Conversando Sobre Educação Inclusiva Com A Família – Parte 1 – Por Emílio Figueira

MINHA APRESENTAÇÃO

Olá, tudo bem? Fico feliz por você ter se interessado por essas minhas conversas que creio que poderão lhe ajudar em vários aspectos.

Antes de começar, quero me apresentar. Nasci com paralisia cerebral no final dos anos 60. Época que nem se quer se falava em Educação Inclusiva e éramos totalmente excluídos da sociedade. Mas, por meio dos estudos e da reabilitação, modesta parte, fui alcançando lugares imagináveis para uma pessoa com as limitações físicas que tenho.

Por isto, convido para início de conversa, você para assistir a este meu pequeno vídeo biográfico:

UMA CONVERSA DE CONSULTÓRIO SOBRE CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA

 

Algum tempo atrás, recebi em meu consultório uma jovem senhora que chamarei aqui de Maria para preservar sua identidade. Após nos cumprimentarmos e sentarmos para uma conversa, ela, meio afoita em seu discurso, foi me contando sem que eu a interrompesse:

– Meu nome é Maria, sou mãe do Pedro de sete anos que os médicos dizem ter aparentemente atraso no desenvolvimento psicomotor e na fala. Atualmente, ele estuda em uma escola estadual aqui em São Paulo. Está no segundo ano sem saber ler e escrever e não tem coordenação motora. Hoje, enfrento um grande problema, pois ele é uma criança agressiva, bate nos professores e em algumas crianças quando contrariado ou até mesmo sem motivos. A escola me cobra muito referente a levá-lo a especialistas, mas não vejo cooperação nenhuma dos professores em tentar ter paciência, enfim, não tem especialidade nenhuma em educação especial que, pelo que sei, ajudaria muito! Fui forçada a levá-lo a um psiquiatra que o medicou contra minha vontade, pois acredito que hoje ele é agressivo porque na escola as professoras não souberam lidar com as dificuldades apresentadas. Cheguei a ouvir de professores que eles não podiam fazer nada, que eu teria que ajudá-lo em casa, pois havia muitos alunos. Hoje, posso dizer que sou um pouco mais ajudada, ele tem uma professora de apoio e uma professora que quer ajudá-lo, que tem paciência com ele, tendo alguns métodos de aprendizagem para ele que são um pouco diferenciados. Ele sempre foi tratado com uma criança diferente, nunca tentaram introduzi-lo no meio das crianças normais. Hoje chego a crer que Pedro tem trauma da escola, pois todos os dias me pergunta se tem que retornar no dia seguinte. Eu, como mãe, nunca consigo saber o que acontece dentro da sala, mas, quando a coisa está difícil, eles caem em cima de mim para correr atrás de médicos como se eles fossem solucionar o problema dele na escola. Penso assim: jogaram inclusão nas escolas sem saber se estavam preparadas para tal, sendo que o que vejo hoje é que elas não estão. Só quando a coisa está fora do limite é que eles se preocupam! Há professores de educação especial na Secretaria de Educação. Se eu preciso, eles orientam os professores. Como o senhor, Doutor, pode ver, sou uma mãe preocupada com o desenvolvimento do meu filho na escola e vou atrás de qualquer coisa se for melhor para meu filho! Exijo muito também. Desde que ele entrou na escola tem acompanhamento da Secretaria de Educação, a qual exige que eu o leve para fazer os procedimentos médicos, mas nunca vi o trabalho deles ajudar no desenvolvimento do meu pequeno, o fato só se agrava. Hoje, na escola, ele é agressivo! Bom, acho que desabafei demais…

Confesso que esse primeiro discurso de Maria me deixou muito encabelado. O tempo todo ela acusou a escola e os professores pelo fracasso de seu filho, mas em nenhum momento ela falou sobre a real deficiência de Pedro, diagnóstico e tratamento feito. Pelo contrário, ela demonstrava até certa resistência com relação a isto. Resolvi, então, começar minha investigação por aí e disse:

– Bem, Maria, ouvi seu relato e percebi vários pontos nele que me despertaram a atenção. Pensei em até fazer alguns comentários, mas não sei se essa é a sua vontade, mas, se você quiser, podemos conversar sobre o caso do seu filho e estudar melhores caminhos para orientá-lo.

– Claro que pode fazer os comentários que quiser, pois quando vim até aqui foi para ver e para ter mais informações… Eu agradeceria muito!

– Bem, Maria, mas antes de eu fazer meus apontamentos, quero fazer três perguntas a você: Seu filho faz ou já fez algum tipo de terapia?

– O único tratamento que ele fez foi com fonoaudióloga e psicóloga por seis meses.

– Ele já teve alguma experiência em Escolas Especiais?

– Quando entrou na escola, foi mais pelo convívio com outras crianças e por acharem que isso ajudaria nas outras dificuldades, como fala e coordenação. Nunca foi mandado para uma escola especial, mesmo porque onde moro só há uma e, como ele não tem diagnóstico, é difícil.

– Ele está numa escola regular por sua vontade de mãe ou pela política da inclusão escolar?

– Por minha vontade também, pois me disseram que se eu o colocasse numa escola especial ele poderia regredir, e somente mais agora pela política da inclusão…

Já era o momento de começar meus aconselhamentos:

– Bem, Maria, farei algumas considerações sinceras. Eu posso compreender bem o universo do seu filho por ter a mesma deficiência que ele. O que sinto é que, infelizmente, vocês, escola e família, estão focando somente na parte intelectual do Pedro e não estão se atentando para outras reais necessidades que ele tem. Uma criança com problema de desenvolvimento psicomotor precisa ser assistida por fisioterapeuta e terapeuta ocupacional para se desenvolver ao máximo sua maneira global.

