APRENDENDO COM MOLUSCOS (2014) – Emílio Figueira e Ivan Beteto

Sinopse – Comédia dramática para o mínimo de cinco atores, em três atos. Renato, jovem surfista de vinte e três anos, fotógrafo, desenvolve insuficiência renal crônica que culmina na obrigatoriedade de um transplante de rim. Sua mãe e sua namorada Fernandinha o apoiam incondicionalmente, no entanto, será por meio de Cláudia, sua meia irmã, com quem tem desavenças, que será possível haver uma esperança. O texto é uma apologia à doação de órgãos.
 
Personagens
RENATO – o surfista: extrovertido, bobo e brincalhão;
FERNANDINHA – a namorada de Renato: inteligente e exigente;
MÃE – a mãe de Renato: forte e amorosa;
CLÁUDIA – a irmã de Renato: temperamental e generosa;
MÉDICO – acompanha o caso de Renato: sério e arrogante;
SENHOR – pai que faz uma campanha solitária (pode ser o mesmo ator que o médico);
TRÊS PESSOAS DE MÁSCARA – Médico e auxiliares (podem ser os mesmos atores);
 
AÇÃO DRAMÁTICA
 
ATO 1
 CENA 1 – Apresentação
Abrem-se as cortinas. Palco escuro, RENATO caminha até o proscênio. Um foco de luz à pino sobre ele aumenta gradativamente enquanto fala. Renato está de shorts e sem camisa ou com alguma roupa própria para o surf.
RENATO: Meu nome é Renato. Significa aquele que renasceu, que nasceu outra vez.  E foi isso mesmo que aconteceu comigo. Talvez essa seja a primeira das coincidências se é que posso chamar assim. A segunda coincidência é que eu amo água, nasci feito um peixe como meu pai costumava dizer. Quando eu vi o mar pela primeira vez me apaixonei, queria ser como aqueles loucos que flutuam e entram dentro das ondas. Minha adolescência foi assim: surfando. A coincidência? Vocês vão ver… Algo que precisava acontecer, sabe? Como da primeira vez que vi Fernandinha. Ela estava em um lugar mais ou menos como esse.
Luz geral como o sol. Renato está segurando a sua prancha de surf ele sai do mar como se este estivesse no proscênio, chacoalhando seu cabelo molhado. FERNANDINHA está um pouco deitada, de óculos escuros e biquíni, em uma grande canga estendida, ao lado de uma bolsa de praia. Renato a vê e insiste em chacoalhar os cabelos respingando água sobre ela.
FERNADINHA: Vai quebrar o seu pescoço desse jeito.
RENATO: Falou a doutora.
FERNANDINHA: Doutora ainda não. Faltam alguns anos pra eu terminar fisioterapia.
RENATO: Desculpa aí. Não tava a fim de te molhar.
FERNANDINHA: Não esquenta não. Quem tá na chuva é para se molhar! Sou Fernanda.
RENATO: Fernanda? Pô! Seu nome é quase igual ao da minha irmã.
FERNANDINHA: Como ela se chama?
RENATO: Maria.
FERNANDINHA: E por que é quase igual?
RENATO: Bom… Seu nome não é Maria, mas também é cheia de graça!
FERNANDINHA: Engraçadinho. Sua irmã também surfa igual você ou prefere fazer piadas sem graça?
RENATO: Não, nenhum dos dois. Não falo com a Maria Cláudia. Deixa isso pra lá. Sou Renato, prazer.
FERNANDINHA: Prazer, Renato. Renato é nome de surfista mesmo.
RENATO: De surfista, de gente boa e bonita… Mas acho que gente bonita mesmo e inteligente tem o nome de Fernanda. Fernandinha.
FERNANDINHA: Renato tem nome de gente boa sim, mas também de gente com problema de vista, não é?
RENATO (risos): Pode crer. Talvez… Se o caso é que você sempre frequentou esta praia e eu nunca reparei.
FERNANDINHA: Faz o que dá vida além de surfar?
RENATO: Sou fotógrafo. Fotografo eventos, casamentos, batizados, partos, divórcios, velórios, óbitos, assassinatos, disco voador e o que vier, mas gosto é de fotografar o fundo do mar. Sou instrutor de mergulho também.
FERNANDINHA (risos): Interessante. Minha vida é mais monótona. Sabe o que é uma biblioteca? Brincadeira.
RENATO (risos): Já vi algumas, embora não saiba pra que serve. Zoeira. Não sou muito chegado em livros, dos livros eu gosto mesmo são das imagens. O meu mundo é o das sensações e daquilo que eu posso ver. Mas já li alguns… De fotografia é claro.
FERNANDINHA: Parece ser divertido ser fotógrafo.
RENATO: E é! Pelo menos quando não se é pego em condições constrangedoras… Como fotografar despedida de solteira em clube das mulheres!
FERNANDINHA (rindo): Imagino.
RENATO: Mas falando sério. Deve ser muito melhor estudar fisioterapia, mais útil, eu acho. Você vai fazer um bem pras pessoas.
FERNANDINHA: Sim, eu gosto disso.
RENATO: Acho que sou egoísta pra esse tipo de coisa.
FERNANDINHA: Que nada, cada um na sua praia.
RENATO: Meu negócio é água. Talvez tenha nascido pra isso, sei lá. (Pausa). Neste momento, por falar nisso, gostaria muito de uma água de coco. Topa?
FERNANDINHA: Topo…
Fernandinha se levanta e caminha mexendo em sua bolsa. Renato olha.
RENATO: Ei, eu pago! Estou te convidando.
FERNANDINHA: Se insiste… Cavalheiro.
Mexendo em sua bolsa, ela acha um papel e o lê em silêncio.
RENATO: O que foi?
FERNANDINHA: Engraçado, esses dias um senhorzinho me entregou esse papel, tá escrito: “aprenda com moluscos”! O que será isso?
RENATO (saindo com ela de cena): Sei lá, deve ser propaganda de algum restaurante de frutos do mar. Vamos?
FERNANDINHA: Vamos.
 
CENA 2 – A casa
Renato e sua MÃE em uma mesa de jantar.
RENATO: Mãe por que a senhora prepara tanta comida e não come quase nada? Come mãe! Um pedacinho a mais, outro a menos não te fará mal.
MÃE: Filho, graças a Deus eu nunca fui parar no hospital. Eu não suporto imaginar isso! Deus me livre! O médico falou e tá falado. Sou hipertensa, tenho um pé na diabetes e problema de coração na família. Essa carne vermelha é para você mesmo, pra você repor seu vigor, meu filho lindo!
RENATO: Nem tô com fome, tudo isso é só para mim?!
MÃE: Se sua irmã estivesse morando conosco…
RENATO: Mas ela não está! Deixa ela lá pro raio que o parta!
MÃE: Não fale assim da sua irmã!
RENATO: Falo e repito. Não preciso dela! Não preciso dela para nada. Desde que o pai morreu e ela decidiu nos deixar por uma porcaria de facudela de artes cênicas e namorar um tal de Gerson… Acabou! Ela não pensou nenhum pouco na senhora, sabe das dividas da gente e…
MÃE: Você não precisa substituir o seu pai e ela muito menos. Eu me viro! Você devia é cuidar da sua vida como ela faz.
RENATO: Mas eu cuido!
MÃE: Se cuidasse você estaria preocupado com o seu futuro fazendo uma faculdade e não ocupando o seu tempo e gastando o pouco dinheiro que tem com essa velha.
RENATO: Mãe, eu faço isso tudo por amor. Eu amo você, amo esse lugar, amo a vida! A vida tá do meu lado como às ondas, como esse mar que apesar de violento eu respeito. O futuro eu vivo hoje. Hoje a senhora precisa de mim e tô aqui. Agora a Cláudia vive com medo! Ela se esconde da vida, da morte de nosso pai, se esconde de todos nesse negócio de teatro.
MÃE: Chega, filho! Olhe para você. O que você fez além de surfar e pagar contas nestes cinco anos?
RENATO (com mal estar): Tá bem, mãe… Tô com náuseas.
MÃE: De novo com náuseas, filho?
RENATO: Tô cansado. Vou me deitar. Tenho um evento a noite, mais um batizado, eu como antes de ir.
MÃE: E a garota que conheceu?
RENATO: Tá às mil!
 
