que, aqueles que denunciam uma injustiça está começando a destruí-la. Precisamos saber que não poderá haver nenhuma grande mudança na sociedade, sem antes haver mudança de consciência de cada um, “pois o indivíduo conscientizado não fica indiferente e não desanima perante os obstáculos. Para ele a participação é um compromisso de vida, exigida como um direito e procurada como uma necessidade”(Dallari). O deficiente precisa em primeiro lugar tomar consciência de suas situações e limitações, para depois saber, melhor do que ninguém, como e para que agir. A exemplo ilustrativo, termino minhas reflexões lembramos o filosofo Marcuse, quando ele dizia que “o primeiro passo para um escravo conquistar sua liberdade é ele tomar consciência que é um escravo”.

Acervo Inclusivo Emílio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Militante das questões referentes às pessoas com deficiência desde a década 1980, nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica como psicólogo e psicanalista, tendo cinco pós-graduações e dois doutorados. Como escritor tem uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de setenta títulos lançados, peças teatrais e roteiros audiovisuais.

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