Caminhando Pelas Veredas Da Educação Inclusiva

NOTA: Terceiro capítulo do mais recente livro de memórias de Emílio Figueira, MEMÓRIAS DE UM BOM MALANDRO. Para baixa-lo gratuitamente clique aqui

TOMANDO CONSCIÊNCIA DE MINHA PRÓPRIA DEFICIÊNCIA

Eu seguia uma vida normal e inclusiva em Guaraçaí. Era um adolescente, escrevia textos e poesias para o jornal. Começava a me interessar por meninas nas noites guaraçaienses. Àquelas noites de sábado pareciam obedecer a uma rotina. Primeiro eu ia ao famoso bar da esquina bater papo e só depois para os bailes e brincadeiras dançantes.

Nesse bar comecei a me encontrar com um amigo anão conhecido por Zé Baixinho. Ele pela primeira vez, com mais de cinquenta anos, havia conhecido uma moça também anã que morava em uma cidade vizinha. Certa noite, ele comentou que notava em meus escritos o sofrimento oculto por uma moça que me “rejeitava”. De fato era meio verdade, embora eu fosse uma pessoa bem ativa profissionalmente e alegre, tinha um vazio sentimental. Começamos a falar abertamente sobre rejeições no campo sentimental com relação a nós, pessoas com deficiência. Mesmo nos lugares públicos, eu sentia uma tristeza, uma vontade de amar e ser amado. Naquele momento, certamente baseado em nossos sensos comuns, classificávamos aquilo como puro preconceito, maldade das moças. Eu me perguntava o por quê?

(Fazendo um parêntese, essa reposta comecei a encontrar recentemente, não vejo mais aquilo como se fosse uma rejeição ou preconceito. Tanto que essa moça hoje é uma amiga muito querida. Só estou relatando essas memórias porque foi um dos momentos de virada na minha vida, despertando a minha consciência e militância às questões das pessoas com deficiência.)

Zé Baixinho falava de muitas coisas sobre as questões que envolviam a nossa classe. Com ele se iniciou a minha real consciência do que era ter uma deficiência e suas consequências. Comecei a sentir a necessidade de fazer algo. Ainda não sabia, ou não era capaz de saber o que fazer. Zé me emprestava vários recortes de jornais e revistas sobre o assunto, os quais eu lia e xerocava. Sua intenção era redigir um documento pedindo ao Congresso Nacional alguma providência com relação a esses preconceitos. (Hoje vejo que era uma ingenuidade nossa pensar que isso poderia ser resolvido por força de projeto-lei!) Esses meus encontros e bate-papos com ele foram muitos. Até que o Baixinho se casou e parou de sair à noite. Fui repórter em seu casamento, uma festa muito linda que contou com a presença maciça da cidade. Anos mais tarde, escrevi uma extensa biográfia jornalística sobre ele e sua esposa.

Não marquei a data de início, mas foi em Guaraçaí, às oito horas da noite do dia 04 de junho de 1987, quando terminei de escrever o esboço do meu primeiro romance que refletia justamente toda aquela situação, angústias e anseios que eu vivia naquele momento. Seu título: “Quando o Verão Chegar”. Suas primeiras páginas foram à caneta, depois à máquina de escrever, na velha rotina de pôr e tirar papel, empurrar o carro ao final de cada linha, escrever embalado pelo som das teclas batendo na fita, imprimindo letras na folha. Hoje essas lembranças têm gosto de romantismo! E nesse clima, nasceu uma espécie do que hoje considero uma autobiografia ficcional de uma jovem estudante de piano e poetisa cuja mudança da cidade grande para um município pequeno do interior iria mudar sua vida. A rotina e monotonia de sempre; as noites rotineiras aos finais de semana; a escola e um pouco do campo. Uma obra, do jeito que gostava de contar estória, através de diálogos. E, pelo fato de ter sido ambientado nos anos 1980, hoje nos dá o gosto de um romance de época!!!

 

DESENVOLVENDO UM JORNALISMO ESPECIALIZADO

Meus primeiros textos sobre esse assunto foram publicados na Folha de Guaraçaí. Já morando em Bauru, entrei em uma campanha pelo transporte público gratuito às pessoas com deficiência escrevendo muitos artigos para os jornais locais. Escrevi usando àqueles xerox de jornais que ganhei do Zé Baixinho, mesmo com pouca experiência, um documentário jornalístico intitulado “O Mundo Deficiente – A Face Oculta De Uma Realidade!”, que enviei à várias editoras, mas não foi publicado.

