DO CHOCOLATE, AO PRIMEIRO BEIJO! (1997) – Emílio Figueira

SINOPSE: O enredo conta a vida de um rapaz muito dedicado aos estudos, jovem gênio, que conhece uma moça por quem começa a se apaixonar. Certa noite, saem juntos e são envolvidos em um assassinato, onde ela leva a culpa. Juntos partem para buscar a prova de sua inocência e sua principal arma é a própria inteligência do rapaz, analisando e ligando os fatos, encontrando toda as respostas para desvendar o crime em sua autoconfiança.
 
CENÁRIOS: Os cenários vão se diferenciando cena à cena, podendo ser todos imaginários. Assim também, grande parte das ações dramáticas serão imaginárias, através de mimicas.
 
PERSONAGENS:

  • NARRAOR; personagem atuante no enredo, com porte de detetive e usando capa;
  • ARISTOTELES; protagonista, rapaz muito inteligente, dedicando a sua vida apenas aos estudos;
  • ELAINE; irmã de Aristóteres que gosta de curtir a vida numa boa;
  • SUZY; moça fina que contracenará com Aristóteres e por quem ele se apaixonará;
  • RHONDA; velho japones, muito sábio; baixinho, meio corcunda, de roupa modesta e óculos;

FIGURANTES:

  • á mãe de Aristóteres(cena 03);
  • vendedora de bilhetes do cinema(cena 05);
  • um garçom(cena 06);
  • um grupo de vandalos(cena 07);
  • um policial(cena 07):
  • duas velhinhas(cena 07);
  • uma policial feminina(cena 09);
  • figurantes representado uma multidão na rodoviária de São Paulo(cena 09);
  • outro garçom(cena 10);
  • pessoas apreciando a exposição(cena 11);
  • um guarda da exposição(cena 11);
  • dois guardas no Memorial da América Latina(cena 13);
  • os vândalos(cena 14);
  • um policial(cena 14):
  • o narrador/delegado(cena 15);
  • um investigador(cena 15).

AÇÃO DRAMÁTICA

PRIMEIRO ATO
CENA 1 – O JOVEM ARISTÓTELES
ENTRA O NARRADOR.
NARRADOR: Olá. Eu sou o narrador desta história que vocês irão começar a assistir a partir de agora. Sim.  Mesmo porque, toda história policial precisa ter um narrador. E para isso aqui estou para cumprir a minha missão. Daqui a pouco irei sumir de cena. Mas minha voz de vez em quando aparecerá, penetrando os seus ouvidos. (PEQUENA RISADA) Mas vamos ao que interessa. Iremos agora conhecer o nosso personagem principal. (ARISTOTELES ENTRA CAMINHANDO DEVAGAR, COM UM LIVRO ABERTO NAS MÃOS, INDIFERENTE) Este é o jovem Aristóteres, cuja rotina já começa a incomodá-lo.
O NARRADOR SAI. ARISTÓTERES CONTINUA CAMINHANDO POR ALGUNS INSTANTES. FECHA O LIVRO E COMEÇA A PENSAR ALTO
ARISTOTELES: Droga…    Não faço outra coisa, senão estudar. Mas também, considerado como o primeiro aluno da escola e o gênio da família, não me permitem perder o cartaz.
UMA VOZ FEMININA DOS BASTIDORES: Nosso filho, ainda vai ser um grande homem…!
ARISTÓTELES(LAMENTA) É,  não posso mudar esse pensamento esperançoso de meus pais. Por isso, dedico todo o meu tempo disponível aos livros. Só saio de casa para ir à escola. Minhas diversões são as enciclopédias, muita leitura, a internet, os telejonais e documentários,
A VOZ FEMININA COM ORGULHO: Todos esperavam dele, um futuro sucessor do saudoso Rui Barbosa.
ARISTÓTERES ABRE O LIVRO E VOLTA A CAMINHAR PELO PALCO ESTUDANDO, QUANDO VOLTA A VOZ DO NARRADOR DESCREVE-LO.
NARRADOR(VOZ): Aristóteles é uma figura muito simpática. Alto e magro. Cabelos curtinhos e castanhos, assim como seus olhos arredondados. Não gosta muito de discutir, mesmo sabendo que há conteúdo e fundamento em seus pontos de vistas. Introvertido, não tem muito o hábito de emitir suas ideias, principalmente sem ser solicitado, isso porque parte das pessoas que o rodeia, não acompanham o seu raciocínio. Trata-se de uma pessoa alegre, tranquila, entusiasmada e, acima de tudo, otimista! Acredita em um futuro melhor para todos. Aprecia artes: Gosta de pintura, quadros surrealistas (que desafiassem a sua imaginação), lê muitas obras nacionais, ouve música clássica e, sobretudo, MPB (Música Popular Brasileira). Gosta de Caetano Veloso e tudo que é nosso, pois, como Aristóteles sempre frisa, “o brasileiro precisa aprender a ser brasileiro!” (PAUSA) Os dias foram passando e…
ARISTÓTELES(FECHA O LIVRO E EXCLAMA ALEGRE): Estamos no terceiro bimestre. Já fechei as notas escolares. Agora posso passar mais horas em frente ao meu computador.
ELAINE(ENTRANDO): Falando sozinho, mano?
ARISTOTELES: Não enche, Elaine.
COMEÇAM A REPRESENTARES ESTAR CONVERSANDO ENTRE ELES. O NARRADOR ENTRA PARA APRESENTÁ-LA.
NARRADOR:    Já Elaine, a sua irmã, não é uma grande aluna. Para dizer a verdade, nem se quer, dedicada como o irmão. Apesar dele se dedicar tempo para ajudá-la nos deveres escolares, dando-lhe aulas particulares, Elaine não se liga muito.
ELANE: Eu quero mais‚ é curtir a vida !
NARRADOR: Diz ela, que com as amigas frequentam clubes, festinhas e os passeios juvenis. Baixa e gordinha tem quatorze anos de idade. Veste sempre as roupas da moda, bem à vontade. Sempre sorrindo, extrovertida e fala as coisas que vêm à cabeça. Apesar de otimista, não pensa em seu futuro e muito menos no país, pois para ela o importante é viver o presente com muita música de pop internacional, colecionando fotos e reportagens sobre as pessoas que admira, dentre as coisas típicas de uma adolescente na sua faixa de idade. E assim gosta de irritar o seu irmão.
ELANE: Você vai ficar louco, meu… Não sai para se divertir, não faz outra coisa senão estudar. Não sai com amigos, não tem uma garota, não curte a sua juventude. De que adianta saber muito, se você não usa a sabedoria para viver melhor…?
ARISTOTELES: Não perturba, Elaine. Se gosto de meu pequeno mundo, o problema meu. Deixe-me curtir a vida do meu jeito, tá !?
ELANE(SAINDO DE CENA): Você é um quadrado, Aristóteles…
NARRADOR: Diz a sua irmã, pegando em seu pé.
ARISTOTELES TAMBÉM SAI.

