As Pessoas Com Deficiência E As Intervenções Clínicas do Psicólogo – Por Emílio Figueira

Ao se trabalhar clinicamente com uma pessoa com deficiência, a construção da relação psicoterapeuta e pessoa deverá ser o alcance para os resultados satisfatórios apoiados em duas condições básicas fundamentais: a compreensão das vicissitudes causadas pela deficiência no desenvolvimento, ajustamento da pessoa e a atitude do profissional de psicologia. Para que o paciente atinja a chamada aceitação efetiva, muitas vezes, enquanto psicólogos, precisaremos “chegar” aos seus conteúdos inconscientes que geram sofrimentos oriundos de sua deficiência, causando empecilhos para aceitação e acolhimento de seu real estado. E, para se dar tal acolhimento, precisará haver no paciente disponibilidade interna para equacionar limites e possibilidades, perdas e virtualidades.

Nesse universo, a transcendência deve significar a superação dos próprios limites impostos pela deficiência, ou seja, enquanto profissionais, devemos atuar na estimulação e amenização das deficiências secundárias da pessoa, suas dificuldades, expectativas sociais e implicações emocionais. Quanto mais a pessoa se aproximar de sua própria realidade, eliminando mecanismo de defesa ou negação, mais seu plano de consciência lhe permitirá ser um cidadão equilibrado e “pronto” para continuar vivendo no meio que a cerca. Por meio dessa normalização, ela terá oportunidades e direitos iguais, riscos iguais, responsabilidades iguais, alegrias, angústias e inquietações como qualquer outra pessoa.

Há três tópicos no aconselhamento da pessoa com deficiência:

Problemas Comuns – Apoio emocional já no começo do processo de reabilitação, visando o enfrentamento do choque, do medo, da raiva, dentre outros. Segundo Vash (1988, p. 204), três áreas de grande importância desafiam as pessoas ao longo de toda a extensão da deficiência:

  • a perda dos mecanismos de descarga emocional.
  • a perda das fontes de recompensa e prazer.
  • perda da independência física e econômica.

Caberão à Psicologia os apoios necessários para neutralizá-los, orientando a pessoa na descoberta de formas de lutas mais efetivas e menos debilitantes, tendo como alvo a conquista do equilíbrio emocional.

Necessidades de treinamento de habilidades – Como dito, durante o processo de reabilitação poderão surgir aspectos particulares do caso em andamento, precisando ocorrer a identificação de atendimento ou treinamento formal em habilidades específicas pessoais e interpessoais. “A deficiência cria exigências incomuns em relação à assertividade, à tomada de decisões e ao estabelecimento de objetivos bem como em relação à coordenação da vida e da família.” (Vash, 1988, p. 206)

Aplicabilidade de abordagens individuais ou aconselhamento em grupo – Caberá ao psicólogo avaliar se o caso pode ter maiores resultados numa psicoterapia individual ou em aconselhamento em grupo. Recomenda-se que, sempre que possível, opte-se por esse último por razões de estimulação inter-relacionais, de convivência social, dentre outras. Mas se o caso for mesmo a primeira opção, nas palavras de Vash (1988, pgs. 207-208), “uma das principais razões para escolher trabalhar com alguém em particular na psicoterapia é que sua capacidade de confiança nos seres humanos está, não raramente, tão debilitada que é mais viável começar a reconstruí-la com uma outra (profissionalmente habilitada a desenvolver a confiança), do que com um grupo de várias pessoas (algumas das quais podem ter tendências agressivas)”.

Após uma avaliação correta sobre o funcionamento psicossocial e profissional da pessoa que pretendemos atender, podemos traçar a nossa meta de intervenção psicoterapêutica individual ou coletiva em seu processo de reabilitação. Porém, nunca é demais lembrar que não existe uma Psicologia específica para a pessoa com deficiência. A princípio, ao atendê-las, vamos praticar as mesmas técnicas que utilizamos com qualquer outro paciente. O único diferencial que pode ocorrer será a identificação dos aspectos específicos dos estágios já descritos, o quais trabalharemos para amenizá-los.