CENA 3 – O pedido de namoro
Renato e Fernandinha estão, frente a frente, em um belo restaurante à beira mar. A luz da lua é romântica e o clima é intimo e aconchegante.
FERNANDINHA: Renato, você me traz em lugar lindo como esse e nem toca na comida?
RENATO (encabulado): É que… Bom, eu não sei como funciona essa coisa.
FERNANDINHA: Funciona assim. Você pega o garfo, depois a faca, pode ser com a mão direita mesmo. Daí você espeta a carne, faz assim, e ai põe na boca e mastiga desse jeito e hummmmm…
RENATO (risos): Não tô falando disso não. É outro troço.
FERNANDINHA: Troço?
RENATO: Não a palavra não é troço… Tipo assim, eu quero falar desta situação aqui, eu e você, você e eu.
FERNANDINHA: Ai meu Deus! Você não tem dinheiro para pagar a conta?!
RENATO (risos): Não! Não é isso. Como é que falo disso…?
FERNANDINHA: Que tal falando? O extrovertido aqui é você.
RENATO: É que é assim… A gente tá ficando e tal, já faz quatro semanas… E eu tô acostumado só a ficar.
FERNANDINHA: Você não está gostando de mim?
RENATO: Não!
FERNANDINHA: Não está gostando?!
RENATO: Não, não é isso que eu quis dizer. Eu quero dizer ao contrário. Eu tô gostando muito de você.
FERNANDINHA (impaciente): Também tô gostando muito de você, Renato. Você é divertido.
RENATO: E eu tipo estou gostando MUITOOOOOOOOOO.
FERNANDINHA: Você já disse isso.
RENATO: Eu tô nervoso.
FERNANDINHA: Ei, não vai me bater não.
RENATO: Não, não isso. Tô nervoso de ansioso, manja? Mas que droga então é pra isso que servem os livros?!
FERNANDINHA: Os livros servem para quando se está ansioso?
RENATO: Não. Servem pra falar aquilo que a gente não quer dizer. Digo. Errei. Servem pra dizer aquilo que não dizemos a ninguém. (Pausa). Não, acho que não é isso… É… O contrário…
FERNANDINHA: E então, pra que servem?!
RENATO: Eles… Eles… Servem para dizer aquilo que já sabemos… Mas não sabemos dizer. É isso. Pra dizermos aquilo que não sabemos dizer.
FERNANDINHA: Ah… Entendi… (Pausa). Então use o que você aprendeu no mar. Não é tão difícil assim. É?
RENATO (fecha os olhos): Vou me concentrar.
Pausa.
FERNANDINHA: Eu tô esperando.
RENATO (ainda de olhos fechados): Você foi a onda mais perfeita que peguei, daquelas que a gente fecha os olhos e se imagina com ela, como se o tempo de um segundo valesse por toda uma vida.
FERNANDINHA: Mandou bem.
RENATO (abre os olhos, efusivo): Mandei?
FERNANDINHA: Mandou… Agora só falta eu saber o que quer dizer isso.
RENATO (encabulado): Como?
FERNANDINHA (risos): Tô brincando, seu bobão!
RENATO: Eu… Eu quero…
FERNANDINHA: Você quer…
RENATO: Eu quero… que você…
FERNANDINHA: Você quer que eu…
RENATO: Eu quero que você seja a minha namorada. Pronto. Falei.
FERNANDINHA: Mas que parto!
RENATO: Quero que você seja a minha namorada. E então?
FERNANDINHA: Mas é claro que não! Nunquinha! Never!
RENATO (consertando): Não? Olha, me desculpe, eu não queria…
FERNANDINHA: Eu tô brincando, Renato! É claro que eu quero ser a sua NA-MO-RA-DA! Você às vezes é bobo, sem graça, sem vergonha, mas é um lindo bobo! E se você permitir, eu vou fazer de você o bobo mais feliz deste mundo.
RENATO: Eu quero!
FERNANDINHA: Mas tem um “porém”.
RENATO: Um “porém”?
FERNANDINHA: Eu sou chata, exigente com horário, não tolero homem fraco, não suporto homem fedido, detesto palavrão e falta de cavalheirismo, e quero, exijo, que me obedeça em tudo que for para o seu bem!
RENATO: Caracas! Eu pedi em namoro uma oficial nazista!
FERNANDINHA: Se você topa tudo isso, aí sim eu namoro. E tem mais um detalhe.
RENATO: Mais um detalhe ainda?
FERNANDINHA: Amanhã mesmo você tem que comprar um anel de compromisso e hoje ainda você tem que conhecer meus pais.
RENATO: Cacete!
FERNANDINHA: O que você falou?!
RENATO: Eu disse A-CEI-TO.
FERNANDINHA: Ah, acho bom mesmo. Uma última coisa.
RENATO: Mais uma?!
FERNANDINHA: Me diz, sem delongas e sem gaguejar por que você quer namorar comigo?
RENATO: O que significa “delongas”?
FERNANDINHA: Sem demora, Renato!
RENATO: Por quê?
FERNANDINHA: Sim, por quê!
Pausa.
RENATO (falando baixo): Eu acho que amo você.
FERNANDINHA: Você o quê?
RENATO (gritando): Eu amo você! Eu quero um dia me casar, ter uma família e essa pessoa, por mais megera que seja, é você!
FERNANDINHA (falando baixo): O restaurante inteiro escutou.
RENATO: Agora saiu! Eu vou falar mais alto.
FERNANDINHA (constrangida): Não, Renato já está bom assim.
RENATO (gritando): Pessoal, está aqui em frente à mulher que eu amo! AMO! Alguém já amou assim? Não?! Então voltem a comer os seus petiscos!
FERNANDINHA: Eu também te amo, seu louco!

CENA 4 – CLÁUDIA faz uma visita
Renato está em seu quarto ouve a campainha da casa, mas continua ouvindo música, aparentemente com mal estar, com náusea e contraindo sua barriga. Murmurinhos de conversa podem ser ouvidos de seu quarto. Palco dividido entre a sala, onde estão mãe e CLÁUDIA e o quarto de Renato.
CLÁUDIA: Mãe! Que saudades! Me dê um abraço.
MÃE: Filha como estão as coisas?
CLÁUDIA: Muito bem! Tô em cartaz em São Paulo com uma peça do Nelson. Dei uma passadinha rápida aqui, mas tenho que voltar logo.
MÃE: Você precisa conversar com o seu irmão. Resolver essa briga de vocês…
CLÁUDIA: Mãe…?
MÃE: Renato! Renato! Estamos com visita, sua irmã está aqui! (Batendo à porta) Abre, sai um pouco desse quarto. Ficou aí quase o dia todo!
Renato caminha de um lado ao outro aparentemente angustiado mais com a dor do que com a visita. Ele desliga o rádio. A mãe insiste em bater e Renato senta-se na cama, depois se levanta ameaçando atender.
MÃE: Ele está estranho esses dias.
CLÁUDIA: Deixa, mãe. Ele não cheira e não fede pra mim.
MÃE: Não fala assim filha.
CLÁUDIA (irritada): Depois do que esse moleque me falou. Lembra?! Disse que eu não era a irmã dele?! Quero mesmo é que ele vá pro inferno.
RENATO (gritando atrás da porta): Vai você! Nunca vem aqui e quer chegar bancando a gostosa, tipo a filha pródiga?!
MÃE: Abre isso, Renato! Por mim!
Pausa. Renato vai a até a porta e após uma breve reflexão a abre. Entram mãe e Cláudia.
CLÁUDIA: Aí está o surfistinha!
RENATO: O que foi? Veio aqui pra quê? Pra me xingar? Não precisamos de você.
MÃE: Parem os dois! Vocês são irmãos!
CLÁUDIA: Eu vim visitar a MI-NHA mãe!
RENATO: Se o meu pai estivesse vivo, você ia ver…
CLÁUDIA: Eu ia ver o quê? Que ele não serviu pra ser meu pai, que só pensava em trair a mamãe, que eu só morava aqui pra proteger a mamãe dele?
MÃE (gritando): Cláudia! Pare com isso!
RENATO: Meu pai era um homem muito bom, o seu é que deixou a mãe grávida pra ela te criar sozinha! Meu pai a acolheu…
MÃE: Parem! Sentem os dois e fiquem quietos. (Os dois obedecem). Que família nós somos? Somos só nós três, esqueceram? É preciso que vocês resolvam as suas diferenças! Se um dia eu vier a faltar…
RENATO: Não fale assim mãe.
MÃE (nervosa): Falo sim! Se eu vier a faltar vocês só terão um ao outro. Vocês são da mesma carne! Foram criados com o mesmo amor. O que aconteceu?
Pausa longa.
CLÁUDIA: Eu tive que seguir o meu caminho…
RENATO: Você fugiu! Se escondeu com medo, não encarou a responsabilidade de cuidar da mãe.
CLÁUDIA: Você não sabe o que fala, seu moleque! Moleque mimado pelo seu papai. O que você sabe da vida? Nunca saiu desta cidade, vive surfando com um bando de vagabundos…
RENATO: Meus amigos não são vagabundos! E você é que nunca mereceu e nunca aceitou o amor que meu pai te deu.
CLÁUDIA (levantando-se): Já chega. Vou pegar a estrada de novo. Não tem diálogo.
MÃE: Filha… Fique, durma aqui. Passe aqui estes dias.
CLÁUDIA: Não. Eu vou. Não sou bem vinda.
RENATO (levantando-se, aparentando fraqueza): Não é bem vinda mesmo. E me dá licença mãe, que eu vou dar uma volta.
Cláudia pega sua bolsa e sai andando rápido, deixando cair um papel. Sua mãe pega, e lê em voz alta:
MÃE: “Aprenda com moluscos”, o que significa isto? (Olha para Renato, descartando o papel). Filho você está bem?
RENATO: Tô mãe. Tô.

