Aula 20 – As Múltiplas Inteligências E De Um Aluno Com Deficiência

Esses dias estive pensando… Sempre usamos os padrões estabelecidos como metas a serem atingidas. Por exemplo, queremos que nossos filhos estudem como qualquer criança e atinjam uma faculdade e uma carreira de sucesso. Mas já pensou que há outras possibilidades de nossos filhos ou alunos atingirem sucesso e serem integrados numa sociedade produtiva?  Que eles, principalmente àquele com deficiência mais acentuada, podem desenvolver outras atividades?

É isto que vamos conversar neste capítulo. Vou apresentar as Múltiplas Inteligências e suas muitas possibilidades. Elas foram desenvolvidas por Howard Gardner, psicólogo da Universidade de Hervard que se baseou nestas pesquisas para questionar a tradicional visão da inteligência, defendendo que todos os indivíduos são capazes de uma atuação em pelo menos sete diferentes e, até certo ponto, independentes áreas intelectuais, descritas no seu livro “Estrutura da Mente: A teoria das Inteligências Múltiplas” (Porto Alegre, Artes Médicas, 1994). O interessante é que Gardner aponta que não existem habilidades gerais. Assim como eu, esse teórico duvida da possibilidade de se medir a inteligência por meio de testes de papel e lápis e dá grande importância a diferentes atuações valorizadas em culturas diversas.

Partindo desse ponto de vista, Gardner criou a Teoria das Múltiplas Inteligências como alternativa para o conceito de inteligência, que a entende como uma capacidade inata, geral e única que permite aos indivíduos uma performance, maior ou menor, em qualquer área de atuação. As habilidades humanas não são organizadas de forma horizontal. Gardner propõe que se pense nessas habilidades como organizadas verticalmente e que, em vez de haver uma faculdade mental geral como a memória, talvez existam formas independentes de percepção, memória e aprendizado em cada área ou domínio, tendo possíveis semelhanças entre as áreas, mas não necessariamente uma relação direta.

Nas Múltiplas Inteligências, segundo ele, os seres humanos dispõem de graus variados de cada uma das inteligências e maneiras diferentes com que elas se combinam e se organizam, utilizando-se dessas capacidades intelectuais para resolver problemas e criar produtos. Mesmo sendo essas inteligências até certo ponto independentes uma das outras, elas raramente funcionam isoladamente, mas, na maioria dos casos, as ocupações ilustram bem a necessidade de uma combinação de inteligências.

Estabelecidos os critérios acima, foram identificadas as seguintes inteligências:

Inteligência linguística: Uma sensibilidade para os sons, ritmos e significados das palavras, além de uma especial percepção das diferentes funções da linguagem. Habilidade para usar a linguagem para convencer, agradar, estimular ou transmitir ideias. No universo infantil, manifesta-se por meio da capacidade de contar histórias originais ou de relatar com precisão as experiências vividas.

Inteligência musical: Habilidade para apreciar, compor ou reproduzir uma peça musical. Inclui discriminação de sons, habilidade para perceber temas musicais, sensibilidade para ritmos, texturas e timbre e habilidade para produzir e/ou reproduzir música. A criança pequena com habilidade musical especial percebe desde cedo os diferentes sons no seu ambiente e, frequentemente, canta para si mesma.

Inteligência lógico-matemática: Uma sensibilidade para padrões, ordem e sistematização. Há habilidade para explorar relações, categorias e padrões por meio da manipulação de objetos ou símbolos. Há, também, experimentações de forma controlada, tendo-se habilidade para lidar com séries de raciocínios, reconhecendo e resolvendo problemas. É a inteligência característica de matemáticos e cientistas. Gardner, porém, explica que, embora o talento científico e o talento matemático possam estar presentes num mesmo indivíduo, os motivos que movem as ações dos cientistas e dos matemáticos não são os mesmos. Enquanto os matemáticos desejam criar um mundo abstrato consistente, os cientistas pretendem explicar a natureza. A criança com especial aptidão nesta inteligência demonstra facilidade para contar e fazer cálculos matemáticos e para criar notações práticas de seu raciocínio.

