CINQUENTA MINUTOS (2014) – Emílio Figueira e Ivan Beteto

Sinopse – Drama em três atos, para três atores, que se passa em um consultório nos moldes de análise psicanalítica. As narrativas de Silvia e Odair acerca de seus relacionamentos e frustrações pessoais evoluem se entrecruzando, apontando para transições dos papéis do homem e da mulher na contemporaneidade e o confronto com o vazio existencial.  Um retrato do amor no século 21.
Personagens
Psicanalista
Silvia
Odair
Amália (mesma atriz de Silvia)
Alberto (mesmo ator de Odair)

AÇÃO DRAMÁTICA
 
ATO 1
 CENA 1 – Um lance
 SOM de chuva. LUZ da noite. Pessoas caminham de um lado ao outro como se atravessassem a rua em uma faixa de pedestre. Estão de guarda-chuvas, capas e trajam roupas de trabalho. O semáforo de pedestres começa a piscar, ODAIR sai correndo de um lado, SILVIA de outro. Olham-se e por um instante, em corrida, quase um esbarrão. Congelam. A luz cai em resistência.
CENA 02 – Silvia
Um consultório psicanalítico. Poltrona do analista e divã. Um abajur contribui com um clima intimista. Um cabideiro próximo à porta. Silvia entra. Ela está molhada, guarda-chuva pingando. Psicanalista na poltrona.
PSICANALISTA: Pode entrar, Silvia.
SILVIA – Obrigada. (Retira o sobretudo molhado e o pendura junto com o guarda-chuva no cabideiro.)
PSICANALISTA – E então? O que a traz aqui?
SILVIA – Muitas coisas… (Silêncio.) É engraçado, doutor, mas seu consultório se parece muito com a casa do meu pai. O senhor coleciona muitas coisas antigas. (Silêncio. Em pé observando a estante.) Livros, livros, livros… É preciso ler muito para chegar aqui. (Silêncio.) Que ironia eu estudei tanto pra acabar aqui em uma análise. Sou daquela geração que entrou na escola aos dois anos de idade. No telefone, eu te disse que sou economista? (Silêncio.) Fiz pós-graduações, MBA em recursos humanos…
PSICANALISTA – Sim?
SILVIA: Com quarenta anos, o senhor acha que ainda sou nova, que tenho mais pra fazer? (Silêncio.) O senhor não fala nada?
PSICANALISTA – Este horário é pra você. Fale livremente. Deseja se sentar?
SILVIA – Eu peguei muita chuva pra chegar aqui, tá uma tempestade lá fora, por isso que me atrasei. Me desculpa. (Riso.) Acho que me atrasei pelo menos uns vinte anos pra chegar aqui. Aquele rapaz, que saiu daqui agora pouco, era seu paciente também? Ele saiu meio atordoado, achei que fosse ser atropelado no semáforo. Um rapaz daquela idade precisando de terapia? (Silêncio.) Ele tem o que? Dezoito anos? Com a idade dele eu estudava pro vestibular, além de inglês e o espanhol. Meu pai dava um duro! Minha família não tinha muito dinheiro. Sou muito apegada ao meu pai, ainda mais agora que ele tá doente. Eu sou filha única. Isto é um problema, doutor, a criança que não tem irmãos?
PSICANALISTA – É um problema pra você?
SILVIA – Eu… Eu já sou adulta, acho que não tenho mais problema.
PSICANALISTA – Você está me dizendo que acha que adultos não tem problema?
SILVIA – Não, eu quero dizer com relação essa coisa de ser uma criança sozinha, sem irmãos pra brincar, sei lá. (Silêncio.) Mas é claro que eu tenho outros… Se não tivesse, talvez nem viesse aqui. Mas… Um rapaz como aquele…
PSICANALISTA -Um rapaz como aquele?
SILVIA –(Silêncio prolongado, respiração longa.) Acho que sou uma idiota, talvez eu seja. Preciso sentar, doutor. (Senta-se.) Eu não sou casada, não que eu não tivesse tentado, mas… O senhor sabe como os homens são hoje me dia? Não sabe?
PSICANALISTA – Eu sei?
SILVIA – Meu corpo foi mudando. Me olho no espelho e sei que não é isso que eles procuram… Essa magreza, essa falta de curvas, agora a idade… Eu sempre dei um duro danado pra conseguir as coisas em minha vida, fiz intercambio, trabalhei em filiais da Argentina, da Flórida, Londres, Rio, e aquele mercado competitivo, quando ia ver, no dia seguinte, nem sabia em qual apartamento eu iria ficar. Não conseguia se quer planejar um final de semana da praia! Mas eu sou muito boa no que eu faço. Sou reconhecida por isso, mas sou sem graça, eu acho. (Silêncio.) Sei lá. Eu olho pro senhor e me lembro de quando me diziam: “Deixa disso, você não é mais criança!”. No que o senhor pode me ajudar?
PSICANALISTA – Você precisa de ajuda?
SILVIA – É… Eu preciso de ajuda. Tô precisando de conselhos, sei lá, de motivação, de apoio, de pensar, sei lá…
PSICANALISTA – Sei lá?
SILVIA – Hoje, lembrando-me dos meninos que gostei na minha infância, dá vontade de rir. (Risos.) Mas eu também procurava alguém ideal. Ele tinha de ser inteligente, racional, sério. Parece que eu precisava de conquistas, de alguma aventura também, mas independência, ultrapassar a vida cotidiana, surpreender-me, unir-me a outros jovens com os mesmos ideais. Era tudo mais vivo. Eu lia muito poesia inglesa, Byron, William Yeats, T. S. Eliot… Queria amigos para minhas pra falar do que eu pensava, de quem eu amava, de escrever sobre o amor no caderno de trigonometria… Viver um triangulo amoroso… Ninguém sabia que eu queria tudo isso. Eu era uma ilha, um ponto pelo qual não se passava nenhuma reta. Um ponto sem círculo. Talvez me achassem distante. Acho que só tinha uma amiga e os meninos deviam me achar muito chata. (Pausa.) Acho que esse é o “sei lá”. O tempo passou, tornei-me uma profissional bem-sucedida, tenho tudo o que eu quero, mas tem o “sei lá” que não quero. Não sei o que é. Acho que é por isto que estou aqui.
Luzes se apagam.
 
CENA 03 – Odair
Odair chega ao mesmo consultório com um violão nas costas. Psicanalista sempre na mesma poltrona.
ODAIR – Oi, doutor. Não me atrasei dessa vez, não foi? Sei que você não gosta muito de falar, mas acho que eu hoje mereço um elogio.
PSICANALISTA – Você chegou no horário combinado.
ODAIR – Tá… Nada mais que minha obrigação, ok. Mas só queria dizer que já está fazendo diferença eu vir aqui na terapia. Aquela criança perdida em dia de feira tá mais orientada! (Riso.) Esses três meses não tem sido inúteis.
PSICANALISTA – Te faz diferença vir aqui? Como assim?
ODAIR – Assim… Tipo… Não reparou neste violão que eu trouxe? Comecei a fazer aulas… Depois daqui eu vou ter a minha primeira aula pra falar a verdade. Vai ser um amigo que vai me ensinar, doutor. Aquele, o Cássio da faculdade, que costuma ir em casa. Sabe que não tenho grana.
PSICANALISTA – Não tem?
ODAIR – É doutor, por isso negociamos pra fazer a metade. Tipo… Eu sou estudante ainda, tô com aquele emprego na casa noturna. Mas… Mas… Não posso ainda me dar o luxo de fazer aulas particulares ou pagar mais para o senhor. Eu nem se quer tenho ajuda da minha família.
PSICANALISTA – Não tem ajuda da família?
ODAIR – É modo de dizer, doutor. Eu… Eles me dão muito… Muito apoio moral (Riso.) Tô brincando. Mas acha que é fácil contrariar a vontade de uma família inteira, vir pra São Paulo pra estudar Artes? Meu pai ainda acha que sou gay, pra você ter uma ideia. No caso, a única ajuda que rola são duzentos reais que minha mãe deposita escondido do meu pai. (Silêncio.) Minha mãe me ajuda muito. Mas pro meu pai eu deveria estar na medicina como eu comecei. Na cabeça dele não entra trocar medicina em uma faculdade pública por qualquer outro curso, ainda mais de Artes. E olha que eu só fiz um ano. Na cabeça dele não entra!