Comecei a estudar sobre questões das pessoas com as mais variadas deficiências, a comprar muitos livros, a trocar correspondências e materiais com muitos pesquisadores e militantes políticos e sociais da área.

Tive a honra de conhecer pessoalmente muitas das pessoas que iniciaram o Movimento Político e Social da Pessoa Deficiente no Brasil, os chamados jurássicos. Hoje a maioria delas já mortas, mas que estão com muito carinho em memória. E quando vou ao Memorial da Inclusão e os vejo nos retratos, referencio-os em silêncio. Considero-me um descendente deles, como se eu fosse a segunda geração desse Movimento. E hoje vejo o pessoal da Inclusão como a terceira geração…

Entre eles destaco o antropólogo João Baptista Cintra Ribas, autor do livro “O que são pessoas deficientes”, da Coleção Primeiros Passos, editora Brasiliense, entre outros. Criamos uma amizade muito forte e ele foi o meu primeiro mentor nesse campo. Eu também queria publicar um livro nessa Coleção, mandei vários originais ao editor com o tema “O que são crianças deficientes”, mas não foram aprovados.

Em São Paulo existia a Revista Integração, primeira do país dedicada exclusivamente a esse segmento. Passei a ser colaborador e muitas vezes escrevia longas matérias exclusivas. Essa revista me projetou nacionalmente, permitindo-me ficar amigo de nomes importantes, como por exemplo, a psicóloga e professora da USP Lígia Assumpção Amaral. Troquei muitas correspondências com lideranças do Rio Grande do Sul e por conta de uma das minhas matérias registrando todo o movimento e conquistas das pessoas com deficiência gaúchas ganhei o meu primeiro prêmio de jornalismo, o Troféu A/Rampa.

Foi no Rio de Janeiro que nasceu nos anos 1980 a primeira publicação brasileira jornalística voltada exclusivamente às pessoas com deficiência. Era o jornal tabloide Desafio de Hoje, que mais tarde passou a ser um encarte do Jornal do Brasil. Eu além de assinante, passei a ser colaborador e ter textos publicados nele.

Nessa época fiquei amigo do Romeu Kassumi Sassaki, assistente social que trabalhava com a integração social dessas pessoas desde a década 1960. Ele traduzia e divulgava no Brasil as tendências mundiais. Romeu me deu materiais sobre as pessoas com deficiência na mídia. Comecei a estudar a fundo, apaixonado por essa temática. Escrevia vários artigos sobre a normatização de nossas imagens na mass mídia e na publicidade e distribuir esse material. Cheguei a desejar a criar uma disciplina intitulada “Deficiência e Comunicação Social” e procurei apoio para isso. Época que, paralelamente, li muitos livros técnicos de jornalismo e de sociologia, principalmente a obra completa do Herbet de Souza, o Betinho. Cheguei a desejar a prestar vestibular para ser um futuro sociólogo, mas esse curso não tinha em Bauru.

Comecei a entrar em contato com muitos editores de jornais e revisas, sugerindo pautas, dando dicas de como abordar essa temática. Algumas vezes, educadamente, apontava-lhes erros em notícias publicadas sobre pessoas com deficiência. Mais do que isso, eu mesmo escrevia várias matérias e voluntariamente enviava às redações, muitas foram publicadas. Ajudei a criar e editei para algumas entidades os seus informativos internos.

 

DE CENTRINHO À PSICOLOGIA

Os anos se encarregaram de me deixar mais conhecido em Bauru. Um amigo fundou uma empresa de comunicação e me convidou para ser o chefe-de-redação da Folha da Cidade, grupo que editava três jornais. Eu estava me sentindo realizado como jornalista. Esse jornal cresceu rapidamente e passou a ser o segundo mais lido na cidade. Isso incomodou os concorrentes e, pressionando o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, alegaram que por eu ter o chamado registro provisionado, não poderia exercer o cargo em uma cidade onde havia faculdade de jornalismo. Eu deveria ceder o lugar para um jornalista graduado. Pois, só que o presidente e vice-presidente do Sindicato que me cassaram, também eram jornalistas provisionados.

Nesse momento, em que parecia tudo perdido em minha vida, era Deus me preparando para um salto maior. Eu continuava minhas pesquisas sobre pessoas com deficiência. Em 1993, publiquei o livro “Vamos Conversar Sobre Crianças Deficientes“, pela Memnon Edições Científicas, que durante cinco anos foi adotado em cursos de psicologia e pedagogia. Essa editora tinha uma importante revista científica, a Temas em Desenvolvimento. Nela publiquei mais de vinte artigos em uma média de três anos.