CENA 5 – Ambiente de um bar
Ambiente de bar. Palco com meia luz. Música com o som abafado e confuso por inúmeras vozes, frases misturadas e desconexas a critério do diretor, provenientes da coxia. Renato se levanta da cadeira do bar aparentando essa confusão anterior a um desmaio, dá alguns passos exitosos aparentando grande mal estar e cai. Fernandinha vem ao seu encontro e o toma em seus braços.
FERNANDINHA: Ajuda! Chamem uma ambulância!
Sons de ambulância. A luz cai em resistência até o breu.
 
ATO 2
CENA 6 – A notícia para a mãe
Luz como em um corredor de hospital. Mãe, com roupas e cabelo desarrumado e MÉDICO de jaleco branco e calça preta.
MÃE: O que houve com meu filho?! Me ligaram de madrugada… O que tá havendo?!
MÉDICO: Calma, senhora. Agora ele está bem, está medicado, está sob cuidados e fora de risco de vida. O Renato, ao que tudo indica, está com retenção de líquido, talvez uma nefrite, que precisamos investigar melhor e avaliar. É cedo para dizer qualquer coisa. Ele tem ou teve alguma doença antes, algum sintoma que a senhora se lembre?
MÃE: Antes não… Não sei ao certo se é um sintoma, doutor. Ele tá meio inchado, não sei, embora ele venha se alimentando muito pouco, diz não ter apetite. Também se queixa de cansaço e náuseas… Mas ele vive em cima de uma prancha de surf, e quando não, está trabalhando em eventos.
MÉDICO: De fato, ele está com um quadro de anemia e introduzimos agora o sulfato terroso que se não funcionar…
MÃE: Anemia?! Mas como se não falta comida a mesa, principalmente, feijão e carne?!
MÉDICO: Existe alguma doença na família que a senhora gostaria de comentar?
MÃE: Bem… Eu sou hipertensa e também tenho diabetes. O pai dele tinha cistos nos rins… Mas…
MÉDICO: Senhora, eu não gostaria de me precipitar sem uns últimos exames e algum acompanhamento aqui no hospital, mas seu filho, o Renato, apresenta sintomas relacionados a uma insuficiência renal… Que pode ser crônica.
MÃE: Doutor…
MÉDICO: Volte pra casa. Descanse. Ele está sendo acompanhado. Tenho que ir.
Médico sai. Fernandinha aproxima-se da mãe.
MÃE: Oi, Fernanda. Obrigada por ter ligado. O que foi que aconteceu, como tá meu filho?
FERNANDINHA: Ele aparentemente tá bem, tá conversando. Mas vai ser preciso que ele fique aqui alguns dias em observação.
MÃE: A discussão que ele teve com a irmã… Não deve ter feito bem a ele. Meu filho… (Chora).
FERNANDINHA: Acalme-se, mãe.

CENA 7 – O leito de Renato
Em um quarto de hospital, claro e pouco aconchegante. Renato está deitado em um leito, usando uma camisola azul. Fernandinha em uma cadeira simples ao lado de sua cabeceira.
FERNANDINHA: Como você tá, meu amor?
RENATO: Confesso que preferia estar em Angra dos Reis ou Fernando de Noronha. Mas aqui até que é legal. Escuta. Por que você não me arruma um copinho d’água?
FERNANDINHA: Você tá com restrição de líquido, Renato. Não posso.
RENATO: Ah… Um copinho só não faz mal. Te dou dez conto.
FERNANDINHA: Faz sim. Chupa essa gaze molhada, é só isso que pode.
RENATO: Tá bom, mas me arruma uma gaze sabor de milho verde, coco ou de manga.
FERNANDINHA: De manga só for a manga da camiseta, bobo.
RENATO (risos): Pô! Não rola nem uma manga de um paletó ou uma blusa com um belo babado?
FERNANDINHA: Não, engraçadinho!
RENATO: Ah… Então me dá um beijo molhado.
FERNANDINHA: Isso pode, mas sua boca tá parecendo uma ameixa seca. Só um selinho, tá?
RENATO: Amor, minha barriga tá do tamanho de uma melancia. Olha só o barulho que faz quando eu bato.
FERNANDINHA: A melancia deve tá madura.
RENATO: O que é que tá havendo?
FERNADINHA: Isso é água… Você não disse que gostava de água?
RENATO: Gosto, mas nem tanto. Além disso, eu tô branco.
FERNANDINHA: Deve ser falta de sol. Não?
RENATO: Gozado. O médico disse que eu tenho hipertensão igual a minha mãe, mas meu problema são os rins. Quanta coisa junta. Daqui a pouco eu vou precisar é de um exorcista e não de um médico! Cuidado, já estou colocando aquelas coisas verde pra fora!
FERNANDINHA (risos): Em mim não! Dá licença.
RENATO: Acho que também consigo virar meu pescoço em trezentos e sessenta graus!
FERNANDINHA (risos): Para seu louco! Renato, só você mesmo consegue manter o seu bom humor aqui, nesta situação.
RENATO: Você ainda verá. Vou fazer uma festa e chamar todos os funcionários e os doentes deste hospital! Tipo um luau, na areia.
FERNANDINHA: Sei… E onde é que eu fico? Já vi você flertando com as enfermeiras, seu safado!
RENATO: Só fui simpático com elas. Eu com a barriga deste tamanho não posso parecer que tenho um rei na barriga. Não é? Aliás, por falar em barriga, acredita que já vieram duas pessoas aqui e me perguntaram qual é o sexo do bebê?
FERNANDINHA: Sei… E você?
RENATO: Eu disse que não sabia, mas se quisessem poderiam pegar no bracinho dele que já estava nascendo!
FERNANDINHA: Seu cafajeste! Esqueceu o que você me prometeu sobre palavrões?!
RENATO: Na verdade as enfermeiras é que vieram com um papo meio estranho.
FERNANDINHA: Papo estranho? Desembucha, vai!
RENATO: Desembucha? Pô não é isso que os médicos já estão tentando fazer?!
FERNANDINHA: Fala!
RENATO: Então, elas queriam saber do meu xixi, da cor, etc. Teve uma que até insistiu que eu devia ficar sem cueca e se precisasse iria colocar um negócio lá no meu…
FERNANDINHA: Renato!
RENATO: Aí eu falei. Pera aí! Eu tô doente e todo ferrado, mas o meu órgão do amor está pleno e forte!
FERNANDINHA: Seu tarado! Você vai apanhar…
RENATO: Calma! Eu disse a elas que o meu CO-RA-ÇÃO estava pleno e forte. E sabe por quê? (Pausa). Porque existe alguém que eu amo e se chama Fernandinha.
FERNANDINHA: Lindo. Também te amo e vamos sair dessa juntos.

