As Deficiências Representadas na Mídia e o Papel da Psicologia Social – Por Emílio Figueira



Neste momento em que se discute no Brasil as pessoas com deficiência em vários ângulos, acredito ser de importância abrirmos aqui um parêntese para abordarmos também o problema dentro dos órgãos de comunicação. Vale acentuar que será uma breve abordagem dentro de um breve estudo por meio de exemplos documentais. Pretendemos com esta exposição apresentar uma proposta para que ela mesma se enquadre e passe a integrar nossos projetos de pesquisas, visando sempre colocar as pessoas com deficiência na sociedade de maneira natural por meio dos trabalhos reabilitacionais exercidos pelas entidades brasileiras.

A questão de como a imagem de pessoas com deficiência é veiculada pelos meios de comunicação de massa ao grande público vem ganhando atenção no Brasil, um tema muito interessante a ser desenvolvido pela Psicologia Social. Sobre essa temática já foram realizados congressos, sendo que uma das conclusões a que se chegou foi que não adianta reabilitar o indivíduo física, intelectual e profissionalmente se a sua imagem não for recuperada perante a sociedade, de maneira que esta o aceite naturalmente. Dessa forma, os meios de comunicação de massa (jornal, rádio, televisão, Internet e vídeo educativo) surgem como as principais alternativas para esse fim.

Uma vez em que o processo mundial torna-se cada vez mais veloz, rompendo barreiras a cada dia, a imprensa nos bombardeia com milhares de informações, cabendo a tarefa de interpretá-la numa rápida assimilação, pois a edição de um jornal não sobrevive mais do que 24 horas. Nem sempre a quantidade corresponde à qualidade! A falta de tempo, muitas vezes, leva-nos a formar prematuramente conceitos errados sobre pessoas e situações. É quando nos deparamos com os “pré-conceitos” oriundos da desinformação, que muitas vezes levam a sociedade a subestimar as potencialidades e capacidades das pessoas, gerando discriminação, estigmas e preconceitos.  O “Manual Mídia & Deficiência” (1994, p. 04) também afirma: “A abordagem e a terminologia utilizadas pelos Meios de Comunicação de Massa (M.C.M.) ao mesmo tempo refletem e influem na interpretação da sociedade sobre os principais temas de interesse coletivo. Se a informação não é cuidada, acaba reforçando estigmas e posturas preconceituosas transmitidos culturalmente, que podem significar, no mínimo, um empecilho à evolução e ao desenvolvimento social”.

É quando encontraremos o conceito de Scheaker (1989, p. 03), que “não existe uma imagem neutra de uma pessoa deficiente mental. Se ela não for deliberadamente construída de uma maneira positiva, as pessoas continuarão a ver os deficientes mentais de acordo com suas pré-concepções negativas, não importando se isto é intencional ou não”.

Dos mitos à realidade

Potencialmente dotadas e criativas, as crianças ― seja qual for a sua deficiência ―, sempre tem algo a oferecer à sociedade, que os “mitos” muitas vezes acabam por reprimir ou neutralizar. A desinformação colabora para que as pessoas tenham uma ou mais dessas visões a respeito daquelas com deficiências imtelectuais:

  • Tristes, patéticas e destinadas a conduzir uma vida trágica e trazer tristezas a todos que as conhecem.
  • Eternas crianças, incapazes de crescerem e desenvolverem-se além da compreensão e dependência infantis.
  • “Doentes” e precisando de supervisão médica.
  • “Loucas”, destituídas de razão ou incapazes de perceber seu ambiente.
  • Anormalmente fortes, física ou sexualmente perigosas.
  • Escolhidas de Deus ― o que pode ser uma outra maneira de dizer que elas “não são iguais a nós”.