CENA 2 – CONHECENDO SUZY
NARRADOR(SAINDO): Certo dia, logo após o almoço, faltou energia elétrica…
ARISTOTELES(ENTRADO): Hoje não posso assistir ao telejornal da tarde, muito menos estudar em meu computador. Acho que vou até o portão. (CAMINHA ALGUNS PASSOS, OBSERVA) Do outro lado da rua, há uma gostosa sombra de uma árvore, convidando-me a descansar. Vou até lá. (CAMINHA MAIS UM POUCO, SENTA NO PALCO REPRESENTANDO ESTAR OBSERVANDO O MOVIMENTO)
NARRADOR(VOZ): É uma rua organizada e calma, num bairro afastado do centro. Como fica perto de um distrito industrial e está na hora do almoço, por ali passam várias moças; umas saindo e outras já voltando para o trabalho. Observando-as, Aristóteles começou a pensar.
ARISTOTELES(PENSANDO ALTO): Deus foi perfeito em tudo que fez; criou dois sexos diferentes e o interesse de cada um para com o outro. E na união, o acasalamento que gera novas vidas. Projetou a mulher, uma figura tão meiga e delicada e o homem totalmente o oposto.
ENTRA SUZY CAMINHANDO APRESSADA PELO PALCO.
NARRADOR(VOZ): De repente, aparece uma moça que lhe chama à atenção. Para dizer a verdade, um corpo feminino que provoca o interesse de qualquer rapaz. Traz um lindo sorriso nos lábios vermelhos, ao parar e perguntar a Aristóteles.
SUZY(PARANDO PERTO DE ARISTOTELES): O coletivo já passou?
ARISTOTELES(RETRIBUINDO O SORRISO): Ainda não…
SUZY: Obrigada…
NARRADOR(VOZ): Ele não pode deixar de ter notado o resto do seu corpo, despertando-lhe à atenção. (SUZY SAI DE CENA) A moça parte, mas ele fica com aquela imagem em sua mente.
ARISTOTELES(PENSANDO ALTO) Bem que eu queria ter um diálogo maior com ela. Mas como, se não tenho jeito para isso…? (LEVANTA-SE E SAI CAMINHANDO)
NARRADOR(VOZ): Foi estudar, mas não esquecia daquela linda figura feminina.

CENA 3 – DO CHOCOLATE, NASCE UMA AMIZADE
A MÃE DE ARISTOTELES ESTÁ COZINHANDO. ELE ENTRA CORRENDO, COM O MATERIAL DA ESCOLA NO BRAÇO.
MÃE: Já chegou, Ari?
ARISTOTELES: Já mãe. Será que a senhora pode adiantar o almoço?
MÃE: Você vai sair, filho?
ARISTOTELES: Não, é que quero começar a me preparar para a prova mais cedo.
MÂE: Tudo bem.
ARISTOTELES SAI DE CENA E SUA MAE EM SEGUIDA.
NARRADOR(VOZ): Ao almoçar, uma força maior puxou-o para aquela sombra.
ARISTOTELES(ENTRANDO PENSATIVO): Já  sei como vou começar a conversar com ela. É só dizer um `oi’ e puxar assunto!
SENTA NO CHÃO E FICA OBSERVANDO AS COISAS, DISTRAINDO-SE. SUZY CHEGA DE SURPRESA POR TRÁS.
SUZY: O coletivo já passou? (ARISTOTELES TOMA UM SUSTO. AGACHA-SE PERTO DELE) Eu lhe assustei, desculpe; não era minha intenção.
ARISTOTELES: Tudo bem, você não tem culpa. Agora não tenho uma boa noticia para lhe dar. O seu ônibus acabou de passar.
SUZY: Droga, vou ter que esperar uns quinze minutos.  (ABRE A BOLSA, TIRANDO UMA BARRA DE CHOCOLATE BRANCO) Você aceita um pedaço?
ARISTOTELES: Obrigado, bom apetite.
SUZY: Pega, é muito para eu comer sozinha.
ARISTOTELES(DANDO UMA MORDIDA): Como é o seu nome?
SUZY: Suzy… E o seu?
ARISTOTELES: Aristóteles…
SUZY: Bonito nome.
ARISTOTELES: É um pouco complicado. Pode me chamar de Ari, que fica mais fácil.
SUZY: Tudo bem, Ari. Vou indo, senão também perco o próximo coletivo. Fique com Deus. Tchau. (LHE DÁ UM BEIJINHO NA TESTA, SAINDO)