PSICANALISTA – E na sua cabeça, entra?
ODAIR – Cara… Desculpa. Doutor. Eu… Eu tenho o mesmo nome que meu pai e ele é médico. É estranho, não sei te responder isso. Eu gosto, amo o curso de Artes, mas… Mas não é mesma coisa que se sentir dentro de lá, não sei se tô conseguindo te explicar direito. Meus amigos são os professores e o Cássio, tem outros com quem sempre troco ideia, muitos outros… Mas acho que sou chato por ser extrovertido, não sei, parece que não me envolvo. Não sei se tô no lugar certo ainda. Eu sei que quero ser cartunista, mas… Não sei do resto. Esse é só mais um problema que eu não consigo pensar. O senhor sabe que o meu problema que me trouxe aqui foi outro?
PSICANALISTA – Eu sei?
ODAIR – As mulheres. Não notou que ainda não falei delas? Acho que tenho ficado cansado de falar delas. Não… Sempre o artista perturbado! Vou contar. Eu tenho pensado na história delas, sabe. Eu estava copiando umas gravuras da década de 60, no estilo tipo “We Can Do It”, e daquela coisa de queimarem os sutiãs em praça pública. Elas foram deixando de ser donas de casa, saíram pra trabalhar. Cursaram universidades, fizeram cursos, deixaram de lado o rótulo imbecil de “sexo frágil”, trabalho, estudo, estudo e trabalho tudo ao mesmo tempo. (Levanta e olha para o psicanalista, perguntando ironicamente.) Será que fizeram uma boa coisa para elas mesmas? (Volta para a posição normal.) Mesmo com esse acúmulo de atividades, acho que sim, doutor. Hoje as mulheres, além de serem em maior número, estão mais bem preparadas para os cargos mais altos e chefias. Mas em compensação vejo que a vida sentimental dessas balzaquianas solteiras anda uma merda! (Levanta do divã e anda pelo palco.) Eu sei, todos somos livres para escolher nossos passos. Mas também temos que ser suficientemente capazes para arcar com as consequências das nossas escolhas! As mulheres de que eu tô falando, doutor, optaram por construir sua carreira e independência pessoal e financeira. O projeto de casar, ter um lar, sua família, foi sendo adiado. Hoje na casa dos trinta, quase quarenta, muitas estão querendo também se realizar sentimentalmente e talvez não assumam isso porque o tempo está acabando! (Pequena pausa reflexiva.) Eu… Eu sou muito confuso. Eu acho que sonhava que algum dia fosse encontrar uma garota que ainda sonhasse com “príncipe encantado”, quem sabe uma mulher que se interessasse por um homem sensível.
PSICANALISTA – Sonhava?
ODAIR – Sonhava, não sei se sonho mais com isso. Acho que eu tô cansado de pensar e falar nas mulheres porque do jeito que eu sou parece que não existe mais nenhuma que sirva. (Silêncio.) Acho que nasci na época errada, eu acho. Antes, as mulheres, diante do amor, enxergavam o lado bom do relacionamento. Eram românticas! Quando tinham conflitos entre o casal, ela passava por cima, preferindo focar o lado bom da relação mais do que nos problemas. (Voltando para o divã.) Só que a mulher com mais idade, das trintonas em diante, fica 0mais prática e exigente, fazendo com que o racional prepondere sobre o emocional, ficam mais frias, não sei. Parecem que ficam centradas em si mesmas, em suas próprias idealizações do tipo de homem que deseja. E quem paga o pato, somos nós, os homens. Elas focam muito mais no que nos falta do que em eventuais qualidades que temos a oferecer! Bem… O fato é que as balzaquianas de que eu tô falando, pelo caminho que escolheram, ficaram muito independentes e… Essa independência tem sido uma das principais barreiras para que elas não se realizem também no campo sentimental, eu acho. Parece que elas têm um medo de perder essa independência! Mulheres, consumidoras altamente exigentes em um mercado com muito pouca oferta, acabam procurando pelo em ovo na vida sentimental. E acham! Essas mulheres…
PSICANALISTA – Você conhece essas mulheres?
ODAIR – Eu… Conheço.
PSICANALISTA – Conhece?
ODAIR – Eu conheço, conheci uma… Mas eu, eu…
PSICANALISTA – E você, Odair?
ODAIR – E eu? (Risos.) Eu sou um moleque. Não é isso que sou? Não é por isso que estou aqui? Eu não tenho o direito de falar tantas coisas das mulheres só com 21 anos.
PSICANALISTA – Não tem?
ODAIR – Não sei o que acho… Não sei. Não sei delas. Não sei de mim.
Luzes se apagam.
 
CENA 04 – O fim do macho
Silvia no divã deitada no divã, mesma estrutura das cenas iniciais.
SILVIA – Doutor, eu passei a semana pensando em nossa última sessão. Não sei bem o que, mas tentei me preparar, pensar no iria dizer aqui.
PSICANALISTA – Se preparar?
SILVIA – Sim, eu comecei falando dos meninos que gostava e que… E que tinha um “sei lá”.
PSICANALISTA – Você se preparou pra falar de meninos?
SILVIA – Eu… Eu fico sem graça de falar de homens com outro homem. Coisa besta, eu pareço uma adolescente falando de meninos.
PSICANALISTA – Uma adolescente que fala de meninos, sem graça de falar em homens?
SILVIA – Doutor! O que você está querendo dizer?! (Silêncio.) Não! (Encabulada.) Eu… Eu gosto de homens! Tenho dificuldade nesse assunto. Por isso eu pensei em me preparar melhor pra falar disso com um homem.
PSICANALISTA – Você diz que tem dificuldade de falar com homens?
SILVIA – Isso. Vou falar deles. Daqueles velhos costumes machistas… Sabe, no meio onde trabalho e convivo, tenho visto cada vez mais homens fragilizados, confusos com seus sentimentos e com suas atitudes com relação à vida afetiva, profissional e sexual. Eles parecem estar meio perdidos. E tenho visto cada tipinho… Posso falar disso?
PSICANALISTA – Do que quiser.
SILVIA – (Levanta-se do divã e começa a andar pelo palco.) Tem o “homem menino”, sente o mundo como uma coisa perigosa e torna-se superdependente da mulher. O “homem durão”, buscando segurança através do endurecimento de sua vida emocional, por isso jamais consegue lidar com ela. O “homem ciumento”, possessivo e controlador, precisando ter uma mulher submissa aos seus pés para se sentir seguro. E o “homem executivo”, eterno escravo do sucesso, busca em sua ascensão profissional, no status e no acúmulo de bens materiais a confirmação de seu poder e de sua competência. (Pausa, volta ao divã.) Só que emocionalmente, doutor, o homem já descobriu que não tem mais nada a ver com a imagem de força e poder que a sociedade lhe atribuiu por séculos, quando se escondia de si próprio, dizendo que a mulher é que era frágil! Quando a gente se fazia de frágil, eles nos protegiam, só que na verdade esses homens se amparavam em nós! E quando a mulher resolveu buscar sua independência, revelando publicamente a força que tinha, discretamente, colocou isso em evidência. O senhor está me acompanhando?
PSICANALISTA – Você acha que não?