Nessa época, conheci o computador. Achava que pela falta de coordenação motora eu jamais conseguiria digitar. Encontrei um professor que topou o desafio de me ensinar. Com um pouco de treino, refino na coordenação, achei o meu jeito de digitar com um só dedo e de dominar o controle do mouse. O computador mudou a minha vida, minha produção de trabalho radicalmente para melhor. Fiz vários cursos sequentes, inclusive de programação, pois minha paixão sempre foi o processo de criação.

Graças ao meu histórico e o livro da Mennon, fui convidado para pesquisar e escrever um livro sobre a história do Centrinho (o Hospital de Reabilitação de Anomalia Craniofaciais da USP/Bauru). Como bolsista, aumentei ainda mais minha paixão pela pesquisa, principalmente na área das deficiências. O que era para ser um contrato de só um ano, tornou-se sete anos de hospital, em que escrevi cinco monografias e publiquei trinta artigos científicos em revistas especializadas no Brasil e exterior. Foi lá no hospital que também que me especializei em “Deficiência e Comunicação Social”, depois em “Deficiência e Literatura” e, por último, em “literatura infantil”.

Diga-se de passagem que em 2014 todos os meus trabalhos sobre “Deficiência e Comunicação Social” e as histórias detalhadas da Revista Integração e do jornal Desafio de Hoje foram publicados no meu livro “Comunicação Social Inclusiva – as pessoas com deficiência no mundo dos jornais, revistas, rádio, televisão, internet”. E todo aquele acervo de livros e materiais que eu tinha formado sobre pessoas com deficiência achei por bem doá-lo ao Setor de Ensino e Pesquisa do Centrinho para deixá-lo à disposição de um número maior de pesquisadores.

Em meados daquela década o Romeu me apresentou pela primeira vez o conceito de Inclusão Social e Educação Inclusiva. Ao mesmo tempo em que me aprofundava no assunto, escrevi durante um ano uma coluna semanal tanto no portal Globo.com e às quartas-feiras no extinto Diário de Bauru.

Meu sonho de estudar mais falou mais alto. Cheguei à conclusão que precisava me preparar mais para novos desafios. Passei um ano estudando sozinho para o vestibular. Fiz minha inscrição para psicologia na UNESP de Bauru, declarei conforme estava escrito no edital ser uma pessoa com deficiência que precisaria do uso do computador para realizar as provas. Dois dias antes do vestibular fui comunicado que meu pedido foi negado. Recorri de imediato à Procuradoria Estadual da Pessoa com Deficiência e eles tiveram que preparar esse recurso. Só que no resultado final, minha classificação foi 980.

Foi mais um ano estudando sozinho, prestei UNIP, passei em primeiro lugar. Prestei na Universidade do Sagrado Coração – USC/Bauru, passei e optei por ela. Aos 33 anos, voltei a estudar como um novo desafio: chegar ao grau de cientista.

Meu pai, que morava em Bauru comigo, havia falecido recentemente. Eu morava do outro lado da cidade, precisava pegar um ônibus até o centro e outro até a universidade. No primeiro semestre tive dificuldade com as mensalidades, mas corri atrás e as irmãs que administravam a USC, deram-me uma bolsa de cem por cento, a qual sou imensamente grato até hoje. Meu curso era integral, teve semestre que eu ficava das sete da manhã há seis da tarde de segunda à sexta-feira e aos sábados até ao meio-dia. Levava lanche ou almoçava no restaurante de lá. Cansativo sim, mas estava feliz, realizando-me, fazendo grandes amizades entre meus colegas e professores. E a USC era um lugar lindo com imensos jardins bem cuidados. A única universidade pertencente ao Vaticano no Brasil.

No meio da faculdade, resolvi ir morar com minha mãe em São Paulo. Tentei a transferência para quatro faculdades e elas alegavam não estarem preparadas para receber um aluno com deficiência. E eu me questionava: qual a preparação que precisa, se a psicologia é um curso puramente intelectual? O mesmo conteúdo ministrado para todos seria ministrado para mim?

Um semestre depois, voltei para Bauru. Fui recebido de novo com alegria na USC. Quando ingressei no curso meu objetivo era me aprofundar na área da Psicologia da Arte. Só que pelo o que eu já havia estudado e produzido anteriormente, as disciplinas “Psicologia do Excepcional” me chamaram a atenção tanto pelo título retrógado, quanto um conteúdo ultrapassado. Então junto com meu orientador e amigo Rinaldo Correr, resolvi estudar as grades curriculares dessas disciplinas de várias faculdades de psicologia do país, o que rendeu o meu trabalho final de curso. No final de 2006, bacharelei-me em Psicologia. Ser psicólogo era um grande sonho.