CENA 8 – Período de diálise
Renato sentado uma poltrona próximo a uma máquina, ainda no hospital. Está com um cateter em seu pescoço. A mãe ao seu lado o apoia.
RENATO: Me deixa sozinho, por favor.
MÃE: Mãe tem que estar ao lado do filho.
RENATO: Eu quero ficar só. Não aguento mais a diálise! Cansei. Isso tem que acabar. Me furaram e trocaram de novo o cateter. Você acha legal estar com um cano pendurado no pescoço? Acha?! Eu tô morto já. É só aguardar.
MÃE: Você fique quieto e não blasfeme!
RENATO: Aquela cirurgia não era para resolver?
MÃE: Não filho, é o que chamam de fístula pra hemodiálise. Calma, você está sendo tratado.
RENATO: Tratado igual cobaia, a senhora quer dizer.
MÃE: Você está vivo, filho! Vivo! Graças a Deus que você tá aqui sendo acompanhado.
RENATO: Mãe… Eu faço diálise três vezes por semana com cinco horas cada, fico esse trapo o resto dia e você diz que eu tô vivo?
MÃE: Filho, enquanto seu coração bater, por mais irritado que ele esteja, você vai estar vivo. Enquanto eu puder chorar, eu vou estar aqui. Enquanto você precisar me xingar, enquanto você gritar, enquanto você tiver esses olhos em que vejo o garoto surfista e brincalhão… Eu sei… Eu sei que vale à pena. Vale à pena, filho. Lute. A gente vai chegar a uma solução.
RENATO: E se a única solução for…
MÃE (tapando a boca de Renato): Não fale. Os anjos de Deus nos escutam.
Pausa demorada.
MÃE: Eu trouxe uma coisa para você filho.
A mãe tira uma foto de seu casaco.
RENATO (sorriso): Eu me lembro deste dia. Foi o primeiro dia em que o pai me levou para surfar. Olha só! A prancha dá três vezes o meu tamanho. Lembro que naquele dia eu bebi tanta água salgada que achei que ele tava querendo me matar. Pai… Como você me faz falta.
MÃE: Mas ele tá aqui, com você, no seu coração. Acha que ele nos deixaria passar por esse vexame todo sozinhos? Não! Aquele velho lobo do mar, apesar de ser um traste, nos ama. Coloque um sorriso no seu rosto, filho. Não se abale! Não aprendeu nada com o velho sobre o mar?
RENATO: Vou tentar. Tomei um caldo, mas vou nadar de novo. Você vai você ver… A próxima onda é minha. (Soluço e mal estar). Agora me deixe só mãe. Eu tô realmente cansado… Chama a enfermeira.
MÃE: O que foi?
RENATO: Tô passando mal… Anda. Vou vomitar.

CENA 9 – A obrigatoriedade de um transplante
Mãe e médico no mesmo fatídico corredor.
MÃE: É triste ver um jovem de vinte três anos deste jeito! Não acredito que não seja possível alguma coisa.
MÉDICO: Pois bem, senhora. Nós estamos tentando diversas intervenções medicamentosas pra ver se a gente reverte o caso. Mas para um jovem como ele, com insuficiência renal crônica, tudo caminha apenas para uma solução possível: um transplante.
MÃE: Transplante?
MÉDICO: Sim.
MÃE (efusiva): Espere! Eu vi isto na tevê que é possível fazer um transplante em vida… Eu dôo um de meus rins para ele. Eu faço. Não tenho medo. O que quero é que ele tenha uma vida normal.
MÉDICO: Calma, minha senhora. Realmente é possível doar em vida órgãos como medula óssea, pâncreas, fígado, pulmão e rim… Mas em outros casos, como a senhora deve saber, é necessário que o doador esteja morto, que tenha sido diagnosticado com morte encefálica. (Pausa olhando-a). Bem… No caso em vida? A lei autoriza a doação em vida ao cônjuge e aos familiares até o quarto grau, como a senhora que é a mãe, sim. Se, por um acaso, alguma pessoa sem parentesco se habilitar é importante que saiba que somente por meio do crivo de uma comissão de ética formada pelos funcionários do hospital que será possível o processo seguir para uma análise judicial. De qualquer forma, uma avaliação clínica da compatibilidade imunológica e de eventuais riscos é obrigatória. Compreende? Então, no caso da senhora, considerando a sua idade maior de sessenta… Bem, não é tão simples assim.
MÃE: Fala!
MÉDICO: Temos que ser realistas, senhora. Há riscos envolvidos e temos opções… Enfim.
MÃE (em prantos): Eu não dou a mínima para a minha vida! Você acha que uma mãe pode conviver com a morte de um filho? Acha que eu tenho estrutura emocional pra isso? Acha que eu, eu que mal acabei de perder meu esposo sou capaz de…
MÉDICO: Senhora tente se acalmar. Faremos os exames e veremos o que é possível. Tudo bem?
O palco se escurece e apenas uma luz de foco sobre a mãe que se apaga após sua fala.
MÃE: O que é possível… Cansa me esperar só pelo que é possível.

CENA 10 – Renato, Fernandinha e mãe
Fernandinha e mãe em frente ao leito em que Renato repousa. A mãe apresenta um rosto cansado, de noites mal dormidas e esgotamento emocional.
MÃE: Está nas mãos de Deus… Fiz os exames para doar um rim a ele.
FERNANDINHA: Vamos, sogrinha. Te levo pra casa e faço uma sopa pra você comer. Precisa se alimentar e descansar também. De nada adianta passarmos o tempo todo no hospital.
MÃE: Mas se ele acordar? Quero estar aqui perto, pode precisar de mim. Tenho percebido ele um pouco confuso.
FERNANDINHA: Tem uma equipe aqui. Ele sempre vai precisar de nós duas… Mas este talvez não seja o melhor momento. Precisamos estar com boa saúde para ajudá-lo na recuperação. Não é verdade?
MÃE: Mas e se eu não puder doar?
FERNANDINHA: Vamos encontrar alguma solução.
MÃE: Você é um doce, percebi isso quando ele começou em falar de fazer uma faculdade. Como é que se chama mesmo?
FERNANDINHA (sorriso): Oceanografia.
MÃE: Isso. Oceanografia… Ele te ama e eu também amo você, filha.
FERNANDINHA: Obrigada. Ele vai sair desta… Esse safado não vai fugir a faculdade! Não fique triste deste jeito. Anime-se! Ele tá vivo e vai dar certo os exames. Vamos?
MÃE: Vamos… Espere. Acho que ele está sorrindo.
FERNANDINHA: Sim, deve estar tendo um sonho bom, na crista de alguma onda. Isso é um sinal para senhora ficar tranquila. Vamos?
MÃE: Vamos…
A luz cai, mãe e Fernandinha saem. Renato se levanta do leito e vai até o proscênio onde a luz se acende em foco.
RENATO: Mano do céu! Vocês não imaginam a vibe que eu tava tendo. Vocês acreditam neste troço de céu, inferno, essas coisas? Cara, eu realmente estava na crista de uma onda. Era desse tamanho assim, tipo uns quatro metros e meio. Coisa de louco! Só um detalhe, velho. Não era um mar comum não. Era tipo um mar vermelho, de sangue, coisa de filme de terror. Acho que esse troço de diálise mexeu com a minha cabeça. Só que tem uma coisa. Eu não cai não! Continuei pela onda, até dei uns noventa graus com a prancha e fui parar nas nuvens e lá estava o meu pai. O velho com aquela barba grisalha dava aquela risada que só faltava o dente de ouro na boca. Ele falou assim, do mesmo jeitinho quando era vivo. “Filho tenha juízo! Um dia tu vai ver que onda só serve pra encher a barriga de água.” Aí ele completou. “Olha só, a véia tá triste por você, mas sua menina tá do lado. Levanta logo dessa cama, não seja frouxo não. E ó, faz às pazes com tua irmã. Ela é sangue do seu sangue. Tem o mesmo sangue que você. A única diferença é que ela usa saia e tem uma periquita!” E o velho desandou a rir. Imagina só, a alma de um velho falando periquita?! E não é que ele tinha razão quanto a esse negócio de sangue.