Inteligência espacial: Capacidade para perceber o mundo visual e espacial de forma precisa com habilidade para manipular formas ou objetos mentalmente e, a partir das percepções iniciais, criar tensão, equilíbrio e composição numa representação visual ou espacial. É a inteligência dos artistas plásticos, dos engenheiros e dos arquitetos. Em crianças pequenas, o potencial especial nessa inteligência é percebido pela habilidade com quebra-cabeças e outros jogos espaciais, atentando-se a detalhes visuais.

Inteligência cinestésica: Habilidade para resolver problemas ou criar produtos por meio do uso de parte ou de todo o corpo, usando a coordenação grossa ou fina em esportes, artes cênicas ou plásticas no controle dos movimentos do corpo e na manipulação de objetos com destreza. A criança especialmente dotada dessa inteligência move-se com graça e expressão a partir de estímulos musicais ou verbais, demonstrando uma grande habilidade atlética ou uma coordenação fina apurada.

Inteligência interpessoal: Habilidade para entender e responder adequadamente a humores, temperamentos, motivações e desejos de outras pessoas. A criança com essas habilidades é mais bem-apreciada na observação de psicoterapeutas, professores, políticos e vendedores bem-sucedidos. Na sua forma mais primitiva, a inteligência interpessoal manifesta-se em crianças pequenas como a habilidade para distinguir pessoas, e na sua forma mais avançada como a habilidade para perceber intenções e desejos de outras pessoas, reagindo apropriadamente a partir dessa percepção. Crianças especialmente dotadas demonstram muito cedo uma habilidade para liderar outras crianças, uma vez que são extremamente sensíveis às necessidades e sentimentos de outros.

Inteligência intrapessoal: É o correlativo interno da inteligência interpessoal, sendo a habilidade para ter acesso aos próprios sentimentos, sonhos e ideias, discriminando-os e lançando mão deles na solução de problemas pessoais. É o reconhecimento de habilidades, necessidades, desejos e inteligências próprias. Há capacidade para formular uma imagem precisa de si, usando habilidosamente para funcionar de forma efetiva. Como esta inteligência é a mais pessoal de todas, ela só é observável pelos sistemas simbólicos das outras inteligências, ou seja, por meio de manifestações linguísticas, musicais ou cinestésicas.

As Múltiplas Inteligências podem ser aplicadas na Educação Inclusiva e no rendimento educacional de uma criança com deficiência?

Sim, as implicações da teoria de Gardner para a educação são claras quando se analisa a importância dada às diversas formas de pensamento, aos estágios de desenvolvimento das várias inteligências e à relação existente entre estágios, aquisição de conhecimento e a cultura. Apresentam alternativas para algumas práticas educacionais atuais, oferecendo uma base para:

O desenvolvimento de avaliações que sejam adequadas às diversas habilidades humanas.

Uma educação centrada na criança com currículos específicos para cada área do saber.

Um ambiente educacional mais amplo e variado, o qual dependa menos do desenvolvimento exclusivo da linguagem e da lógica.

Com relação à educação de uma criança com deficiência dentro da escola regular, podemos focar, por exemplo, que uma criança que aprende a multiplicar facilmente não é necessariamente mais inteligente que uma criança que tenha habilidades mais fortes em outro tipo de inteligência. A criança que leva mais tempo para dominar uma multiplicação simples:

Pode aprender melhor a multiplicar por meio de uma abordagem diferente.

Pode ser excelente num campo fora da matemática.

Pode até está olhando e compreendendo o processo de multiplicação num profundo nível fundamentalmente. Fundamentalmente, uma compreensão mais profunda pode resultar em lentidão que parece e pode esconder uma inteligência matemática potencialmente maior que a de uma criança que rapidamente memoriza a tabuada, apesar de uma compreensão menos detalhada do processo de multiplicação.

Durante as atividades do dia a dia, é importante que se tire o maior proveito das habilidades individuais, auxiliando os estudantes a desenvolverem suas capacidades intelectuais. Aqui, quero conversar um pouco sobre um assunto que acho fundamental. O hábito que os pais, família e educadores devem criar de prestar atenção e valorizar pequenas conquistas na vida diária da criança com deficiência. Na vida diária, por exemplo, comer, vestir-se, tomar banho, sair de casa, dentre outras coisas, assim como fazer tudo isso sozinho é rotina na vida de qualquer um.