Voltei definitivamente para São Paulo. Cursei um semestre de mestrado em Psicologia da Educação na PUC. Minha intenção era dar continuidade àquele meu estudo de bacharelado, propondo a atualização dessas disciplinas, inclusive trocar o nome para “Psicologia e Deficiência”. Mas tranquei por falta de bolsa.

Em seguida, fiz mestrado à distância em Inclusão Escolar pela FTC de Salvador/BA, com a monografia “A deficiência dialogando com a arte: Dos fatos históricos à inclusão escolar e social“, abordando o fazer artístico em três áreas interligadas: psicológica, inclusão escolar e mercado de trabalho. Publiquei vários artigos sobre isso no site da Rede Saci da USP, onde aliás, no início de anos 1990 conheci a socióloga Marta Gil, uma querida amiga até hoje.

Em seguida escrevi por seis meses uma coluna semanal sobre “Psicologia e Deficiência” no conceituado portal Planeta Educação. Como cientista, continuo pesquisando e escrevendo, passando de 90 artigos científicos publicados no Brasil e em oito países.

Durante um bom tempo continuei estudando e ajuntando material sobre Psicologia da Arte, principalmente sobre arte e loucura. Era fascinado pelo trabalho da Nise da Silveira, fundadora do Museu do Inconsciente e do psiquiatra Osório Cesar, que no início do século passado introduziu a arte como terapia no Hospital Manicômios Juquery. Osório publicou em 1924 a obra “A Arte dos Alienados” que procurei durante seis anos até encontrar um exemplar em um sebo. Em 2010, com a ajuda do meu cunhado, entrei no complexo do Juquery, queria senti aquele lugar de perto. Durante toda uma manhã de sábado andei por todas àquelas imensas ruinas, tentando imaginar todas as histórias ali vividas e que eu lera em livros da época. Tenho mais de duzentas fotos que tirei nesse dia.

Mas a vida é feita de escolhas. Em certo momento decidi que era momento que repassar aquela pesquisa para frente. Entreguei todo o meu material para um doutorando da USP. Dessa linha de pesquisa, cheguei a escrever e publicar três livros.

As pesquisas históricas sempre me fascinaram. Durante de mais de uma década desenvolvi um estudo que deu origem ao meu livro “Caminhando em silêncio – Uma introdução à trajetória da pessoa com deficiência no Brasil”. Publicado pela Giz Editorial em 2008, é a minha obra mais vendia até hoje e este ano ganhou uma terceiras atualizada e ampliada.

 

QUANDO “CAMINHEI SOZINHO” PELO AGRESTE PERNAMBUCANO

Em agosto de 2009, chegou à minha caixa de mensagem um e-mail me perguntando se eu tinha interesse em fazer uma palestra em Pernambuco. Dentre as explicações, dizia que seria um evento em uma cidade de nome Pesqueira, onde estariam cerca de quinhentos professores da rede municipal para conversamos sobre Inclusão Escolar. A mensagem enfatizava que sempre esses eventos são realizados em grandes cidades e capitais, sendo que a intenção daquele projeto era justamente retirar essa concentração em lugares de sempre e levá-lo para uma cidade de agreste. De cara achei essa ideia fabulosa, a possibilidade de levar para lugares longínquos informações e conhecimentos concentrados em grandes centros.

Aceitei sem medir as consequências. Só depois caí em si: “Meu Deus, aceitei ir à Pernambuco, quase do outro lado do país. Logo eu que não gosto de viajar para lugar nenhum. Um caseiro por opção!” Não era o mesmo do que ir ao shopping perto de casa. Era Pernambuco mesmo!!!

Os dias foram passando e na manhã do dia 16 de outubro embarquei no aeroporto de Guarulhos. Tive todo o apoio dos funcionários e das comissárias. Ali estava eu, pela primeira vez sozinho dentro de um avião, atravessando o meu país, rumo a uma terra onde nunca estivera antes.

Devido ao tráfico livre, o voo adiantou quase uma hora. Em terra firme, um funcionário da companhia me buscou dentro da aeronave, fomos à área do desembarque, colocou minha mala no carrinho e deixou-me empurrá-lo, até o lado de fora onde as pessoas esperavam os passageiros. Eu estava adiantado, ninguém ali com um papel escrito “Emílio Figueira”. Fiquei parado em um canto, pois em algum momento alguém viria me resgatar. Era realmente uma sensação diferente e ao mesmo tempo gratificante de liberdade e superação.

