CARTA À UMA AMIGA DE MEIA-IDADE – Por Emílio Figueira

Amiga querida,

Amiúde você estranhe meu silêncio, minha ausência nos últimos dias, semanas. Estou em uma longa viagem. Não fisicamente, mas em um itinerário para dentro de mim mesmo. Como já é do seu conhecimento, cada vez mais me aproximo da Psicanálise. E, isolar-se para pensar, refletir, analisar, buscar soluções, deve ser um habito cada vez mais praticado para um futuro candidato a Psicanalista. Assim, aproveitei para realizar uma autoanálise de toda a minha vida. Tenho feito várias avaliações, descartado coisas que estavam pesando na minha psique; escolhendo outras que valham a pena continuar investindo.  Só que nesse período, também analisei muitas de nossas conversas, confissões, momentos em que dividimos angústias, ansiedades, desânimos. Muitas das opiniões e conselhos mútuos.

Lembrei-me com carinho dos momentos que você recorria a mim, na esperança de poder-lhe confortar seu coração. Geralmente, dediquei-me aos conselhos ou toques rápidos no desejo de ser capaz de corresponder às tuas expectativas e confiança que sempre tem depositado neste amigo. Só que você nem imagina o quanto tenho lido e sacado nas entrelinhas de suas palavras. Quantas vezes controlei-me para não falar mais do que deveria – respeitando assim, os princípios da Psicologia, onde muitas coisas precisam ser ditas só rosto a rosto. Mas neste período de isolamento e filosofias brotando em minha mente, olhando principalmente a minha e a sua história de vida, senti necessidade de escrever estas linhas em forma de crônica.

Estando recolhido, mas sempre com muita leitura e acompanhado por teóricos, folheando um livro, acabo de me reencontrar com Carl Jung (1875-1962), psicólogo e psiquiatra suíço, fundador da psicologia analítica. Em um de seus estudos geniais, após observar inúmeros de seus pacientes, dedicou-se às pessoas entre 35 e 40 anos, consideradas de meia-idade. Bem, aprendi na faculdade que pessoas nessa faixa etária hoje em dia são denominados adultos jovens. Mas isso não vem ao caso agora. Vejamos o que Jung descobriu sobre nós.

Segundo ele, nessa fase sofremos grandes transformações em nossa personalidade por meio se uma crise pessoal. Isso acontece porque, via de regra, os problemas de adaptação do início da idade adulta já foram resolvidos e uma pessoa típica de meia-idade estará estabelecida na carreira, no casamento e na comunidade. Ao perceber um sentimento de vazios nas declarações de seus pacientes, Jung se perguntou: “Por que, quando se obtém sucesso, as pessoas são acometidas pelo desespero e pela sensação de não ter valor”?

Percebendo que para esses pacientes já não existiam sensações de aventura, emoção e prazer, como se a vida tivesse perdido o significado, em suas análises, Jung detectou que essas mudanças drásticas na personalidade eram inevitáveis e universais, porém o período natural de transformações necessárias e benéficas. Ironicamente, ocorrem porque as pessoas foram bem-sucedidas na tarefa de atender as demandas da vida, investindo muita energia nas atividades preparatórias da primeira metade da vida – estudos, carreiras, família, reconhecimento social. Agora na meia-idade essa preparação já terminou, desafios foram vencidos, mas ainda há energia considerável, sem lugar para onde ir, que precisarão ser recanalizada para atividades e interesses diferentes.

Na meia-idade passamos a nos dedicar ao nosso mundo interior, à nossa subjetividade, sentimentos até agora negligenciado, mudando a nossa personalidade de extroversão para introversão, abrandando nosso consciente por uma consciência do inconsciente. Os interesses físicos e materiais mudam para o espiritual, filosófico e intuitivo. Se na tarefa de integrar o inconsciente com o consciente formos bem-sucedidos, criamos condições de atingir um novo nível de saúde psicológica positiva, o que Jung intitulou de “individuação” – significando tornar-se um individuo, explorando nossa capacidade em desenvolver o self (aquilo que define a pessoa na sua personalidade).

Enfrentando o inconsciente, o consciente nos dirá novas tarefas e metas que aceitaremos em cumpri-las. Nesse processo inato e inevitável que contará com forças ambientais, com nossas oportunidades educacionais, econômicas e a natureza de nossos relacionamentos, principalmente pais-filhos, precisaremos ouvir nossos sonhos, seguir nossas fantasias, exercer a imaginação criativa por meio do ato de escrever, pintar e outras formas de expressões espontâneas do inconsciente. Guiar-se menos pelo racional como na fase anterior, revelando-se o nosso verdadeiro self. Jung advertia que não precisamos ser dominados pela “individuação”, mas suas forças devem ser dominadas e assimiladas com consciência, sem predominar em nenhum aspecto da personalidade.

Na combinação do todo surgirá um equilíbrio harmonioso quando se atinge a “individuação”. (Só para não confundimos, a palavra é mesmo “individuação” e não “individualização”. Com esse termo, Jung queria ressaltar o processo de integração dos opostos, o não dividir-se, indivíduo).