CENA 11 – A oração
Casa de Renato. A campainha toca insistentemente. A mãe está ajoelhada orando. Quando um ranger de porta anuncia que alguém está vindo. É Cláudia, de óculos escuros, que entra ansiosa.
CLÁUDIA: Mãe, o que está acontecendo? A senhora não atende mais o telefone não?! Estou te ligando faz dias. Cheguei faz meia hora e tô tocando a campainha e a senhora não me recebeu. Daí eu vi que a porta estava aberta. A porta aberta, mãe?! O que houve? Não se dá nem mesmo o trabalho de trancar a porta? Ainda está assim, de pijamas, com o cabelo sem pintar… O que houve? Cadê aquele moleque do Renato?!
MÃE (apática): Eu estava orando, filha.
CLÁUDIA (retirando seus óculos): Orando?
MÃE: Passam-se os dias e esquecemos que é preciso orar. Então, quando a dificuldade chega…
CLÁUDIA: Dificuldade? O que foi? Não está conseguindo vender os doces, não tem conseguido pagar as contas com a pensão?
MÃE: Não… Pra dinheiro sempre se dá um jeito.
CLÁUDIA: Estou preocupada. Fala! É o Renato?! Aquele moleque tá se drogando, é isso? Ele tem maltratado a senhora? Saiu de casa? Fala, pô!
MÃE: O Renato está na UTI.
CLÁUDIA: Na UTI?! Por quê? Ele se machucou surfando? Fala logo, mãe!
MÃE: Os rins do Renato não funcionam mais, Cláudia.
CLÁUDIA: Os rins?
MÃE: Está fazendo hemodiálise, mas… Mas… Não estão conseguindo… Ele pode…
CLÁUDIA: Mãe…
MÃE (chorando): Ontem mesmo fui visitá-lo e ele não dizia coisa com coisa. O doutor disse que o sangue dele está com muitas toxinas que… Isso afeta o cérebro.
CLÁUDIA: Calma, mãe. Senta aqui. Vamos conversar. Quando começou isso?
MÃE: Não sei, filha… Ele foi se sentindo mal, foi rápido. Inchou. E você filha, por que veio? Não estava em cartaz em São Paulo?
Pausa.
CLÁUDIA: Eu vim porque eu tenho uma mãe. Desconfiei de estar acontecendo algo, a senhora não atendia meus telefonemas.
MÃE (abraçando-a): Filha…
CLÁUDIA: Mãe… O que eu posso fazer pela senhora?
MÃE: Ore comigo, filha. Você ainda se lembra?
Cláudia gesticula a cabeça em afirmativo. Mãe e Cláudia se ajoelham juntas de costas para o público, juntam suas mãos e oram. Luz cai em resistência e Renato surge para ir ao proscênio em um foco.
RENATO: Olha aí! Eu mesmo de periquita! Essa minha irmã, eu vou te contar. Sabe por que ela chegou à minha casa sem malas? Não? Porque ela já é uma mala! Vou falar o que de minha irmã? Não tolerava as meninas que eu ficava, não tolerava que eu fosse surfista, não tolerava que eu fosse fotografo, detestava meus amigos chamando todos eles de maconheiros, o que não eram. Acha? Agora porque é surfista é vagabundo e maconheiro?! Mas sabe muita gente tem preconceito com que quem pratica o esporte, se esquece que tem um monte de gente fina por aí, cheia da grana, tipo empresário e político, que fica aí fazendo coisas escondidas nos banheiros, ou pior, coisas escondidas com o dinheiro dos outros. Mas isto é outro assunto! É só um desabafo. Acha que não escutei no hospital comentários do gênero por parte dos funcionários? Tipo: “Ele deve ter estragado os seus rins! Não cuidou da saúde”. Essas coisas de saúde acontecem. Se você quer ajudar, ajude. Não julgue. Eu aprendi isso! Já ouviram falar em doença congênita? Vai ver que foi coincidência… E tem mais uma. Vocês acreditem ou não, eu vi essa mesma cena das duas orando em um sonho que eu tive anos atrás. É possível tanta coincidência junta?

CENA 12 – O médico e a agressão
Mãe e médico no mesmo fatídico corredor.
MÃE: Como assim não posso doar?!
MÉDICO: Os exames mostraram que a senhora não pode doar porque pode morrer! É difícil a senhora compreender?!
MÃE: Mas então que eu morra!
MÉDICO: Olha, senhora. Seu filho não é o único nessa situação.  Me perdoe, não quero comparar, mas hoje no Brasil temos cerca de setenta mil pessoas no país esperando por um órgão!
MÃE (gesticulando negativamente): Lista, lista… Como funciona isso?
MÉDICO: A lista segue uma ordem cronológica e em alguns casos, como o de fígado, existe até uma classificação por gravidade da doença. Hoje, pelo novo regulamento do Sistema Nacional de Transplantes, os menores de 18 anos ganharam prioridade.
MÃE: Meu filho tem 23 anos! Mas quais são as chances de chegar à vez de meu filho nessa fila, doutor? Fala!
MÉDICO: Só o tempo dirá, minha senhora. No caso de o primeiro da fila ser incompatível com o doador, a prioridade passa para o segundo, e assim sucessivamente. É a regra… Mas acredite, dependendo do órgão e do estado onde está o receptor, a espera pode durar mais de três anos, nem de longe ele esperará por isso aqui. Um ano, dois anos quem sabe.
MÃE: Mas neste país morrem milhares de pessoas todos os dias. Por que essa tal de fila não anda logo?
MÉDICO: Realmente, se tivéssemos muito mais doadores, essa fila poderia acabar até em um ano. Mas ainda há muitos  tabus e falta de informações em torno desse  assunto. Para que os órgãos de uma pessoa falecida sejam doados, é preciso que a família autorize a doação. Por isso, é importante deixar claro aos familiares o desejo de se tornar um doador, embora não seja necessário deixar nada por escrito. A decisão da família pode ser dada aos médicos, ao hospital ou à Central de Transplante mais próxima.
MÃE: Tá vendo, eu que deveria doar para o meu filho. Que se dane se eu morrer…
MÉDICO: Minha senhora, eu tenho muitos pacientes aguardando o meu atendimento. Não quero discutir a respeito dos protocolos médicos. Passar bem.
MÃE: Passar bem?! Seu desgraçado!
MÉDICO: Me ofender não vai resolver o caso. Estamos fazendo o possível. Já o incluímos no cadastro para que entre da fila de espera para receber um órgão de um cadáver. É só isso que pode ser feito. Compreende? Tem que aguardar!
MÃE: Cadáver, cadáver…
MÉDICO: Minha senhora, não é por apenas problemas de saúde seu que não podemos realizar o transplante! É também por uma questão de tipagem sanguínea. Acha fácil? Acha que é só abrir e colocar?! Não! Além do que, uma vez que ele receba o transplante irá precisar tomar medicamentos contra a rejeição do órgão a vida toda, isso se o corpo aceitar, isso se ele sobreviver à cirurgia!
Mãe dá um tapa no rosto do médico.
MÃE: Me desculpe, doutor. Mas o senhor tem filhos? Não? Quando tiver vai saber o que significa este tapa. Vai ver que este tapa não está escrito nestes seus livros de medicina, mas deveria estar.
Mãe se encaminha para sair pela coxia. Pausa. Médico paralisado passa a mão em seu próprio rosto.
MÉDICO: Olha aqui, minha senhora! Considere meu abandono do caso, ouviu?! Não está mais em minhas mãos! Passar bem!
Médico também sai. Luz se apaga.

