Musical Bem Sertanejo Caminha Pelas Bucólicas Estradas De Nossas Memórias Coletivas – Por Emílio Figueira

São Paulo está recebendo a segunda temporada do “Bem Sertanejo – O Musical”, a história da música sertaneja, do campo à cidade. E na última sexta-feira, dia 16, a vida me presenteou de estar ali na estreia, sentado logo na primeira fila do Teatro Bradesco.

O espetáculo começou com uma Folia de Reis no meio da plateia, todos cantando, com direito a bandeira do Divino. A Folia de Reis continuou no palco e minha mente foi viajando no tempo. Lembrei-me de minha infância, quando deixei Sampa para viver em uma pequena cidade do interior até o final da minha adolescência.  Lá cheguei a ver Folia. Vi o final de peões em comitivas como os representados no palco. Escutei a muitos homens já de idade narrando suas memórias de viagens em comitivas.

Presenciei amores ingênuos, assisti vários casais se formando e, ao contrário, pessoas não realizarem o desejo se casar com o seu primeiro amor. Conheci fazendeiros, quermesses, conflitos por terras, convivi com a comunidade japonesa, ouvi modas de violas à beira da fogueira, rodas de trucadas, prosas jogadas fora nos balcões de armazéns que nem existem mais, vi a casa das mulheres-damas, ouvi muito som de berrante e observei com indagações mentais antigas casas ou colônias de trabalhadores rurais em ruinas em meio aos pastos.

Após essas rápidas lembranças, volto à São Paulo, março de 2018.  O Autor e Diretor de “Bem Sertanejo”, Gustavo Gasparani, que diz no catálogo que o musical “conta a trajetória a formação da música e da cultura interiorana do nosso país de forma poética e não cronológica. A peça propõe uma viagem pelos nossos interiores – memórias, infância, descobertas -, resgatando assim, o sertão que há em cada um de nós e, ao mesmo tempo, um contato direto com as nossas raízes culturais”.

E assim o é! Acredito que grande parte da plateia que assiste ao “Bem Sertanejo – O Musical” não teve a mesma sorte minha de ter vivido e conhecido outros valores humanos em uma cidade de interior e faça uma leitura diferente. Mas as emoções podem ser as mesmas. Sabe por quê?  Porque todos nós trazemos as histórias e imagens desse adormecido Brasil rural em nossos inconscientes coletivos, o nível mais profundo da nossa psique, que comporta o acúmulo de experiências herdadas da espécie humana e de espécies pré-humanas. Era o que Carl Jung intitulou de arquétipos, conjuntos de “imagens primordiais” originadas de uma repetição progressiva de uma mesma experiência durante muitas gerações.  (Pronto, falei de psicanálise!, rsrsrs)

E o musical permite que esses arquétipos sejam reativados em nossos inconscientes coletivos de forma poética e emocionante através de seu elenco, “um grupo de atores/tropeiros, com suas violas caipiras, desbrava o sertão brasileiro e durante o trajeto revela toda a riqueza desse mundão velho sem porteira, com seus causos, lendas, piadas e canções”, como diz Gasparani. E esses tropeiros têm nome: Michel Teló, Alan Rocha, Cristiano Guarda, Daniel Carneiro, Gabriel Manta, Jonas Hammar, Lilian Menezes, Luiz Nicolau, Pedro Lima, Rodriga Lima, Sérgio Dalcin.

Para toda essa caboclada que canta e interpreta muito, aos músicos que tocam divinamente, à equipe criativa e a todos da produção, levanto-me, tiro o meu chapéu e os aplausos de pé!!!Para toda essa caboclada que canta e interpreta muito, aos músicos que tocam divinamente, à equipe criativa e a todos da produção, levanto-me, tiro o meu chapéu e os aplaudo em pé!!!

Voltando às minhas memórias e emoções estéticas, pelo fato de eu ter vivido um tempo no interior, “Bem Sertanejo – O Musical” teve um sabor todo especial para mim… Claro que não vivi as décadas iniciais onde o enredo é ambientado. Não vou contar a história do espetáculo para não estragar o gosto de quem ainda irá assisti-lo. Nem vou dar spoiler. São três horas de muitas surpresas caminhando por bucólicas estradas de nossas memórias coletivas, mesmo que não sabíamos que tínhamos essas lembranças.

O grande barato de se montar um texto de época como esse, seja mesmo a capacidade que a arte teatral tem de dialogar com nossos inconscientes coletivos e nos emocionar, mesmo que não sabemos o porquê estamos nos emocionando, deixando lágrimas alegres e nostálgicas escorrerem!

Arte é assim, ela não precisa se explicada, é para ser sentida! É poder sair de um espetáculo acreditando que os peões de boiadeiros, os pioneiros da música caipira, que anonimamente contribuíram tanto na construção econômica e cultural desde Brasil de meu Deus, não estão esquecidos no tempo. E aqui em Sampa, eles ainda terão por três semanas em endereço fixo para serem encontrados no palco de Teatro Bradesco

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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