São tipos de mitos que ainda hoje existem em torno das pessoas com deficiências intelectuais, como a Síndrome de Down. Elas foram durante décadas isoladas da sociedade, sendo criadas trancadas em quartos escuros. Após começarem a ser estudadas e estimuladas, romperam inúmeras barreiras e mitos desenvolvendo coisas e habilidades consideradas até impossíveis para sua condição, como aprender inglês. Hoje, nem mesmo a ciência moderna se arrisca a pôr limites em suas potencialidades. Dessa maneira, as entidades e associações que lidam com essas pessoas devem trabalhar para apresentar uma imagem positiva a respeito delas, substituindo esses temores e preconceitos, permitindo que outras pessoas as vejam como:

– Pessoas que sejam parecidas com quaisquer outras nas suas necessidades e sentidos normais, nunca diferentes.

– Pessoas que podem aproveitar a vida e trazer felicidade àqueles que as conhecem.

– Pessoas que, com a ajuda necessária, podem crescer em habilidades e fazer suas próprias contribuições à família e à comunidade.

– Pessoas que merecem o mesmo respeito que qualquer outra pessoa humana.

Scheaker (1989, p. 10-11) oferece um bom exemplo retirado da imprensa. Trata-se de um texto que diz:

PEDRO TERÁ OITO ANOS PELO RESTO DA VIDA

Pedro tem oito anos. Mas ele não pode caminhar nem falar adequadamente. Como centenas de outras crianças, Pedro é deficiente mental profundo. Como eles, Pedro precisará de assistência carinhosa de uma equipe de profissionais treinados, pelo resto de sua vida. Ajude-nos a continuar a prestar esta assistência, enviando sua doação para:…

Esse tipo de anúncio é negativo, pois transmite que: Pedro é uma eterna criança; ele nunca se desenvolverá; ele não manterá relacionamentos com outras pessoas e ele sempre será inútil e dependente. O anúncio correto seria:

PEDRO TEM OITO ANOS E ESTÁ CRESCENDO RAPIDAMENTE

No ano passado, Pedro deu seu primeiro passo independente. Ele está se tornando cada vez mais livre, à medida que explora sua comunidade e faz novos amigos. Pedro gosta de aprender a comunicar-se com eles. Como outras crianças com deficiência mental severa, Pedro está aprendendo mais do que julgávamos ser possível alguns anos atrás. Ajude-nos a auxiliá-lo a encontrar a assistência especializada que ele precisa para continuar crescendo – e, amigos, tornem válido seu esforço.

Aqui sim o anúncio está transmitindo de forma correta, pois: Pedro tem deficiência mental severa e não é, claramente, tão capaz como outros de sua idade, mas ele está aprendendo a falar e a se comunicar; ele tem amigos; ele gosta de viver; ele pode continuar seu progresso se receber a ajuda que precisa, apresentando uma imagem realista, mas positiva sobre pessoas com deficiência intelectual.

São vários os meios utilizados para a divulgação de pessoas com deficiências intelectuais, tais como pôsteres de propagandas, técnicas publicitárias e/ou tentativas de se colocar histórias na rádio, TV, jornais, revistas, boletins ou trabalhos alternativos. Porém, a principal questão não é o meio utilizado para veicular essas mensagens, mas sim o modo pelos quais são produzidos, visando que não ocorra o repasse de preconceitos. Essa não é uma realidade somente para técnicos (jornalistas, publicitários, etc.), pois também há registros de “gafes” cometidas pelas próprias entidades.

Podemos aqui dar uma explicação rápida. Começando pelas imagens, elas podem dizer mais do que as palavras. Evite publicar fotos dessas pessoas tristes e patéticas, mal- vestidas ou descuidadas, isoladas do mundo ou deitadas, sem fazer nada, fazendo alguma coisa estranha ou com pouca dignidade.

As palavras (termos) utilizadas também nos parecem de grande preocupação. Seja ela falada ou escrita pode ser pejorativa, repassar ou reforçar preconceitos ou discriminação. Muitas são condenáveis, mas podemos citar duas como exemplos: os termos “excepcional” e “mongoloide”.

A ONU, por meio de alguns órgãos ligados a ela, fez uma revisão nos termos utilizados em todo o mundo e chegou à seguinte conclusão: Quando a gente diz que uma pessoa é “excepcional”, estamos dizendo ao mesmo tempo que ela é uma exceção na sociedade, ou seja, que é alguém que deve ficar de fora, não podendo se integrar como as demais.