CENA 4 – O CONVITE
ARISTOTELES(LEVANTANDO-SE):  Enfim mais um  fim-de-semana.
ELAINE(ENTRANDO): Ari, vou sair com minhas amigas. Você quer vir com a gente?
ARISTOTELES: Vou aproveitar para estudar. Não vejo motivo algum para trocar meus livros por essas diversões momentâneas.
ELAINE: Tudo bem, cada louco com sua mania. (SAI)
ARISTOTELES(PENSANDO ALTO): Falando a verdade, quero mesmo, é que passe esses dois dias de descanso.
CAI E VOLTA A LUZ.
NARRADOR(VOZ): Enfim a segunda-feira. Logo depois do almoço, teve uma grande ideia. (ARISTOTELES ENTRA COM UMA ROSA NA MÃO) Foi para a sombra da árvore, com uma rosa vermelha. (SUZY COMEÇA A ANDAR) Ao ver a tão esperada se aproximar, esticando a mão, disse…
ARISTOTELES: Eu trouxe para você. Para a menina que um dia me ofereceu um chocolate para adoçar minha boca, ofereço uma rosa para adoçar sua alma.
SUZY(PEGANDO A ROSA): Que bonito. Você parece um poeta… Obrigada!
ARISTOTELES: Quem sabe um dia eu seja um. E a minha primeira poesia, quero que seja para alguém chamada Suzy.
SUZY: Não mereço tanto, Ari.
ARISTOTELES: Você quer ir ao cinema comigo?
SUZY: No cinema, à noite?
ARISTOTELES: Você é quem sabe. Vê um dia e uma hora melhor…
SUZY: Então vou pensar. Tchau… (SAI)
ARISTOTELES(PENSANDO ALTO): Como consegui falar tudo isso? Sempre fui tímido!
ARISTOTELES CONTINUA SENTADO NO MESMO LUGAR.
NARRADOR(VOZ)  E um dia se passou…
SUZY(ENTRANDO COM ROUPA DIFERENTE): Ari, aceito ir ao cinema hoje à noite.
ARISTOTELES: Pra mIm está  tudo bem.
SUZY: Então venho aqui às sete e meia, combinado?
SUZY SAI POR UM LADO E ARISTOTELES SAI CORRENDO POR OUTRO. ELAINE ENTRA EM CENA E REPRESENTA ESTAR ARRUMANDO O SEU QUARTO. ARISTOTELES ENTRA MEIO EUFÓRICO.
ARISTOTELES: Elaine, você não sabe da maior… Convidei uma menina para ir ao cinema e ela aceitou.
SUZY: Você está se sentindo bem, mano???
ARISTOTELES: Não brinca, Elaine. E agora o que faço? Nunca saí com uma garota antes…
ELAINE: É simples. Começa pela roupa que você deve usar. Não vai querer ir ao cinema com uma garota usando roupa social, vai?
ARISTOTELES: É, talvez não fique bem…
ELAINE: Eu lhe ajudo na hora de se vestir. Agora, o passeio vai ficar só no cinema?
ARISTOTELES: Como assim?
ELAINE: Depois você pode convidá-la para ir a uma lanchonete tomar um refrigerante, comer um lanche, sei lá. Mesmo porque, dentro do cinema, vocês não poderão conversar à vontade. (PEGA NA MÃO DE ARISTOTELES) Vem, vou lhe ajudar…
E SAEM.

CENA 5 – O PASSEIO
ARISTOTELES, JÁ ARRUMADO, VOLTA À CENA, REPRESENTADO ESTAR DE MOTO. PARA.
SUZY(ENTRANDO):  Demorei?
ARISTOTELES: Nem um pouco. Vamos…?
SUZY: De moto!? Amo andar moto!
REPRESENTAM SAÍREM DE MOTO. CHEGAM NA PORTARIA DA BILHETERIA, ONDE ELE COMPRA OS BILHETES DE UMA FIGURANTE. ENTRAM E SENTAM NO CHÃO ASSISTINDO AO FILME.
NARRADOR(VOZ); O filme é uma aventura de Indiana Jones. Antes de terminar, Aristóteles já havia descoberto onde estava o tesouro tão procurado.
SUZY: Nossa Ari, você é inteligente. Como você sabe que vai estar lá?
ARISTOTELES: É simples, Suzy. Todo filme é praticamente igual. Se eles estão procurando desse lado da montanha, o tesouro deve estar  no lado oposto.
NARRADOR(VOZ): Ao terminar o filme, a profecia do jovem gênio se concretizou.
LEVANTAM-SE PARA SAIR DO CINEMA.
SUZY: Vamos Ari.
ARISTOTELES: Você quer ir há uma lanchonete tomar um refrigerante e comer um lanche?
SUZY: É uma boa ideia. Se não for muito incômodo para você…
ARISTOTELES: Imagina, será um prazer se você quiser me acompanhar…
SUZY: Então vamos…
E COMEÇAM A CAMINHAR.

6 – CONVERSA DE BAR
É COLOCADA UMA MESA COM CADEIRAS NO PALCO. ELES CHEGAM, ARISTOTELES PUXA A CADEIRA PARA SUZY SE SENTAR. UM GARÇOM VEM SERVI-LOS E SAI.
SUZY: Fale um pouco de você, Ari, para nos conhecermos melhor.
ARISTOTELES: Não tenho muito para falar sobre mim. Desde pequeno, não faço outra coisa, senão estudar. Passo todo o meu tempo em cima dos livros. Meus pais exigem de mim uma educação de primeira. Querem que eu seja um sucessor do saudoso Rui Barbosa. Sou o primeiro aluno da escola, onde chamam-me de pequeno gênio.
SUZY: Então é por isso que você me trata com tanta delicadeza?
ARISTOTELES: É, faz parte de minha formação. E você o que tem para me contar?
SUZY: Também não tenho muito para declarar. Moro com meus pais, trabalho como secretária em uma auto-escola. Porém, não aguento mais esse serviço. Queria mesmo, era trabalhar para o governo, ou ser polícia feminina.
ARISTOTELES: Você estuda?
SUZY: Estudo, estou no segundo colegial.
SUZY(TOMA UM GOLE DE REFRIGERANTE): Diga-me um negócio, quantos anos você têm?
ARISTOTELES: Dezenove… Sei que‚ é deselegante perguntar a idade de uma moça, mas e você.
SUZY: Dezoito. Nossa, você‚ tão novo para já  ter esta cabeça.
ARISTOTELES: Isso, graças a minha dedicação aos estudos, modesta parte.
SUZY:- Parabéns. E namorada, você tem?
ARISTOTELES: Nunca tive. Não saio de casa. Nem se quer tenho amizades aqui nesta cidade.
SUZY: Estou gostando de um rapaz de meu serviço. Não sei se vamos nos dar bem, mas vou tentar!
ARISTOTELES(SENTINDO CIÚMES): Boa sorte…

