AS MULHERES DA “A IDADE DA LOBA” E SUAS DESCENDENTES ATUAIS! – Por Emílio Figueira

Dias atrás, uma amiga lançou-me a provocação de escrever uma crônica. No momento não falei nada, mas anotei no meu Caderno de Ideias. Confesso que não conhecia muito sobre o tema. Mas sendo um bom aluno e como nunca faltei às aulas, faço minhas lições direitinho, não respondo à professora, como toda a merenda, tiro boas notas nas provas, respeito meus coleguinhas, não brigo e nem maltrato os mais velhos, disse-lhe mentalmente: “Sim, minha mestra querida!” – e fui pesquisar na biblioteca da escola da vida. Agora começo a redação cujo título ela sugeriu: “A idade da loba”.

Descobrir que essa expressão surgiu nos anos 1980 com a publicação da obra “Quarenta: A Idade da Loba”, autoria de Regina Lemos, quando ela era proprietária da revista Marie Claire. Sendo uma das pioneiras da revolução sexual, Regina resolveu publicar um livro sobre a situação das mulheres que, como ela, viveram as turbulências dos anos 1960. Colhendo noventa e sete depoimentos de mulheres de todo o Brasil, o que faziam e pensavam naquele momento, após ter uma juventude vivenciada nos rebeldes, mudando padrões de comportamento.

No livro, revelavam como estavam encarando as transformações físicas e emocionais da meia-idade. Regina se referia a essas mulheres como “lobas” em alusão aos tempos em que elas se rebelaram contra a condição de donzelas ou chapeuzinho vermelho, para se equipararem aos homens na figura do lobo mau. Com a liberação sexual, as mulheres que se rebelaram com essa condição também começaram a assumir a postura de loba má. Na ocasião da publicação, essas mulheres que há duas décadas antes foram “lobas”, agora tinham em média 40 anos. Com a repercussão que teve o livro, muitas pessoas associavam que ao atingir essa faixa etária diziam-se chegar à “idade da loba”.

Na época da publicação, circulava também no país o livro “A idade da razão” (1945) de Jean Paul Sartre, primeiro volume da trilogia de sua obra “Os caminhos da liberdade” que teve grande repercussão no Brasil na década de 1980. A obra mostra claramente a noção existencialista sartreana e o perfil psicológico dos personagens – tomando decisões importantes para a vida deles, sendo que a liberdade está intrinsicamente ligada à existência humana. Com a publicação do livro de Regina, muita gente que não leu “Quarenta: a idade da loba”, achou que os conceitos eram os mesmos nos dois livros e passou a propalar essa ideia de que 40 anos da mulher seria a idade da loba. Embora essa possa ser considerada uma idade especial para a mulher, na verdade, não tem nenhuma relação com o animal, mas sim a revolução dos anos 1960 quando estava decretado o fim do sexo frágil.

Esse assunto deu-me vontade de convidar para “sentar-se” numa mesa do meu Boteco e dialogar um pouco o próprio Jean-Paul Sartre (1905-1980), novelista francês, teatrólogo e maior filósofo existencialista, em 1964 foi premiado com o Nobel de Literatura, o qual não deu importância. Confesso que Sartre é um velho conhecido meu; já nos encontramos várias vezes na faculdade durante as aulas de Psicologia Existencial-Humanista. O seu conceito de existencialismo era um projeto ambicioso: a interpretação total do mundo, procurando explicar todos os aspectos da experiência humana.

Dentre muitas coisas que escreveu esse meu camarada, destaco o seu conceito de Liberdade. Sartre defende que o homem é livre, porém responsável por tudo que está à sua volta. Somos inteiramente responsáveis pelo nosso passado, presente e futuro. Afirmando que “O homem está condenado a ser livre”, em Sartre, temos a ideia de liberdade como uma pena, por assim dizer. Nossas escolhas são direcionadas especificamente por um engajamento naquilo que aparenta ser o bem e assim tendo consciência de si mesmo. A vida nos obriga a escolher entre vários possíveis e, em contrapartida, nada nos obriga a escolher uma coisa ou outra.

A principal tese defendia por esse autor é o fato de negar por completo o determinismo, dizendo que não eram as crenças determinadas, nem a natureza, tampouco a sociedade que nos define; mas sim, o que queremos ser, o que escolhemos ser; e sempre poderemos mudar o que somos. Os valores morais não são limites para a liberdade. Todavia, se a liberdade nos dá o poder de escolha, ela também está sujeita as limitações do próprio homem, sendo essa autonomia limitada pelas capacidades físicas do ser. Porém, essas limitações não diminuem a liberdade, pelo contrário, são elas que tornam essa liberdade possível, porque determinam nossas possibilidades de escolha, e impõe, na verdade, uma liberdade de eleição da qual não podemos escapar.

