EMÍLIO FIGUEIRA – PARALISIA CEREBRAL – Revista Sentidos

Por quê ocorreu a sua paralisia?

Na verdade, como eu era o primeiro filho, meus pais queriam o melhor. Contrataram uma médica particular para acompanhar toda a gravidez. No dia em que minha mãe entrou em trabalho de parto e foi para a maternidade, essa médica estava fora da cidade num congresso. Como era uma paciente particular, nenhum outro médico quis atender. Minha mãe ficou das 10 horas da manhã até as 11 da noite sofrendo fortes dores, até que nasci de parto normal. Mas tive asfixia, fui para o balão de gás e fiquei por cinco horas sem sinal de vida. Após isso, comecei a reagir.

Você acredita que pode ter sido erro médico?

Não sei dizer se houve exatamente um erro médico. Certamente houve muita falta de ética da equipe de plantão. Pois minha mãe estava ali em trabalho de parto e ninguém quis atender. Quando não houve mais jeito, fizeram um parto normal à força, fui retirado violentamente e tomei uma pancada do lado direito da cabeça. Isso atingiu e afetou parte do cérebro, ocasionando a lesão.

Quando e como seus pais perceberam que você tinha dito a paralisia?

Isso é engraçado. Por volta dos três meses minha mãe me levou há um posto de saúde para tomar as tradicionais vacinas. Um médico, ao me examinar, disse que eu tinha um retardo motoro. Minha mãe entendeu que eu tinha um retardo mental e chorou por três dias. Após isso, foram feitos vários exames e diagnosticado a paralisia cerebral.

O que a paralisia te afetou?

Basicamente o meu andar, os movimentos dos braços, das mãos e muito a fala. Comecei a andar com quase 6 anos de idade, após muito tratamento. Não parei mais. E hoje ando até sozinho pelo Brasil inteiro devido as minhas atividades profissionais.

Quais foram os primeiros procedimentos que seus pais fizeram?

Podemos dizer que meu tratamento foi precoces. Por volta de um ano eu já fazia meus tratamentos. Foi uma época muito sofrida, minha mãe, avó, tias me levavam no colo aos tratamentos, pegavam até nove ônibus por dia. Houve um envolvimento total de toda a família. Até que conseguimos a vaga de aluno semi-interno na AACD e pude contar com as peruas, as inconfudiveis beges com o logotipo da AACD que circulavam por toda São Paulo. E sempre fui estimulado a ser o mais independente possível. E isto, com certeza, fez toda a diferença.

Quais foram os tratamentos que você Fez?

Os básicos, fisioterapia, fonoauadiologia, terapia ocupacional. Mas dentro deles, houveram variações, tive muitas atividades da vida diária, sempre fui estimulado a ser o mais independente possível e hoje, graças a Deus, eu sou. Também tive muitas atividades artísticas na AACD e isto foi fundamental para minhas escolhas e atividades profissionais. Aos 5 anos eu já era alfabetizado, escrevia meus primeiros poemas e textos. Certamente esse foi o embrião da minha produção atual, 66 artigos científicos e 74 livros publicados na Brasil e exterior. Além de oito peças de teatros e roteiros para cinema e televisão.

Quais tratamentos que faz até hoje?

Hoje é mais uma questão de manutenção da marcha (andar) e do equilíbrio. Faço hidroterapia e caminhada diária.

Esses tratamentos te auxiliaram principalmente em que? Vamos dizer assim, o que o tratamento desenvolveu naquilo que a paralisia afetou.

Com certeza em muitas coisas, no caminhar, no falar, no psicológico, na autoestima. Fui estimulado em muitas partes desenvolver minhas habilidades e em muitas ocasiões desenvolvi minhas próprias técnicas para fazer coisas que todos fazem. Acho que o fundamental mesmo, foi me autoconhecer e ter consciência da minha realidade e deficiência. E a pessoa que conhece a sabe lidar bem com suas próprias limitações, torna-se infinitas suas possibilidades!

Como foi seu desenvolvimento dentro de casa?

Como já disse, fui criado dentro da maior normalidade possível. Sempre estimulado a buscar minha própria independência. Tive duas irmãs, brincávamos com a turma, participava de todas as atividades. Sempre foi assim e até hoje estamos juntos em tudo para o que der e vier.

Quando você iniciou os estudos?

Passei por um parquinho infantil no inicio dos anos 70. Mas a minha alfabetização e primeiros anos escolares mesmo, foram dentro da AACD até os 11 anos.

Como era na escola?

Aqui vem o fator que fez toda a diferencia na minha vida. Aos 11 anos eu quis morar com meus avós em uma pequena cidade do interior paulista. Fui transferido para um grupo escolar em 1981. Só que o povo do interior é diferente, há uma cultura acolhedora e de ajuda mútua. Fui rapidamente acolhido por eles. Um circulo de colegas se formou a minha volta. Eu participava das atividades dentro e fora de sala de aula, das comemorações, brincadeiras de pátio. E essas amizades se estenderam para fora da escola. Brincava e andava com meus amigos por toda a cidade. Íamos nadar, andar de bicicleta, enfim, até bola no campinho em jogava. Na adolescência, saiamos à noite, frequentávamos bares e bailes.

Quais foram as principais dificuldades nesse inicio da escola?

Olha, volto a dizer que, por ter sido incluído em uma pequena cidade do interior, não tive dificuldades.

Quais os principais momentos de emoção?

