Uma Decisão Em Letras Guarafáis

 

emilio figueira cronica

Todos os dias, àquele pobre homem esvaziava uma garrafa em gole e gole. Depois, sempre colocava dentro algumas linhas mal escritas e a entregava ao mar. Nunca recebeu uma resposta, mas tornou-se alcoólatra.

Dias, semanas, meses foram passando sem nenhuma resposta… Mas que resposta ele esperava?

Em uma certa manhã, voltou o seu olhar à garrafa, sentindo-se convocado à tarefa diária de esvaziá-la. Aquele homem de porte médio, cabelos curtos, sempre de camisa aberta e de bermuda, personalidade rude, casado e com vários filhos pequenos era morador de uma pequena vila de pescadores.

A garrafa continuava esperando para ser esvaziada e partir em busca de uma questão que ainda não havia sido elaborada claramente.

Lembrou-se de quando não bebia. Dos companheiros de pesca que faziam desse ofício uma festa diária. Da esposa que, mesmo naquela vidinha simples, o recebia em um sorriso no final de cada tarefa cumprida. Dos abraços de seus filhinhos ao reencontrá-lo. Do respeito e admiração conquistada entre todos os moradores da vila.

Num passado não muito distante, amiúde o primeiro gole. Depois um copo. Em seguida, as garrafas passaram a exigir todo seu tempo para ser esvaziadas. Imitando a cena de um velho filme, achava graça em escrever coisas em folhas de papéis, colocar nessas garrafas vazias e atirar ao mar. Porém, diante de seus devaneios alcoolizados, nunca sabia ao certo o que havia escrito.

Não havia mais tempo para o seu ofício de pescador. Os companheiros se afastaram, continuando a se lançarem ao mar todos os dias para cumprirem suas tarefas. O olhar de alegria da esposa deu lugar a um olhar de tristeza e necessidades dentro de casa. Os filhos passaram o olhar com medo a figura daquele homem embriagado. Homem que se tornou motivo de chacota na vila.

Justamente naquele dia, diante daquela garrafa ainda não consumida, conseguiu definir qual a indagação que sempre colocava nas garrafas: POR QUE TODA ESSA MINHA DECADÊNCIA? Assim mesmo, todas em letras garrafais, escritas em pedacinhos de papéis.

Só que, dessa vez, a resposta veio rápida. Não trazida pelo mar, mas do seu próprio subconsciente. Analisou suas perdas e ganhos. Seus conflitos existenciais passaram em sua mente. A garrafa cheia continuava em sua frente. Ela precisava ser esvaziada para cumprir a tarefa de levar aquele papelzinho para o mar. Veio a figura da esposa e dos filhos em sua consciência.

Olhou os pescadores que, à beira da praia, preparavam o barco para pescarem. Uma angústia tomou conta de si e fez aflorar forças desconhecidas. Os antigos companheiros começaram a empurrar o barco para dentro das águas. Num repente, ele se levantou com a garrafa na mão totalmente cheia e lacrada. Correu, lançou-a ao mar e gritou aos velhos colegas:

– Esperem, hoje eu vou com vocês!

Um comentário

  1. Maria Elivia Vilela Souza

    Professor Emilio Figueira li sua crônica e gostei muito pois se eu parar pra pensar já fiquei muito como esse pescador sem saber que rumo tomar com vontade de desistir de tudo mas hoje com tantos relatos que vc tem me enviado por imail tem me dado forca e coragem para superar tantas angustias e tristeza

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