O termo mais correto é “pessoas com deficiência”, podendo ser ainda “pessoas com necessidades educacionais especiais” no âmbito escolar. E eles devem ser usados mesmo para aquelas com deficiências intelectuais.

O mesmo ocorre em relação as pessoas com Síndrome da Down. Quando foi descoberta em 1866, pelo inglês John Langdon Down, ele considerou a Síndrome como um regresso às raças inferiores, criando assim o termo “Mongolian Idiots” (idiotas Mongóis). Esta expressão chegou ao Brasil e outros países como “Mongoloides”. Assim, amigos e as próprias pessoas com Síndrome têm manifestado o desejo de se criar um termo que não os classifiquem como pessoas inferiores às outras e, ainda, que não seja usado nas ruas como sinônimo pejorativo de idiota total pelas pessoas consideradas normais. Assim ficou estabelecido que as expressões mais corretas são, por exemplo: “Maria tem Síndrome de Down” ou “Beatriz é uma menina com Síndrome de Down” ou, ainda, pode-se usar também a palavra Down como um termo mais simples: “Antônio é uma criança com Down”.

Às vezes, usamos termos que todo mundo usa, mas que sem sabermos reforçam preconceitos. As palavras são expressões verbais criadas a partir de uma imagem que nossa mente constrói.

Os meios de comunicação de massa surgem, no entanto, como uma das alternativas para se criar e transmitir uma imagem positiva das pessoas com necessidades especiais dentro da sociedade, como já frisado. Porém a coisa não é tão simples assim. Mesmo tendo poder, aqueles que produzem informações, capazes de conquistar mentes e corações, poderão muitas vezes, apresentar o material trabalhado de forma positiva por uma entidade para divulgação, de maneira distorcida para o “grande público”, transmitindo a mensagem “errada”. Isto porque jornais, revistas e TVs possuem suas próprias ideias do que são pessoas com deficiências mentais e, como qualquer membro da população passíveis de erros de interpretação com relação, por exemplo, assim também ocorre com os equívocos a respeito da deficiência mental.

Isto também pode ocorrer porque repórteres, fotógrafos e editores têm o seu orgulho profissional e querem, muitas vezes, colocar sua própria interpretação no material que lhes é oferecido. Segundo Scheaker (1989, p. 22), mas, mesmo assim, existem coisas que uma associação pode fazer para ajudar os meios de comunicação a apresentarem pessoas com deficiência intelectual de uma maneira positiva, recomendando: “Faça com que a imprensa saiba que a associação considera o que eles dizem sobre pessoas deficientes mentais é importante e o porquê. Se uma história nos meios de comunicação reafirma um dos mitos negativos sobre pessoas com deficiência intelectuais (que são “loucas” ou “perigosas”, por exemplo) ou refere-se a elas de maneira depreciativa (como chamar pessoa com Síndrome de Down de “mongoloide”), envia-se uma carta da associação, mostrando-lhes onde estão os erros: os meios de comunicação desejam ser populares com seus leitores, ouvintes e espectadores; assim, eles, provavelmente, notarão esta reação”.

PUBLICIDADE

E na publicidade, qual o espaço reservado há pessoas com deficiência? Nos Estados Unidos, por exemplo, as agências de publicidade desde a metade da década de 90 já despertaram para o potencial dessas pessoas. Há peças publicitárias, tanto americanas, como europeias, nas quais elas participam como atores de propagandas para TV de marcas famosas como Mc’Donalds, Sabonetes Savory, Tênis Nike, IBM, dentre outras, não falando de deficiências ou de quem as têm; falam dos produtos, sabonetes, sanduíches etc. E a aceitação entre o público tem sido tão grande que a Associação Americana de Paralíticos desde 1993 tem concedido um “Oscar” para a melhor publicidade desse tipo.