A pessoa que adquiriu uma deficiência em seu processo de enfrentamento da nova realidade precisará dispor de recursos físicos, psicológicos, cognitivos e sociais para preservar a integridade somática e psíquica, visando alcançar a adaptação à organização psíquica, à capacidade de procurar ajuda, ao planejamento para o futuro, manter a angústia em limites toleráveis, incrementar relações pessoais significativas e recuperar as funções físicas.

Segundo Kovács (1997, pg. 107), as etapas relacionadas com o modo de enfrentamento da pessoa são as seguintes: Contato e manejo do problema, eliminando certas condições, promovendo modificações; Alteração do significado de experiência, objetivando neutralizar ou diminuir o seu caráter problemático e regulação da intensa angústia gerada pelo problema.

Frequentemente, envolvem-se aspectos relacionados à Doença/deficiência (natureza, sintomas, local afetado, estágio, tipo de tratamento, opção de reabilitação); Aspectos pessoais (estágio de desenvolvimento, valores – incluindo doenças anteriores, costumes e crenças) e Aspectos socioculturais (apoio, social, ajuda da comunidade, recursos disponíveis). (Kovács, 1997, pg. 107)

Aqui, a memória em outras situações já experienciadas com doença e/ou deficiências anteriores, próprias e de pessoas próximas, podem tanto colaborar no processo de reabilitação como também prejudicar, caso essas recordações forem de morte e sofrimento. As crenças religiosas do paciente podem tanto estimulá-lo, quanto prejudicá-lo, sendo usado como um mecanismo de defesa do tipo “à espera de um milagre”. Kovács (1997, pg. 108) acentua que “os modelos de enfrentamento mais eficazes têm um elevado grau de flexibilidade: o que pode ser altamente adaptativo num período pode não o ser em outro. Um exemplo bem ilustrativo é o da negação que, nos primeiros estágios, pode facilitar e afetar negativamente, no sentido de evitar que a pessoa busque exames e tratamento eficazes para si”.

Deficiência real e imaginária

A deficiência pode ser classificada como real, com limites bem definidos com os quais a pessoa terá que conviver, ou ser uma deficiência imaginária, na qual os limites são mais frutos de fantasias mórbidas que uma realidade crua e dura do indivíduo. Essa última origina-se mais do medo de fracassos do que da deficiência propriamente dita. Há grande diferença entre ser e se sentir com uma deficiência. Uma pessoa que está muito mais preocupada com a aparência, por exemplo, de usar uma órtese ou prótese, do que a funcionalidade e facilidade que tais aparelhos poderão lhe proporcionar, evitam até o aparecimento em público, uma vida social, transformando o que deveria ser apenas uma deficiência numa sequela de peso muito maior do que verdadeiramente tem, dificultando ainda mais o tratamento.

Tanto a negação, quanto a dramatização excessiva de uma pessoa com deficiência geram distorções de percepção, dificuldades de convivência, administração de problemas comuns, alimentados pelas deficiências imaginárias. Esse comportamento de sentimentos comprometidos pode não advir necessariamente da pessoa, mas de condicionantes sociais, tais como preconceitos, estereótipos, estigmas. Uma das fantasias clássicas são pessoas que esperam curas milagrosas, divinas – o que também pode ser interpretado como um mecanismo de defesa para a pessoa fugir de sua realidade, ou não querer encarar os novos desafios pela frente: aceitação da nova realidade, o processo de reabilitação e reinserção social, dentre outras.

A intervenção psicológica nesses casos deverá acontecer, quando possível, de imediato à ocorrência do fato gerador das deficiências imaginárias. Trazer o sujeito sempre para seu mundo verdadeiro, proporcionando conhecimento de sua real situação tanto das dificuldades que terá que enfrentar, mas também dos recursos material e humano que ele poderá contar nessa nova empreitada e, principalmente, todas as possibilidades de fracasso e sucesso que terá na vida como qualquer outra pessoa. Estaremos oferecendo-lhe dados para um processo de racionalização, a busca de respostas lógicas, partindo das falsas premissas em direção de uma construção com alicerces sólidos. Nessa fase, o relato de outros casos idênticos e bem-sucedidos poderá ser uma ferramenta de motivação.

