NINA MANCIN: O PIONEIRISMO DO TEATRO COMO INCLUSÃO SOCIAL NO BRASIL

“Ainda sou uma sonhadora, mas sempre com os pés no chão!” Essa frase é da atriz, psicopedagoga, diretora, professora de teatro, produtora e arte educadora Nina Mancin, uma mulher de muita garra que vem escrevendo o seu nome na história do teatro brasileiro. Tanto por sua carreira individual, quanto pelo seu pioneirismo a frente da CIA TEATRAL OLHOS DE DENTRO, promovendo a formação e inclusão teatral pessoas com deficiência física, visual, síndrome de down, paralisia cerebral e autistas, juntamente com pessoas sem deficiência, pessoas idosas, crianças. E, por colocar todos juntos atuando no mesmo palco, posso afirmar com segurança que essa é a primeira Cia realmente inclusiva no sentido mais puro da palavra!

Nesta entrevista, Nina Mancin relembra suas origens, formações e atuações no teatro, televisão e cinema, revelando os grandes desafios e alegrias em usar as artes cênicas como inclusão social no Brasil, como ela destaca: “O mais difícil não é lidar com a pessoa com deficiência como se pensa, o mais difícil é levar esse projeto, essa ideia para as pessoas. Essa é minha luta até os dias de hoje.”

1 –  Nina, conte-nos um pouco da sua história pessoal, suas origens.

Sou de uma família humilde, comecei a trabalhar aos 9 anos, limpava a casa de uma professora e cuidava do neném. Aos 14anos já trabalha registrada numa empresa na avenida Ipiranga, pegava ônibus lotado na Zona Leste às 05:30 da manhã, entrava às 07:00, depois direto para escola, apesar das dificuldades nunca parei com os estudos. Aos 18 anos fui morar sozinha no Centro da Cidade para facilitar e conciliar melhor o trabalho e os estudos, essa foi uma das experiências mais importantes para meu crescimento.

2 – O que levou você se interessar pelo mundo das artes cênicas? E como vem sendo a sua construção enquanto atriz sua formação, trabalhos realizados no teatro, televisão, cinema?

Nina Mancin na peça “Assalto Alto””

Como eu disse minhas origens são bem simples, não existia essa possibilidade “ser atriz”, mas eu sempre tive interesse por teatro, brincava de fazer teatrinho no quintal. Isso foi ficando adormecido, trabalho, estudo, responsabilidades…Eu era muito tímida, tinha medo do mundo, imagina ser atriz! Isto estaria fora da minha realidade. Um dia fui a um recital de poesias e fiquei encantada com o ator que as recitava. No final do evento, estavam distribuindo folhetos do curso de teatro que ele ministrava, pra encurtar tomei coragem e me matriculei. Esse ator era nada mais nada menos que Wolney de Assis, um mestre do teatro brasileiro. Estudei durante 8 anos. Um dia ele olhou pra mim e disse sorrindo…”Eu não aguento mais você aqui, você está pronta”. E mais uma vez o medo tomou conta de mim, eu não acredita que estava pronta, ele com sua sabedoria de mestre me fez dar o primeiro passo e segui meu caminho.

Meu primeiro trabalho profissional foi com um grupo de teatro de bonecos com a técnica bunraku. Eu não sabia manipular bonecos, então passava horas ensaiando. Foi um trabalho lindo, acabei me destacando com o meu personagem dentro do espetáculo, concorri ao Prêmio Coca Cola de Teatro Infantil, como melhor atriz. Depois disso participei de outros infantis e nunca mais parei de trabalhar com teatro, tanto adulto como infantil. A maioria eu produzi. Mais tarde ganhei prêmio de melhor atriz com o Monólogo “A Prostituta no Manicômio” de Dario Fo. Foram muitos trabalhos no teatro, quero ressaltar um dos mais significativos e profundos pra mim, foi interpretar a Vida de Helen Keller, uma personagem cega, surda e muda, baseado em fatos reais em uma Cia Internacional de Teatro um presente divino, apresentamos no Brasil e Europa um espetáculo extraordinário, inesquecível.

Participei de vários trabalhos na TV como diretora, produtora e atriz e algumas participações em curta e longa metragem.

3 – E quando nasce a professora e diretora teatral?

Eu sempre tive uma boa intuição e criatividade, desde que estudava artes cênicas era eu sempre que dirigia as cenas com os colegas, isso pra mim era fácil, a imagem vinha e eu resolvia as cenas.  Na época me formei em Pedagogia e isso me abriu portas para aulas de teatro em escolas infantis. Dirigia espetáculos com 100 crianças, nada fácil…rs Em 2002 comecei a dar aulas para pessoas com deficiência, sou voluntária da Cia Teatral Olhos de Dentro há 16 anos. Dirijo um Grupo de Teatro para Terceira Idade e outro Grupo de Teatro para Pessoas com Deficiência na Universidade Metodista de SP.