Mas aqui no Brasil, pessoas com deficiência ainda são personagens apenas de propagandas institucionais. E, algumas vezes, de maneira negativa. Exemplo disto foi uma campanha realizada em 1995 pela Associação Brasileira de Reabilitação (ABBR), na qual um anúncio foi veiculado em TV, jornais, rádios e revistas; nele, uma criança paralítica era mostrada andando com a ajuda de muletas sob o título “tem gente ainda que acha difícil andar até o telefone”. O mesmo fez, certa vez, a Associação Brasileira de Distrofia Muscular (ABDM) num impresso de uma página inteira de revista em que o título em tipos grandes, maiúsculos, largos em negrito dizia: “Quem tem distrofia muscular não consegue levantar os braços. Quanto mais, dinheiro”; era seguido por um grande texto explicando a doença e o tratamento e logotipo mostrava um boneco caído. São dois de muitos exemplos de antigas campanhas publicitárias que acentuavam mais as limitações do que as potencialidades dessas pessoas (talvez, eram reflexos das campanhas de saúde públicas da década de 60 do século XX, nas quais havia coisas como caveiras, dedos decepados e crianças deformadas pela varíola em que a ideia era transmitir mensagens claras e objetivas, despertando nas pessoas uma boa dose de medo, abrigando-as a pensar sobre o assunto.)

Todavia, não podemos analisar essas campanhas publicitárias de forma plural, pois cada caso é um caso. Há casos em que a adequação está pertinente, mas também há casos em que acaba sendo ofensivo a quem tem uma deficiência pelo fato da mensagem está malfeita. E, sendo ofensiva a eles, acaba sendo ofensiva à comunidade que, mesmo não tendo deficiências, são pessoas sensíveis.

Já houve casos de propagandas dessa natureza utilizada como protesto. Em 1994, uma foi veiculada na mídia impressa, tendo a foto de um garoto assombriado, sentado numa cadeira de rodas; o fundo era preto e as letras brancas, em que o título maiúsculo estava grande e fortemente dizia: “Senhor Prefeito: Eu também sou tetra”. Assinado pela Fundação Selma, de São Paulo, o texto ao lado da foto, protestava:

“O prefeito da cidade de São Paulo, Paulo Maluf, empenhou-se em uma grande causa: conseguir junto aos empresários verba para a compra de 22 automóveis Gol 1000 para presentear a seleção brasileira. Foi ótimo, mas a gente só gostaria de lembrar que existem outros brasileiros que também são tetra mesmo não tendo jogado na Copa do Mundo. São pessoas mantidas por várias instituições como a Fundação Selma, que atende dezenas desses campeões, todos eles tão importantes quanto a nossa seleção. Sr. Perfeito, será que também não dava para conseguir uma verbinha para ajudar esta seleção menos privilegiada, mas não menos brasileira?”

A publicidade pode contribuir principalmente em campanhas de esclarecimentos na derrubada de preconceitos. Talvez, o primeiro exemplo disto ocorreu em 1980 – Ano Internacional da Pessoa Deficiente, a Central de Outdoor, em São Paulo, lançou um concurso em que concorreram 485 cartazes. O vencedor foi um em que a palavra “deficiente” era escrita bem grande, sendo a letra “d” rasgada, ficando “eficiente” e abaixo dizia: “Rasgue o seu preconceito”.

Essas campanhas publicitárias progrediram muito nos últimos anos, principalmente, por parte governamental. Tem um bom exemplo de um cartaz da campanha de vacinação, no qual um rapaz sentado numa cadeira de rodas, tendo atrás sua esposa, à direita uma filha e um bebê em seu colo; estão todos sorrindo, passando a imagem de uma família feliz, ele na posição de marido e pai, o que derruba o velho estereótipo que até há pouco tempo dizia que pessoas com deficiência eram assexuadas e não podiam constituir famílias e coisas dessa natureza. O título dizia: “Paulo Lima teve pólio. Os filhos dele não vão ter”. E o texto destacava uma vitória brasileira: “Desde 1980, o Brasil vem vacinando todas as crianças com menos de 5 anos. O resultado é que a paralisia infantil foi varrida do nosso mapa. Agora temos que a manter bem longe. (…) Faça como o Paulo: Dê a vacina para quem você deu a vida”.