SILVIA – Bem… Ainda tenho que me acostumar que só eu falo. (Silêncio.) Engraçado, uma mulher falando e um homem escutando. Então, começaram as inversões de papéis, nós mulheres buscando produções independentes, utilizando os homens como reprodutores, ou para cuidar dos afazeres domésticos, enquanto a mulher começou a sair para trabalhar. Se antes valores como casamento, família, maternidade, paternidade eram condições básicas para se constituir uma família e para ter filhos, a mulher de hoje, independente financeiramente e também, por alguns motivos, decepcionada no relacionamento, não se constrange mais em ter filhos sem maridos. Muitos homens estão em casa se dedicando aos afazeres, requisitados para atuar em tarefas, onde poucos atuavam, como a educação dos filhos, por exemplo. Doutor, eu acredito que o mercado de trabalho tem muito a ver com isso. Muitos homens estão desempregados, enquanto as mulheres estão trabalhando fora de casa! (Riso.) Semana passada estava em casa e vi um documentário junto com o Fred, meu gato siamês. Será que tudo isso não é um reflexo de conceitos primitivos ainda presentes na cabeça do homem? Nas civilizações antigas, os povos construíam suas aldeias e estavam cercados dos perigos. Aos homens cabia a missão de sair em grupo pelas matas em busca de caça, o que poderia levar dias, semanas, meses. Enquanto isso, as mulheres ficavam na proteção da aldeia, cuidando dos filhos, de pequenos animais criados para o abate, saíam só ali pelas redondezas para colher frutos silvestres. Quando os homens voltavam com a caça, não faziam mais nada, permanecendo por dias descansando nas redes ou esteiras, sendo servidos e alimentados pelas mulheres, reunindo forças para as próximas caçadas. Só que na atualidade, as mulheres, com sensibilidade e iniciativa, romperam com o primitivismo. O homem, em sua grande maioria, ainda não. Na verdade, ele é um ser passando por uma crise de identidade. Diante da emancipação feminina, o homem não pode mais preservar sua cultura machista. Precisa tornar-se sensível! Olhar sua parceira de igual para igual!(Silêncio.) O senhor acha que eu estou errada?
PSICANALISTA – O que você acha?
SILVIA – (Levanta-se tensa e caminha pelo consultório.)Eu tô falando a verdade! Não tô errada não! O senhor não conhece esses homens de quem eu tô falando?
PSICANALISTA – Você está dizendo que você conhece esses homens?
SOM de trovões.
SILVIA – Vai começar de novo. (Silêncio. Senta-se na beirada do divã, com timidez.) Talvez eles existam. (Silêncio prolongado.) O que eu quero dizer doutor é que antigamente o homem era quem definia tudo… A mulher cabia se conformar, onde muitas fingiam orgasmos, se sentiam frias. Talvez por se sentirem inferiorizadas, não sei, as mulheres permaneceram submissas por longos e longos anos. Mas hoje, à medida que a mulher tem mais liberdade para impor suas necessidades, acaba amedrontando o homem. Sempre foi difícil para ele falar de seus sentimentos, abrir seu coração, compromissar-se afetivamente, porque na cabeça deles isso pode torná-lo frágil e passível de ser dominado pela mulher. Droga!!! (Num crescente, angustiada, fica de pé.) Hoje o homem precisa aceitar nas mulheres certos padrões de comportamento, que faziam parte de seu desempenho no passado. Desde os gestos mais simples como a mulher tomar a iniciativa de aproximação ou convidá-lo para sair. Sempre que a figura feminina toma uma iniciativa, o homem fica desconcertado, sente-se perdido ou até perde o interesse por aquela mulher. Teme entregar-se, num misto de sentimentos de mágoa, raiva e amor. O amor…
PSICANALISTA – O amor?
SONS de trovão e chuva acentuados.
SILVIA – A chuva… Acho que é melhor eu voltar para casa, se não vou ficar presa aqui.
PSICANALISTA – Vai ficar presa aqui por causa da chuva?
SILVIA – (Silêncio prolongado. Lágrimas.) Começou… (Enxugando as lágrimas.) Me desculpa, doutor.
PSICANALISTA – Desculpa?
SILVIA – Aquele rapaz… Como é o nome dele?
PSICANALISTA – Não é apropriado que eu diga. Importa?
SILVIA – Eu acho que… Importa.
PSICANALISTA – E por que motivo te importa?
SILVIA – (Silêncio.) Ele se parece com alguém. Tenho vergonha de dizer…
PSICANALISTA – Quando você achar o momento certo, estarei aqui para te ouvir. Até semana que vem.
SILVIA – Obrigada.
Silvia sai. Luzes se apagam.
CENA 05 – Solidão
Odair deitado no divã.
ODAIR – Doutor, li numa revista que 25 por cento da população mundial sofre de solidão. E o pior, eu sou um deles! Sou mais uma vítima da falta de qualidade nos relacionamentos! Tem sujeitos que possuem vários amigos, mesmo assim se sentem solitários. Assim como eu! O samba, por exemplo. Eu amo roda de samba, gosto de povo, de gente, desta coisa brasileira de estar tudo misturado, do batuque do samba, de tá no meio… Mas eu não tô dentro. Eu estou e não estou. (Pensa.) A solidão parece que tem uma outra cara no mundo de hoje.
PSICANALISTA – Que cara tinha?
ODAIR – Eu acho que mais romântica, mas não sei, não vivi outra época. Eu falo de hoje, isso eu posso. Por exemplo, hoje é possível fazer muitas coisas sem ser obrigado a falar com outra pessoa, muitos serviços na base do “self-service”, por exemplo. A Internet, ao mesmo tempo em que une pessoas que estão em lados opostos do mundo, acaba tendo um papel de separar já que muitos sujeitos trocam os relacionamentos reais pelos virtuais. Eu mesmo não me envergonho em confessar que já procurei alguém em vários sites de relacionamento. Mas com o tempo, fui percebendo que as mulheres dali só queriam massagear os seus próprios egos, se sentindo desejadas. Só queriam falar bobagens com a segurança de que quando não queriam brincar mais com o sentimento dos outros, era só parar de responder! (Silêncio.) Hoje o sentimento de solidão passa a ser cada vez mais frequente no meio da multidão anônima nos espaços públicos, nos edifícios residenciais e nos espaços privados. A violência das ruas, por exemplo, fez com que muita gente se resguardasse dos estranhos ao mesmo tempo em que permanecem estranhos. Eu sei, essa falta de contato em locais públicos afeta a gente conhecer pessoas, afeta novos relacionamentos amorosos.
PSICANALISTA – Relacionamentos amorosos?
ODAIR – Eu falo?
PSICANALISTA – O que acha?
ODAIR – (Silêncio.) É, doutor… Eu vou contar. Houve uma mulher que eu conheci… Estava no Centro Cultural São Paulo fui ver uma mostra de filmes que comemorava os 50 anos de Paulo José. Eu amo cinema nacional, amo tudo que é brasileiro… (Pausa.) Eu estava deprimido, eu acho. Faltei nas aulas da manhã e da tarde e tava disposto a largar tudo e voltar pro interior e esquecer esse negócio de Artes. Então, eu assisti um filme que mudou por completo a minha vida. Se chamava “Todas as Mulheres do Mundo” de Domingos de Oliveira. (Levanta-se do divã.) Era em preto e branco, mas tão… Tão intenso. Eu não entendo doutor, mas acho que às vezes acontecem coisas estranhas com a gente. Eu saí sorrindo, quase como se eu tivesse acabado de arrancar uma roupa suja e entrado em um banho por horas. Estava limpo! Não, doutor, esse filme não falava sobre sonhos mirabolantes, não. Falava sobre a vida! Sobre o quanto é importante viver… Edu, o personagem do filme, era uma pessoa leve e poética, conhecia muitas pessoas e se envolvia com elas. Tudo que eu sou e não sei ser! E então ele encontra o seu amor e quase perde por sua estupidez. Tudo bem, doutor, não faça essa cara. Não é um filme de mil e uma filosofias, o enredo é até batido, mas a verdade ali, não era batida. Pelo menos, não em minha vida. Eu saí de lá com um sentimento de que eu deveria viver a vida com mais força, com mais tesão! E como naquela hora eu tive vontade de sentir um tesão daquele tamanho por uma mulher. Eu nunca amei daquele jeito, nem a vida e nem as mulheres. (Pausa. Senta-se no divã.) Devo ser um idiota. Eu saí bobo de lá, pedi uma coxinha ali mesmo na lanchonete de lá e tudo que eu queria era ter aquele filme de colecionador pra eu assistir quantas vezes quisesse. Como eu queria aquele filme! Então, uma mulher veio ao meu lado e pediu um café. Ela olhou pra mim e falou com naturalidade: “Poxa, você gostou mesmo desse filme. Também é o meu preferido da coleção.” Ela falou em coleção! Ela tinha o filme em VHS!