CENA 7 – CAI UM CORPO
SUZY: Vamos?
ARISTOTELES: Sim, vamos…
ELES LEVANTAM-SE E SAEM REPRESENTANDO A MOTO, QUANDO EM UMA RUA ESCURA (DIMINUI A ILUMINAÇÃO), SÃO ABORDADOS POR UM GRUPO DE VÂNDALOS, CABELOS CUMPRIDOS, JEANS SURRADO E ÓCULOS ESCURO.
UM VÂNDALO: Para aí cara. Vamos ter um bate-papo…
ARISTOTELES: Se os amigos nos derem licença, gostaríamos de prosseguir a nossa caminhada.
O VÂNDALO: Nossa, ele é educado. (PEGA SUZY PELO BRAÇO) E você gatinha, que tal nos divertirmos um pouco?
SUZY(COM RAIVA): Tire suas mãos de mim, seu rato.
ARISTÓTELES: É, tire as mãos dela, por favor.
VÂNDALO: Cale a boca, seu panaca!!!
O VÂNDALO QUE SEGURA SUZY, DÁ UM SOCO EM ARISTOTELES, DERRUBANDO AO CHÃO. PUXA SUZY DA MOTO E COMEÇAR A ARRANCAR SUAS ROUPAS. ARISTOTELES LEVANTA, TENTA IMPEDIR, MAS É GOLPEADO POR TRAZ COM UMA PAULADA DADA POR OUTRO MEMBRO DA GANGUE, CAINDO E DESMAIANDO. SUZY JÁ ESTÁ SEMI-NUA, QUANDO UM TIRO VINDO DO ESCURO, ATINGE O LÍDER DELES NA CABEÇA, CAINDO MORTO. OS DEMAIS CORREM. SUZY VAI SOCORRER O AMIGO, QUE AO ACORDAR, TEM A SURPRESA DE VÊ-LA SÓ DE PEÇAS ÍNTIMAS. MAS NÃO HÁ TEMPO PARA APRECIAR, POIS UMA VIATURA DA POLÍCIA APROXIMA-SE.
OLICIAL: Parem aí, garotos. Vocês estão presos.
SUZY SE LEVANTA, REPRESENTA PEGAR A MOTO E DAR PARTIDA.
SUZY: Rápido Ari, monta…
ARISTOTELES MONTA NA GARUPA E SUZY ACELERA, SAINDO COM TUDO. PASSAM POR UM VELHO JAPONÊS (O RHONDA), QUE, PARADO NUM CANTO, ASSISTIU TODA A CENA. SUZY PILOTA BEM A MOTO NO MEIO DO TRANSITO, NÃO DEIXANDO OS POLICIAIS ALCANÇAREM.
AO CHEGAR NO PORTÃO DE SUA CASA, ELES PARAM PARA DIALOGAR.
ARISTOTELES(COMEÇANDO A TIRAR JAQUETA): Toma, pra você se cobrir.
SUZY: Não precisa, Ari. Já vou entrar.
ARISTOTELES: Você não me disse que dirigia moto…?
SUZY: É, acabei de tirar carteira de motorista. Mas e agora, tudo que aconteceu… Quem será que atirou? Espera aí… (NOTANDO ALGUMA COISA) Minha bolsa, deve ter ficado lá. Temos que buscá-la.
ARISTÓTELES: Não podemos, certamente, está cheio de policiais no local. Pode ser perigoso.
SUZY: Mas vão me culpar daquele assassinato. Ainda mais agora que fugimos de uma voz de prisão.
ARISTOTELES: Vamos provar o contrário. Aquele senhor japonês deve ter assistido a tudo. Amanhã vou procurá-lo.
SUZY: Você vai fazer isto por mim…?
ARISTOTELES: Pode deixar. Entramos juntos nessa e juntos sairemos.
PASSAM DUAS VELHINHAS QUE, AO VER SUZY SEMI-NUA, DIZEM UMA PARA A OUTRA:
DUAS VELHINHAS PASSANDO: Esses jovens não têm vergonha mesmo. Até no meio da rua fazem essa sacanagem.
SUZY(OLHANDO PARA ARISTOTELES): Ainda mais essa…!
JUNTOS RIEM. SUZY ENTRA PARA SUA CASA E ARISTOTELES VAI EMBORA.

CENA 8 – SUZY VIRA NOTÍCIA
SUZY(ENTRANDO COM UM JORNAL NAS MAOS): Estou perdida. O caso saiu no jornal. A polícia está de posse da minha bolsa e documentos. O caso virou repercussão nacional. Tenho que me esconder.
ARISTOTELES(ENTRANDO): Suzy, procurei aquele senhor oriental que viu tudo o que aconteceu…
SUZY(ANSIOSA): Falou com ele? Vai nos ajudar? Ele viu quem atirou?
ARISTOTELES: Calma… Não foi possível encontrá-lo. O homem do bar em frente, disse-me que ele é pintor de quadros e está expondo em São Paulo. Depois de lá, ninguém sabe para onde ele vai.
SUZY(ENTRISTECENDO): Agora estou perdida. Os jornais já estão divulgando minhas iniciais e afirmam que se eu não me entregar, vão publicar uma foto. É melhor me entregar e tentar provar a verdade.
ARISTOTELES: Nem pensar, Suzy. Eles precisam de um “bode-espiatório” para culpá-lo do assassinato. Como fugimos, irão usar isso como argumento para descarregar a culpa em você.
SUZY: E o que irei fazer??? Não posso passar o resto de minha vida escondida.
ARISTOTELES: Vou à São Paulo procurá-lo e tentar trazer para provar a sua inocência. Fui eu quem te colocou nesta, vou tirá-la. Enquanto isto, você pode ficar escondida no meu quarto. Minha irmã já sabe de tudo e vai nos ajudar  te esconder.
SUZY:- E seus pais vão deixar você viajar?
ARISTOTELES: Direi que será um trabalho escolar. (ABRAÇA SUZY) Vem, vamos até minha casa.
E SAEM.

CENA 9 – A VIAGEM
ARISTOTELES VOLTA COM SUA MOCHILA, REPRESENTADO ENTRAR EM UM ÔNIBUS. SUZY, DISFARÇADA DE VELHINHA E ÓCULOS ESCURO, ENTRA E SENTA AO SEU LADO. O ÔNIBUS FAZ SOM QUE ESTÁ PARTINDO. SEGUNDOS APÓS, ARISTOTELES RETIRA UM LANCHE DE SUA MOCHILA E OFERECE.
ARISTOTELES: A senhora aceita um pedaço?
SUZY: Obrigada, Ari. Também trouxe o meu…
ARISTOTELES(SURPRESO): Suzy!!! O que você está fazendo aqui?
SUZY: Não poderia deixá-lo vir sozinho. Além disso, sempre quis conhecer São Paulo. Estou cansada da rotina de minha vida.
ARISTOTELES: Mas nós não estamos indo a passeio.
SUZY: Podemos dar um jeitinho nisso, não podemos?
ARISTOTELES(OLHA PARA PLATEIA E PENSA ALTO): Mulheres, são todas iguais…
DESEMBARCAM NO ENORME TERMINAL RODOVIÁRIO DE SÃO PAULO, ONDE MILHARES DE PESSOAS TRANSITAVAM, PODENDO SEREM REPRESENTADOS POR ALGUNS FIGURANTES.  SUZY DEMONSTRA SURPRESA COM A GRANDIOSIDADE DA CAPITAL, UMA VEZ QUE NUNCA HAVIA ESTADO NA CAPITAL.
SUZY: E agora pequeno gênio… Aonde vamos?
ARISTOTELES: Temos que chegar até a Galeria marcada aqui no cartão que o dono daquele bar me deu. Podemos perguntas para aquela policial feminina ali no Balcão de Informações.
ARISTOTELES DEIXA A AMIGA E VAI TER UMA CONVERSA MUDA COM A POLICIAL. ASSIM QUE LHE FOI EXPLICADO O ITINERÁRIO QUE DEVERIAM TOMAR, ELA VOLTA À SUZY.
ARISTOTELES: Vem, Suzy. Vamos pegar o metrô.
SUZY: Nós vamos passear por debaixo de terra, Ari?
ARISTOTELES: Iremos, Suzy. Cortaremos a cidade inteirinha por baixo! Isto é um grande invento do homem, que se dedicasse mais a criar alternativas como esta para facilitar e salvar vidas, em vez de fabricar armas, o mundo seria bem melhor.
SENTAM NO CHÃO E COMEÇAM A CHAQUALHAR.
NARRADOR(VOZ): Suzy gosta da filosofia do amigo… Ela começa achar um barato aquele passeio. Mas há muitas coisas pela frente !!!