Na publicidade brasileira também temos um exemplo positivo de normalidade. A psicóloga e publicitária Mara Gabrilli causou polêmica para uns e arrancou aplausos de outros quando, em 2000, foi a primeira tetraplégica, devido a um acidente de carro ocorrido em 1994, a posar nua no Brasil, sendo capa de setembro da revista Trip. Um ano depois, tornou-se a nova modelo da Duloren, a segunda maior fábrica de roupas íntimas do país. Maquiada e penteada durante duas horas, posou nas fotos da propaganda em sua cadeira de rodas, vestido calcinhas e sutiãs de rendas e a campanha foi lançada nacionalmente no dia 8 de março de 2001, justamente no Dia Internacional da Mulher. Mara destacou-se em todos os meios de comunicação por ter tido tais posturas de coragens, tornando-se para muitos, pessoas com deficiência ou não, um exemplo de bem-estar com o seu próprio corpo.

AS CADEIRAS DE RODAS

Outra questão que merece uma profunda reavaliação de conceito é com relação às pessoas que se utilizam de cadeiras de rodas para a sua locomoção e, como aparecem na mídia, reforçando um dos maiores erros de visão cometidos pela sociedade, devido à falta de atenção dos profissionais de comunicação, colaborando para uma visão errônea, quando reproduzem exaustivamente a imagem da pessoa em cadeira de rodas, usando um “cobertor xadrez” sobre as pernas.

Essa imagem é transmitida historicamente, tendo como base as primeiras imagens vindas da fria Europa, na qual, no pós-guerra, alguns militares combatentes tornaram-se pessoas com deficiência e, consequentemente, passaram a utilizar-se de cadeiras de rodas para sua locomoção. Nos países europeus, o clima gelado é constante na maior parte do ano e, uma vez que a pessoa na cadeira de roda tem pouca circulação sanguínea nas pernas, tendo uma sensibilidade ao frio ainda maior, justifica-se o uso desses cobertores.

Mas no Brasil, um país tropical e praticamente quente durante todo o ano, nada justifica que continue a utilização do “cobertor xadrez” sobre as pernas dessas pessoas, o que também pode significar uma conotação negativa da intenção de esconder a parte paralisada do corpo. Essa imagem reproduzida sem qualquer critério ou avaliação é constante na mídia, nas telenovelas, em peças de teatros, cinemas e em campanhas de utilidade pública que ainda não desenvolveram uma percepção crítica em relação a este estereótipo que reforça, principalmente em países quentes como o Brasil, a ideia de vergonha do corpo, deformação, feiúra e depressão.

Outro erro que também é cometido é com relação às expressões que usam ao se referir a essas pessoas. Expressões como “condenados”, “confinados”, “presos” a uma cadeira de rodas. Elas refletem totalmente o contrário do verdadeiro significado de uma cadeira de rodas, sendo um instrumento para suprir a dificuldade de locomoção de seu usuário, tornando-se um instrumento para a sua independência, para sua libertação, para a vida! Por isso, além da necessidade de se acabar com a estereotipada imagem do “cobertor xadrez”, é necessário trocar essas ultrapassadas expressões para “pessoas que se utilizam de cadeiras de rodas para sua locomoção” ou simplesmente “usuários de cadeiras de rodas” e, agora, “cadeirantes”.

