Atuação do Psicólogo em Centros ou Programas de Reabilitação – Por Emílio Figueira

Dias após dias, meses após meses e anos após anos, as mães chegam às escolas e centros especializados em reabilitação, trazendo nos braços uma criança com alguma necessidade especial ou deficiência. Uma criança com paralisia infantil, paralisia cerebral, deformidades congênitas, distrofia muscular progressiva, problemas ósseos como a osteoporose (e outros menos comuns), deficiências intelectuais, visuais, auditivas e tantas outras menos conhecidas.

Algumas crianças com pouca idade (de 0 a 5 anos), outras já crescidas (10 a 12 anos), cheias de esperança de um dia melhorar e vir ser alguém. Dentre os casos, nem tanto a criança, mas muitos pais se revoltam nos instantes iniciais ao saberem que a caminhada será penosa, e outros já bem machucados são pais separados por terem filhos com algum tipo de deficiência. E, finalmente, o grupo de pais que não esgotam as forças e dão novos impulsos, a fim de conseguir algo a mais que pudesse tornar os filhos felizes, seguros e conscientes de suas deficiências, tornando-os cidadãos úteis à sua família e à sociedade.

A reabilitação é importante não só no sentido físico como, também, na parte emocional da criança ou pessoa ao longo de sua vida. O choque da perda de um membro e/ou adquirir uma deficiência pode ser traumático. A interrupção ou a distorção do processo de desenvolvimento normal de uma criança ou de uma pessoa mais crescida pode ser mais grave do que as consequências diretas da própria deficiência. Devido a isto, a preocupação inicial desses centros reabilitacionais não deve ser a própria deficiência da pessoa e, sim, a preservação e continuação, tanto quanto possível, do desenvolvimento normal desse indivíduo.

A reabilitação tem por objetivo auxiliar a criança ou a pessoa com deficiência em seu desenvolvimento, habilidade e potencial, visando conquistar sua auto independência e seu funcionamento ao máximo em todos os sentidos. Ao iniciar os trabalhos, o paciente é assistido em todos os aspectos (físico, intelectual, emocional, social, pedagógico e psicológico), pois não se consegue o sentido de “vitória” se ao lado da reabilitação física, não ocorrer a reabilitação total. Não se pode considerar completo o indivíduo reabilitado, se não conseguir viver e tornar-se útil à sociedade que ele está acolhido.

Infelizmente, muitas dessas pessoas são abandonadas em hospitais, sendo jogadas de um lado para o outro, ficando ao “Deus-dará”. Algumas não chegam a conhecer os pais ou outro parente qualquer. Até que uma hora, a assistência social desses hospitais encaminha-as à alguma instituição de reabilitação, na qual elas serão aceitas em regime interno, sendo que ali passará a ser sua nova casa. O fato de terem sido abandonados pelas famílias, poderá atrasar os tratamentos de reabilitação. Porém, o resultado positivo no final será a recompensa maior por toda essa espera, ou seja, o longo tratamento, a esperança e luta por dias melhores… E muitas têm conquistados seus espaços na vida.

E quando a deficiência ocorre na adolescência? Certamente é uma fase fascinante em nossas vidas, embora seja de difícil transição. Nela temos mil planos, ideias revolucionárias, chocantes, a vontade de reformar o universo, estudar, formar-se, constituir uma família, ter filhos, posição social, viagens, fama, fortuna, sonhos, utopias… Porém, se tudo isso for interrompido por aquisição de algum tipo de deficiência, torna-se inicialmente traumático e muitas vezes revoltante. A pessoa vê seus sonhos e utopias “destruídos” (pelo menos por enquanto), diz coisas como “a vida acabou para mim”, “era melhor ter morrido” ou mesmo “agora não sirvo para mais nada”.

É praticamente no início da adolescência que mais se adquirem as deficiências. Um levantamento feito pela Clínica de Lesão Medular da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), entre seus numerosos pacientes atendidos, apontou como causa das lesões medulares traumáticas dos pacientes com até 16 anos, 51,4% dos pacientes tiveram a medula lesada por meio de armas de fogo. Nesse universo, 73% dos pacientes são do sexo masculino e 59,6% estão na faixa entre 12 e 16 anos. Em segundo lugar, estão os acidentes automobilísticos (20%); em terceiro, a queda de altura (15,7%); e em quarto, o mergulho em águas rasas (14,3%). Cerca de 67% destes lesados medulares (paraplégicos e tetraplégicos) foram vítimas de algum tipo de acidente (trauma). O restante corresponde às lesões não traumáticas, provocadas por algum tipo de doença.