ATO 3
CENA 13 – Na recepção do Hospital
Na recepção do hospital. Cláudia utilizando seu celular, impaciente, desmarca compromissos de trabalho. Um senhor com vários papeizinhos na mão passa e lhe entrega um indo embora. Fernandinha, indiscreta, verifica a etiqueta de identificação de visita que Cláudia possui colada na blusa. Cláudia, incomodada com isso, desliga o celular. Olha o papel.
CLÁUDIA (pensa alto): De novo isso. Esses dias foi no aeroporto, agora aqui o mesmo senhor me entrega esse papel escrito, “aprenda com moluscos”!
FERNANDINHA (aproximando-se): Um dia eu também já recebi um papel desse na praia…
CLÁUDIA: Ei, senhor! Senhor! Você dos papeizinhos.
O homem retorna.
SENHOR: Pois não?
CLÁUDIA: O que significa isso? “Aprenda com moluscos”? Você é dono de restaurante? Vende frutos do mar?
SENHOR: Me desculpe, moça. Sou um homem muito simples, um pescador.
CLÁUDIA: Se não explicar nada no verso ninguém entende e corre jogar essa porcaria no chão. Quer ver as ruas sujas com isso? Acha que o hospital é o melhor lugar pra fazer propaganda? O que significa isso?
SENHOR: Eu… Eu perdi minha filha. (Se emocionando). Ela não recebeu um coração a tempo na fila de espera de doação. Isso é só uma campanha de doe órgãos.
CLÁUDIA (encabulada): Eu… Eu sinto muito.
FERNANDINHA: Mas… O que significa “aprenda com moluscos”?
SENHOR: Existe um caracol no fundo do mar que quando morre deixa a sua concha para que outro que não tem possa sobreviver. Se todos nós deixássemos um órgão que não fossemos mais precisar para outro, quando a gente morrer, não ia faltar órgãos. Precisamos aprender com os moluscos.
O homem sai timidamente. Cláudia guarda o papel, pensativa.
FERNANDINHA: Oi. Tudo bem?
Pausa longa.
CLÁUDIA (voltando a si): Tudo. Eu te conheço?
FERNANDINHA: Não. Deixe eu me apresentar. Meu nome é Fernanda, eu sou a namorada do Renato. Você deve ser a Cláudia.
CLÁUDIA: Sim… Minha mãe comentou sobre você. Obrigada por estar do lado dele e apoiando a minha mãe. Olha… Me desculpe a grosseria no telefone. Minha mãe explicou tudo, achei que fosse uma daquelas garotas que ficavam ligando e perguntando dele.
FERNANDINHA: O Renato é muito importante para mim.
CLÁUDIA: Você deve saber que a gente não se dava. Na verdade eu não sou flor que se cheire. Sou bruta mesmo. Ingrata! Larguei tudo pra ficar com um cara, entrar numa trupe e fazer artes cênicas.
FERNANDINHA: Não fale assim, cada um tem o seu jeito… Cada um tem o seu jeito de lidar com a dor.
CLÁUDIA (sorriso): É verdade. Me contaram que ele ficava fazendo piadas no hospital. Ele sempre foi um palhaço! Mas… Me conte sobre com ele está, ainda não consegui falar com o maldito médico.
FERNANDINHA: Então sua mãe não te contou?
CLÁUDIA: Não me contou o quê?
FERNANDINHA: Eu não sei se deveria falar disso, se ela não quis comentar…
CLÁUDIA: Fala! Não tenho paciência com segredinhos, garota.
FERNANDINHA: Ele precisa de um transplante de rins se quiser voltar a ter uma chance de ter uma vida normal.
CLÁUDIA: Mamãe! Mamãe! Essa velha sempre me escondendo tudo! Desde quando chegaram a essa conclusão que não me procuraram?!
FERNANDINHA: Faz algum tempo. Na verdade, sua mãe fez alguns exames para ver se podia transplantar um de seus rins a ele, mas ela foi terminantemente proibida por condições médicas e compatibilidade. Eu pensei que eu poderia doar um de meus rins, já vi coisa desse tipo na tevê…
CLÁUDIA: Você não tem que doar nada pra ele e muito menos a mamãe! Pára tudo!
FERNANDINHA: Ele talvez não consiga… A menos que na lista de espera…
CLÁUDIA: Já falou demais, garota! Onde está esse tal doutorzinho?!
FERNANDINHA: Segundo a enfermeira chefe falou ele está em reunião.
CLÁUDIA: Reunião?! Eu vou falar com esse cara.
FERNANDINHA: Calma, Cláudia… Não é bem assim.
CLÁUDIA: Calma o escambau! Meu irmão tá internado e ninguém me fala. Ele precisa de um transplante e ninguém me fala. Minha mãe quer doar e ninguém me fala!
FERNANDINHA: O que você pretende fazer? Vai arrancar um dos rins do doutor?!
CLÁUDIA: Vou! Isso se me disseram que não aceitam um de meus rins! Caracas!
FERNANDINHA: Tem certeza disso?
CLÁUDIA: Olha aqui, garota. Olha pra minha cara, vê se eu tô brincando? Essa turma é um bando de lesado, só pode ser! Por mais que eu odeie o meu irmão, e realmente eu não gosto dele, não vou deixar ele na pior. Eu não presto, mocinha, mas eu não deixaria ninguém da minha família em dificuldades. Acha que eu aguento ver minha mãe naquele estado? Além do que eu devo ser compatível com ele, por mais que eu seja só uma meia irmã, e não você, mocinha! Onde fica essa reunião?
FERNANDINHA: Fica naquela salinha lá… Mas acho que não vão te receber. (Pausa). Bem, sua mãe deu um tapa nele… Ele disse que abandonaria o caso
CLÁUDIA: Nem que eu tenha que ficar pelada no meio dos médicos, eles vão me receber é agora! O que eles querem? Querem ver peito?! Eu mostro! Se for pra agilizar esse negócio…
FERNANDINHA (sorriso): Se você diz…
CLÁUDIA (saindo): Obrigada, garota.
FERNANDINHA: Ela é esquentadinha, hein? Mas é engraçada igual ao irmão.
Passagem de tempo. Alteração de focos de luz enquanto Fernandinha se desloca. Ela está a caminhar impaciente olhando para o relógio no aguardo de Cláudia. Vai até um canto e toma um café ou uma água. O local agora se parece com um jardim em frente ao hospital. Cláudia retorna.
FERNANDINHA: E então? Conseguiu falar com o médico?
CLÁUDIA: Eu fui enxotada. Aquele verme… Disse que não ia me receber, que estava ocupado. Mas não havia nenhuma reunião ai. Estava com um monte de prontuários. Precisamos pensar juntas.
FERNANDINHA: Venha aqui. Vamos sentar um pouco.
Sentam-se como se fosse a guia da calçada ou alguma mureta do jardim.
FERNANDINHA: Quem sabe uma transferência do hospital?
CLÁUDIA: Não sei. Minha mãe está muito abalada, ela não devia ter feito o que fez. Não sei. Acho que eu também faria o mesmo. Mas que droga! O que é que nós podemos fazer?! Estamos nas mãos desta equipe! Preciso fazer os exames… Preciso ajudar meu irmão. E se eu não for compatível? E se brigarmos e armarmos um barraco, pra depois ver que eu tenho mais sangue do meu que…
FERNANDINHA: Você está dando o seu melhor. Não se cobre mais por hoje. Deixa comigo. Tô com uma ideia na cabeça.
CLÁUDIA: Que ideia?
FERNANDINHA Você disse uma coisa certa, Cláudia. Você falou equipe. Não é esse cara que vai decidir tudo sozinho. Tem uma professora minha que trabalha no hospital. Não é este, mas até onde eu sei estes residentes e médicos trabalham nos dois. Vou ver com ela quem é o chefe da equipe, se ela pode dar uma força.
CLÁUDIA: Será?
FERNANDINHA: Não custa tentar, cunhada. Amanhã é outro dia.

CENA 14 – Reencontro de mãe e médico
Uma sala de reuniões médica. Médico extremamente nervoso, de raiva contida. Mãe submissa, quase depressiva.
MÉDICO: A senhora entre, por favor. Sente-se.
MÃE: Sim.
MÉDICO (sério): Com quem a senhora andou conversando? Acha que aqui só trabalha criança? Fala.
MÃE: Ninguém.
MÉDICO: Eu recebi uma carta da diretoria médica deste hospital a respeito do seu filho. Acha que uma coisa dessas aparece em minha mesa à toa? Sabe como eu chamo isso? Chamo isso de trairagem, de falta de caráter, porque em primeiro lugar a senhora deveria ter vindo falar comigo.
MÃE: Eu não sei do que o senhor fala.
MÉDICO: Mas sabe o que isso causa pra mim? Responda?!
MÃE: Eu não sei disso. Só sei que deixou meu filho.
MÉDICO (exaltado): Eu não deixei seu filho, senhora! A equipe ainda está com ele, aí me vem um papel dizendo que entre outras palavras que estou sendo negligente? Que não fiz os exames necessários e etc. Dá impressão que eu larguei seu filho pra morrer.
MÃE: Volto a dizer pro senhor que eu não sei do que o senhor está falando. Mas se me chamou, tem algo pra me dizer?
MÉDICO: Tenho. (Respira fundo). Você tem uma filha não é?
MÃE: Sim, mas é meia irmã de Renato. Importa?
MÉDICO: Se importa?! Pombas! Traga ela pra fazer os exames, ela pode ser uma doadora mesmo assim. Pode ser, PODE SER. Preciso ser mais claro pra senhora entender que pode dar certo ou não?
MÃE: Não, senhor.
 
CENA 15 – A febre e o delírio de Renato
Renato está suando bastante. Aparenta febre.
FERNANDINHA: Meu Deus, Renato! Você está ardendo. Cadê a enfermeira que não vem. Renato, você tá acordado?
RENATO: Me deixa, mãe.
FERNANDINHA: Enfermeira! Enfermeira!
RENATO: Chama o pai, mãe. Eu vou morrer.
FERNANDINHA: Renato! Sou eu, a Fernanda.
RENATO (gesticulando com o braço): Sai Cláudia. Eu te odeio Cláudia. Sai!
FERNANDINHA: Enfermeira! Alguém! (À parte). Mal sabe que a Cláudia pode lhe salvar a vida. Que Deus abençoe os exames.
Luz cai em resistência. Breu.
 