Trata-se de uma questão tão delicada, que levou RESENDE, SANTANA e SILVA (1999, p. 07) a fazerem tal reflexão em um artigo na imprensa:

Esta é uma discussão necessária para que se possa diferenciar a cadeira de rodas dos usuários, enxergando que eles não formam um. A cadeira de rodas é, apesar da relação de carinho que as pessoas têm com ela, apenas um instrumento facilitador das atividades de vida independente. Essa forma de associação do instrumento com a pessoa foi percebida na coluna “Autópsia da Insensatez”, publicada em 20/06/99, por Gilberto Dimenstein, no jornal Folha de São Paulo.  Neste espaço da mídia, encontramos o que no nosso modo de enxergar é um equívoco: “…Ninguém vai encontrar alegria, muito menos liberdade, num velório ou cadeira de rodas”. Perder um ente querido não é a mesma coisa que ter alguém da família vivo e com liberdade de andar em cadeira de rodas. Entretanto, não é com ameaças desconectadas da realidade que se educa uma pessoa que não sabe a diferença entre um motorista e um piloto de corrida. (…) Certamente Gilberto Dimenstein desconhecia a realidade das pessoas portadoras de deficiência física, pois fundiu sofrimento, cadeira de rodas e a pessoa que a utiliza, distorcendo a realidade para exemplificar negativamente uma situação.

 NA TELEVISÃO

Nas produções da televisão brasileira têm surgido algumas aberturas para a questão da pessoa com deficiência. Prova disto foi a telenovela “Uma história de amor”, escrita por Manoel Carlos, Rede Globo, 1996. Dando atenção especial ao personagem Assunção, deficiente físico usuário de cadeira de rodas interpretado pelo ator Nuno Leal Maia, o projeto recebeu boas críticas vindas de entidades de pessoas com deficiência, as quais enviavam centenas de cartas pedindo que o personagem não voltasse a andar no final para não fugir da sua realidade tão bem construída.

Nuno, que até então não havia interpretado personagens dessa natureza, não decepcionou, demonstrando intimidade com a cadeira de rodas.  Em sua preparação, o ator levou alguns “esperados” tombos, que até então em sua vida pessoal só havia tido contatos superficiais com pessoas com deficiência. Encenar para ele um personagem paraplégico foi para uma experiência nova, segundo declarou numa entrevista na época: “Eu passei a prestar mais atenção aos deficientes e nas dificuldades que eles enfrentam no seu dia a dia. Como se não bastasse, o texto de Manoel Carlos vai muito na ferida, dando margem ao ator se emocionar”.

Outro grande momento em que uma pessoa com deficiência marcou presença na telenovela brasileira foi em “Mapa da Mina”, escrita por Cassiano Gabus Mendes, levando para todo o Brasil, em 1993, a imagem de Luiz Felippe Badin, um ator com síndrome de Down no papel de um oficce-boy de uma empresa, dando uma cutucada em muitos profissionais de saúde, no sentido de alertá-lo sobre a singularidade de ser humano.

As telenovelas, assim como outras produções da teledramatúrgia, também podem se revelar como grandes aliadas contra o preconceito, se abrirem novos espaços para que se desenvolvam personagens devidamente construídos nas representações de bons atores. A televisão tem uma grande capacidade de construir e destruir mitos!!!

Todavia, pedimos um parêntese aqui em nossa exposição para traçarmos algumas considerações teóricas. O problema da figura de pessoa deficiência como personagem de cinema ou televisão esbarra-se na construção do roteiro. Segundo os manuais para roteristas, uma personagem não tem que ser real, mas sim, verossímil. O Realismo, por exemplo, é uma linguagem estética centrada no real e construída a partir dos objetivos e seres que compõem o mundo concreto. O Realismo, portanto, não é a realidade concreta, mas sim uma invenção que nos dá a ilusão do real.  É o que chamamos de verossímil, que nos parece verdadeiro.

O que podemos tirar desse conceito de real e verossímil é o seguinte: Os roteiristas e diretores, ou mesmos os atores, quando criam suas produções, preocupam-se com a vorossimidade – e algumas vezes com o sucesso e audiência – e quase nunca (pois há exceções) fazem uma pesquisa mais profunda do que realmente é uma pessoa (futuro personagem) com qualquer tipo de deficiência. Assim, utilizam-se de velhos conceitos que envolvem a imagem negativa dessas pessoas ou qualquer outro grupo marginalizado e estereotipado no contexto social, reforçando os preconceitos do grande público. A falta de maiores estudos e elaborações é o tipo de cuidado que sempre passam despercebidos nas culturas de massa.

