Um Maluco Em Seu Próprio Divã!

NOTA: Terceiro capítulo do mais recente livro de memórias de Emílio Figueira, MEMÓRIAS DE UM BOM MALANDRO. Para baixa-lo gratuitamente clique aqui

Depois de tudo o que contei até aqui, longe de mim querer ser um modelo para alguém seguir. Acredito que cada pessoa é capaz e deva construir a sua própria história. Mas vou lhe revelar um pouco das ações pessoais que me movem…

Quando eu adquiri paralisia cerebral durante o meu parto no final dos anos 1960, ficando com sérios danos na fala e na coordenação motora, para grande parte das pessoas que me conheciam e para minha família eu já estava com o meu destino traçado.

Ser dependente das outras pessoas, isolado dentro das instituições. Ainda mais naquela época onde nós, pessoas com deficiência, vivíamos totalmente excluídos. Só que tive o privilégio de participar nos anos 1980 dos movimentos políticos da nossa classe. Colocamos a cara na rua para mostrar que existíamos e a “brigar” pelo nosso espaço na sociedade. Vi nascer o conceito de Integração Social e anos depois o conceito de Inclusão Social e Escolar que se fortalece a cada dia.

Ao mesmo tempo fui alimentando este pensamento em minha vida:

Se eu não lutasse pelos meus objetivos de vida, ninguém iria lutar por mim!

E assim foi… Hoje muitas pessoas se espantam ao saberem que, mesmo com paralisia cerebral, tenho três graduações, cinco pós-graduações e dois doutorados.

Tenho mais de 70 livros editados, 98 artigos científicos publicados. E, enquanto jornalista, já publiquei mais de 500 textos. Grande parte voltados às questões humanitárias! E como tenho mania de arquivista, estão todos organizados e datados em pastas, guardados com muito orgulho.

Sou conferencista de pós-graduação, tenho vários cursos gratuitos online que monto sozinho e ofereço gratuitamente, atingindo já mais de 30 mil pessoas. Viajo sozinho todo o Brasil fazendo palestras.

Enquanto muitos se espantam, em minha cabeça vejo normal tudo o que fiz e faço. Minha carreira é marcada por diferentes projetos em diferentes épocas. Na verdade eu deixei de ter uma carreira longa em uma só atividade para realizar vários projetos profissionais. Uns mais longos, outros mais curtos. Porém, todos são vividos intensamente com paixão durante o período que estou envolvido neles. E essa caminhada sempre foi marcada por muitas horas de viradas, sendo eu um experimentalista.

Claro que já vivi muitos momentos de preconceitos, discriminatórios, os chamados bullying e muitos obstáculos sociais e atitudinais tive que superar. Marcaram-me só nos instantes que ocorreram. Nunca os deixei me abater por eles, pois sempre tive tantas coisas positivas para buscar, que aprendi a não perder o meu tempo com babacas. Sempre digo que o ofensor nos oferece o copo de veneno, a gente toma se quiser, pois a maior recompensa do ofensor e vê o ofendido sofrendo. E outro ditado que gosto é este: Não podemos evitar que os pássaros voem por cima de nossas cabeças, mas podemos evitar que façam ninhos em cima delas!

Minhas próprias dificuldades motoras muitas vezes exigiram mais de mim em termos de análises e estratégias de superação para chegar aos pontos desejados. Vejo-me como uma pessoa que um dia levantou-se e colocou-se a caminhar rumo aos seus objetivos. E essa caminhada será longa, pois ainda há muitos sonhos e objetivos em meu coração!!!

 

FAZENDO PIRRAÇA COM A VIDA!

 

Escrever memórias é um misto de emoções. Ao mesmo tempo em que revivemos àqueles momentos que estão sendo descritos, nós podemos reavaliar acontecimentos, conceitos e com vem sendo construída a nossa própria vida!

Não estou aqui fazendo uma autoanálise, mas esses fatos narrados são como se eu estivesse deitado no meu próprio divã de psicanalista.  E o que posso concluir de mim mesmo e dos mecanismos que me fazem caminhar?

Sempre fui movido pela curiosidade de aprender e apaixonado por processos de criações. Desde pequeno, quando eu via as pessoas fazerem coisas, por exemplo, minha bisavó e meus avós plantarem hortas, pedreiros construindo, marceneiros pegando madeira e transformando-as em objetos, meu pai consertando as coisas, aquilo me fascinava e eu queria imitá-los. Eu queria lidar com as ferramentas, embora minha coordenação motora muitas vezes não permitisse. Mas esse foi um hábito que levei para os meus ofícios na arte. Na escrita e na ciência.

Torna-se até uma questão de humildade a gente ter a consciência que nunca sabe tudo e está sempre aberto para aprender cada vez mais. E procuro sempre aprender tanto com as pessoas mais velhas, quanto com os jovens, uma geração que vem brotando com tantas ideias novas e geniais.

Se muitas coisas dão certo em minha vida, é porque muito mais coisas e tentativas também dão erradas. Ao longo de três décadas, sempre procurei desenvolver inúmeros projetos diferentes. Quando me apaixono por uma ideia, vou estudar sobre ela, comprar livros, ler artigos e assistir a tutorais e coloco aquilo em prática com vontade de ver o projeto nascer, desenvolver-se. Seja uma obra escrita, uma pintura, uma arte gráfica, um blog, um site, uma nova programação digital, um vídeo, enfim… Às vezes me entrego tanto que só quero estar ali concretizando aquele processo de criação.

