“Eu namoro uma pessoa com deficiência e sofro preconceito” – Por Emílio Figueira

Nas duas últimas décadas as políticas de Inclusão gerando inúmeras conquistas positivas e espaços em setores como educação, mercado de trabalho, eliminação de barreiras arquitetônicas, dentre outras. Com isto, muitas pessoas com deficiência deixaram os isolamentos e estão presentes em todos os lugares e conquistando infinitas possibilidades.

Essa convivência diária em escolas, trabalhos e diversões entre pessoas com e sem deficiência estreita muitos laços de amizades, paqueras, encantamentos e estar permitindo surgir muitas histórias de amor e casamentos. Sim, porque relacionamentos amorosos nascem basicamente da convivência entre pessoas.

E chegará a hora do casal assumir o relacionamento. Algumas vezes uma pessoa sem deficiência que se propõe a entrar num relacionamento dessa natureza, poderá sofrer algumas consequências iniciais. Um boicote, oposição de sua família. O afastamento de alguns de seus amigos. Ser motivo de algumas chacotas. Isso porque ainda parte da sociedade mantém muitos conceitos herdados culturalmente. Se a pessoa com deficiência for o homem, a família pode acreditar que ele não será capaz de prover o sustento da casa, que não será capaz de cumprir com suas funções de homem reprodutor, que será um peso na vida da moça.  Se a pessoa com deficiência for a mulher, a família poderá acreditar que ela não será capaz de cuidar da casa, não será capaz de gerar filhos; ou caso eles nasçam, essa moça não será capaz de cuidar e educa-los. E outros pensamentos dessa natureza…

Entrando um pouco no campo da psicanálise, o francês Pierre Fédida dizia que a imagem da pessoa com deficiência muitas vezes é como um “espelho perturbador” na sociedade, incomodando por trazer à tona medos inconscientes, a impotência em reconhecermos nossas próprias deficiências, nossas próprias debilidades. Essa imagem perturbadora derruba falsos conceitos que somos perfeitos, sensações de beleza. E muitos querem evitar ficar de fronte a uma pessoa com deficiência justamente para não perturba-los em seus egos fragilizados e inseguranças mais secretas. E tê-los como genros ou noras então, nem pensar.

Nesse contexto a pessoa sem deficiência do relacionamento terá uma dessas duas atitudes de acordo com sua autoestima. Se ela for alguém confiante e segura de suas vontades, não ligará para as opiniões alheias, mesmo sendo de sua família. Apostará e manterá seu relacionamento afetivo, vivendo todas as possibilidades boas e os tropeços como qualquer casal que está se descobrindo, fazendo planos para uma vida a dois. E se os sentimentos forem verdadeiros, o tempo se encarregará de derrubar barreiras, preconceitos e gerará aceitação por parte das demais pessoas.

Mas se a pessoa tiver baixa autoestima, essas reprovações externas poderão lhe trazer sofrimentos. E para entender essa necessidade de aprovação devemos voltar à infância. Nos primeiros estágios da vida precisamos de aprovação externa que, se não for recebida, poderá trazer problemas de autoestima na vida adulta. Muitos podem originar na própria família que, em vez de prestar atenção em suas virtudes, focava nos defeitos e erros, muitas vezes as humilhando. Outras podem ter sido vítimas de pessoas na escola, como amigos, conhecidos, professores que substituía a valorização familiar. E hoje, adultos e inseguros, suas decisões variam de acordo com opiniões externas.

Assim, pessoas que sofrem preconceitos por namorarem pessoas com deficiência poderão escolher dois caminhos:

Ceder às opiniões alheias e renunciar àquele relacionamento e, consequentemente, renunciar a si mesma, as suas vontades e sentimentos, permanecendo eterna refém das pressões externas, sem coragem de viver a sua própria vida, sem acreditar em seus potenciais e capacidade de dar resposta às questões de sua própria vida.

O outro caminho será a pessoa optar por viver as possibilidades desse relacionamento fortalecendo a sua autoestima que só pode ser construída dentro dela, rumo à uma vida satisfatória, legal, gostosa de ser vivida. Mudará o julgamento que ela faz de si mesmo. Terá autoconfiança, autorrespeito e autoaceitação. Será uma boa autoestima que determinará se essa pessoa será capaz de dominar os problemas do dia a dia, como também determinará sua capacidade de se respeitar e fazer valer os seus direitos e suas necessidades pessoais e afetivas de realização.

Uma boa autoestima nos conduz à autoconfiança sobre o que pensamos e desejamos para nós mesmos. Passamos a ser a nossa própria referência. Deixamos de viver sob a referência do outro, do que o outro aprova ou não. Para quem tem boa autoestima à aprovação do outro é apenas consequência.

Fortalecendo a autoestima, essa pessoa ganhará maturidade afetiva, equilíbrio mental e bom senso para encarar o desafio de viver um relacionamento sério e como sonhos futuros. E sem a necessidade da aprovação externa, sentira-se uma pessoa competente e merecedora de viver aquela história de amor com toda a intensidade para ambos. E os comentários o observações preconceituosas que antes tanto incomodavam, serão apenas coisas do passado que não mais pautarão os desejos de seu coração!

Foto Google Imagem

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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