Prova da capacidade televisiva, foi uma campanha do cantor Roberto Carlos, no Natal de 1991, na Rede Globo. A campanha teve como tema “A criança e o idoso brasileiro”. Durante toda à tarde entre outras atrações mostraram reportagens sobre os problemas e saídas para os mesmos. Mas o ponto-chave desse evento que nos interessa aqui no presente trabalho foi a divulgação do “Exame do pezinho”, o qual é realizado em recém-nascido entre 0 a 30 dias de vida para se detectar doença, evitando retardamento intelectual   na criança.

Tendo como tônica “prevenir também é uma forma de amar”, a Rede Globo em convênio com as APAEs (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de todo o Brasil montou pontos de exames em todas as capitais do país. Nesses pontos, artistas, atletas e personalidades falavam ao vivo com Roberto Carlos que, do palco do Rio de Janeiro, comandava a campanha. E, mostrando reportagens e entrevistas com especialistas, inúmeras mães foram informadas naquela tarde sobre a existência do exame: como é feito, sua importância e os problemas que ele pode evitar. E assim o objetivo foi alcançado: Divulgar que, a partir de 1992, o exame do pezinho seria realizado em todos os hospitais e postos de saúde do Brasil e, se levado a sério, diminuirá a excepcionalidade no país.

Outro ponto interessante do Especial Roberto Carlos foi a reexibição de alguns comerciais da UNICEF. Eram vídeos mostrando a realidade, problemas e violência contra crianças no Brasil, mostrando estatísticas numa linguagem bem clara e direta, em que no final aparecia a seguinte indagação: “Que esperança podemos dar a essas crianças?”. Esses filmes eram bem-elaborados e adequados para nossa época. Infelizmente, eles ficaram pouco tempo no ar.

Mas a televisão também tem os seus exemplos negativos, reforçando mitos e preconceitos. Certa vez, por exemplo, o programa dominical da Rede Globo, Fantástico, mostrou a reportagem de uma moça tetraplégica pulando com o seu instrutor de pára-quedas. Durante a exibição das imagens do salto, sinônimo de liberdade, o repórter, em uma contradição, afirmava em cima da cena que ela era “uma prisioneira de sua cadeira de rodas”. No extinto programa Fanzine (TV-Cultura, 23/09/92), apresentado por Marcelo Rubens Paiva, foi debatido o uso da cadeira de rodas. Porém, o VHS exibido mostrou cenas negativas de um hospital, merecendo protesto dos convidados e do próprio apresentador do programa. No telejornal SP-JÁ (Rede Globo, 08/06/92), durante uma reportagem da visita da atriz Shirley Maklen ao Brasil, no final, o âncora comentou: “A atriz recebeu flores e um quadro pintado por uma deficiente física”, o que ao nosso ponto de vista colocou/destacou a deficiência acima da própria obra de arte. São todos detalhes negativos que precisam começar a ser percebidos e corrigidos pelos meios de comunicação de massa.

COMO A PSICOLOGIA SOCIAL PODERÁ CONTRIBUIR

Por um lado, os meios de comunicações sociais podem trazer prejuízos psíquicos para as próprias pessoas com algum tipo de deficiência, quando a mídia veicula muito o estereótipo da mulher e do homem “modelo”, muitas pessoas se sentem desencaixadas deste estereótipo e acabam se fechando num mundinho muito particular com medo de expor-se e não se sentir aceitas. Mas a principal questão em pauta é como a imagem da própria pessoa com deficiência é repassada pela mídia ao grande público. E, para que isto se normalize, o “Mídia e Deficiência” (1994, p. 07) recomenda: “De uma forma geral, as alusões à pessoa com deficiência devem ser feitas evitando-se a valorização excessiva de deficiência. Superestimar ou subestimar o indivíduo, baseando-se apenas no que denota sua deficiência é um sério erro que sempre reforça estigmas e preconceitos. Cada indivíduo é único e deve ser respeitado como tal. As pessoas com deficiência desejam ser consideradas apenas como pessoas, com direitos e deveres iguais aos dos demais cidadãos”.

