EU PRECISO DIZER QUE TE AMO! – Por Emílio Figueira

O título acima retirei de uma famosa canção de Cazuza e outros intérpretes. Senti a necessidade de refletir o porquê temos tantas dificuldades para dizer a alguém uma coisa tão importante e sublime à condição humana: “Eu te amo!”. Aliás, nós humanos somos a única raça que consegue expressar seus sentimentos em palavras.

Fato é que ninguém passa por essa vida sem ter gostado de alguém pelo menos uma vez. Acontece nos momentos mais inusitados. No ambiente de trabalho, nos estudos, na nossa rua, círculos de amizades. Principalmente nas amizades. Como são comuns as histórias de amor nascerem entre amigos. Depois de nossos familiares, são elas as pessoas mais próximas de nós. Bate-papos descontraídos, confissões, compartilhar os mesmos gostos e objetivos que vão se revelando naturalmente como personalidade, caráter e essência humana.

A aparência física também conta muito nessas horas, embora haja muita demagogia de nossa parte em dizer que isso não importa no amor. E quando a gente percebe: Pá! Estamos gostando mais do que deveria do outro. Dependendo da idade, no caso do adolescente, por exemplo, estará experimentando sentimentos até então desconhecidos. E por eles ainda passarão por muitas vezes, embora com conotações diferentes conforme a idade.

Amiúde, estamos pensando mais do que deveria naquela pessoa. Ela parece se tornar parte importante de nossa existência que não pode mais continuar sem sua presença. Mesmo sem ela ainda saber. Começamos a imaginar como serão seus beijos, suas carícias, palavras trocadas. Planos de ficar juntos, passeios, namoro, casamento, constituição de uma família. Ela é a pessoa com quem sempre sonhamos, o grande e eterno amor de nossa vida (pelo menos naquele momento!). Sem se falar ainda da parte fisiológica: a aproximação da pessoa nos faz tremer, soar, rir sem motivo, falar coisas ou ter comportamentos infantis de uma criança feliz. Como surgem grandes castelos imaginários na felicidade onde tudo é perfeito e lindo.

Há sim, aqueles que nem chegam a ser tão fantasiosos. Pessoas já amadurecidas com pé no chão, estabelecidas profissionalmente e já com o seu projeto de vida traçado, mas ainda não realizadas sentimentalmente. Porém sabem o perfil da pessoa que desejam ter ao seu lado para uma relação estável. E quando surgem, mesmo sendo maduras, essas pessoas podem ou não estarem seguras para uma confissão de amor. Pois o amor é ao mesmo tempo um sentimento com variações para qualquer um. Vem sempre acompanhado de inseguranças e dúvidas.

Mas se tudo está perfeito, o castelo já foi edificado e decorado com tantos sonhos e desejos de realizações junto à outra pessoa, por que então é tão difícil chegar nela e dizer: “Olha, eu estou gostando de você. E já lhe incluir nos meus projetos de vida e de felicidade…”.

Acredito que um dos principais motivos seja o medo da rejeição. A pessoa desejada já foi idealizada, colocada em nosso castelo de contos-de-fadas, tudo será belo, um relacionamento perfeito, sem conflitos, onde o outro será exatamente como projetamos que ele seja. E, diante de um não à nossa declaração de amor, esse projeto de felicidade cairá por terra. E como temos medo dessa queda! Aquela pessoa é tudo o que mais queremos naquele momento. E o fato dela não ter o desejo de corresponder ao nosso sentimento, parece que o mundo acabou. Pelo menos até a gente se levantar da queda, sacudir a poeira e dar a volta por cima – como sugere Paulo Vanzolini.

Pegando uma carona na Psicanálise, há uma coisa legal de se pensar: ninguém ama o outro, mas sim só a si mesmo de forma egocêntrica! Muito louco isso, não? Calma que vou explicar. Segundo essa linha de pensamento, temos os nossos gostos pessoais, vontades e desejos. E quando escolhemos alguém para viver uma história de amor, buscaremos pessoas que satisfaçam o nosso ego para nos fazer feliz, aquela famosa expressão “alguém que nos completem” porque ela é o molde dos nossos próprios sentimentos e desejos de satisfação. E ser “rejeitado” diante de uma declaração, é o mesmo que termos que lidar novamente com nossas frustrações e perdas que já nos acompanham de várias formas desde a primeira infância.

Há dois tipos de se viver. Como defendem os Humanistas, acreditando que todas as coisas já estão pré-determinadas, que nascemos com uma essência que não vai mudar; o que tiver que ser, será e com isso nos acomodamos diante da vida, sem se arriscar, usando essa postura comodista. No amor, esperam um conto-de-fada, fazendo da timidez, armaduras contra as frustrações.

Outros são os Existencialistas, acreditando que nossa essência é construída com a possibilidade de ser; pessoas que correm atrás de seus objetivos e sonhos; buscam oportunidades, não temem em se arriscar nas mais diversas ocasiões; fazem das frustrações acúmulos de experiências para não errarem nas próximas tentativas; fazem das vitórias motivações para sempre progredir. Certamente, os Existencialistas dizem mais vezes: “Eu te amo!”

Claro que as pessoas não têm essa concepção filosófica que acabo de dissertar. Mas é muito comum ver Humanistas perderem seus amores idealizados para as tentativas reais de conquistas dos Existencialistas e depois vão se queixar nos Consultórios por terem perdido mais uma oportunidade na vida!

Foto: Google Imagem

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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