CENA 10 – PASSEIO POR SÃO PAULO
ARISTOTELES E SUZY LEVANTAM-SE.
NARRADOR(VOZ): Ao chegarem à Galeria, outra surpresa. A exposição só será no dia seguinte e os funcionários não sabem a onde o velho oriental está hospedado. O jeito é esperar… (COMEÇAM A CAMINHAR) Após a refeição, saem caminhando pelas ruas paulistanas. Olham as vitrines, os arranha-céus, os carros, as pessoas sem conhecer umas as outras, caminhando em passos acelerados, pois a velha capital não pode parar.
SUZY: Como aqui tudo é belo, Ari. Dá até para esquecer aquela rotina chata em que vivemos.
ARISTOTELES: É, realmente aqui tudo tornar-se até um fascínio. Na minha opinião, ninguém melhor até hoje descreveu São Paulo do que Caetano.
SUZY: Caetano?
ARISTOTELES: É, Caetano Veloso. Você não o conhece?
SUZY: Já ouvir falar dele, mas não curto muito MPB. Gosto mais de músicas internacionais.
ARISTOTELES: Ele fez isto em uma linda canção chamada “Sampa”. Um dia ainda lhe mostrarei a letra. É uma verdadeira poesia.
SUZY: Combinado.
ARISTOTELES: Está anoitecendo, acho melhor procurarmos um hotel.
NARRADOR(VOZ): Num pequeno e bonito hotel alugam dois quartos. (CADA UM DEITA EM UM CANTO DO PALCO. DIMINUI A LUZ.) A noite passa e amanhece com a vontade de descobrir ainda mais as novidades de Sampa. No café da manhã se encontram.
AUMENTA A LUZ. LEVANTAM-SE E SENTAM AO CENTRO DO PALCO, REPRESENTANDO ESTAREM TOMANDO CAFÉ.
SUZY: Eu sempre ouvir falar em shopping-center. Podemos ir conhecer um?
ARISTOTELES: E por que não, Suzy?
SUZY: Ari, você é demais. (DÁ UM BEIJINHO EM SUA BOCHECHA) Amo ser sua amiga. Dá licença, que vou me arrumar.
SUZY SAI DE CENA. ARISTOTELES FICA PARADO.
NARRADOR(VOZ): Ele nada diz, mesmo porque Suzy o considera apenas como um amigo. Não há tempo para uma confissão, pois o mais importante agora, é provar a sua inocência.
SUZY VOLTA E COMEÇAM A CAMINHAR.
SUZY: Nossa, este shopping-center é um fascínio à primeira vista. Muitas pessoas fazendo compras; objetos nas vitrines iluminadas; as lojas de roupas, discos, perfumarias, cada um com uma decoração diferente; um chafariz ao centro; o aroma das plantas ornamentais; o teto de vidro, trazendo a luz do Sol para o ambiente, dado melhor luminosidade, cores e alegria. Aqui realmente há de tudo.
NARRADOR(VOZ): Entram na lanchonete, pedindo o cardápio. Vem o garçom…
GARÇOM(ENTRANDO) O jovem casal de pombos já escolheram?
ELES COMEÇAM A AGIR EM GESTOS MUDOS. DEPOIS LEVANTAM-SE E VOLTAM A CAMINHAR.
NARRADOR(VOZ): Fizeram os pedidos, comeram, conversam, riram, pagaram e sairam da lanchonete. Andando novamente pelo shopping, Suzy fez uma observação…
SUZY: Aquele garçom pensou que éramos namorados.
ARISTOTELES: Também percebi, Suzy.
SUZY: Podemos fingir…
ARISTOTELES: Como assim?
SUZY(PEGANDO EM SUA MÃO): Vamos, meu bem?
ARISTOTELES: Vamos.
OS DOIS BRINCAM DE NAMORADOS PASSEANDO DE BEM COM A VIDA, ATÉ QUE SAEM DE CENA.