Luzes se apagam.

CENA 06 – A liberdade
 Silvia no divã, um foco de luz sobre ela. Psicanalista na poltrona como sempre. Outro foco apagado, que se acenderá conforme indicaremos, em outro canto do palco onde está Odair. Por momentos, eles representarão Amália e Alberto.
SILVIA – Hoje está um dia bonito, doutor. Está sol. Cheguei aqui sem problemas.
PSICANALISTA – Você chegou aqui sem problemas?
SILVIA – (Riso.) Tenho sempre a impressão que você analisa tudo o que digo! De tudo isso que o doutor analisa, o senhor tem algo pra me dizer sobre mim? Tenho alguma chance ou sou um caso perdido?
PSICANALISTA – O que você acha?
SILVIA – (Riso.) Você nunca me responde nada!
PSICANALISTA – Sou eu que tenho que te responder?
SILVIA – Doutor, eu fico perdida com tanto enigma. Preciso de opiniões.
PSICANALISTA – De que opinião que você precisa?
SILVIA – (Silêncio prolongado.) Vou ser sincera, doutor. Pensei muito se deveria ou não continuar em análise. Eu… Eu não sei. Quarenta anos, sem filhos, sem casamento, tenho mesmo que pensar nessas coisas? O que se pode fazer? Acho que pra mim já passou. Sabe? É como naquela poesia de Yeats, When you are old. Quando você for velha, grisalha, vencida pelo sono… (Pausa.) Eu agora tenho me dividido com minha mãe para cuidar de meu pai no hospital, logo depois do trabalho… Tenho amigas que se divorciaram. Tenho o meu gato Fred, faço trabalho voluntário na igreja… Será que…? (Silêncio.) Mas ao mesmo tempo, eu vejo aquele jovem… Me incomoda! (Levanta-se e caminha.) Fico pensando, pensando, pensando, pensando… A juventude me deprime! Como eu gostaria de arrancar isso de dentro de mim! Como eu gostaria de viver em um mundo de velhos e que pudesse, por esse motivo, ser a única jovem. Mas não sou velha e nem jovem suficiente para nada! Para nada! Até mesmo o fato de dizerem que posso ter filhos até os quarenta e três é horrível. Soa como uma obrigação do destino! Me obriga a pensar nessa possibilidade, como se ficasse culpada se por acaso perder estes últimos três anos.
PSICANALISTA – Como se ficasse culpada?
SILVIA  – Eu já me sinto culpada! (Silêncio.) Doutor, eu, ao todo, tive seis namorados. O primeiro foi aos quinze e durou cinco anos, coisa de adolescente. O segundo, o terceiro e o quarto foram na faculdade. Aí com vinte e cinco decidi definir aquele que seria o meu marido… Mas sabe… O quinto, não parecia ser tão responsável como o sexto, mas o sexto… O sexto durou até os trinta e seis anos, quando ele, agindo feito criança, ficou com medo de ir adiante com a ideia de morar junto. Foi por isso doutor que falei todas aquelas coisas na última sessão. Ainda não engoli a ideia de que um homem tenha medo de ser homem nos dias de hoje, de um homem que tenha medo de dividir, enfim… Estou confusa com isso.
PSICANALISTA – Confusa com o quê?
SILVIA – (Silêncio prolongado.) Aquele rapaz que vem aqui, doutor. (Silêncio.) Não é culpa de nenhum dos meus ex-namorados o fato de eu estar aqui, não é por eles… (Emocionando-se.) Mas é culpa…
PSICANALISTA – É culpa?
SILVIA – É culpa de um rapaz de vinte anos. O único dos homens que eu amei. (Silêncio prolongado. Lágrimas.) Fico constrangida, doutor. Mas um menino. Um menino ensinou a amar! Ele me fez ver que tive quarenta anos inúteis, sem saber nada sobre a vida. (Silêncio. Enxugando lágrimas.) Não sei por onde começar.
PSICANALISTA O que te vem à cabeça?
SILVIA – Bom, eu não sei o porquê, doutor, mas ligo o meu encontro com esse rapaz a algo mórbido, como um casamento em um velório. (Caminha até o proscêncio, imaginativa. Foco sobre o psicanalista se apaga. Mundo de sua memória.) Algum tempo atrás ocorreu uma exposição de quadros no MASP de Caravaggio.  Fazia dias que havia prometido para mim mesma que iria vê-los. Combinava com uma amiga e ela sempre acabava desmarcando por um motivo ou outro. Acho que já fazia um bom tempo que eu nem se quer saía de casa. Muita hora extra, já voltava de casa para o trabalho e nos finais de semana visitava as filiais da empresa. Meu pai nem sequer estava doente e já era muito difícil conseguir um dia livre pra vê-lo. Eu já estava percebendo que minha amiga não era muito interessada em arte, então aproveitei o feriado de 12 de Outubro e decidi ir sozinha antes que a exposição terminasse. (Música clássica em cravo.) A solidão apronta histórias estranhas. Parece que eu ouvia uma música em cravo desde o momento que acordei e assim que saí de casa, subindo a Pamplona caminhando, eu vi que no céu não havia nenhuma nuvem. Há quanto tempo eu não olhava o céu por um breve instante. (Pausa.) Na noite anterior havia pensado em me matar, não como uma vontade em si, mas com uma vaga sensação de que se isso acontecesse nada morreria, digo, nada mudaria… O tédio tem dessas coisas. Mas o sol se mostrando em um céu límpido foi tão novo, tão diferente, que me deu vontade de respirar. Subi empolgada até a Paulista e por um momento pensei que todo o contrário da minha vida fazia sentido. E eu sorri. Eu me lembro que sorri. Parece que eu tinha uma sensação de um propósito naquele dia. Nem se quer me importei quando encontrei uma fila grande para entrar. Havia velhos, jovens, casais, gente descolada metida a intelectual e até crianças. Sim, eu acho que foi aqui que pensei em algo mórbido, como uma porta ou um caminho que leva as pessoas pra outro lugar. Elas conversavam, falavam de livros que leram, músicas que ouviram e quadros que mais amavam. E eu… Eu sozinha, eu pensei que talvez devesse ler mais como fazia antes, amar mais quadros, pois minha vida era uma tela em branco, no máximo cinza, de tanto trabalho. Acho que me senti triste… Mas… Isso não era ruim. Até isso parecia bom, se sentir… (Pausa.) Se sentir. Se sentir triste, porque acho que fazia tempo que eu não tinha tempo pra sentir algo. Terminada a fila, eu segui o roteiro de quadros expostos: O Retrato do Cardeal, São Francisco, São Jerônimo…
Acende o foco em Odair e do psicanalista. Fala de Silvia vai diminuindo junto ao seu foco do proscênio.
ODAIR – Eu sempre tive um certo preconceito comigo por eu não ter um emprego, principalmente nestas coisas de pagar uma bebida e convidar uma mulher pra sair para ir pra um lugar diferente, um barzinho, um teatro… Era como se eu me sentisse menos homem, eu acho. Como se por eu ser um universitário, duro, não tenha a chance de ser um homem completo enquanto não me formar, trabalhar, etc. Parece que nenhuma garota me leva a sério. É o artista, disperso, que vive num mundo à parte! Começa com inúmeros elogios mútuos, falam da minha inteligência, da minha cultura, até do meu jeito sensível, e… As noites se prolongavam, levava as garotas para o kitnet, saía com elas quatro vezes, ligava sempre no dia seguinte, ligava durante semana, e… E tudo virava pó! Tinha a sensação de ficar construindo castelos de areia, mas que sabia que quando chegasse uma onda eles seriam derrubados. Mas por que eu tô falando disso? Porque, porque nome dela era Amália. Quase uma Amélia, uma mulher de verdade. (Odair caminha para o proscêncio, foco se apaga no psicanalista. Similar à imagem de Silvia.) Eu não sei ela era mulher de verdade. Quando Amália disse que tinha uma cópia do filme que eu queria, eu tive a mesma sensação. Pronto! Eu marco, vou em sua casa, transamos, ficamos umas quatro vezes e quando eu for ver acaba antes que eu pense. E nenhuma destas garotas me conheciam, davam o tempo de me conhecer, e mesmo que pudessem ter esse tempo, no final das contas não conheceriam nada, nada, de alguém que está…
PSICANALISTA – Está?