Estava observando a diversidade de pessoas que desembarcavam dos voos, quando uma moça se aproximou por traz, perguntando-me se eu era o Professor Emílio. Pronto! A partir daquele momento perdi a minha identidade de Emílio, pois todos só me tratavam como Professor, o que achei muito legal, sentia-me até importante.

(Diga-se de passagem, isso virou uma constante até hoje. Em todos os eventos, congressos, seminários que vou palestrar, sou tratado apenas pelos prefixos de Professor ou Doutor. Aliás, são as únicas ocasiões que me lembro que sou doutorado…)

Naquela noite dormi em Olinda. E na manhã seguinte partirmos rumo à Pesqueira. O nome do evento era Série Palestrando: “Inclusão Social – Respeitar primeiro, educar depois”. Achei esse título muito inteligente. Logo após o almoço o palco era meu. Foi a primeira vez que apresentei em uma palestra o filme que montei sobre a minha vida. Bingo! Fui muito aplaudido, a ideia do vídeo deu certo!

Em seguida projetando imagens, falei um pouco de meu teórico preferido, o psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky, sua visão positiva das deficiências que antes de ser vista como um impedimento, deve ser encarada como uma estimulação para que a pessoa se supere. Falei que quando você coloca uma criança com deficiência entre outras crianças com limitações, ela não terá estímulos para o seu desenvolvimento. Mas se você a coloca entre crianças sem deficiências, ela procurará copiar seus colegas e a querer fazer as mesmas coisas que as demais e terá o seu desenvolvimento naturalmente. Falei que existem dois tipos de deficiências: a deficiência primária (que é a limitação propriamente dita) e a deficiência secundária (as consequências de tudo que a pessoa não pode fazer em decorrência de primária), sendo o papel do professor focar o seu trabalho na ação de amenizar os efeitos dessa secundária, levando o aluno para uma superação e aprendizagem.

Durante as discussões uma pergunta me foi feita por escrito, pedia-me para falar um pouco de como foi o meu processo de inclusão escolar e meu relacionamento com os professores e colegas. Um filme voltou a minha memória da época que eu morei em Guaraçaí, a maneira natural que fui aceito no grupo escolar e que tenho o privilégio de há quase quarenta anos ainda ter a amizade e contatos com muitos dos professores em amigos dessa época. Então respondi que sempre acreditei que o processo de inclusão escolar e social tem muito mais chances de sucesso em cidades pequenas. Nesses lugares ainda encontramos algo fundamental no coração das pessoas: amor e capacidade de auxiliar e incluir a todos nos mesmos círculos de relações. Tudo é natural.

Era o que eu já tinha destacado na palestra. Outro ponto interessante que aprendi com Vygotsky e passo em frente é que quando há um aluno a ser incluído, um bom professor primeiro o recebe. Vão convivendo e se conhecendo uns aos outros – professor, aluno com deficiência e toda a classe. Assim irão adaptando-se e descobrindo as melhores formas de trabalho e atividades dentro da sala de aula, nas dependências da escola e da sociedade como um todo. Com isso, defendo a teoria que a Inclusão Social e Escolar pode ocorrer de forma natural, desde que ambas as partes estejam abertas e dispostas a isto.

Após a palestra passei por uma sessão de mais de uma hora tirando foto com todos. Recebi muito carinho. Porém tive uma surpresa ainda maior. Muitas professoras me contaram que nas faculdades de pedagogia daquela região, meus artigos científicos, livros, textos publicados na internet são muitos utilizados e discutidos. Houve uma professora emocionada que me contou que no ano anterior havia me utilizado como o teórico da monografia de conclusão de curso dela e nunca imaginaria que um dia ficaria frente a frente comigo.

Esse pessoal nem imagina o quanto foram importantes para me estimular a continuar pesquisando e publicando, principalmente na érea da Educação. Sai com meu ânimo renovado, a certeza que meu trabalho intelectual e solitário está sendo útil em lugares que realmente necessitam do conhecimento.

 

EDUCAÇÃO INCLUSIVA EM FOCO

 Em 2010 criei um curso online sobre Educação Inclusiva para a Unicead. Tornei-me tutor no sistema de educação a distância de várias disciplinas de pedagogia e psicologia em universidades no país. Um ano depois foi publicado o meu livro “O Que é Educação Inclusiva”, realizando finalmente o meu sonho de entrar para a Coleção Primeiros Passos da editora Brasiliense.

Continuava a escrever para vários blogs e sites. Até que, baseado em minha experiência de um jornalismo especializado, fundei o portal de notícias “Educação Inclusiva Em Foco” que cresceu muito e hoje esta incorporado ao meu blog principal.