CENA 11 – A EXPOSIÇÃO
NARRADOR(VOZ): Após o jantar, os dois partem para a Galeria de Artes, na intenção de encontrar e conversar com o japonês.
ALGUNS FIGURANTES PASSEIAM PELO PALCO, REPRESENTANDO ESTAREM APRECIANDO QUADROS. EM UM CANTO RHONDA CONVERSA COM OUTRA PESSOA. ARISTOTELES E SUZY ENTRAM.
ARISTOTELES: Vamos disfarçar para não dar nenhuma pista. (COMEÇAM A APRECIAR AS OBRAS) Realmente ele pinta muito bem. Seus quadros retratam pessoas e natureza morta. As descrições das plaquetas que acompanham as obras dizem pinturas extraídas do sítio no interior, onde ele mora.
SUZY: Ali está ele… (APONTA) Mas há muitas pessoas e fotógrafos de jornais em volta dele.
ARISTOTELES: É, o velho oriental, é a estrela maior da festa. Ele deve estar muito ocupado. Vamos esperar acalmar o ambiente.
NARRADOR(VOZ): Uma coisa eles nem imaginam. Justamente naquele dia, a imprensa a publicou a foto de Suzy, uma vez que havia vencido o prazo para que ela se apresentá-se. E foi por isso que um dos guardas reconheceu-a…
GUARDA: Hei, menina, pare aí…
ARISTOTELES: Ele deve ter te reconhecido. Rápido, vemos fugir.
CORREM. O PESSOAL DA GALERIA SEM SABER O QUE ESTÁ ACONTECENDO, OLHAM ESPANTADOS. AO PASSAREM POR RHONDA, ELE SEGURA O GUARDA, DEIXANDO-OS FUGIR. TODOS SAEM DE CENA. ARISTOTELES E SUZY VOLTAM.
ARISTOTELES: Ufa, ainda bem que deu tempo de fugirmos.
SUZY: E agora, não podemos mais voltar lá, droga!
ARI ARISTOTELES: Realmente, Suzy.  Mas tenho uma boa memória decorativa.
SUZY: O que adianta isto agora? Como iremos falar com ele?
ARISTOTELES: Só o que temos a fazer é encontrar um orelhão. Decorei o número do telefone da Galeria.
SUZY: Aristóteles, você é demais… (ABRAÇA-O, DANDO-LHE UM BEIJO NA TESTA)
ARISTOTELES(SEM JEITO): Bem, temos que telefonar… (REPRESENTA PEGAR UM TELEFONE PÚBLICO E FAZER UMA LIGAÇÃO. DESLIGA E VOLTA PARA SUZY) Tarde demais. A exposição terminou; hoje foi o seu último dia e ninguém pôde informar o rumo que o pintor tomou. (UM SUSPIRO) Resta-nos apenas, voltar para o hotel e recomeçar tudo da estaca zero.
SAEM ABRAÇADOS. FIM DO PRIMEIRO ATO.

SEGUNDO ATO
CENA 12 – UMA NOITE JUNTOS
ARISTÓTELES E SUZY ENTRAM NO QUARTO DO HOTEL.
ARISTOTELES: Deve ter um jeito de provarmos a sua inocência.
SUZY: Não vai dar. A nossa única esperança sumiu. Minha foto está em todos os jornais, agora em todos os lugares onde aparecer, vou ser reconhecida. Está tudo acabado…
SUZY SENTA-SE NA CAMA, ABAIXA A CABAÇA APOIANDO NAS PALMAS DAS MÃOS E COMEÇA A CHORAR. ARISTÓTELES VAI CONFORTÁ-LA.
ARISTOTELES: Calma… Num tudo está perdido. Há sempre uma saída, há sempre uma luz no fim do túnel.
SUZY: Estou com medo. Nunca passei por isto antes. E se eu for condenada e ir para a cadeia…?
ARISTOTELES: Isso nunca acontecerá… Pode confiar em mim, Suzy.
SUZY: Mas o que você vai fazer?
ARISTOTELES: Não sei ainda. Tenho que pensar. Mas o melhor agora é descansar.
SUZY: Ari, posso lhe fazer um pedido meio estranho?
ARISTOTELES: O que você quiser, Suzy.
SUZY(COM DELICADEZA):  Passa essa noite aqui comigo…
ARISTOTELES(ENGASGA): Como!?
SUZY: Estou com muito medo, não quero ficar sozinha… Por favor!
ARISTOTELES: Está bem…
SUZY SAI DE CENA, REPRESENTANDO IR AO BANHEIRO TROCAR-SE PARA SE DEITAR. ENQUANTO ISSO, ELE PEGA A ROUPA DE CAMA NO ARMÁRIO E SE ARRUMA EM UM SOFÁ QUE HA NO OUTRO LADO DO PALCO. SUZY SÓ DE CAMISOLA, APAGA A LUZ PRINCIPAL DEIXANDO APENAS O ABAJUR LIGADO, DEITA E SE COBRE.
SUZY: Este sofá deve ser desajeitado. A cama é grande. Venha se deitar comigo.
ARISTÓTELES PENSA UM POUCO E VAI. AO SE DEITAR, PERGUNTA:
ARISTOTELES: Você confia em mim?
SUZY: Confio, já lhe disse que o considero como meu irmão mais velho.
NARRADOR: Aquilo o decepciona. Mas, Aristóteles não pode perder aquela confiança; ainda mais no momento em que ela mais precisa dele. (PEQUENA PAUSA) Suzy dorme calma, enquanto ele, olha aquele rosto feminino que mexe com os seus desejos. Até que veio o sono e ele dormiu.
ARISTOTELES DORME. SEGUNDOS DEPOIS, SUZY ACORDA E O BALANÇA.
SUZY: Acorda seu preguiçoso. O dia já começou.
ARISTOTELES(DESPERTANDO): An? O que foi?
SUZY: Bom dia, meu gênio. O que iremos fazer hoje?
ARISTOTELES(BOCEJANDO): Acho que só nos resta voltar para casa.
SUZY: Não podemos. E se eu for reconhecida pelo caminho?
ARISTOTELES: Daremos um jeito nisso, minha parceira de investigação.
SUZY: Mas primeiro vou tomar meu banho.
SUZY LEVANTA-SE E VAI PARA O BANHEIRO. ARISTOTELES PENSA UM POUCO. SUZY VOLTA.
ARISTOTELES: Suzy, senta aqui.
APONTA UMA CADEIRA. SUZY SENTA. USANDO ALGUNS RECURSOS, ARISTOTELES COMEÇA A TRANSFORMÁ-LA.
SUZY: Aristóteles, você ficou maluco!?
ARISTOTELES: Mas é preciso, Suzy, para a nossa proteção…
ARISTOTELES A TRANSFORMA, FAZENDO DELA UMA VERDADEIRA HIPPIE E, POR FIM, COLOCA UM GRANDE ÓCULOS ESCURO EM SEU ROSTO.
SUZY: Como estou, Ari?
ARISTOTELES: Ridícula.
RIEM.
ARISTOTELES: Acho que já podemos ir embora.
SUZY: Eu queria fazer um último passeio pela cidade!
ARISTOTELES: Agora quem está maluca é você, Suzy!!!
SUZY(COM JEITO MEIGO): Por favor, Ari…
ARISTOTELES: Realmente, não estou com um pingo de vontade de voltar para aquela chata rotina. Está bem… Só que agora sou eu quem escolho o lugar. Li no jornal sobre o Memorial da América Latina e gostaria de conhecê-lo. Quer vir comigo?
SUZY: Sim. Vou me arrumar. Me dá licença…
ARISTOTELES: Toda…
SUZY SAI DO QUARTO. ARISTOTELES COMEÇA A SE ARRUMAR. LOGO ELA VOLTA.
SUZY: Ari, aconteceu um inesperado problema. Não estou me sentindo bem. Você vai ter que ir sozinho, Ari. Não vou poder sair hoje.
ARISTOTELES: O que houve? Está se sentindo mal? Quer ir ao médico?
SUZY: Nada de grave, coisas de mulher. Pode ir que é melhor eu ficar só.
ARISTOTELES: Tudo, bem. Lá vou eu…
SUZY: Vou com você até o portão.
SAEM DO PALCO.