CENA 16 – CLÁUDIA e o envelope
Jardim. Cláudia caminha pelo palco com um envelope grande em suas mãos. Coloca-o na boca algumas vezes mordendo-o aflita. Está às lágrimas. A mãe surge do lado oposto do palco. Elas vêm uma ao encontro da outra e se abraçam no centro do palco.
CLÁUDIA: Aconteceu como havia de acontecer.
MÃE: Filha…
Luz cai em resistência. Breu.

CENA 17 – O presente para Renato
CLÁUDIA entra no quarto com flores. Renato está bastante debilitado e de fala mole e entrecortada por respiração fraca.
CLÁUDIA: Posso entrar, moleque?
RENATO: Já passam das nove. Acabou o horário de visitas…
CLÁUDIA: Eu dei o meu jeito. Trouxe uma coisa pra você.
RENATO: Eu tô cansado, Cláudia. (Tosse). Me deixa. Quem falou pra você vir? Minha mãe?
CLÁUDIA: Não, Renato! Não foi a NOS-SA mãe.
RENATO: Despedida, antes da morte…
Pausa longa. Cláudia suspira fundo.
CLÁUDIA: Lembra daquele dia em que aquele menino jogou terra nos seus olhos no parquinho? Daquele menino gordo que te fez um cuecão bem no meio do pátio da escola? Onde é que eu tava? Ou quando, o dia em que você caiu da árvore e quebrou o braço, quem foi que te levou até a mãe? Ou quando você se perdeu no Shopping em São Paulo, quem foi que te achou? Olha pra mim, Renato… Só tô falando. Não estou aqui para brigar.
RENATO: O que importa isso?
CLÁUDIA: A minha pergunta é: o que foi que aconteceu entre nós? O que foi que nos magoou tanto? Éramos como irmãos e antes de sermos irmãos éramos amigos! A-MI-GOS!
RENATO: Pois é. Eu lembro quando você arrastou um namorado pra casa. Eu te acobertei. (Pausa de respiração). Inventei uma história pra mãe de que ela tinha que passar na escola…
CLÁUDIA (sorrindo): Que a diretoria queria falar com ela sobre mim.
RENATO: Já levei até puxão de orelha por você! (Pausa de respiração e tosse). Mas muita coisa aconteceu depois e não sei se vai passar. O pai morreu e você não ficou nenhum ano com a gente…
CLÁUDIA: Eu precisava me cuidar! Resolver meus sentimentos, poxa! Será que você nunca entendeu isso?!!
RENATO: Mas era o momento em que eu precisava mais de você.
Pausa longa.
CLÁUDIA (sentando-se próxima ao leito): Você…?
RENATO (chorando): Eu acho que menti pra mim todos estes anos, Maria Cláudia. Menti pra mim. Disse que era a mãe que precisava de você… (Respiração forçada e tosse). Mas era eu que precisava de você, por você ser sempre a mais segura… Te culpei pela morte do meu pai…
CLÁUDIA: Do NOS-SO pai, Renato. (Pausa longa). Sei que ele não era meu pai biológico, tinha muita coisa mal resolvida sobre isso… Mas você teve razão quando disse que eu é que não aceitava o amor dele.
RENATO: Me desculpe, Cláudia. Sempre fui burro… Nunca soube dizer o que sinto. (Respiração forçada). Acho difícil que se passe tudo isso que aconteceu com nós.
CLÁUDIA: Mas passou, Renato! Acabou! Você cresceu e amadureceu. Eu também! Temos que ficar nos lamentando? Remoendo desentendimentos?! (Pausa). Olha não foi à mãe que pediu que eu viesse. Inclusive ela achou que eu não deveria vir, por causa de sua saúde. Mas… Mas até uma mãe erra… Até um pai e… Uma irmã. Só que um erro eu não poderia cometer.
RENATO: Como?
CLÁUDIA: Vou doar um de meus rins a você.
RENATO: Mas você não é filha de meu pai…
CLÁUDIA (sorrindo): Pois é… Mas a natureza ou Deus, não erra. (Pausa). Sou compatível.
RENATO: Maria…
CLÁUDIA: Me dá uma abraço, maninho. Vai me sufocar, calma, calma!
Os dois se abraçam emocionados e choram.
RENATO: Acha que vai me conquistar com um rim?
CLÁUDIA: Não vou dizer que é aquele rim… Um super rim… Mas dá pro gasto, não é? Além do que, eu tenho dois. Não vai me fazer falta. Agora relaxe. Em dias já estaremos prontos.
RENATO: Obrigado. (Tosse). Como uma onda… Você chegou realmente no momento em que eu mais preciso de você, Maria Cláudia.
CLÁUDIA (enxugando as lágrimas): Mais uma coisa. Vê se você pára de me chamar de Maria, cabeção!
RENATO (também enxugando as lágrimas): Ok. Só uma pergunta. Como foi que você conseguiu entrar aqui?
CLÁUDIA: Simples. Mostrando os peitos!
Risos.

CENA 18 – Aguardando a cirurgia
Na recepção do hospital mãe e Fernandinha ansiosas.
MÃE: Como será que está sendo esta bendita cirurgia? Dois filhos…
FERNANDINHA: Está nas mãos de Deus. Não é isso que a senhora diz?
MÃE: É verdade, minha filha. E o pior é pensar que ainda temos religiões contra isso…
FERNANDINHA: Mas e a senhora, uma mulher religiosa, como vê tudo isso?
MÃE: Sou a favor da vida. Deus é o autor da vida e somente Ele pode tirá-la. Por essa razão, qualquer ser humano deve lutar para prosseguir com a sua vida, independentemente, dos problemas de saúde que tenha e para tanto, é necessário utilizar-se de todos os recursos que Deus disponibilizou através da Ciência, como a doação de órgãos e um transplante. Afinal, quem ilumina a mente dos cientistas e da medicina? Não é Deus? E se Ele dá esse conhecimento a eles, é para ser usada em benefício da humanidade, principalmente para salvar vidas.
FERNANDINHA: Isso é lindo… Graças ao nosso bom Deus, no caso do Renato, nós conseguimos o mais difícil, a compatibilidade entre a Cláudia e ele. (Pausa). Anteontem, morreu um rapaz com a idade do Renato, com o mesmo problema dele. Ele não pode esperar pelos rins de um doador.
MÃE: Uma lista de espera de órgãos… Tem coisa mais cruel pra uma mãe ouvir? Quantas mães estão ou estiveram à espera de uma doação de um órgão pra um filho, uma filha? Córneas para recuperarem os olhos e voltarem a ver as belezas do mundo… Pulmões para que respirem fundo e possam sonhar mais… Fígado, pâncreas, medula… Um coração para que voltem a amar sem tristeza. (Pausa). Um rim pro Renato. Aprendi muito com a internação de meu filho. Muito. Vou doar meus órgãos quando eu partir. Se eu soubesse o que era um hospital e o quanto é preciso doar mais e mais… Doar é um gesto de amor. Não doar parece desperdício… É triste imaginar que um rapaz como o Renato não teve a mesma chance por haver uma lista. (Pausa). Uma lista… Tanta gente morre e é necessário que se faça uma lista? Se fossem aproveitados todos talvez até sobrasse.
FERNANDINHA: Também irei doar os meus. E pensar que dizem que tem gente que vende…
MÃE: Mas isso não justifica! Nada justifica você não salvar a vida de alguém que precise! Sabe, filha, eu acabo de perder o medo.
FERNANDINHA: Como?
MÃE: Se o Renato não sobreviver à cirurgia…
FERNANDINHA: Vire a sua boca pra lá!
MÃE: Não! Me escute. Preciso compartilhar isso com você. Se o Renato não sobreviver, haverá um sentido. Sei, ele está nas mãos de Deus, mas se ele não sobreviver… (Respirando fundo). Se ele não sobreviver, se o seu coração parar, eu vou doar os tecidos dele que forem possíveis… Assim, outras mães verão o brilho de seus olhos brincalhões, e quem sabe, seu coração apaixonado e divertido continue batendo através deles.
FERNANDINHA (sorrindo): Isso é lindo, sogrinha. Mas não vamos pensar nisso agora. Ok?
MÃE: Ok.