ODAIR – (Silêncio.) Inacabado. Eu acho que sou inacabado. Tudo bem, na vida tudo se muda, nada está acabado, mas eu tenho essa sensação de que estar inacabado pesa mais que as coisas novas que podem vir. Não sei… Parece que falta chão, coisas concretas que me orientem. Mas sei que mesmo assim eu disse uma coisa a Amália. Você quer mesmo que eu vá em sua casa pegar um filme? Você é uma mulher! Uma mulher madura, cineasta, o que você espera da vida? O que você pretende ao se envolver com um jovem dez anos mais novo? É o sexo? Pelo sexo vale a pena se envolver, caso todo o amor não esteja garantido? É isso? E todas as outras coisas, como o carinho, a companhia, ter alguém com quem possa se fazer uma vida, em que valha a pena lutar, compartilhar sonhos? Onde fica isso em sua vida?(Silêncio.) É claro que não disse nada disso… Sua beleza, firme e decidida, era tudo que eu precisava.
Foco de Odair se apaga enquanto fala. Acende-se gradativamente o foco de Silvia que está no divã.
SILVIA – Foi então que eu vi a violência de um quadro: A Medusa Morta. Eu… Eu… Paralisei. (Silêncio.) Eu não percebi, mas debaixo do meu olho, o meu rosto, tava tremendo, tava pulando. Uma senhora de vestido florido ainda me perguntou se eu estava bem. Eu… Eu tô bem, falei. Ela disse: “Muita violência, muita violência” e franzia a testa, mas… Mas… Eu não sei. Era violência? Era realidade? Então, eu não sei te dizer como, mas eu, eu, conheci ele. (Silêncio.) “Ela falou isso porque você está com o seu olho tremendo”, disse ele. Mas eu não me sentia assim, eu não sabia que sentia algum tipo de raiva, quem sabe, ou outro sentimento qualquer, mas… Mas naquele momento em que vi Alberto pela primeira vez tive uma sensação estranha, doutor. Me diga se eu estava ficando louca, doutor, mas eu tive uma sensação de aquele rapaz fosse um anjo saído de um quadro. Como se chama isso, doutor? Sabe, eu sou uma mulher comum, que toma a sua cerveja em casa depois do trabalho, vê um noticiário, uma novela, com um gato do lado… Com quarenta anos, eu tive uma experiência de como se uma barreira, um corte, não, como se algo houvesse sido arrancado de meus olhos naquele momento, uma venda, que naquele exato segundo em que olho aquele rapaz, ao contrário do que se diz de uma medusa, eu havia sido transformada em carne e deixado de ser pedra. Eu… Eu vi um anjo e tive medo. Ele me perguntou se eu havia me assustado com ele. A música em cravo na minha cabeça pareceu acelerar, fiquei ainda mais paralisada. Ele sorriu e me convidou pra beber uma água. Eu aceitei, era ali perto. (Imaginativa. Odair aparece em foco como se fosse Alberto.) Ele tinha uma coisa, um ar de Mickey Rourke, uma coisa de tímido devasso que não sei te explicar. Ele logo me disse:
ODAIR – Tenho reproduções Caravaggio que eu mesmo fiz. Essa medusa me inquieta é a única que não consegui reproduzir o tom. Esse espanto que você teve eu nunca consegui. Isso é o que diferencia uma obra verdadeira de uma cópia.
Foco de Odair se apaga.
SILVIA – Desculpa, doutor, eu fico com vergonha de falar dessas coisas, você é homem, mas eu senti uma coisa… Ele me convidou para conhecer o ateliê dele. Acha? Ele tava pensando que eu… Mas… Ele tava é louco! Então voltou atrás, falou da gente ir pra um barzinho ali perto, eu precisava pensar melhor, me soltar…
Foco de Silvia se apaga. Foco de Odair se acende.
ODAIR – Amália e eu fomos para um barzinho. Ela tinha tanta coisa para falar. Uma cineasta sempre tem muitas coisa para dizer!  Ela tinha um brilho em seus olhos, um brilho que só tem quem ama vida com intensidade. Apesar de adulta, olhos de criança. Os olhos de quem acreditava em castelos de areia. Olhos que me tratavam como pessoa. (Imaginativo. Foco em Silvia se ascende como se fosse Amália.) Ela falou:
SILVIA – Você se encantou de um jeito com o filme que… Que eu sonho um dia fazer com que alguém se encante com meus filmes. Não é um filme qualquer. A verdade que se reproduz em um filme, a verdade que você sentiu, é a verdade que seu autor tem que ter sentido.
Foco de Silvia se apaga.
ODAIR – Ela me disse que Domingos de Oliveira havia tido um romance verdadeiro com Leila Diniz e que por isso havia tanta intensidade no filme, mas que ela, nunca tinha sido capaz de viver um amor assim. Não. Eu acho que Amália era mulher de verdade, que todos homens estavam errados quando não a fizeram amar desse jeito.
Foco de Odair se apaga. Acende-se o foco de Silvia.
SILVIA – Eu segurava a garrafa d´água e fica apertando. Ele me olhava como um artista que olha um bloco de pedra e enxerga a arte de uma futura escultura. Eu era aquela tela cinza, mas ele via em meu cinza algo que nem mesmo eu via. Não sei explicar. Parece que ele não achava tão inútil a minha vida como eu achava. Quando falei que era economista, eu me achava uma idiota tentando mostrar que isso era algo bom. Mas era bom? Eu já não achava… Queria ser uma mulher livre e criativa, tudo aquilo que eu via nele! Ele parecia realizar em meus olhos toda a ingenuidade e ousadia que não tive em minha vida. Eu me sentia nada perto dele, porque toda a minha vida era premeditada…
Foco em Odair se acende.
ODAIR A forma como viu a medusa não era premeditada. Acho que você sempre foi uma artista e nunca soube disso.
SILVIA – Dá pra acreditar ele dizendo uma coisa dessas? Eu? Artista? Eu sou previsível! Tudo o que fiz em minha vida foi previsível. Sim, este foi o casamento em um funeral. Parece que naquela hora eu pude ver que muita coisa em minha vida havia morrido em pro de uma vida sem sentido. E ele estava ali, me mostrando um sentido que poderia estar vivo!
ODAIR – Eu nunca quis ser nada além do que eu sou. Só me preocupei em encontrar uma forma de ganhar dinheiro com arte. Sou um pintor, hoje, razoavelmente conhecido. Também faço o serviço sujo de encomendas de quadros pra fazer estética na sala de estar, mas isso não impede de que eu faça a verdadeira arte que vale a pena.
Foco de Odair se apaga.
SILVIA – Eu me vendo de segunda a sábado pra ganhar dinheiro. Deveria ter dito isso a ele. Não há arte nenhuma no que eu faço. Talvez só a arte de fazer mais serviço sujo, sem deixar manchas pelo caminho e ter orgulho disso. Reconhecida como uma profissional perfeita e insubstituível. (Foco de Silvia vai se apagando.) Foi tudo que busquei. E uma vez que consegui, não tinha mais o porquê ser a um bom tempo…
Foco de Odair se acende.
ODAIR -Eu me sentia sem graça em dizer que era só um estudante que mal pagava as contas. Um garçom filho de médico? Essa é coisa mais ridícula que eu poderia dizer! Mais ridículo ainda dizer que deixei medicina. Mas eu falei. Acho que o idiota aqui tinha que se certificar de que tinha alguma inteligência ou capacidade pra fazer algo que prestasse além de uma faculdade de Artes. Mas eu falei que eu fazia Artes e que quem sabe um dia eu seria um Cartunista de algum jornal conhecido ou trabalhar em um filme de animação. Pura ilusão! Nem eu acreditava nisso. Talvez falasse pra tentar conquistar. Dizer que eu amava a arte pela arte seria muito infantil. Ela falou:
Foco de Silvia se acende.