4 – Dando um pulo em seu extenso currículo, há 16 anos você assumiu o grupo teatral Olhos de Dentro. Hoje se fala muito em inclusão das pessoas com deficiência. Mas naquela época, como foi iniciar um projeto pioneiro como esse?

Atual formação da CIA TEATRAL OLHOS DE DENTRO

Não foi nada fácil, para mim era tudo novo e claro não tinha nenhuma experiência. Confesso que tive medo, mas foi um encontro mágico, acredito que cada um de nós nascemos com uma missão é naquele momento havia encontrado a minha!

O objetivo era a inclusão social através da arte. Então comecei com pessoas com deficiência visual, física e pessoas sem deficiência, não tinha nenhuma receita pronta, aprendi muito naqueles primeiros anos. O mais difícil não é lidar com a pessoa com deficiência como se pensa, o mais difícil é levar esse projeto essa ideia para as pessoas essa é minha luta até os dias de hoje.

Ao longo dos anos fui recebendo outras pessoas com diferentes deficiências, hoje nosso grupo é formado por pessoas com deficiência visual, física, síndrome de down, síndrome do X frágil, surdos, deficiências múltiplas, paralisia cerebral e pessoas sem nenhuma deficiência, porém com baixo poder aquisitivo.

5 – Sem dúvidas, você é uma multiprofissional também formada em pedagogia e pós-graduada em psicopedagogia. Essa visão didática veio a somar no seu trabalho enquanto professora teatral?

Com certeza, quando optei pelo curso de pedagogia eu já tinha a intenção de trabalhar na área da arte e educação, e isso ajudou muito no começo. Com o tempo e já trabalhando com pessoas deficientes senti a necessidade de adquiri mais conhecimentos e resolvi fazer a pós em psicopedagogia que só veio a somar e contribuir ao meu trabalho de inclusão.

6 – Umas das marcas da Cia Teatral Olhos de Dentro é o seu dinamismo. Mesmo sem quase nenhum apoio financeiro, foram até aqui realizadas 16 montagens, mais de 40 mil espectadores, 650 passaram pelo curso gratuito, dentre outros aspectos positivos. A que você atribui todo esse dinamismo?

Apesar de não ter nenhum apoio financeiro eu faço o que gosto, como eu disse é minha missão ajudar essas pessoas dar essa oportunidade que talvez nunca teriam, atribuo a tudo isso como UM ATO DE AMOR!

7 – Sua carreira profissional conta com muitas peças, participações em televisão e cinema, publicidade. Um de seus papéis marcantes foi interpretar Helen Kelen no teatro em 2014. Isso até a levou em uma turnê pela Europa, como você já citou. Relate-nos um pouco dessa experiência.

Interpretando Hellen Keller

Já interpretei muitos personagens maravilhosos sem dúvida, mas Interpretar Helen Keller, foi a mais gratificante experiência que já tive no teatro, essa oportunidade veio exatamente pela minha experiência com pessoas com deficiência. Poder interpretar uma personagem baseada na história real cega, surda e muda com uma Cia internacional de Teatro e poder fazer uma turnê internacional foi de longe uma experiência única!

8 – Atriz, psicopedagoga, diretora, professora de teatro, produtora e arte educadora. Hoje quem é Nina Mancin, suas principais linhas de atuações e quais aspirações você espera tanto para a Cia Teatral Olhos de Dentro, quanto para a sua carreira profissional?

Ainda sou uma sonhadora, mas sempre com os pés no chão. Acredito que a inclusão de pessoas com deficiência através da arte possa ser mais respeitada e valorizada.

Quanto a Cia Teatral Olhos de Dentro, tenho o sonho de que, possamos atingir uma melhor visibilidade, tanto no meio teatral como na sociedade em geral, mesmo hoje se falando muito em inclusão, ainda existe um preconceito muito grande.

Eu amo ser atriz, estar no palco atuando me completa, queria poder estar sempre em cartaz atuando, tenho projetos, mas não tenho capital, pois é… a carreira de atriz sempre foi muito instável, sigo na luta, procurando ocupar meu espaço com dignidade, amor, respeito e principalmente persistência.

SAIBA MAIS SOBRE O PROJETO OLHOS DE DENTRO

Conheça o site oficial da CIA TEATRAL OLHOS DE DENTRO clicando aqui

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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