À Margem De Nós Mesmos

 

emilio figueira cronica3

Esses dias, comecei a ler alguns versos de Fernando Pessoa. Dois, em particular, chamaram minha atenção. O primeiro é este: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares”.

Esses versos mexeram muito comigo e, então, comecei a repensar minha vida e meus atos. Percebi que eu andava na mesmice de sempre. Logo eu que sempre fui dinâmico, nunca tive medo de ousar na vida, arriscar-me nos meus ideais, algumas vezes errando, outras acertando… Decidi, então, que era hora de mudar novamente.

Mas mudar não é fácil. Naturalmente somos contaminados pela rotina, passamos a viver quase que mecanicamente. Quantos de nós reclamamos da realidade em que vivemos, porém não fazemos o menor movimento para alterá-la e modificá-la? Temos sonhos, mas poucos têm coragem de persegui-los. Reclamar da vida e colocar a culpa nos outros por causa de nossa situação são formas, até mesmo consciente ou inconsciente, de justificar as nossas “covardias” de ousar perante a vida! Cito Einstein: “Loucura é fazer sempre as mesmas coisas e esperar por resultados diferentes”.

Só que há pessoas que têm essa coragem e, mesmo tendo tudo contra a sua realidade, não medem esforços. Buscam forças onde menos se espera, acham brechas em situações adversas e vão em busca de seus sonhos. Chegam aonde desejam ou até mais longe e, muitas vezes, são duramente criticadas pela inveja daquelas pessoas que se acovardam perante o ato de viver. Aliás, a inveja é um sentimento doentio, um declarar da incompetência de muitos, pois quem é bem-resolvido não cultiva inveja das outras.

Resolvi mudar em tudo, mas reconheço que mudar gera medo a qualquer um. Mudança significa sair de nossa zona de conforto e mergulhar, muitas vezes, rumo ao desconhecido. O conhecido já está em nossa mente, o desconhecido ainda não. Mudar pode ser o ato de abrir mão ou perder algo para se conquistar o novo. Pode exigir uma caminhada sem estabilidade até atingirmos os objetivos de tais mudanças. Levantar perante a vida para buscar mudanças é um ato de coragem. É algo que requer ou não planejamento. Pode realizar-se pelo simples ato de nos levantarmos da “poltrona do mesmismo” e nos colocarmos em movimento.

Faço votos que vocês também se inspirem, criem esperanças, coloquem-se em movimento e busquem mudanças nas suas vidas pessoais e profissionais. A vida, a história não são estáticas. Elas são dinâmicas, renovam-se constantemente. E pessoas presas ao comportamento da mesmice, ao passado, ao tradicionalismo, acabam ficando estáticas. Não vivem, elas são vividas pela vida! E, consequentemente, vão se definhando ao longo do tempo como tudo há em sua volta.

No mesmo poema, Fernando Pessoa diz: “É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.

Emílio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programão Neurolinguística . Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

Um comentário

  1. Maria Elivia Vilela Souza

    Professor Emilio Figueira por ter a coragem de mudar eu penso muito que preciso me mudar as vezes sofro mas ate hoje não tive coragem de mudar tenho medo um grande abraco Maria Elivia

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