SILVIA – Eu vivo de cinema. Ganho dinheiro com isso, mas não vivo a arte do cinema. Faço filmes promocionais e toda a coisa que se precisa para ter grana. Eu acho mesmo que é preciso ter grana para o cinema. Os curtas que fiz acho que você não conhece.
ODAIR – Eu realmente não os conhecia. Mas ela pagava as contas dela. E quando ela falou em valores eu fiquei mudo, mudo da minha incompetência de imaginar que nem em medicina, como cirurgião plástico, eu conseguiria. Ela veio de baixo, nem pai rico ela tinha. Eu era mais um filhinho de papai cheio de sonhos e com pouco talento. Mas ela insistia que eu tinha algo a contribuir.
SILVIA – Você pode realizar os seus sonhos. Porque você viveu coisas, experiências, que fazem você ser mais maduro e inteligente que a maioria da sua idade. Se vai dar certo ou não é outra história. Mas que você largou tudo pelo que você acredita, isso sim, você conseguiu. Isso significa que você acredita em algo. Eu… Eu acho que já me esqueci do que eu acredito.
ODAIR – Era incrível a forma como ela parecia me compreender. Era como se a gente já se conhece há muito tempo. (Foco de Silvia se apaga. Fade out de música.) Tudo me levava a crer que aquela mulher era diferente das outras. Ela acreditava na minha escolha. Eu não me sentia um estudante na presença dela. Parece que eu sentia mais seguro do que era de verdade quando estava perto dela. Ficava mais homem, mais firme. Parecia que ela aprendia comigo, me escutava em cada frase tentando reconhecer os meus sentimentos envolvidos nas bobagens que eu falava. Amália era diferente. Não havia essa coisa de idade. (Foco de Odair vai se apagando.) Éramos duas pessoas com uma afinidade imediata que ia além das aparências.
Foco de Silvia se acende.
SILVIA – Eu estava definitivamente apaixonada por ele. Era um crime? (Foco de Odair se apaga.) Por nossa diferença de idade? Ele era um homem com aquela idade! Parecia já saber o essencial pra se levar uma vida com sucesso afetivo e profissional. Eu com trinta não tinha essa competência! Mas… Será que ele me queria mesmo como uma mulher? Será que ele não tinha aquela coisa de procurar uma mãe em mim? Não! Eu não queria ser a mulher premeditada. Eu iria ter coragem de me envolver, sem medo! Não ia inventar nenhuma desculpa desse tipo, não desta vez em que um anjo saltou de uma tela. Eu decidi naquele momento aceitar o que ele dissesse, caso ele quisesse…
Luzes se apagam.

CENA 7 – Episódios felizes
Palco livre. Imaginação. Proscênio dividido para Silvia e Odair. Foco em Silvia.
SILVIA – Foram dias em que não via o tempo passar. Ficava no trabalho pensando nele, trocávamos mensagens de amor, até que finalmente nos encontrávamos e eu me entregava ao seu corpo sujo de tinta. Eu, por incrível que pareça, deixei de preocupar com bagunça, com ordem nas coisas, com a arrumar a casa… O ateliê era um templo pagão do amor em que nenhuma ordem ou regra existia. Ficava nua diante dele enquanto ele me adorava. Dizia que em cada contorno meu havia uma poesia, uma mímica de arte escondida que ele tentava decifrar. Imagina! Meu corpo, meu corpo foi do trabalho durante a minha vida toda, nem mesmo vaidade eu tive… Dormíamos agarrados, no chão mesmo, como crianças felizes, sem suspeitar da inocência de dizer: te amo. Te amo! Me sentia como se estivesse na adolescência, sem a crise de me achar feia ou a existência de algo proibido. Tudo era possível, desde que a gente dissesse: meu amor. Gostava quando ele aparecia pra um jantar, com alguma marca de tinta na roupa e que eu percebia. Me agradava todas as coisas fora do lugar. Gostava de encontrar tinta colada no cabelo dele. Gostava das vezes em que ele pegava as minhas planilhas e amassava, dizendo que o momento era dele. Aquele jovem era meu homem, meu anjo, meu semideus. Nem me importava com algumas de suas desculpas sobre atraso… Seu atraso era vivo, romântico, eu parecia-me sentir mais viva até quando tinha ciúmes, pois eu sentia alguma coisa diferente do tédio hermético da minha vida. Passava a noite imaginando como seria se um dia, nosso corpo unido desse um filho. Não porque eu quisesse, mas imaginar um nome pra um filho seria o mesmo que dar nome ao amor que eu sentia por ele. (Foco de Silvia vai se apagando e se acendendo o de Odair.) E tudo era eterno, e grande, do tamanho dos meus sonhos.
ODAIR – Eu me sentia alguém. Ela não se importava em pagar qualquer conta, mas valorizava ao máximo quando eu ia lá e bancava. A gente ia para o motel e ela falava Bertolutti. A gente almoçava e ela falava de Marco Ferreri. A gente ia pra cama e acordava como se fosse a primeira noite de um casal virgem. Não reconhecíamos as nossas diferenças de idade. Sentia-me a vontade pra sonhar, pra falar do que sentia, sem o medo de ser atingido com um cala boca. Era tudo tão vivo e tão intenso que não falávamos de futuro. Fomos a exposições, mostras. Éramos duas inteligências que se completavam, antes que um dissesse o outro já sabia. Eu assistia a seus filmes e dava os meus palpites. Ela via meus desenhos e dava nomes e enredos que eu nem imaginava. Dormíamos sobre a arte, e acordávamos artistas como se na vida nada mais houvesse com o que se preocupar. Nada era muito planejado, só precisávamos de um filme novo, de uma imagem diferente, que nos fizesse imaginar e filmar em pensamentos uma verdade que fosse nossa… Eu tinha a impressão de que ela me dava a firmeza que eu precisava.
Luzes apagam. Fim do primeiro ato.

ATO 2
 A fusão dos enredos. Mudança para o tempo presente.
CENA 8 – As vicissitudes de Silvia e Alberto
Ateliê. Cavalete com quadro. Coisas de pintura. Um cabideiro com o casaco e a bolsa de Silvia. Silvia e Alberto (Odair). Alberto está pintando. Silvia sentada em uma banqueta o observa trabalhar.
SILVIA – Eu estou amando de passar os finais de semana em sua casa, Alberto!
ODAIR – Tá…
SILVIA – Vamos para praia na semana que vem, vamos fazer alguma coisa diferente. Pisar na areia! Sabe, eu passo muito tempo dentro do escritório, queria ir um pouco pro ar livre. A gente pega o carro fica na casa do seu tio e…
ODAIR – No fim semana que vem, eu não vou poder. Eu também não gosto de praia.
SILVIA – Poxa, mas seu tio já ofereceu umas três vezes! Você pode levar seu material pra lá…
ODAIR – Você só pode tá contando uma piada de mau gosto.
SILVIA – Ok. Esquece a praia. Vamos então para um hotel fazenda, hein?
ODAIR – Você não entende não é mesmo?
SILVIA – O que?
ODAIR – Esquece.
SILVIA – Não. Fala.
ODAIR – Você quer que eu desenhe?! (Irritando-se.) Acha que a minha profissão é um lazer de fim de semana? Eu trabalho com modelos, com iluminação própria, e com você por perto…
SILVIA – Eu?
ODAIR
Você não me deixa trabalhar faz um mês. No fim de semana é quando eu trabalho. Durante a semana é o lixo que encomendam.
SILVIA – Pensei que você gostasse que eu ficasse aqui.
ODAIR – Gosto que você venha. Mas… Preciso de liberdade.
SILVIA – Liberdade… (Silêncio. Aproxima-se dele segura o seu braço. Riso.) Tá bom! Desculpe, eu não tinha intenção de desmerecer o seu trabalho. Mas agora… Larga esse pincel Alberto, vamos dar uma volta você tá ficando estressadinho.
ODAIR – (Erra com o toque.) Você é louca! Olha o que você fez. Maluca! Tá vendo? (Sai de perto do quadro e caminha nervoso.) Você tá vendo? Tá vendo a merda que é trazer mulher pro ateliê? Tá vendo a merda que você fez? Olha só!