Mas a reabilitação é necessária, embora muitas vezes difícil. Toda a experiência, aventura e conhecimento acumulados até aquele momento referem-se à vida anterior ao acidente ocorrido com a pessoa. É como se ela tivesse que passar uma borracha sobre tudo e começar, adaptando o seu cotidiano à sua nova realidade.

Há casos que, devido ao trauma, no íntimo da pessoa passa a explodir uma busca violenta de vingança (principalmente se ainda for criança), como se toda a sociedade tivesse que pagar por sua tragédia. E aqui começa a nossa intervenção enquanto profissionais da psicologia. A partir de um acompanhamento psicológico, a pessoa passará a si conhecer e a lidar com suas limitações. Poderá se libertar de um bloqueio ou até mesmo um auto preconceito, permitindo-se descobrir as suas reais potencialidades. Também é importante a necessidade de recuperar a autoestima, a vivência de ser apropriado à vida e às exigências que o cotidiano lhe coloca, desenvolvendo a confiança em sua capacidade de pensar e encarar os desafios corriqueiros do dia a dia.

Com o tempo, a pessoa assistida por nós, psicólogos, se dará o direito de ser feliz, saber que cada um, independente de sua realidade, tem o seu valor, com direito de expressar suas vontades, necessidades e desejos, tendo o direito de desfrutar dos resultados de todos os seus esforços. Sonhar e ter suas ilusões são algo necessário e constitui-se direito que ninguém pode lhe negar, mas caminhar com os pés na realidade é importante, pois uma vez que a autoestima resulta quase sempre de uma imagem que temos de nós mesmos, muitas vezes apagar essa imagem construindo ou buscando uma falsa pode gerar uma decepção, uma abstração por não auto desafiarmos as coisas mais normais da vida.

Os centros de reabilitação atendem, também, um número muito grande de pessoas que têm sofrido algum tipo de acidente de trabalho. As que não são encaminhadas para aposentadorias por invalidez, precisam que mão de obra seja recapacitada.

Atuação do psicólogo na equipe multidisciplinar

Dentro de um processo de reabilitação, são cinco as principais terapias:

– Fisioterapia: consiste em lidar e testar os músculos, como sua força, movimentação e com reflexos (movimentos automáticos que apresentamos ao nascimento e que podem atrapalhar a aprendizagem de movimentos normais). Nela, o reabilitando aprenderá a ter equilíbrio, proteção, postura, esquema corporal, correção e prevenção de deformidades.

– Terapia Ocupacional: será testada sua habilidade. No caso de criança, aprenderá atividades da vida diária e prática, como alimentação, vestuário, hábitos de higiene e controle esfincteriano: Estimulação sensório-perceptiva e coordenação motora dos membros superiores, podendo alcançar a sua independência física.

– Fonoaudiologia: desenvolve atividade de se comunicar através da fala, sugar, engolir, morder, mastigar e respirar corretamente. Muitos pais não conversam com suas crianças com deficiências, o que é um erro, pois quanto mais se conversam com elas, mais responderão.

– Psicologia: tem por finalidade atingir o desenvolvimento global emocional, social, psicomotor e psicopedagógico, assim como a atenção, concentração, linguagem e os aspectos afetivos e emocionais da criança. Sua preocupação central é desenvolver estudos específicos de vários aspectos do comportamento. Detalhes que vamos falar a partir de agora.

Dentro de um processo de reabilitação, nosso papel, enquanto psicólogos através do aconselhamento, será cooperar para o bem-estar psicossocial do reabilitando, oferecendo-lhe suporte para o alcance de uma vida boa de experiência, com alguns pontos essenciais:

  1. Visão realista de si mesmo (abrangendo potencialidades e limites).
  2. Aquisição ou reaquisição da autoestima.
  3. Construção ou reconstrução da dignidade de pessoa humana perante si mesmo, à família e à comunidade.
  4. Meta final: equilíbrio intrapsíquico e equilíbrio pessoa/meio.

