A Peça Teatral “Palhaços” E Os Bastidores De Nós Mesmos

Teatro em sua pura essência, a peça “Palhaços” nos faz refletir entre Desejos e Objetivos!

Uma agradável noite de sábado na Praça Roosevert. Muitas tribos de pessoas, bares lotados e teatros. Dia ideal para se chegar ao Espaço Parlapatões e assistir a peça “Palhaços”, do dramaturgo Timochenco Wehbi.

Marco da estreia de Márcio Vasconcelos como diretor, tendo o meu querido amigo Jair Aguiar na assistência de direção, “Palhaços” mais uma vez me proporcionou ver uma grande interpretação de Antonio Netto, contracenando com Sérgio Carrera. Em seu elenco estão Caio Solano, Gabriela Santana, Gabriel Felizardo e Victoria Marcelino. Aplausos também aos músicos Guilherme Padilha (sanfona) e Alt Garcia (percussão).

Em um intervalo da sessão de um circo o fã Benvindo (Sérgio Carrera) vai ao camarim do palhaço Careca (Antonio Netto) e, declarando a sua admiração por ele, revela um antigo sonho de ser artista. Estimulado por Careca a correr atrás de seu desejo, o fã vai dando mil desculpas para não fazê-lo.

Na verdade, Benvindo é o arquétipo de centenas, de milhares, de milhões de nós mesmos. Quantos de nós temos sonhos, desejos, mas não fazemos um mínimo movimento rumo a eles.

Mas mudar não é fácil. Naturalmente somos contaminados pela rotina, passamos a viver quase que mecanicamente. Quantos de nós reclamamos da realidade em que vivemos como o Benvindo, porém não fazemos o menor movimento para alterá-la e modificá-la? Temos sonhos, mas poucos têm coragem de persegui-los. Reclamar da vida e colocar a culpa nos outros por causa de nossa situação são formas consciente ou inconsciente de justificar as nossas “covardias” de ousar perante a vida!

Mudança significa sair de nossa zona de conforto e mergulhar, muitas vezes, rumo ao desconhecido. O conhecido já está em nossa mente, o desconhecido ainda não. Mudar pode ser o ato de abrir mão ou perder algo para se conquistar o novo. Pode exigir uma caminhada sem estabilidade até atingirmos os objetivos de tais mudanças.

Levantar perante a vida para buscar mudanças é um ato de coragem. É algo que requer ou não planejamento. Pode realizar-se pelo simples ato de nos levantarmos da “poltrona do mesmismo” e nos colocarmos em movimento.

Em “Palhaços” Benvindo também descobre algo. Por traz de seu ídolo, o palhaço Careca, esconde-se um homem com histórias, alegrias, perdas e dilemas existências. O que nos faz refletir sobre os muitos ídolos que cultuamos nas artes, na televisão, no teatro, no futebol, na política, enfim… Pessoas que são admiradas porque no fundo queríamos ser iguais a elas. Talvez até mesmo por não estarmos contentes com nossas próprias vidas, muitos se projetam na vida de seus ídolos.

Só que entre as pessoas e seus ídolos existe uma diferença pontual. É que os ídolos tem coragem de romper com a rotina e as convicções sociais e correr atrás de seus objetivos, mesmo com ganhos e perdas que qualquer escolha na vida.

Digo isto porque há uma diferença grande entre desejos e objetivos.

Desejos são apenas aquilo que mantemos dentro de nós (como a vontade que o personagem Benvindo sempre teve de ser um artista, só que mantinha justificativas tranquilizantes para não realizá-las).

Objetivos e traçarmos metas e nos colocarmos em movimento para alcançá-las (como fez um dia o personagem Careca, movimentando-se para chegar a ser um reconhecido palhaço, flutuando entre ganhos e perdas).

“Palhaços” não é uma megaprodução global. É teatro em sua pura essência. É uma bela direção alimentada por sensíveis interpretações de seus atores que nos remete a escolher entre: A opção de continuarmos só a ter desejos, muitas vezes até ocultos. Ou a opção de traçarmos objetivos e nos colocarmos em movimento rumo a eles.

O grande brinde que a peça “Palhaços” nos dar é sairmos do teatro modificados ou não. A opção será de cada um!!!

 

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programão Neurolinguística . Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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