– Doutor, e a questão de ele ser uma criança agressiva, bater nos professores e algumas crianças às vezes quando é contrariado ou às vezes sem motivo?

– Então, isso também é reflexo da falta do desenvolvimento global. Ele tem noção que não é totalmente igual aos demais colegas e, por não ter sido preparado para chegar ao mais próximo de suas possibilidades e lidar com suas limitações, ao ver seus coleguinhas, isso se manifesta nele em forma de agressividade.

– A escola me cobra muito referente a levá-lo em especialistas.

– Viu como eles têm a mesma visão que a minha?

– Mas não vejo cooperação nenhuma dos professores tentarem ter paciência, enfim, eles não têm especialidade nenhuma em educação especial que, pelo que sei, ajudaria muito!

– No fundo, Maria, esses professores também estão perdidos, pois seu filho, se estimulado corretamente por outros profissionais de acordo com as reais necessidades, poderia estar muito melhor na escola, tanto no comportamento como na aprendizagem.

– Fui forçada a levá-lo a um psiquiatra que o medicou contra minha vontade – às vezes Maria repetia os mesmos discursos.

– Aqui, concordo com você, pois pelo pouco que sei o caso do seu filho não é para psiquiatra e sim para terapias de apoio que ele nunca teve e das quais necessita muito!

– Na escola, ele sempre foi tratado como uma criança diferente, nunca tentaram introduzi-lo entre os colegas. Vejo em Pedro um trauma da escola, pois todos os dias ele me pergunta se tem que retornar no dia seguinte.

– Então, aqui questiono: será que essa vontade de manter o Pedro numa escola dessa não está tendo um efeito retroativo? Em vez de ele gostar, dia a dia ele está tomando mais mágoa da escola… Assim, qual aprendizado esse menino pode ter?

Maria ficou pensativa, sem uma resposta. Continuei com minhas observações:

– Veja bem, Maria, de modo geral, acredito mesmo que seu filho não deva ir para uma Escola Especial. Ele tem toda a condição de ser educado numa escola normal, mas para que isso realmente ocorra, não basta só colocá-lo na escola e exigir dos professores, pois estes também são vítimas de uma política mal-entendida da Educação Inclusiva. Você, como mãe, precisa enxergar o Pedro como uma criança normal sim, mas ter ao mesmo tempo noção que ele é uma criança com necessidades especiais: necessidades de fisioterapia para o seu desenvolvimento psicomotor, necessidades de fonoaudiologia para sua fala, necessidades de terapia ocupacional para desenvolver suas autonomias o quanto mais possíveis nas atividades diárias, necessidades de uma psicopedagoga para ser um reforço escolar na aprendizagem dele e necessidades de uma psicóloga realmente especializada em crianças com necessidades especiais para, principalmente, trabalhar a agressividade e a autoestima dele.

Percebi que ela começou a ficar emocionada e continuei:

– Minha sugestão, Maria, é que ele esteja meio período numa Escola Especial e meio período na escola da prefeitura. Isso não significa que o lugar dele seja a Escola Especial, mas que ela seja o apoio que o Pedro precisa, pois ali ele encontrará profissionais realmente preparados para lidar e superar as necessidades dele. Esse é o modelo que tem dado certo para muitas crianças, ou seja, um estudo de forma mista. E, ao longo do tempo, ele deslanchará na escola pública. Se você se atentar para isso, seu filho terá possibilidades enormes para vida dele. Pense bem. Quando eu era pequeno, minha mãe fez tudo isso por mim. E hoje sou um Doutor!

Após essa conversa, Maria deixou meu consultório e voltou à sua cidade. Dias depois, ela me enviou este e-mail:

“Doutor, não sei nem como agradecer o senhor pela sugestão e aconselhamento dados a mim. Neste momento e com tudo isto, sei que direção tomar e digo mais: ainda neste ano retornarei às consultas dele de fono e retornarei a um psicólogo. Correrei atrás de uma terapia ocupacional, a qual ele não fazia ainda, pois meu plano de saúde não dava cobertura e, por isso, estou renovando com outro plano que me dê maior cobertura, pois pelo SUS sempre foi mais difícil tal acompanhamento! Vou me focar agora mais que nunca com estes tratamentos. Em relação à escola especial, não sei ainda se tem aqui na minha cidade, acredito que não, pois, quando ele entrou na escola, as crianças com deficiência estavam indo para uma escola convencional. Muito obrigada por tudo…”

Para saber mais, baixe ao lado o meu livro CONVERSANDO SOBRE EDUCAÇÃO INCLUSIVA COM A FAMÍLIA. Um presente meu para você!

Emilio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

2 comentários em “Conversando Sobre Educação Inclusiva Com A Família – Parte 1 – Por Emílio Figueira

  • março 19, 2019 em 8:35 pm
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    Emilio Figueira, boa noite.
    Por gentileza, me informe:
    Você oferece certificado ou declaração de horas complementares de estudos/palestras dos seus cursos livres?

    Resposta
    • março 21, 2019 em 9:19 am
      Permalink

      Sim, o Certificado estará ao final do curso.

      Resposta

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