O que imagino e desejo, eu vou lá e me arrisco sem ficar pesando os prós e os contras. Meus feitos e criações são repentes que me dão e vou lá e executo, mantendo uma harmonia entre o pensar e o agir. Mesmo no começo de uma tarefa eu já comemoro a possibilidade dela dar certo.

Nesse universo muitas coisas mesmo não foram para frente. Só que eu nunca as vi como fracasso e sim como acúmulo de experiência para corrigir erros e tentar novamente.

Lembro-me com muito carinho que a professora Silvana, no meu curso de psicologia, dizia que eu era um polímata. Isso não significava que eu era um homem das cavernas. Polímata vem do grego, significando “aquele que aprendeu muito”. Uma pessoa cujo conhecimento não está restrito a uma única área. Em termos menos formais, um polímata pode referir-se simplesmente a alguém que detém um grande conhecimento em diversos assuntos. Muitos dos cientistas antigos foram polímatas de acordo com os padrões atuais.

Quando alguém me pede algo que realmente não sou capaz de realizar, apresento alternativa para compensar aquela tarefa. Por exemplo, na época da faculdade quando os professores pediam alguma atividade que eu não iria conseguir fazer por conta de minha dificuldade motora, principalmente quando eram práticas de atendimentos clínicos, eu sugeria escrever um artigo científico sobre a temática para compensar a minha dificuldade. Eles concordavam, pois como estava fazendo só bacharelado em Psicologia e não formação clínica, seria mais um artigo científico produzido nas disciplinas deles. E aqui este “bom malandro” vai fazer uma revelação que principalmente o professor Mário Camargo vai puxar minha orelha. Muitas das vezes, eu até já tinha muitos textos prontos na gaveta, frutos de meus trabalhos anteriores como pesquisador no Hospital da USP\Bauru. Só os adaptava às temáticas das disciplinas.

Diante das dificuldades, nunca deixo de pedir ajuda quando necessito. Conheço muitas pessoas com deficiência que por orgulho, ou até mesmo para se auto afirmarem, não aceitam ajuda, chegando até mesmo serem ásperas. Mas eu não, nunca tive problema com isso. Às vezes nem estou realmente precisando de ajuda, mas a pessoa se oferece com tanto carinho e boa intensão de ajudar, que aceito num sorriso.

Diante de qualquer limitação que aparece por causa da minha deficiência, não exclamo que “não vou conseguir”, mas digo “eu vou tentar”! Um exemplo que às vezes nós mesmos nos autolimitamos, eu tinha um celular comum e temia mudar para um mais moderno e temia não conseguir usar por ser touch. No meu aniversário ganhei um smartphone da minha mãe e irmã para tentar. Em poucas horas eu já estava fazendo tudo nele, até digitando textos.  O celular hoje é meu computador de mão. O melhor caminho para vencer nossos medos é enfrentá-los!

Gosto de fazer “pirraça” para os meus pensamentos limitantes… Sempre que eles dizem que não sou capaz de fazer algo, vou lá e faço, mesmo que não seja exatamente como as demais pessoas, mas faço de meu jeito.

Sei que algumas coisas que faço ou escrevo apresentam erros. Só que para eu, o feito é melhor que o perfeito escondido em uma gaveta. Mais vale uma ideia mediana em prática que uma grande ideia só na mente. Aliás, digo brincando que se eu não errar de vez em quando, o revisor perde o emprego. O problema é que hoje a minha revisora é minha irmã formada em Letras. E irmã nunca recebe salário…

Sempre estarei em busca de resultados para ajudar as pessoas e não de reconhecimentos para o meu ego!

Digo que existem dois mundos, o IDEAL, sobre como gostaríamos que as coisas e as pessoas fossem e o mundo REAL, o verdadeiro a nossa volta, mas que muitas vezes fugimos dele, tentamos evitá-lo por não está de acordo aos nossos desejos.

Quem vive no mundo IDEAL gera muito sofrimento psíquico para si mesmo e sofre por expectativas não realizadas.

Quem vive no mundo REAL se descobre como ser humano, acha pontos de equilíbrios, aprende a lidar com suas frustrações e ansiedades, dentre outros fatores, descobrindo o quanto ele é muito mais fascinante em possibilidades e muito mais leve de se viver!

Hoje tenho este pensamento como uma filosofia de vida:

Se uma pessoa nasce ou adquire uma deficiência, tem alguma dificuldade ou desilusão ao longo da vida, isso será algo que ninguém pode mudar. Mas o importante mesmo, será o caminho que essa pessoa escolher. Ela pode se entregar e passar a vida se lamentando e se escondendo, ou reagir, buscando uma vida cheia de possibilidades!

 

Acervo Inclusivo Emílio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Militante das questões referentes às pessoas com deficiência desde a década 1980, nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica como psicólogo e psicanalista, tendo cinco pós-graduações e dois doutorados. Como escritor tem uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de setenta títulos lançados, peças teatrais e roteiros audiovisuais.