Deficiência e qualidade de vida

O foco principal de um psicólogo como sempre deve ser orientar seu paciente na busca de uma qualidade de vida, visando a saúde mental e a possibilidade de conseguir a adaptação sua nova realidade. E para Kovács (1997, p. 109), citando Hawthorn, quando esse paciente tem uma deficiência, é fundamental verificar:

  1. as preocupações físicas;
  2. as habilidades funcionais;
  3. o bem-estar dentro da família;
  4. as redes de apoio social;
  5. a orientação para o futuro (planos, expectativas, esperanças);
  6. a intimidade e as relações sexuais;
  7. a ocupação, a espiritualidade e a satisfação com o tratamento.

Tendo como base o respeito à pessoa, devemos orientá-la quanto uma possibilidade de autonomia e controle sobre a própria vida. Esse processo passa por uma conversa sempre aberta com os nossos pacientes, tendo sempre um compromisso ético do “que e como contar ao paciente sobre a sua doença, as deficiências resultantes, assim como o estágio em que se encontra, devendo sempre ser estas as preocupações do profissional de saúde” (Kovács, 1997, pg. 110). Diz essa autora:

Por se tratar de um conceito altamente subjetivo, cada pessoa considera aspectos diferentes como essenciais para sua vida. Perguntar ao paciente como pretende gerir sua vida, o que gostaria que fosse feito, quais são as suas necessidades, são essenciais para o profissional de saúde, que busca facilitar e promover a qualidade de vida dos seus pacientes. Uma boa avaliação da qualidade de vida tem como objetivo orientar a escolha de tratamentos e cuidados a pessoas gravemente enfermas e/ou com sequelas incapacitantes. Um dos aspectos que consideramos importante quando se discute qualidade de vida, é o direito da pessoa de ter informação sobre o seu problema e sobre as possibilidades e intercorrências dos tratamentos. Existe um temor generalizado de que se o sujeito souber a respeito de sua situação poderá deprimir-se ou, numa hipótese mais catastrófica, tentar o suicídio. Entretanto, nossa experiência tem demonstrado que a incerteza, o silêncio e as palavras da situação provocam, por exemplo, mais dor e isolamento. O segredo faz com que o paciente seja alienado de sua própria vida, que se sinta infantilizado, dependente, e não mais como sujeito de si, já que não pode participar de sua própria vida e tomar suas decisões.

É bom lembrar que ninguém é tão ingênuo a ponto de não perceber o que passa a sua volta; o paciente sempre nota que os familiares e profissionais estão diferentes, e que algo de muito grave está ocorrendo. Negar informações corretas ao paciente, além de antiético, é como isolá-lo, aliená-lo de sua própria realidade, o que também pode prejudicar o seu processo de reabilitação.

A família no processo terapêutico

No processo de diagnóstico e plano de reabilitação precisamos considerar a família; ela será a unidade de cuidado da pessoa que adquiriu uma deficiência. E como a pessoa, sua família passará por estágios de choque, realização de perda, integração, luto crônico. O ocorrido gerará uma revolução e mudanças específicas, considerando o lugar que a pessoa ocupa – pai, mãe, filhos. Entrará em cena o psicólogo, visando orientar essa família a lidar com o medo, o sofrimento, a incerteza. Podem ocorrer perturbações de ordens diversas – tais como a hospitalização e afastamento do paciente de todas as atividades cotidianas. Uma nova organização varia entre desorganização e rompimento com algumas coisas ou reorganização, reunião e fortalecimento.

Segundo Kovács (1997, pg. 106), a forma de lidar com o aparecimento de um membro com deficiência dependerá de características da dinâmica familiar, podendo ter problemas como:

  1. Família desunida, sem tolerância, num sistema rígido e sem flexibilidade;
  2. Dificuldades de comunicação, segredos, bloqueios e situações tabus;
  3. Dificuldades econômicas, poucas relações e com pequena rede social;
  4. Dificuldades para substituir as funções do paciente;
  5. Situação de conflito e briga por ocasião da instalação da doença/deficiência; Sistema de crenças da família e formas de lidar com a culpa.