Não raras vezes, os profissionais de comunicação não têm consciência de seu papel. Muitas vezes, eles esquecem que trabalham com o discurso e, portanto, com os signos e símbolos que trazem imbutidos conceitos, imaginários e, por extensão, ideologias. Não entender estes mecanismos leva o profissional a reforçar preconceitos e estereótipos. Mas isto não pode ser tomado como regra para todos. Os comunicadores – salvo alguns – sempre são profissionais livres de preconceitos e, quando os cometem, é por falta de informação, pois, bem-informados, se proíbem de ter preconceitos. E a Psicologia Social pode colaborar em mão dupla, tanto na identificação de estereótipos e estigmas em mensagens veiculadas, quanto no treinamento desses profissionais para que aprimorarem as suas consciências.

Os psicólogos sociais poderão colaborar com as entidades DE e/ou PARA pessoas com deficiências a organizar a educação da comunidade por meio de programas de comunicação de massa. Uma forma de intermediar isto será convidar os profissionais da imprensa para conhecer esse seguimento de pessoas, seus setores e atividades. Só que antes terão que preparar o terreno, cujas recomendações são de Scheakar (1989, p. 21-22):

– Conheça a pessoa-chave que será responsável pela matéria que você oferece. Ela pode ser o editor de um jornal ou rádio local ou, em cidades grandes, um repórter que tem como dever trabalhar em questões de “bem-estar social”.

– Se possível, marque um encontro com esta pessoa para descobrir que tipo de material a interessaria e como elas gostariam de apresentá-lo.

– Convide-as a visitarem o serviço ou programa de seu setor para conhecerem alguns membros e os pacientes envolvidos, numa ocasião social informal. Lembre-se que pessoas da imprensa são também membros do público e talvez precisem de alguma ajuda para seus próprios temores, ignorância e embaraço.

– Não espere que elas consigam lidar com isso sozinhas.

– Quando você tiver uma boa matéria para oferecer aos meios de comunicação, tente pensar antes como você gostaria de vê-la apresentada e se criará uma impressão positiva de seus pacientes.

– Lembre-se que há também outras mensagens positivas a serem transmitidas, como exemplos de cooperação com grupos da comunidade e atividade, as quais são apreciadas por todos.

– Lembre-se de enfatizar aspectos positivos da vida dos pacientes em ambientes diversos, pode dar uma visão mais equilibrada e otimista.

– Quando um repórter e/ou fotógrafo vier visitar o seu setor, ou conhecer o seu projeto, pense que talvez eles não sejam pessoas que já passaram por algum trabalho educativo ou científico. Lembre-se que a educação e atenção devem acontecer a todo tempo, pois cada novo membro da imprensa, possivelmente, precisará de ajuda para entender a imagem e conceito que você está tentando transmitir.

– Lembre-se, também, que elas têm seu orgulho profissional e não gostam de que se lhes diga o que têm de fazer. Seja moderado, persuasivo e explique suas preocupações.

– Lembre-se que o “feedback” é importante. Uma carta de apreciação, quando a matéria saiu bem, ajudará a manter um clima positivo para a próxima, além de reforçar o bom relacionamento.

– Mas se a matéria saiu “ruim”, tente achar pelo menos uma coisa boa para dizer sobre ela, antes de reclamar. Os membros da imprensa são pessoas também com direito de erros e acertos.

Está aqui, portanto, um novo campo que poderá ser explorado para Psicologia Social: as pessoas com deficiências e a eliminação de seus estereótipos e estigmas repassados socialmente via mídia. Só para concluirmos, lembramos trecho de Guareschi (1991, p. 70), quando ele afirma que “na parte que nos compete como intelectuais que se colocam a serviço da descoberta duma verdade que liberta e no campo específico da Psicologia Social (…) temos consciência de que a universidade só tem sentido na medida em que se coloca a serviço de toda a sociedade, principalmente a mais segregada, descriminada e explorada”.

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Emilio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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