Relendo essa parte da teoria de Jung, identifiquei-me nela. Ao mesmo tempo, percebo algumas coisas que se passa com nós. É verdade que por alguns motivos pessoais, nós dois não atingimos todas as fases que todos procuram na primeira parte da vida. Conseguimos uma boa formação e continuamos nossos estudos e produções profissionais; mas não conseguimos nos realizar ainda no sentido de família. E, em uma fria análise, percebo que esse é o principal motivo de nossas angústias. Ainda mais, num misto do sentimento comum às pessoas de meia-idade que não dará mais tempo de nos realizar nesse campo e a sensação inconsciente de finitude explicadas pelos existencialistas, é que brotam muitas de nossas ansiedades. Essas nossas “frustrações” – assim entre aspas!  – temos canalizado para o nosso lado afetivo como se ele fosse solução para todos os nossos problemas.

Amiga, estamos no período da “individuação” e resolvi viver essa fase para tirar bons aproveitos. Deixei de procurar satisfações e diversões momentâneas como um engano para minhas angústias. Cada vez mais voltado para mim, tenho feito altas reavaliações da minha vida. Cheguei à conclusão que não tenho mais que ficar gastando energia psíquica com o que já perdi, ou com o que não deu certo. Mas sim, focar meus ideais agora em coisas que ainda podem se realizar e me dar prazer de continuar vivendo. Por exemplo, elegi duas prioridades para os próximos passos da arte de viver em paz: investir no aperfeiçoamento da minha carreira como Psicólogo e dedicar-me em escrever novos livros, sobretudo de ficção e crônicas, colocar meus ideais no papel, colaborar humildemente com o acervo cultural da humanidade.

A partir dessas decisões, uma alegria em continuar a caminhar, invadiu-me o coração. Isto porque tive a atitude de tomar decisões. Esse é um dos grandes segredos da arte de vencer nossas angústias; ter coragem de fazer escolhas, estabelecer metas e objetivos, trançar retas rumo aos alvos a serem atingidos. Digo coragem, porque escolher caminhos, consequentemente, é abrir mão de outros. Coragem de renunciar certas coisas e ações, pois estar dividido e pensar que chegará o momento de abrir mão de algo pode ser altamente angustiante. Coragem de negar em continuar alienado no cotidiano, acomodado caminhando apenas por caminhar, uma folha ao vento!

Minha amiga, escrevi tudo isso só pelo desejo de lhe fazer o bem. Dizer que acredito que você deve iniciar uma luta para vencer suas próprias angústias. E uma das primeiras batalhas será de se “fechar para balanço!” Aproveitar essa fase de “individuação” para se autoavaliar. Jogar fora coisas que já passaram e ainda pesam em sua mente e coração. Coloque em uma balança suas derrotas, conquistas e coragens de muitas vezes, ousar na vida. Tenho certeza que essas duas últimas pesarão mais. E uma mulher de coragens e conquistas não pode continuar negando-se a dar a volta por cima. Nesse processo de reflexão, escolha uma ou algumas metas para sua vida.

Lembro-me que certa vez você brincou comigo dizendo que seria escritora e filósofa. Dou uma dica. Comece a escrever em um caderno ou no computador em um arquivo com senha, suas memórias, angústias e desejos. Não para ser publicado e nem para outra pessoa ler. Escreva para pôr essas coisas para fora. Ou procure outra forma de expressão artística ou um envolvimento social. Você sentirá como isso lhe fará bem, como aliviará suas tensões, levantará sua autoestima, ajudará a esperar o que momento certo de alcançar seus objetivos e desejos.

Se você não se sentir capaz de realizar essa movimentação sozinha, não tenha vergonha de procurar ajuda profissional – pois reconhecer nossas fragilidades também é um gesto nobre que só as pessoas amadurecidas são capazes. Sozinha ou com acompanhamento, sua missão visará livrar-se de vários de seus mecanismos de defesa. Ter a atitude de negar a alienação e construir seu próprio destino. O próprio Carl Jung afirmava que perdermos muitas oportunidades na vida por seguirmos mais nossa razão do que nossas intuições. Tenha atitudes… E pode ter certeza, nosso Deus estará aprovando suas ações, pois acredito que somos exatamente como Ele nos criou e iluminou nossas mentes!

Talvez por algum tempo, continuarei neste meu isolamento no mundo das autoanálises e elaboração de ideias. Mas quando eu me sentir seguro para regressar de minhas reflexões, envio-lhe um telegrama dizendo: “Pode preparar o coreto e aquele feijão preto, que eu tô voltando!!!” Nossa amizade continuará sendo uma linda preparação do Criador. Em breve nos reencontraremos, assim como em muitas etapas da arte de viver e questionar nossas existências e atos.

E quando chegarmos à velhice, após passarmos pelos mementos felizes que ainda iremos vivenciar, encontrar-nos-emos sem compromisso em um banco de jardim. E, enquanto nossos netos brincam pela pracinha, tenho muitas esperanças que você me dirá com um tranquilo rosto serenamente enrugado pelo tempo, confessando: “Você tinha razão meu querido amigo. O segredo da felicidade é a coragem de ter atitudes!” Eu com as duas mãos apoiadas na bengala – após ter materializado tantas ideias e personagens em textos espalhados por aí – apenas lhe darei o meu melhor sorriso…

Foto: Google Imagem

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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