SILVIA – Foi sem querer, Alberto…
ODAIR – Sem querer?! Não… (Possesso joga o cavalete com o quadro no chão.) Está satisfeita? Agora estou livre pra você! Pronto, parei de brincar com tintas pra ser o seu maridinho.
SILVIA – Eu nunca falei isso, Alberto! O que foi? Por que está tão nervoso?
ODAIR – Escute bem uma coisa, Silvia. Eu fico ligando no seu trabalho pra te atrapalhar? Eu chego lá sem avisar e te chamo pra tomar uma bebidinha?
SILVIA – Alberto…
ODAIR – É por isso que com quase quarenta anos você nunca se casou! É pegajosa, não respeita o espaço do outro.
SILVIA – (Chorando.) Eu…
ODAIR – Não adianta chorar, porra! Cadê a sua independência? Olha… Olha, desculpa tá. Eu não queria… Eu… Eu falei sem pensar, Silvia. Você me irritou, desculpa. Te machuquei?
SILVIA – Você acabou de destruir a sua melhor tela.
ODAIR – É que sou profissional, Silvia. Tente colocar isso na sua cabeça.
SILVIA – Acho que a gente… (Vai até o cabideiro pegar o casaco e a bolsa.) Preciso ir. Acabou.
ODAIR – Espera. Eu estou te explicando.
SILVIA – Você já disse o que você pensa de mim.
ODAIR – Os seus beijos, seus carinhos… Nosso sexo era maravilhoso…
SILVIA – O sexo, Alberto? Será a minha experiência de quase quarenta? (Silêncio. Pára.) Sabe, Alberto, eu até imaginava que poderia suportar as traições de um artista…
ODAIR – Nunca te traí!
SILVIA Tá, Alberto, não precisa mais mentir. Não vem ao caso. Mas você precisa saber que eu não pretendia me casar com você. Que não me importa se você me traísse ou não…
ODAIR – Eu não te traí, droga!
SILVIA – Eu poderia até suportar as traições de um artista, mas nunca, nunca, poderia imaginar, me preparar, pra uma falta de sensibilidade.
ODAIR – Eu quero ser grande! Não posso me dar ao luxo de namorar o tempo todo.
SILVIA – Você quer ser grande, Alberto? Cresça. Aprenda que mulheres mais velhas como eu precisam muito mais do que um cara bom de cama. Aprenda que se você quer ser artista precisa saber de outras coisas da vida.
 Luzes se apagam.

CENA 9 – As vicissitude de Odair e Amália
Sala de um apartamento. Odair e Amália (Silvia) no sofá assistindo a um filme.
ODAIR – Eu nunca namorei assim.
SILVIA – É namoro?
ODAIR – (Risos.) É namoro, não é?
SILVIA – Namoro… Entre um garoto e uma balzaquiana.
ODAIR – É. Eu sou um garoto, não sou?
SILVIA – É um garoto. E eu a balzaquiana.
ODAIR – Acho fantástico que a vida tenha dado um jeito nos colocar juntos. Eu sou um sortudo, eu acho.
SILVIA – O que é a sorte se não um encontro entre conveniência e coincidência?
ODAIR – Conveniência?
SILVIA – Esquece, querido. Esse filme tava muito chato. Esse diretor parece que perdeu o fio da meada.
ODAIR – E o nosso filme? Tá indo bem, não tá?
SILVIA – (Silêncio.) Tô com uma enxaqueca me estourando a cabeça. Desgruda um pouco de mim.
ODAIR – Já tomou remédio.
SILVIA – Você acha que remédio resolve? (Levanta-se.) Pra algumas coisas não tem remédio que resolve não.
ODAIR – Tem alguma coisa te incomodando?
SILVIA – (Risos.) Se tem alguma coisa me incomodando…
ODAIR – O que foi? Quer conversar?
SILVIA – (Silêncio. Respira fundo.) Garoto! Você sempre tem que ser compreensivo? Falar, falar e falar… Que porre!
ODAIR – Ok, ok.
SILVIA – Dá um tempo, cara! Deixa eu respirar. (Pausa.) Desculpa, tá?
ODAIR – Tá, beleza.
SILVIA – Não me leve a mal não, mas eu tive um dia de matar na produtora, Odair. Não queria tá pensando em nada agora, tô cansada, mal tomei banho e tem esse negócio de ficar trancada no ap. É o “Ó”!
ODAIR – Vamos pensar em alguma coisa da próxima vez.
SILVIA – Mais que merda, Odair. Você não tem iniciativa? A gente devia ter saído hoje. Por que não fomos beber?
ODAIR – Você não falou que tava com enxaqueca logo que te encontrei?
SILVIA – É enxaqueca de estresse. A gente saia relaxava, eu esquecia aquela bosta do curta e tava tudo certo. Era grana?
ODAIR – Como assim? Grana?
SILVIA – Você não tem grana, eu sei. Eu pagava.
ODAIR – A gente sai agora. Pra onde?
SILVIA – Agora, Odair? Que droga! Ainda pergunta pra onde?
ODAIR – O quê que tá te atormentando, Amália?
SILVIA – Ter arrumado um filho agora com quase quarenta!
ODAIR – Que negócio é esse?
SILVIA – Homem, Odair! Homem! Preciso de um homem aqui comigo. Eu tô com uma porrada de problema. Custa você ser homem e dirigir um pouco as coisas para mim? Facilita, poxa!
ODAIR – Eu não entendo.
SILVIA – Você não entende, né? Como você veio aqui? Eu te busquei, dirigi, perdi três horas no transito… Sabe, garoto, tem dia que a mulher tem que ser mulher e homem homem, você não entende isso?
ODAIR – Eu não tenho carta, não tenho carro. Você é que se dispôs a ir me buscar.
SILVIA – Cara… (Respira fundo. Pausa.) Não vai mais rolar.
ODAIR – Amália…
SILVIA – Acabou. Sem crise. Sem estresse, tá bom? Sem mágoa pra ninguém… Mas isso não tá bom pra nenhum dos dois. Não quero que a gente brigue.
ODAIR – Mas e esse tempo que a gente tava junto?
SILVIA – Não dá mais certo além de onde fomos.
ODAIR – A conveniência? Já não é mais conveniente pra você. Não é?
SILVIA – Odair, e você? Não tava tudo conveniente e cômodo pra você? Eu pagando, com carro, com tudo na mão…
ODAIR – (Vai até a porta ir embora.) Você não precisava jogar na cara. Eu sei que sou esse aí mesmo que você falou. Mas você gostava. Não gostava? Se mudou de ideia agora, não precisa me atacar. Não precisa inventar mais desculpas. Só deixou de gostar e ponto.
Apagam-se as luzes.

ATO 3
CENA 10 – Cena final de Silvia
Consultório. Em pé, no proscênio, foco em Silvia que fala ao psicanalista. Falas cadenciadas.
SILVIA – (Com lágrimas.) Tudo é como se na história da sociedade ocidental, na medida em que fomos conquistando mais liberdade, fomos nos sentindo mais solitários, insignificantes e distantes. (Silêncio. Enxuga as lágrimas.) Quando penso um pouco nas minhas aulas de história, vejo que, ao contrário, quando tínhamos menos liberdades, éramos mais ligados uns aos outros e essa ligação nos dava segurança. Segurança… (Pensa.) Os povos primitivos tentaram lidar com essa sensação de distância da natureza, identificando-se com suas tribos ou clãs, compartilhando mitos, religiões e ritos tribais, o que lhes dava segurança de permanecer no grupo. Aceitavam regras e costumes do grupo, da família. Uma família… Vieram então aqueles que se revoltaram contra a submissão ao grupo, pessoas que lutavam por mais independência, liberdade e a oportunidade de expressar todas as suas habilidades originais humanas… (Olha para o psicanalista.) A evolução…
PSICANALISTA – Este é o seu tempo. E a sua evolução?