Como tenho duas irmãs que trabalham como professora municipal começou a ser convidado para palestrar em escolas da rede. Em 2013 fui chamado para palestrar em uma formação de professores na Secretaria Municipal de Ensino de São Paulo. No dia conheci a pedagoga Deise Tomazin, uma referência em Educação Inclusiva, especialista em tecnologia assistiva. Conversamos rapidamente. Um ano depois a Deise me chamou para o mesmo curso de formação, porém para fazer duas palestras no mesmo dia. No intervalo estávamos papeando no café, cruzamos nossas histórias de vida e para minha felicidade, descobri que ela era exatamente a minha amiga de infância da época da AACD. Não nos separamos mais e até viajamos juntos para ministrar palestras.

Minhas palestras são bem interessantes. Começo sempre com um pequeno filme mostrando a minha trajetória. Depois projeto o conteúdo tendo um narrador para compensar minha dificuldade de dicção e por fim me dedico a responder as perguntas da plateia. E todos me compreendem. Convidado para palestras, tenho viajado por todo o país, sempre falando em escolas, universidades, instituições, seminários e congressos para muitas plateias de professores, pedagogos, psicólogos, profissionais em geral, público diverso, famílias e pessoas com deficiência. E aqui está um dos meus maiores pontos de superação. Essas viagens são feitas sozinho. Enfrento rodoviárias, aeroportos, preciso me comunicar com pessoas que não me conhecem, fico sozinho em hotéis, preciso me virar, principalmente nas refeições. São como aventuras, sempre rumo ao desconhecido, sentindo-me tão livre e independente!

Em 2014 eu criei o Centro De Apoio Aos Professores Com Alunos Inclusivos-CAPAI. Um projeto totalmente online. Dentro dele havia um curso de mais de cinquenta aulas escritas por mim e os participantes recebiam um certificado de 180 horas aulas impresso e reconhecido pelo MEC, emitido em parceria com a Unicead. O valor era acessível, mas houve pouco interesse dos professores e o curso foi desativado.

Paralelo ao CAPAI, criei um treinamento online para que os professores entenderem de maneira clara o que é Educação Inclusiva e como trabalhar com esses alunos – Conversando Sobre Educação Inclusiva. É um projeto totalmente gratuito, onde eu sozinho desenvolvi o conteúdo, o site, a sequência de e-mails que vai liberando aula a aula em uma linguagem simples e de fácil assimilação, nada acadêmica. E uma vez por semana eu mando e-mail a esses professores com dicas de materiais e fontes de estudos totalmente gratuitos.

Faço esse trabalho como se fosse um sacerdócio, não ganho nada em termos de remuneração financeira. A minha maior felicidade e recompensa é saber que já ajudei a formar mais de 22 mil professores no Brasil e exterior, sendo grande parte da região norte e nordeste.

E minha maior alegria e saber que essa minha missão realizada de maneira solitária daqui da minha mesa no meu quarto, na outra ponta está ajudando tantos e tantos alunos inclusivos, conforme os mais de dois mil comentários e relatos que eu já recebi e estão lá na página do curso.

Para manter esse curso no ar, transformei as aulas do CAPAI em um e-book intitulado “Educação Inclusiva – Teoria e Prática Pedagógicas” que é vendido por um valor simbólico diante do tamanho do conteúdo. Mesmo assim as vendas são mínimas. Além de eu receber inúmeros pedidos de doações com os mais diversos lamentos.

Após tantas palestras pelo país e mais de 22 mil alunos em meu curso, encontrei muita gente bacana, professores realmente comprometidos com a profissão, que amam o que fazem e vão a busca de crescerem, evoluírem cada vez mais. Só que, infelizmente, também encontro muita gente que só reclama, vitimizam-se por tudo, com uma mente ainda assistencialista, achando que só porque são professores, precisam ganhar tudo de mão beijada, que já fizeram muito em se formar em pedagogia. Graças a Deus que os bons e verdadeiros professores são a maioria!!!

 

UMA TEOLOGIA DA INCLUSÃO

 Continuei meu trabalho no campo psicológico que propus ao sair da faculdade. Publiquei uma coletânea de meus artigos no livro “Introdução à Psicologia e Pessoas com Deficiência – A construção de um novo relacionamento!”. Em seguida a editora Wak lançou uma importante obra minha: “Psicologia e Inclusão – Atuações psicológicas em pessoas com deficiência”. Por causa dela muitas revistas científicas têm me pedido para escrever artigos.