Muitas vezes, estaremos trabalhando com o ajustamento das tensões de reabilitando, entre seus desejos e necessidades ambivalentes. Alguém com uma personalidade viva, plástica e variável, sendo a sua identidade o seu suporte histórico. E, nesse trabalho, temos que ter um tripé com os suportes: Identificação, Fusão e Respeito Mútuo!

Nas primeiras avaliações, além de construir um ambiente de confiança e estabelecer um contrato terapêutico com o reabilitando, cabe ao psicólogo começar a levantar dados para as seguintes indagações:

  • Quem é ele? Qual sua idade? Sua fase de desenvolvimento está de acordo com sua faixa etária, suas características pessoais (tendências, traços, aptidões, desejos, aspirações), sua moradia, realidade familiar e condições sócio-econômico-culturais? Como está sua inserção afetiva nas diferentes redes sociométricas e seu grau de instrução? E seu conhecimento sobre a deficiência que adquiriu?
  • Quando ocorreu a deficiência? Como eram ou estavam os fatores relacionados no item de cima?
  • Como e Por que ocorreu a deficiência? Foi um evento repentino ou gradual? Há elementos de culpabilização da própria pessoa ou de outros? Há uma contraposição sobrevivência/morte? Quais as características do memento vivencial da pessoa?
  • O que e quais as características da deficiência, como grau, impedimentos e limitações reais, tipo de evolução usual, presença ou ausência de dores, a existência ou não de traços físicos claramente estigmatizantes, dados de nível concreto ou fantasiosos? Nesse item pode já estar uma tentativa de compreender os vários papeis da pessoa – pai, mãe, filho, trabalhador, estudante – e seus exercícios (reais ou fantasiosos), detectando as formas de enfrentamento de situação crítica, pela qual o reabilitando atravessa, tais como choque, medo, raiva, revolta etc.

De posse desses dados, o psicólogo melhor estabelecerá o seu plano de psicoterapia ou outros modos de intervenções – embora sempre passíveis de reorganização, revisão, reajustamento. Mas tais informações também serão úteis à equipe multidisciplinar, pois, além da psicológica, outras avaliações sistemáticas ou assistematicamente estarão ocorrendo paralelamente por outros profissionais. E, em equipe, verificar quais decisões serão tomadas sobre formas e encaminhamentos na reabilitação e na vida em geral (o que fazer com as dificuldades e mudanças do reabilitando).

Com o tempo, agrega-se ao processo de avaliação novos elementos e novas articulações e oportunidade de surgir: perda dos mecanismos de descarga emocional, perda de fontes de recompensa e prazer, perda de independência física e econômica, perda de um “status” (às vezes conseguido com muito custo), perda de objetos (fazer, obter, ser), perda de amor do outro significativo, perda do outro. E essas perdas, principalmente as efetivas, são geradoras de profunda ansiedade que será a matéria prima do aconselhamento na detecção dos mecanismos de defesa.

Há as consequências de uma má reabilitação. Na questão dos profissionais da área, geralmente uma boa equipe de reabilitação conta com médicos, fisiatra, neurologista, pediatra, urologista, fisioterapeutas, fonoaudióloga, terapeuta ocupacional, psicólogo, assistente social, enfermeiro, técnico em órteses e próteses, pedagogos etc. O entrosamento entre esses profissionais é importante para bons resultados no tratamento do paciente. Mas isto nem sempre acontece e não podemos deixar de citar esses problemas.

Poderá ocorrer um prejuízo no entrosamento devido a certa hierarquia que surgirá no interior da equipe de reabilitação, pautada por uma relação autoritária ente um membro e outro, cada um querendo se colocar um degrau acima na escala hierárquica. E, como consequências do mau entrosamento interno da equipe, o reabilitando poderá ter impedimentos para sua completa reabilitação. Por isto, há a importância de nos formarmos profissionais conscientes, psicólogos também para administrar tais conflitos.

 

NOTA: Baixe gratuitamente todo o conteúdo digital do livro INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA E PESSOAS COM DEFICIÊNCIA – A construção de um novo relacionamento!, clique aqui

Caso queira a edição impressa, clique aqui

Emilio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.