Outros pontos importantes no processo psicoterapêutico

Será importante oferecer apoio emocional não só ao paciente, mas também a toda equipe envolvida no processo e no ambiente de reabilitação. Seria interessante que o psicólogo participasse já do processo de seleção dos profissionais que irão integrar a equipe multidisciplinar. Do mesmo modo, os meios reabilitacionais precisam utilizar-se de uma linguagem também indicada para uma educação pública destinada à redução dos estereótipos da deficiência. Nos anos 1980, a Doutora Carolyn L. Vash já defendia a adoção de uma linguagem “limpa” que achamos muito oportuna reproduzir suas cinco cláusulas aqui:

1 – Evitar os termos laquigráficos, como “o incapacitado” e “o deficiente”. Esses termos têm a vantagem da brevidade, mas carregam o ônus oculto de reduzir a pessoa descrita ao nada, sendo mais uma das muitas características que se tornam negativas nas mentes da maioria das pessoas. Elas podem, também, ser republicanas, democratas, advogadas, católicas, budistas, lindas, caseiras ou representar quaisquer outros papéis e possuir quaisquer outros traços. Tudo isso está esquecido ou perdido quando elas são “atomizadas” na única categoria de “incapacitada/deficiente”.

2 – Evitar a descrição imprecisa de uma pessoa como “incapacitada”, quando se pretende dizer que ela é “deficiente”. (…) Não faz sentido falar de uma pessoa “incapacitada” porque virtualmente ninguém fica incapacitado por uma deficiência em todas as atividades. As referências à incapacidade devem sempre especificar em que ocupação o indivíduo estar incapacitado.

3 – Sempre que possível, evitar o uso do verbo “ser” e suas conjugações ao discutir a respeito de pessoas com condições incapacitantes e deficiências. Por exemplo, em vez de dizer “Sally é artrítica” é preferível dizer “Sally tem artrite”, atentando-se que as sutilezas da linguagem induzem a um estereótipo. A primeira afirmação, da mesma forma como o “incapacitado”, reduz Sally ao nada mais do que sua artrite; a última implica que ela é mais que Sally, entre outras coisas, tem artrite. A índole nominal do verbo “ser” se torna muito evidente ao falar de pessoas com deficiências que provocam desaprovação social. (…)

4 – Sempre que possível, colocar a pessoa antes da deficiência na construção da sentença. “Pessoa com deficiência” é preferível a “deficiente”. A primeira coisa a ser enfatizada é a característica de pessoa do sujeito ou objeto da sentença. Uma vez estabelecida a imagem mental básica, a adjetivação, o qualificativo “com uma deficiência” terá menor probabilidade de dominar o conceito transmitido.

5 – Recusar as construções passivas tais como “pessoa em ou confinadas a uma cadeira de rodas”, em favor de construções ativas tais como “pessoa que usa cadeira de rodas”. A primeira fornece uma imagem de passividade e vitimização. A última sugere uma pessoa que estar ativamente usando uma cadeira de rodas como um instrumento para viver a vida. A diferença é a que existe entre o “inválido impotente” de cinquenta aos atrás e o “ativista consumidor” de hoje. (Vash, 1988, p. 211)

Há algumas palavras e expressões que, embora pareçam ter a mesma expressão, elas contam com significados diferentes. Motivo pelo qual, achamos necessário explicá-las para que elas tenham o seu emprego de forma correta nos textos e abordagem em conversas profissionais ou informais. Duas palavras que podem oferecer dúvidas são habilitar e reabilitar. Mas a diferença é simples. A primeira deverá ser usada quando alguém nasce ou adquiri uma deficiência nos primeiros momentos da vida: ele receberá um tratamento ou treinamento, às vezes com algumas adaptações, para mesmo com sua limitação ele poder fazer as coisas comuns que todos fazem e ter uma educação adequada com sua capacidade. Já a reabilitação ocorre quando uma pessoa adquire a deficiência ao decorrer de sua vida, como em acidentes automobilísticos. Essa pessoa terá um tratamento, treinamento e adaptações para poder voltar fazer, de acordo com a sua nova realidade, as coisas que faziam antes. Por isso, a reabilitação implica, dentre outros aspectos, trabalhar tanto a parte física, como psicológica e social da pessoa.

 

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Emilio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Militante das questões referentes às pessoas com deficiência desde a década 1980, nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica como psicólogo e psicanalista, tendo cinco pós-graduações e dois doutorados. Como escritor tem uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de setenta títulos lançados, peças teatrais e roteiros audiovisuais.

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