Um pouco acima eu comentei que nos anos 1990 fiquei amigo da professora e psicóloga Lígia Assumpção Amaral. Um fato triste é que perto de meu vestibular mandei um e-mail a ela dizendo que eu resolvera estudar Psicologia. Ela me respondeu toda feliz me dando as boas-vindas à área e uma semana depois, voltando de uma palestra, Lígia morreu em um acidente de carro no Rio Grande do Sul. E até hoje ela é minha inspiração no campo da ”Psicologia e Deficiência”.

Vez ou outra eu retomo as minhas pesquisas históricas. Sempre tive como base o trabalho do Otto Marques da Silva e sua obra referencial “A Epopeia Ignorada – A pessoa deficiente na história do mundo de ontem e de hoje”. Esse foi o primeiro livro sobre essa temática publicado no Brasil em 1987. Teve só uma edição e hoje é quase uma relíquia ainda muito procurada nos meios acadêmicos.

A Teologia foi o meu terceiro bacharelado. O campo teológico sempre me despertou fascínio, talvez pelo seu grande contexto histórico que explique muitos dos comportamentos humanos, independente de denominações religiosas. Dando prosseguimento nessa formação teológica, em 2014, defendi a minha segunda tese de doutorado, publicada em seguida no livro “Teologia Da Inclusão – A Trajetória Das Pessoas Com Deficiência Na História Do Cristianismo”.

Tendo como base uma revisão histórica, essa obra aborda a trajetória das pessoas com deficiência ao longo do Cristianismo. Inicia-se no Antigo Testamento, percorre o pré-Cristianismo, onde grandes personagens bíblicos, usados por Deus, de alguma forma estavam ligados com algum tipo de deficiência, ao mesmo tempo em que a deficiência era fortemente ligada com conceitos de pecados ou castigos. Conceitos que caem por terra no Novo Testamento, pois a vinda de Jesus ao mundo e sua opção pelos excluídos faz com que as pessoas com deficiência “ganhem” almas como cristãos. Por meio delas, Jesus realiza muitas obras. Isso nos faz acreditar com segurança que as pessoas com deficiência sempre foram canais de bênçãos entre Deus e a humanidade.

Eu acredito que dia que hoje, para se ter uma Teologia da Inclusão que abarca tanto os católicos como os protestantes (evangélicos), o primeiro passo será rever nossos próprios conceitos com relação às pessoas com deficiência, abandonando conceitos de coitadinhos, vítimas, a deficiência como consequência de castigos ou pecados. Abandonar a posição que nós cristãos sempre tivemos de assistencialistas para com essas pessoas, focá-las como totalmente capazes de ocupar ministérios e atividades nas comunidades religiosas – tanto católicas como protestantes –, trazendo-as para serem parte do Corpo de Cristo em total igualdade. Sobretudo, temos que cada vez mais identificar e eliminar do nosso meio os estigmas religiosos.

 

CONCLUSÕES DE UM OTIMISTA!

 Em maio de 2013, após 33 anos, voltei ao AACD-Santana, convidado para ministrar uma palestra. Interessante que na minha época, como contei acima, existia um muro interno que separava essa unidade do Colégio Buenos Aires, impedindo nós alunos com deficiência em ter contato com os demais. Vi nessa ocasião que esse muro não existia mais e estava tudo integrado. E minha palestra foi na sala de vídeo do colégio onde quando eu era menino não podia pisar. Acabei falando justamente sobre isso com a plateia, em sua grande maioria adolescentes.

Em dezembro do mesmo ano fui chamado para outro momento de emoção única. Nos anos 1970 participei como aluno na formatura da primeira turma da escola da AACD-Santana. Depois de quase cinco décadas, essa unidade foi desativada, sendo a formatura da última turma por eles estar sendo incluídos em escolas regulares.

Fazendo um parêntese, hoje em minhas aulas e palestras falo muito disso. Tenho 48 anos de estrada e sei que a Educação Inclusiva é totalmente possível desde que seja bem conduzida. Posso dizer que muita coisa já melhorou nesse sentido. Reconheço que a inclusão escolar ainda está com muitos pontos para serem melhorados, estudados e corrigidos. Mas no geral, sou bem otimista em dizer que estamos no caminho certo. Aliás, o Brasil tem a melhor legislação referente às pessoas com deficiência do mundo. Claro, ainda temos muito que melhorar e conquistar. Só que não aguento ouvir pessoas que dizem que nada mudou, os pessimistas de plantão! Melhorou sim, temos muitas coisas boas já para contar! Mesmo que, infelizmente, ainda há discriminação e barreiras atitudinais que me entristecem, não podemos recuar. A Educação Inclusiva é um movimento bem organizado e podemos ir corrigindo, mudando essas coisas, esses ajustes.