CENA 19 – A cirurgia
TRÊS PESSOAS COM MÁSCARAS operam no fundo do palco com pouca luz. A mãe caminha de um lado para o outro ao longo do proscênio iluminado. Ela parece estar preocupada e em oração. Após um tempo dramático deste modo, a luz cai em resistência até o breu completo. Do fundo do palco um vulto carregando uma vela, sua única fonte de luz, caminha calmamente até o proscênio como uma alma. Está de capuz, mas se algo pode ser visto é o rosto de Renato. Após encarar o público por um momento dramático ele fala (ou uma voz gravada é reproduzida nos alto-falantes de forma forte e concisa).
VOZ: Em memória àqueles que partiram e, diminuindo o peso de seus caixões, doaram seus órgãos salvando vidas. Em memória àqueles que amaram e se deixaram amar por desconhecidos. Uma luz se acende na terra e nos céus por eles.
O vulto após uma pausa retorna realizando o mesmo caminho que fizera. Terminando em breu.
 
CENA 20 – Pós-cirurgia
No hospital, o quarto está bastante iluminado, com flores e presentes nas mesinhas. Renato está em um leito ao lado de outro leito, o de CLÁUDIA.
CLÁUDIA: Ô cabeção! Acorda, maninho! Acha que tá em um spa?
RENATO: Hã?
CLÁUDIA: Por que será que todo irmão mais novo é tapado?
RENATO: Não… Eu morri e o capeta me chama!
CLÁUDIA: Sou eu, asno! Cláudia! Acorda aí pra gente jogar um truco.
RENATO: Truco? Onde eu tô?
CLÁUDIA: Truco! Se você perder, você me devolve o meu rim. O que acha?
RENATO: Ah… Eu não acredito! Recebi um rim seu…
CLÁUDIA: Quem diria, não é mesmo? Você receber algo tão valioso, ainda mais de mim.
RENATO: Só espero que não esteja envenenado.
CLÁUDIA: Olha aqui moleque, vê se pára. Eu quase mostrei meus peitos pro médico pra conseguir esse transplante, pô! Ai!
RENATO: O quê? Essa mixaria aí?
CLÁUDIA: Mas… Ai! Que dor filha da p…
RENATO: Sem palavrões, mana! Ai! Dói pra cacete. Tem certeza que me deu um rim mesmo? Parece que colocaram outra melancia aqui dentro.
CLÁUDIA: Só se colocaram pelo seu…
Entram mãe e Fernandinha.
MÃE: Já vi que estão se entendendo de novo.
FERNANDINHA: Eu não disse pra você não falar palavrão, Renato!
RENATO: Amor é você?
CLÁUDIA: Amor é você… Dã?! Olha aqui menina, você deve me agradecer de ter salvo a vida deste moleque. Primeiro venha me dar um beijo. Ai!
RENATO: Cuidado, Fernandinha. Ela beija mulher em peça que eu sei.
MÃE (sorrindo): Mas vocês, hein? Não querem esperar se recuperarem antes de matar um ao outro.
RENATO: Escute pessoal, eu inventei uma piada nova.
TODOS: Lá vem!
RENATO: Mas essa é muito boa.
TODOS: Fala!
RENATO: O que é que o rim doado falou pro outro rim do doador?
TODOS (sonoros): O quê, Renato?
RENATO: Quem rim por último, rim melhor!
CLÁUDIA: E quando você o conheceu já sabia dessa grande habilidade dele?
FERNANDINHA: Já imaginava.
RENATO: Desculpa aí, mana. Eu queria te dizer um troço… Um troço que eu fico sem graça de falar.
FERNANDINHA: Dessa coisa de “troço” também já aprendi.
CLÁUDIA: Fala Renato.
RENATO: Eu amo você, por mais que você me odeie.
CLÁUDIA: Odeio mesmo… Mas não esquenta, não. Eu também te amo.
MÃE: Não são lindos os meus filhinhos, Fernandinha? Quem diria que precisariam estar em um hospital para fazer às pazes.
RENATO: Agradeça ao papai, mãe. Ele que falou pra eu ter juízo.
MÃE: E agradeça também a minha norinha. Ela que me acalmou estes dias.
RENATO: Fernandinha… Também tenho um troço pra te falar. Não, a palavra não é troço. Tô nervoso…
FERNANDINHA: Mas de novo isso! Desembucha! Nem parece homem. Sem palavrões!
RENATO: Fernandinha, você quer se casar comigo?
FERNANDINHA: Eu?! Nunquinha! Never! Acha que vou querer me casar com um surfista sem curso superior?
CLÁUDIA: Tô começando a gostar da minha cunhadinha.
RENATO: Desculpe. Não, eu não queria dizer isso…
FERNANDINHA: Caiu de novo, bobo?
CLÁUDIA: Trouxa.
FERNANDINHA: É claro que eu quero! Mas tem uma condição.
RENATO: De novo eu vou tomar um caldo! Ai!
FERNANDINHA: O que você falou?!
RENATO: Vou tomar JU-Í-ZO! Ai, ai!
FERNANDINHA: Acho bom… A condição é que antes você se forme, enquanto isso seremos noivos. É isso ou nada.
RENATO: Ok, ok. Ai! Onde é que eu assino?
FERNANDINHA: Vai assinar na loja o cheque da minha aliança.
CLÁUDIA (risos): Ela é inteligente, não é mãe?
MÃE: É sim, filha.
CLÁUDIA: Irmão como você acha que vai ser daqui pra frente?
RENATO: Como uma onda no mar… Uma onda dá força pra outras ondas. No final a gente sabe que vai sair coisa boa pelo começo. (Pausa). Quem sabe este transplante não é o início de muitos outros?
CLÁUDIA: Ei! Este é o último que te dou!
RENATO: Deixa pra lá, foi uma coisa que pensei.
CLÁUDIA: Obrigada por me desculpar, mano. (Pausa). Mas sabe, sobre esse negócio de onda, há alguns dias um senhor humilde veio e me entregou um papel em que está escrito “aprenda com moluscos”.
FERNANDINHA: Eu me lembro.
MÃE: Ah… Então aquele papel era seu?
CLÁUDIA: Sim. E eu pensei nisso o tempo todo nesses dias. Agora mais do que nunca acho o que o papel deve ser meu.
MÃE: Como assim?
CLÁUDIA: Esse negócio de doação de órgãos é mesmo importante, por isso não deve ser uma coisa chata. Deve ser meio assim, com a cara do Renato. (Renato faz uma careta). Algo que faça as pessoas terem alegria em doar.
RENATO: Como doar a sogra?
FERNANDINHA: Renato!
CLÁUDIA: Sim, algo que seja leve e divertido. Algo que faça as pessoas pensarem no quanto é importante doar seus órgãos depois de mortos, pois não se pode fazer mais nada com eles a não ser enterrar. Sim! Quando eu melhorar vou propor a trupe uma comédia intitulada: “Aprendendo com moluscos”. Doar a sua concha é um gesto de amor.
RENATO: Legal. E como vai ser?
CLÁUDIA: Vai ser sobre um jovem que não sabe contar piadas, sem graça, bobo, infantil e feio que espera por um rim que nunca vem. Qualquer semelhança é mera coincidência. (Pausa). Mas felizmente, ao menos na espera, ele descobre que tem uma família que o ama… E que sua irmã rabugenta vai ajudá-lo.
RENATO: Legal.
MÃE: Obrigada, por fazer isso filha. Essa é uma coisa que mesmo por amor, uma mãe jamais pede. Era a sua vida em risco.
Pausa longa.
CLÁUDIA: Mãe, se não fosse eu, quem seria?
A luz cai em resistência. Sugestão de música de surf até o final da peça.
 
CENA 21 – Final
Renato com sua prancha no proscênio, semelhante à primeira cena.
RENATO: Bom, deixemos de papo agora. Há muitas ondas ali me esperando pra me beijar… E os ciumentos lábios de minha Fernandinha já devem estar se contorcendo com essa escapulida que dei! É o primeiro dia que volto pra água com esse rim novo, me perdoa vai… É igual comprar carro novo e deixar o banco com plástico! Preciso experimentar… Vou nessa! A gente se tromba por aí. Já aprenderam com os moluscos? Eu aprendi! Ah, só mais uma coisa. Vocês realmente acreditam nessa história de coincidência? Eu não. Uma onda não encontra outra por acaso. Valeu?!
Renato corre com sua prancha para a coxia como se fosse pegar uma onda. A luz cai em resistência. Fecham-se as cortinas.
 
FIM

Emilio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.