SILVIA – Já há alguns meses estou em análise. Às vezes falo de mim. Às vezes falo da humanidade. Mas nunca sei realmente o que falar. O que procuro dentro de mim mesma? Às vezes penso que eu e a humanidade sejamos a mesma coisa. (Silêncio.) Tudo é como se na evolução da história cada geração trouxesse em si todo o processo de busca de liberdade e de satisfação, e está busca é minha! A história da humanidade é a história da nossa busca da liberdade. Onde está a minha liberdade?! Hoje, ironicamente, o homem, a mulher contemporânea, apesar de seu avançado conhecimento intelectual desconhece a si mesmo, não sabe bem o que deseja e por isso não consegue se satisfazer, se sentindo vazio de realizações.  O que eu desejo?!(Novas lágrimas.) Sabe qual a conclusão a que chego, doutor? É que durante séculos lutamos tanto por liberdade e hoje que a temos com abundância, não sabemos realmente como aproveitar…
PSICANALISTA – Não sabemos?
SILVIA – (Silêncio prolongado.) Eu não sei. Qual o futuro do amor onde só existe a liberdade?
 
Luzes se apagam.

CENA 11 – Cena final de Odair
Consultório. Foco em Odair que fala ao psicanalista. Fala cadenciada.
ODAIR – Hoje estou com vinte e um anos. Não entendo… Após tantos anos estudando, minha suposta convicção do curso de Artes, eu sou invadido pelo desespero e pela sensação de não ter valor. (Uma lágrima.) Após ter investido muita energia em tanta coisa… Será? Será que sei pra onde estou indo? (Levanta-se e caminha pensativo.) É como se alguém dentro de mim me chamasse pra um papo. A gente se pusesse frente a frente numa mesa, e esse eu falasse das coisas que deixei pra trás. Aí, a minha cabeça vai virando de extrovertida pra introvertida… (Olha para o psicanalista. Enxuga a lágrima.) O senhor sabe do que to falando?
PSICANALISTA – Não.
ODAIR – Sabe doutor, já tô um bom tempo em análise. Cada vez mais percebo que o problema não são realmente as mulheres. Sou eu… (Senta-se no divã.) Ou será o fato que perdemos a noção do que realmente é o amor??? (Impassível, se levanta novamente e caminha.) Hoje lemos diariamente nos jornais que tá cada vez mais em alta o amor-passional, egoísta com suas necessidades de exclusividade, de tudo um mundo na mesma hora, muito mais interessado nas atrações físicas, paixão e idealização do parceiro. De surgimento súbito e com pouca duração por ser basicamente muito mais uma questão de emoção e atração do que escolha. É no amor-passional que estão muito mais os medos que o amor se acabe, surgindo os sentimentos de perdas.(Volta ao divã.) Minha mente, acho que como a da maioria das pessoas, tem de maneira natural a mania de ser negativa. Quando me entrego em uma nova relação amorosa, passado o clima inicial de euforia, surgem sentimentos de inquietação, nervosismo vago e indefinido como se fosse impossível preservar tamanha felicidade. (Um riso. Volta a ficar em pé.) Muito louco isso… Tenho várias dúvidas com relação àquela pessoa e momento que tô vivendo. Esse sentimento de perda é cada vez maior à medida que me sinto mais feliz. Um estranho raciocínio, como uma criança que teme perder o seu brinquedo preferido. Amar é mesmo um sentimento bipolar entre a sensação de plenitude e um pânico inconsciente do medo da perda. (Um riso.) Acho que li isso em algum lugar. Eu sei que hoje em dia, quando buscamos cada vez mais o imediatismo, as pessoas não estão dispostas a investir na construção de relacionamentos onde tudo tem o seu tempo de acontecer, respeitando as fases. Com isso, afastam-se cada vez mais de seus direitos de felicidade. Quando surgem as oportunidades, procuramos nas pessoas muito mais seus defeitos, criamos os obstáculos para não entramos naquela relação, o que no fundo revela o nosso medo de amar, um jeito de apagar nossa alegria. (Senta e olha para o psicanalista.) Doutor, após tanto tempo de analise, chego à conclusão que o que busco mesmo para minha vida, é um amor-companheiro, menos intenso e mais tranquilo. Com emoções também fortes, mas calmas e estáveis, permitindo espaços para prazeres quem venham de outras fontes além das aparências físicas e do que a pessoa tem. Fundado em respeito pela pessoa, em sentimentos de admiração e confiança, sendo o amor sinônimo de paz e tranquilidade. (Levanta-se, caminha pelo palco.) Será que esse tipo de amor ainda existe? Será que é verdade o que Beto Guedes diz, que “toda forma de amar vale a pena!”?
PSICANALISTA – O que acha?
ODAIR – Talvez quando eu sair daqui, um recomeço…(Silêncio.) Mas doutor, sei que o senhor não dá conselhos, mas o que senhor pode dizer da vida com toda a experiência que o senhor tem?
PSICANALISTA – Você sabe que não é do nosso trabalhar falar de nós, pois o espaço é seu. Mas…(Levanta-se da poltrona e caminha.) Se você me permite. A vida, Odair, é incompleta.  A vida é incompleta porque a gente pensa e pensando a gente separa as coisas em boas ou más, em melhores ou piores, quando na verdade, essas diferenças são a própria vida e só existem porque a gente as vê assim. Os acertos e os erros sempre são do ponto de vista do desejo que se frustra ou é parcialmente satisfeito. Chega o momento em que paramos e nos deprimimos diante daquilo que chamamos de má sorte e talvez culpemos o mundo por passar por estas situações. Então, na crise, somos capazes de ver que tudo depende daquilo que esperamos da vida e que cabe a nós mudarmos o que nos é possível e, no que não é possível, nos conformarmos. O tempo passa para todos e isso não se pode mudar. (No proscênio.) A morte chega para todos e não muda, e no instante em que estamos no leito de morte, a mesma consciência que separou o mundo em coisas más e boas vai julgar você pelo que você viveu. Se você for severo com a vida, ela será com você. Se não ligar para suas frustrações, será tranquilo na morte. Você é jovem e sempre há esperança, ainda que tivesse sessenta, setenta anos, ainda teria esperança, pois na vida, Odair, felicidade não é um coisa que se encontra, não é preciso de tempo pra achá-la em qualquer esquina da vida. (Saindo do proscêncio. Pega o casaco e o chapéu no cabideiro, coloca-os, e abre a porta. Fica segurando a maçaneta até o fim.) Felicidade se vive ao saber que da vida não se deve exigir o que ela não pode te dar, mas felicidade está naquilo que a vida te dá e você aproveita.(Em crescente.) Felicidade está em você contribuir para a vida! O que você fez pela vida ou que você tem feito por ela? Tem feito de alguma diferença para vida você viver ou não? Alguém ou alguma coisa, ainda que seja um cachorrinho, precisa de que você faça algo por ele?
A felicidade que se tem ao se descobrir capaz de algo de útil para as pessoas, de ser capaz de transformar vidas, não se compara a dinheiro ou a coisas que se ganhe! Relacionamentos não são diferentes dessa verdade. O dia mais feliz da vida de muitas pessoas é aquele em que se tem um filho, ainda que essa criança pouco venha dar e mais venha a depender. Ainda que a sorte e vida te desse muitas outras coisas, nada disso te faria satisfeito como se você tivesse feito e contribuído com algo (Suspiro. Pausa.) É preciso, muitas vezes, aceitarmos a frustração de sermos nós os responsáveis por esse sentimento de incompletude e por isso não sermos tão rigorosos. Não culpe o mundo do que não viveu. Não culpe seu corpo por não ser como gostaria. Não culpe os relacionamentos por não serem como você gostaria!  Não culpe a humanidade por ela não ter o tipo de amor que você deseja. Mas… Se possível, sonhe. Sonhe que você pode fazer essa mudança se quiser, que você pode mudar. E se nada der certo, se conforme que ao menos você tentou! Seja feliz com a sua contribuição, ao menos você tentou.

CENA 12 – Final
Similar à cena inicial. Semáforo. No meio da avenida, Silvia e Odair se cruzam, param se olham. Congela a imagem. A luz cai em resistência.
Fim
 

Emilio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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