Precisamos de pais comprometidos a participar desse processo. Qualquer escola precisa estar preparada para receber alunos inclusivos, atentando-se às necessidades específicas de cada criança, terapias e acompanhamentos especializados, o desenvolvimento global de alunos incluídos como os aspectos psicológicos que precisam ser observados, valorização dos pontos positivos de uma deficiência, possibilidades de uma criança se desenvolver em outras áreas que não sejam impostas pelos padrões culturais. Ufa! Isso daria longos artigos…

Há a importância de uma parceira em tripé: Escola, Família e Sociedade! E reafirmo, para que o processo de inclusão escolar de uma criança com deficiência realmente dê certo, será fundamental a participação plena da família junto aos professores e todo o contexto escolar! É um processo pedagógico, mas se puder contar com a afetividade de todos os envolvidos, ajudará muito. Fundamental para o sucesso da Escola Inclusiva não será apenas jogar essa responsabilidade nas costas dos professores. Todas as demais pessoas, diretores, inspetores, atendentes, o pessoal da cantina, da limpeza, da manutenção, os demais alunos, as famílias e comunidade em geral estejam envolvidos no mesmo objetivo.

Professores com alunos em processo de inclusão, se necessário, deverão receber apoio e auxiliares na sala de aula. Esses educadores precisão receber treinamentos constantes. A escola poderá ter ou receber de tempos em tempos, a visita dos professores itinerantes e/ou outros especialistas no assunto para avaliar como anda o processo, passar instruções, tirar dúvidas, dar treinamentos. Enfim, o que quero dizer com tudo isso, é que o professor dentro de uma Sala de Aula Inclusiva é o personagem direto da Inclusão Escolar. Por trás dele, deverá estar todo um arsenal de apoio material e humano. O trabalho em equipe entre os profissionais de uma escola pode contribuir, e muito, para uma convivência harmoniosa, construída coletivamente, que certamente irá refletir na relação educador/educando e no processo de ensino e de aprendizagem.

Eu poderia falar muito mais, aliás, horas e horas sobre Educação Inclusiva. Na verdade ela e a minha história pessoal se fundem. Hoje escrevo muitas coisas sobre Educação Inclusiva, dou aulas e palestras sobre essa temática e, sem falsa modéstia, nas últimas quatro décadas assisti como todo esse processo foi construído.

Voltando ao início deste subcapítulo, eu estava lá em frente à plateia na formatura da última turma da AACD-Santana. Um filme passava pela minha cabeça. Nasci com uma deficiência motora, paralisia cerebral, que compromete a fala e movimentos. Muito cedo fui para a AACD numa época onde a reabilitação ainda estava no início no Brasil. E isto fez toda a diferença na minha vida. Graças ao tratamento e motivação que recebi, mesmo tendo muitas coisas contra como uma sociedade ainda segregadora, optei por estudar e pela Educação hoje sou o que sou.

Naquele momento para muitos o fechamento da unidade da AACD-Santana significava tristeza. Para mim que vivi essa história significava vitória ao ver que não só o muro havia caído, mas uma escola especial inteira, após cinco décadas de brilhantes contribuições educacionais, deixou de existir por seus alunos estarem sendo incluídos.

Eu estava ali, alguém que um dia foi incluído e agora somando minhas experiências pessoais com minhas atividades de pesquisador e professor que trabalha pela inclusão, sei que isto é totalmente possível. Deus me deu o privilégio de estar nesse momento histórico e discursar aos formandos e aos seus pais. Na verdade hoje eles vivem em uma sociedade muito melhor com consciência inclusiva diferente daquela mentalidade segregadora de quando iniciei a minha caminhada. Disse a eles que, assim como venci estudando, eles tinham todas as condições de vencerem. Basta colocar Deus à frente e irem à luta!!!

Depois de passar por todos esses anos de militância, agora entendo. Deus me enviou ao mundo com uma deficiência já escalado para pesquisar, produzir conhecimento e ajudar na transformação de vidas de tantas outras pessoas com as mais variadas deficiências.

Mas o que Deus não me contou é que eu iria de coadjuvante e espectador de tantas coisas positivas. De mudanças de mentalidades e atitudes. De ver crianças que hoje, mesmo com algum tipo de deficiência, estão começando a sua jornada neste mundo em uma realidade muito melhor do que aquela de quando comecei há cinco décadas.

Acervo Inclusivo Emílio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Militante das questões referentes às pessoas com deficiência desde a década 1980, nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica como psicólogo e psicanalista, tendo cinco pós-graduações e dois doutorados. Como escritor tem uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de setenta títulos lançados, peças teatrais e roteiros audiovisuais.