Contudo, para nós que temos uma deficiência, cada conquista e cada autonomia de fazer sozinho as coisas têm um valor e uma alegria imensos. Posso até contar uma passagem. Tenho recebido muitos convites para fazer palestras pelo Brasil. Minha família me leva ao aeroporto e me busca de lá, mas quando me sinto sozinho caminhando lá dentro, embarcando entre gentes desconhecidas, voando, desembarcando em lugares que nunca estive antes, rumo ao encontro de pessoas que nunca vi, isso me dá uma sensação de liberdade incrível, sinto-me cada vez mais confiante diante de minhas limitações. Isto também nas pequenas coisas.

Ao longo da minha reabilitação, algumas ações, tais como aprender a alimentar-me pelas minhas próprias mãos, a cuidar da minha higiene pessoal, a vestir-me, a me barbear com o barbeador elétrico, a sair sozinho para estudar e trabalhar, dentre outras coisas corriqueiras para quem não tem deficiência, sempre tiveram um valor muito grande para mim. Por isto recomendo em alto e bom som: ATENÇÃO E VALORIZAÇÃO ÀS PEQUENAS CONQUISTAS DE QUEM TEM UMA DEFICIÊNCIA!

Voltando ao que se refere à educação centrada na criança com deficiência, o parágrafo 4 (quatro) da Declaração de Salamanca diz que “uma pedagogia centrada na criança é beneficial a todos os estudantes e, consequentemente, à sociedade como um todo. A experiência tem demonstrado que tal pedagogia pode consideravelmente reduzir a taxa de desistência e repetência escolar (que são tão características de tantos sistemas educacionais) e, ao mesmo tempo, garantir índices médios mais altos de rendimento escolar. Uma pedagogia centrada na criança pode impedir o desperdício de recursos e o enfraquecimento de esperanças, que são frequentes consequências de uma instrução de baixa qualidade e de uma mentalidade educacional, a qual é baseada na ideia de que “um tamanho serve a todos”. Escolas centradas na criança são, além do mais, a base de treino para uma sociedade baseada no povo, que respeita tanto as diferenças quanto a dignidade de todos os seres humanos. Uma mudança de perspectiva social é imperativa. Por um tempo demasiadamente longo, os problemas das pessoas com deficiência têm sido compostos por uma sociedade que inabilita, que tem prestado mais atenção aos impedimentos do que aos potenciais de tais pessoas”.

E com relação a essa educação centrada, há dois pontos importantes que sugerem a necessidade de se focar na individualização:

O primeiro diz respeito ao fato de que, se os indivíduos têm perfis cognitivos tão diferentes uns dos outros, as escolas deveriam, em vez de oferecer uma educação padronizada, tentar garantir que cada um recebesse a educação que favorecesse o seu potencial individual.

O segundo ponto é igualmente importante: enquanto na Idade Média um indivíduo podia pretender tomar posse de todo o saber universal, hoje em dia essa tarefa é totalmente impossível, sendo mesmo bastante difícil o domínio de um só campo do saber.

Assim, se há a necessidade de limitar-se à ênfase e à variedade de conteúdos, que essa limitação seja da escolha de cada um, favorecendo o perfil intelectual individual.

Quanto ao ambiente educacional, embora as escolas declarem que preparam seus alunos para a vida fora da escola, a vida certamente não se limita apenas a raciocínios verbais e lógicos. As escolas precisam favorecer o conhecimento de diversas disciplinas básicas, as quais:

Encorajem seus alunos a utilizar esse conhecimento para resolver problemas e efetuar tarefas que estejam relacionadas com a vida na comunidade a que pertencem.

Favoreçam o desenvolvimento de combinações intelectuais individuais, a partir da avaliação regular do potencial de cada um.

A primeira implicação da teoria das Múltiplas Inteligências é que existem talentos diferenciados para cada atividade específica, o que aumenta em muito as possibilidades de sucesso em alguma área para o uma criança com deficiência!

Acervo Inclusivo Emílio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Militante das questões referentes às pessoas com deficiência desde a década 1980, nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica como psicólogo e psicanalista, tendo cinco pós-graduações e dois doutorados. Como escritor tem uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de setenta títulos lançados, peças teatrais e roteiros audiovisuais.