Eu rapidamente me destaquei por minhas habilidades artísticas, minha vontade de ser um cientista e inventar coisas. Mas por minha dificuldades motora, muitas coisas eu não conseguia fazer. Meus amigos faziam por mim; eu ia explicando e eles construindo meus inventos. Também pela minha facilidade com a escrita, destaquei-me escrevendo teatrinho na escola. Aos 12 eu já colaborava com o jornal daquela cidade escrevendo poesias e outros textos. Passei a escrever pequenas reportagens voluntariamente. Por volta dos 16 anos já escrevia o jornal praticamente sozinho, um semanário, além de colaborar com outros da região. Cheguei a me formar em jornalismo técnico e exerci a profissão de jornalista por dez anos.

Quais foram os seus próximos passos?

Aos 19 anos, mudei-me para Bauru, onde cheguei a ser chefe-de-redação de um grupo que editava três jornais. Em 1993, publiquei “Vamos Conversar Sobre Crianças Deficientes”. Convidado no mesmo ano para escrever um livro sobre a história do Centrinho (o Hospital de Reabilitação de Anomalia Craniofaciais da USP/Bauru). Ali, como bolsista desenvolvi uma paixão muito grande pela pesquisa, principalmente na área das deficiências. Em sete anos de hospital, acabei escrevendo cinco monografias e publiquei quase trinta artigos científicos em revistas especializadas do Brasil e exterior.  Foi nessa fase de hospital também que me especializei em “Deficiência e Comunicação Social”, escrevendo vários trabalhos sobre a temática; depois, especializei-me em “Deficiência e Literatura” e, por último, em literatura infantil. Já fui jornalista de quase todas as publicações voltadas às deficiências no Brasil e assinei por um ano uma coluna semanal sobre Inclusão Social no site da Globo.com. Fui editor-chefe do blog “Psicologia e Deficiência” por dois anos.

Como entrou na faculdade?

Na verdade eu nunca parei de estudar. Sempre fiz inúmeros cursos de artes plásticas, literatura e música, além de pintar alguns quadros. E, dentre muitos cursos de pequena duração, cursei História da Arte e História da Música. Só que, de repente, cheguei a conclusão que precisava me preparar mais para novos desafios. Querendo me aperfeiçoar cientificamente, aos 33 anos, voltei a estudar como um novo desafio em minha vida: chegar ao grau de cientista. No final de 2006, bacharelei-me em Psicologia pela Universidade do Sagrado Coração – USC/Bauru com a pesquisa intitulada “Uma análise dos programas de Psicologia do Excepcional nos cursos de graduação em Psicologia no Brasil”, analisando a Formação do Psicólogo. Assim que me formei, mudei-me para São Paulo. Prestei exame de Mestrado em Educação: Psicologia da Educação na PUC/SP; cheguei a cursar um semestre, mas por não ter conseguido bolsa, tive que parar. Em seguida, fiz pós-graduação em Inclusão Escolar. Entre tantas idas e vindas e após quatro pós-graduações, encontre-me com a Psicanálise. Passei um ano estudando-a a fundo, fazendo cursos de formação e escrevendo um blog semanal com crônicas sobre o cotidiano e comportamento chamado “Psicocronicando – A prática da escrita como Divã”.  Até que a Sociedade Internacional de Psicanálise de São Paulo me aceitou em seu Doutorado Profissional. Por conta disto e embasado em meus antigos textos do blog, desenvolvi e concluí em outubro de 2009 meu Doutorado com a tese “Ecos das crônicas contemporâneas: Reflexos das atitudes humanas atuais na meia-idade e suas aberturas às intervenções neopsicanalíticas”. Iniciei o projeto de uma Clínica da Meia-Idade.

Hoje qual é a sua profissão e do que trabalha?

Como disse, hoje tenho a Clínica da Meia-Idade, que presta atendimentos online. Nela também há um projeto pioneiro de atendimento às pessoas com deficiência que têm dificuldades de locomoção e atendo via internet. Como pesquisador, atuo e me desenvolvo em duas linhas de Pesquisas: “Psicologia e Deficiência” e “Psicologia da Arte”. Escrevo meus livros, dou palestras, tenho colunas em blogs e algumas publicações.

Quais são seus sonhos?

Meu sonho e desenvolver o meu lado de escritor, principalmente como romancista, contista e autor infantojuvenil. Quando estudei psicanálise, minha meta era mesmo essa, escrever melhor. Recentemente publiquei meu primeiro romance, “O homem que amou em silêncio”. O meu sonho é esse, poder escrever mais ficção, viajar, dar palestras, estar em contato direto com meus leitores.

O que você acha que os pais devem fazer com seus filhos que teve a Paralisia Cerebral?:

Base do na minha história, eu diria: Não segurem e nem limitem os seus próprios filhos. Ao contrário, incentivem e os empurrem para a vida. O futuro e as possibilidades de onde eles poderão chagar, serão imagináveis.

COMO REFERENCIAR ESTA ENTREVISTA:

FIGUEIRA, E. Emílio Figueira – Paralisia Cerebral. In: Revista Sentidos. São Paulo, ano 9, ed. 60, novembro de 2015.

 

Emilio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

Um comentário em “EMÍLIO FIGUEIRA – PARALISIA CEREBRAL – Revista Sentidos

  • dezembro 24, 2018 em 10:45 pm
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    Excelente depoimento, é um testemunho de superação e muita garra.

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