CENA 13 – ENCONTRO INESPERADO
ARISTOTELES VOLTA AO PALCO, REPRESENTANDO ESTAR CAMINHANDO A APRECIANDO A TUDO, ENQUANTO O NARRADOR NARRA O AMBIENTE E AS CARACTERÍSTICAS DO LOCAL.
NARRADOR(VOZ): Aristóteles chega ao Memorial da América Latina, onde seus olhos perderam-se naquele imenso espaço livre. Pessoas caminham observando os traços e linhas sem detalhes, com curvas e retas esculpidas em concreto e imensas vigas. Quase todos os edifícios são de vidro fume, abrigando os seguintes conjuntos: Biblioteca da América Latina (com mais de 50 mil títulos de todos os países), Salão de Atos, Pavilhão da Criatividade, Centro de Estudos Latino-Americanos e Aula Magna. O restaurante é cercado por um lago artificial. No espaço livre em cada canto há um conjunto de pessoas de diferentes nacionalidades se apresentando. Uma enorme ponte circular, liga as duas partes do Memorial. E bem ao centro, uma enorme estátua em forma de uma mão aberta como se sangrasse. O Memorial da América Latina foi criado para pôr em prática medidas para superar fronteiras com outros países que nos rodeiam e despertar, no público brasileiro, a consciência de quanto é urgente e importante a aproximação do Brasil à demais pátrias latinas da América. (PEQUENA PAUSA) Aristóteles, apesar de novo, sendo uma pessoa de cultura, fascinou-se facilmente com tudo aquilo.  Passando pelo Centro de Estudo Latino Americano – um grande museu de roupas e artesanatos antigos e atuais de cada país latino-americano -, um guarda lhe chama…
GUARDA(ENTRANDO): Hei, garoto, você já foi ver a exposição dos artistas plásticos?
ARISTOTELES: Não senhor. Aonde está sendo realizada?
GUARDA: Ali no auditório. Vai lá, você tem jeito de quem gosta de artes, irá apreciar…! (E SAI)
NARRADOR(VOZ): Ele agradece e se dirige ao local indicado. Realmente são obras muito bonitas, de vários gêneros e artistas. O jovem gênio olha com muita atenção, quando reconhece algumas pinturas. Logo foi até o vigia.
ARISTOTELES: Por favor, poderia me informar onde está o autor daquelas telas?
OUTRO GUARDA: Ele foi comer um lanche, mas logo deve estar por aí. Espere um pouquinho.
ARISTOTELES: Sim, obrigado.
RHONDA COMEÇA A ENTRAR.
NARRADOR(VOZ): Minutos depois o pintor volta. Como Aristóteles espera, é o velho japonês.
ARISTOTELES(INDO ATÉ O RHONDA): Boa tarde, meu senhor. Lembra-se de mim?
RHONDA(OLHA  POR ALGUNS INSTANTES E LOGO SE LEMBRA, FALANDO  COM  SOTAQUE): Ah, sim, o rapazinho da moto, né?
ARISTOTELES: Isto, preciso conversar com o senhor…
RHONDA: E tua amiga, como vai?
ARISTOTELES: Está em sérios problemas.  Estão culpando ela por aquele assassinato. O senhor tem que nos ajudar.
RHONDA: Não posso fazer nada por ela.
ARISTOTELES: Por favor, o senhor é a nossa única esperança.
RHONDA: O problema é só um: Disputa pelo poder! Use sua inteligência e prove isto você mesmo. Não espere por outro se você pode resolver o problema.
ARISTOTELES: Desculpe, mas não o compreendo…
RHONDA: Reflita, que compreenderá. Tome, só abra isto no momento em que achar mais necessário. (PEGA UM CANUDO DE PAPEL EM UM CANTO DO PALCO)
NARRADOR(VOZ): O velho oriental lhe entrega um canudo de papel. Os organizadores chamam o japonês para uma reunião.
RHONDA: Se o jovenzinho me der licença, tenho que ir. Lembre-se.  Você é capaz!
ARISTOTELES, SEGURANDO O CANUDO, COMEÇA A CAMINHAR PENSATIVO PELO PALCO.
ARISTOTELES: O que o velho quis dizer com “disputa pelo poder”?
NARRADOR(VOZ): Segura o canudo de papel que o velho oriental lhe pediu para só ser aberto no momento em que achar mais necessário. O que há ali dentro?  (PAUSA) Uma luz se acende dentro de sua cabeça. (ARISTOTELES COMEÇA A SORRIR) Já sabe quem é o assassino. Resta agora ter certeza e provar.
ARISTOTELES SAI DE CENA. SUZY ENTRA COM AS MOCHILAS E SENTA EM UM CANTO. LOGO APÓS, ARISTOTELES ENTRA COM O CANUDO.
ARISTOTELES: Suzy, voltei.
SUZY(LEVANTANDO, APONTANDO O CANUDO): Trouxe um presente para mim?
ARISTOTELES: Não, isto é uma encomenda de meu pai. Está tudo bem com você?
SUZY: Já, podemos ir.
COMEÇAM A SAIR DO PALCO.
NARRADOR(VOZ): Aristóteles não lhe conta que havia encontrado o velho. Mas já tinha um plano. Na viagem, Suzy não foi reconhecida em nenhuma parte ou por qualquer pessoa.