As pessoas a nossa volta são fontes permanentes de contingências. Todas as escolhas de uma pessoa levam à transformação do mundo para que ele se adapte ao seu projeto. Mas cada pessoa tem um projeto diferente, e isso faz com que as pessoas entrem em conflito sempre que os projetos se sobrepõem. Sartre defende que o ser humano por si só não pode se conhecer em sua totalidade. Sem a convivência, uma pessoa não pode se perceber por inteiro. Cada pessoa, embora não tenha acesso às consciências das outras pessoas, pode reconhecer neles o que têm de igual. E cada um precisa desse reconhecimento.

Por nós mesmos não temos acesso à nossas essências; somos um eterno “tornar-me”, um “vir-a-ser” que nunca se completa. Só através dos olhos dos outros podemos ter acesso a nossa própria personalidade, ainda que temporária. Só a convivência é capaz de nos dar a certeza de que estamos fazendo as escolhas que desejamos. Daí vem a ideia de que “o inferno são os outros”, ou seja, embora sejam eles que impossibilitem a concretização de nossos projetos, colocando-se sempre no nosso caminho, não podemos evitar essa convivência, sem nossos conflitos existenciais. Sem eles o próprio projeto fundamental não faria sentido.

Quem conhece um pouco da biografia de Sartre, sabe que ele foi uma das poucas pessoas que passaram por este mundo e viveram tão intensamente de acordo com suas próprias crenças. Claro, ele pagou um preço alto por quebrar muitos paradigmas e normas que visam controlar os comportamentos da massa.

Voltando ao início do assunto, as mulheres que participaram do livro de Regina, hoje passam de 60 anos de idade. Contribuíram para uma revolução de comportamento e muitas aberturas para o público feminino. Principalmente no que diz respeito a Liberdade – muitas certamente foram leitoras de Sartre. Ruivaram alto e fizeram acontecer. Mas seus ideais não foram seguidos pelas atuais mulheres de 40. Uma geração que entrou no século XXI, tendo por objetivo o individualismo; uma cultura cotidiana é fortemente influenciada pela mídia, publicidade e consumo que pregam o bem-estar individual, o lazer, o interesse pelo corpo, os valores individualistas do sucesso pessoal e do dinheiro.

Muitas tendem a afirmar a sua identidade por meio do consumo próprio com privatização das crenças, valores e estilos. Tudo isso podem camuflar pessoas com identidades frágeis e temporárias. O que infelizmente reflete em carências afetivas, pois privilegiando as conquistas materiais e status para se autoafirmarem publicamente, esqueceram como sair à caça de um companheiro de verdade e com caráter. Pegando uma carona em Sartre, as atuais “lobas” não estão sendo capazes de adaptar o seu projeto-de-ser ou aceitar o projeto o outro, chagando ao meio termo para uma convivência a dois. Sem ter um ruivo expressivo, muitas delas hoje saem em matilha por bares e outros lugares para aconselharem umas as outras. As “lobas” dos anos 1960 têm história para contar. As “lobas” atuais – que estão passando desapercebidas na multidão – o que contarão? A impressão que sempre tenho é que a minha geração – agora não só falando das mulheres – não foi capaz de assimilar, usufruir e dar continuidade aos pensamentos, conquistas e comportamentos saldáveis que herdamos dos anos 1960.

O neopsicanalítico Erich Froomm (1900-1980) – que acaba de passar pelo meu Boteco e tomar um cafezinho, prometendo voltar -, dizia que para encontramos um sentido para a vida, precisamos fugir da sensação de isolamento, desenvolvendo um senso que fazemos parte de algo; mas paradoxalmente, essa liberdade em todos os sentidos cada vez maiores que conseguimos nas últimas décadas, intensificou a nossa solidão e isolamento; o excesso de liberdade transformou-se em uma armadilha, uma situação negativa da qual tentamos escapar. Fromm me prometeu voltar numa outra crônica para conversamos sobre isto! O café ficou por conta da casa.

Trabalho feito com pesquisa, revisão histórica, fundamentação teórica e filosófica sobre o conceito de Liberdade e conclusão com as minhas próprias apreensões atuais. Agora só falta a professora corrigir a minha redação, dar a nota e marcar no seu Diário de Classe. Tomara que ela não me deixe de recuperação!

Foto: Google Imagem

 

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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