Conversando Sobre Educação Inclusiva Com A Família – Parte 3 – Por Emílio Figueira


COMPORTAMENTOS NEGATIVOS DOS PAIS NO PROCESSO DE REABILITAÇÃO DA CRIANÇA COM DEFICIÊNCIA

Se de um lado o tratamento dentro do lar é fundamental para o desenvolvimento da criança com deficiência, por outro há casos de superproteção por parte de alguns pais, o que prejudica na formação dela. A educação recebida pela criança reflete no seu futuro. No livro “Vida de quem não vê”, o autor J. Espínola Veiga (com deficiência visual total) faz uma bela descrição sobre isto: “O filho vai dos três para os quatro anos e nada lhe ensinam. Coitadinho, deixa!… Mexem-lhe o café, picam-lhe o pão, põem-lhe a comida na boca, descascam-lhe a banana, deixam-lhe que meta a mão no prato. Coitadinho! Já basta o que ele sofre!… E a criança não sofre nada com a falta da vista (…). Sofrerá, sim, mais tarde, a consequência dessa educação mal-dirigida”.

Nota-se que esse tipo de comportamento é maior nas mães, não permitindo que o filho sofra o mínimo de frustração que é importante para o seu desenvolvimento. Poderá deixar de lado sua vida para dirigir toda a sua atenção a esse filho. Como se não fosse mais digna de ter um momento para si, não consegue uma descarga adequada para as suas tensões e seu conflito aumenta. Isso se reflete com dificuldades no seu relacionamento conjugal e com os outros filhos.

A criança superprotegida pela mãe pode desenvolver tipos de comportamento, como possessividade e egocentrismo, baixa tolerância à frustração, revolta ou apatia.

A interferência do psicólogo nessa relação mãe-filho deve ser cuidadosa, pois nem sempre ela se dará de forma tranquila, pois há uma vinculação muito forte entre ambos. A mãe precisará ser conscientizada que nesse trabalho estaremos avaliando o seu filho para poder ajudá-la a direcionar o processo de aprendizagem, de modo a orientar a família e os profissionais que estiverem atendendo a criança, facilitando esse processo e o tornando menos sofrido para todos os envolvidos.

Há casos em que os pais permitem que a criança faça tudo o que quiser. Muitas vezes, não a encaminha aos tratamentos necessários, simplesmente porque a criança diz “pai, não quero ir!”. Dão tudo o que a criança pede, criando-a nesta superproteção. Ela não vive entre outras crianças, oportunidade essa em que poderia estar desenvolvendo o psicomotor, as suas possibilidades, além da imaginação e faculdade intelectual. Assim, a criança crescerá com uma visão totalmente distorcida do mundo. Só conhecerá um mundo em que tudo é fácil, em que se tem tudo o que se quer. Os pais estão, assim, contribuindo para a sua regressão, não permitindo que suas potencialidades aflorem naturalmente.

Muitas crianças com deficiências são discriminadas pelos próprios pais que, ao saberem que seu filho nasceu com alguma deficiência, separam-se, não aceitando o fato de ter um filho assim. Há casos de pais que ocultam a existência desse filho. Alguns, economicamente mais privilegiados, mandam construir casas em cidades vizinhas, enviando os seus filhos para lá para ficarem aos cuidados de pessoas estranhas. Eles esquecem que aquela criança, seja qual for sua deficiência, também possui inteligência e talentos concedidos por Deus e precisa do apoio de seus pais para se desenvolver. A conscientização de que aquele é o seu filho, apesar da sua deficiência, e de que ele precisará do apoio parental para vencer é de suma importância.

Os irmãos

Algumas reações, dúvidas, perguntas e problemas podem surgir por parte dos irmãos. Sentimentos como ciúmes, inveja, raiva, superproteção, orgulho, culpa, preocupação, solidão e negação.

O modo como os irmãos são criados (com e sem deficiência) é fundamental: se ambos forem tratados naturalmente iguais, o sem deficiência verá, a certa altura, que seu irmão tem algo diferente, por exemplo, no seu corpo, mas vai tratá-lo sem qualquer indiferença, aceitando-o em suas brincadeiras e orgulhando-se do irmão. Agora, se o tratamento for diferente, o irmão sem deficiência poderá vir a se sentir um pouco marginalizado pelos pais, pois superprotegem o filho com deficiência. Ele poderá até vir a discriminar o irmão superprotegido.

Alguns irmãos enfrentam dificuldades em relação aos amigos. É comum que estes amigos caçoem de outras pessoas com deficiência em sua frente. Ao cometerem algum erro, podem dizer que ele tem problemas como o irmão. Na presença deles, o irmão com deficiência pode fazer algo que envergonhe o seu irmão sem deficiência. Muitas crianças e jovens não fazem isso por maldade, mas sim por falta de informação sobre o que é uma criança com necessidades especiais.

Hideco Watabe, uma professora marcante que tive na AACD no final dos anos 70, disse-me anos mais tarde em uma correspondência:

“Lutar pelos deficientes físicos é um sonho. Acredito que o melhor caminho será a educação do nosso povo quanto à saúde, o esclarecimento aos futuros pais da necessidade de maiores conhecimentos quanto à concepção, nascimento e criação do novo ser, obrigando-os a se prepararem conscientemente para a nova função: a de PAIS!”

 

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Emilio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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