CENA 14 – ENTREGANDO O OURO AOS BANDIDOS
ARISTOTELES(ENTRANDO, PUXANDO SUZY PELAS MÃOS): Vem comigo, Suzy, vamos dar um passeio.
SUZY: Pensei que iríamos para casa?
ARISTOTELES: Temos que resolver uma situação antes.
DÃO UMA VOLTA PELO PALCO E PARAM.
SUZY: Mas Ari, aqui é o lugar onde tudo aconteceu. O que estamos fazendo aqui?
ARITOTELES: Você já vai ver, Suzy…
OS VÂNDALOS VÃO ENTRANDO.
ARISTOTELES: Ei, rapazes…?
O LÍDER DOS VÂNDALOS: Esse é o cara que estava com aquela garota na moto na noite que ela matou o nosso líder. Vamos pegá-lo e fazer confessar onde ela está para nos vingar.
ARISTOTELES(SEGURANDO SUZY PELO BRAÇO): Calma, é ela quem vocês procuram (EMPURRA SUZY ATÉ ALES). Tá aqui, é toda de vocês. Façam bom proveito.
SUZY(GRITA DESESPERADA): Ari, você está louco…
ARISTOTELES(IRONICAMENTE): Você matou, tem que pagar pelo seu crime.
OS VÂNDALOS COMEÇAM AGARRÁ-LA. NESSE MOMENTO, UMA VIATURA DA POLÍCIA MILITAR APARECE O PARA, DESCENDO UM POLICIAL ARMADO.
POLICIAL: Todos parados garotos. O que está acontecendo aqui?
ARISTOTELES(APROXIMANDO-SE): Se o senhor me permite, posso explicar. Este grupo de vândalos está tentando me matar (VAI ATÉ SUZY E RETIRA SEU GRANDE ÓCULOS ESCURO) só porque reconheci essa jovem assassina tão procurada na última semana pela polícia. E se o senhor reparar, ela está com a mochila, visando fugir talvez para outro Estado brasileiro.
SUZY, SEM ENTENDER NADA, DESMAIA.
POLICIAL: Querem saber de uma coisa, estão todos presos…
E TODOS LHE ACOMPANHAM.

CENA 15 – NA DELEGACIA
ENTRAM NOVAMENTE REPRESENTANDO UMA DELEGACIA. OS VÂNDALOS E ARITÓTELES SÃO COLOCADOS EM UM GRANDE SOFÁ, ENQUANTO SUZY SENTA-SE NA CADEIRA EM FRENTE À MESA DO DELEGADO. ENTRA O NARRADOR.
NARRADOR(OLHANDO PARA PLATEIA): Bem, senhores e senhoras. Eu sou o narrador desta história. Mas como a vida está difícil, nesta cena vou fazer um bico como delegado.   (VIRA-SE E VAI ATÉ SUZY) Então a senhorita é a Suzy? Você nos deu muito trabalho nestes últimos dias, sabe? Agora me diga, por que você matou aquele rapaz?
ARISTOTERES(LEVANTA E VAI ATÉ A MESA): Se o senhor me permite, sou o rapaz que estava com ela naquela noite e fugimos juntos na moto. E posso afirmar que ela não matou ninguém.
DELEGADO(RI): Então quem foi, meu jovem?
ARISTOTELES: Ele!!! (APONTA DIRETAMENTE PARA O LÍDER DOS VÂNDALOS)
DELEGADO: Acho bom você ter uma boa explicação para isto, senão você vai estar enrolado por falsa acusação, meu amigo…
ARISTOTELES: Naquela noite, nós voltávamos do cinema, quando fomos atacados por este grupo. O líder quis praticar sexo forçado com minha amiga. Um deles me golpeou por traz para que não visse quando ele, que cobiçava o posto de líder, aproveitou para assassiná-lo, subindo ao poder do grupo.
DELEGADO: Então por que vocês fugiram quando chegaram os policiais?
SUZY: Tivemos medo de levar a culpa, o que realmente aconteceu.
DELEGADO: Toda essa história é muito bonita, mas eu quero provas…
ARISTOTELES: Pois não… (ENTREGA O CANUDO DE PAPEL) Na ocasião, um velho pintor oriental assistiu a tudo e hoje, em São Paulo, ele me entregou isso e pediu para só usar no momento certo.
UM INVESTIGADOR APROXIMA-SE DO DELEGADO QUE ABRE O CANUDO.
DELEGADO: São pinturas em sequência. Ele conseguiu mais uma vez. (ORDENA AO INVESTIGADOR) Rápido, tire esses vândalos daqui e joguem-os na sela!
OS VÂNDALOS SÃO RETIRADOS.
SUZY: O que significa essas pinturas, doutor?
DELEGADO: Esse japonês chama-se Rhonda. Ele é um policial aposentado que foi muito bom profissional. Não se conforma de ter sido afastado, e desde então, resolve casos por conta própria e depois retrata-os em seus quadros. Temos que acreditar, pois ele sempre fez o seu trabalho acima de qualquer suspeita. (VIRA-SE PARA ARISTOTELES) Bem, agora só nos resta pedir desculpas e elogiar a sua inteligência rapaz. Você foi realmente incrível. Parabéns!
ARISTOTELES: Obrigado doutor. Só fiz isso mesmo, por causa de minha amiga aqui…
ARISTOTELES E SUZY SE OLHAM COM UM SORRISO NOS LÁBIOS.
DELEGADO: Bem, tenho que resolver um problema na dentro.  Mas vocês podem ficar à vontade. Licença. (E SAI)
SUZY(INDO ATÉ PERTO DE ARISTOTELES): Por que você não me disse que havia encontrado o Rhonda?
ARISTOTELES: Preferir agir em segredo, pois você poderia não concordar. Era um plano arriscado, que poderia dar certo ou não.
SUZY: E com isso, você me usou como cobaia?
ARISTOTELES: Era preciso. O Rhonda me ensinou que temos condições de criarmos soluções para quase todos os nossos problemas sem depender de outros e acima de tudo, devemos confiar em nós mesmos. Ele deu o inigma. Restou-me apenas desvendar e provar.
SUZY: Como você sabia que aquela viatura de polícia iria passar por lá naquele justo momento.
ARISTOTELES: Isto é rotina deles, fazer patrulamento por ali todos os dias.
SUZY: E aquele canudo? Como você sabia que continha as provas?
ARISTOTELES: Intuição, Suzy. O velho me transmitiu tanta confiança na conversa, que ao me entregar o canudo, deduzi que aquilo tinha algo a ver com o caso.
SUZY: Ari, realmente você é um gênio. Obrigada…
ARISTOTELES: Não precisa agradecer nada.
SUZY    – Sim, precisa… E acho que… (ABRAÇA-O, COMEÇANDO UM BEIJO SURPRESA)
NARRADOR: Suzy, sem completar o que ia dizer, delicadamente, abraçou-o, dando-lhe um profundo e demorado beijo na boca. Foi o primeiro beijo na vida de Aristóteles. E daquele, originou-se muitos outros entre eles.

FIM !!!

Emilio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Militante das questões referentes às pessoas com deficiência desde a década 1980, nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica como psicólogo e psicanalista, tendo cinco pós-graduações e dois doutorados. Como escritor tem uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de setenta títulos lançados, peças teatrais e roteiros audiovisuais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.