NOTA DE FALECIMENTO DO AMOR EM TEMPOS BIOLÓGICOS – Por Emílio Figueira

Em uma noite de domingo, assistindo na TV Cultura ao programa “Café Filosófico”, um psicanalista falava da atual cultura que valoriza cada vez mais o biológico. Buscam-se explicações neurocientíficas para tudo e todos os comportamentos, até mesmo os psicológicos: angústia, depressão, melancolias, solidão, relações interpessoais; a busca do corpo e saúde perfeita. Mas do que isso, priorizam o uso de medicamentos como soluções rápidas, quase instantâneas para esses ditos problemas puramente de ordem biológica.

Diante da tela da televisão, questionei-me: como fica o lado psicológico das pessoas?

Claro, os medicamentos podem dar um alivio imediato a todos esses sintomas, uma sensação de bem-estar momentâneo. Mas as causas desses problemas, muitos de ordem psicológica, não serão eliminados sem uma intervenção profissional mais profunda. Consequência, esses sintomas sempre estarão dando o ar da graça.

Em seguida, fiz outra indagação mental: Como ficam os sentimentos nesta cultura?

Falando de sentimentos de forma genérica nessa visão, são informações que seres biológicos são capazes de sentir nas situações que vivenciam. O sistema límbico é a parte do cérebro que processa os sentimentos e emoções. A medicina, biologia, filosofia e a psicologia estudam o sentimento humano. Infelizmente nessa cultura cada vez mais valoriza o homem como ser biológico, o termo sentimento estar muito usado para designar uma disposição mental, ou de propósito de uma pessoa para outra ou para algo. Os sentimentos assim, seriam ações decorrentes de decisões tomadas por uma pessoa.

Nessa atual cultura não se valoriza mais o amor como o conjunto de encantamentos que a pessoa sente, mas o ato de sempre decidir pelo bem ou a favor do outro ou de algo, independente das circunstâncias. As sensações físicas sentidas surgem como consequência da decisão de amar, denominando esse sentimento como “ágape”, ou “amor ágape”, pois as sensações que a atração física que uma pessoa sente por outra produzem em alguém, não é amor ou de algum tipo de sentimento, mas apenas emoções (sensações corporais), consequentes do instinto que levou essa pessoa a sentir atração física pela outra. Nessa concepção biológica um sentimento é uma decisão (disposição mental) que alguém toma em sua mente, ou alma, ou espírito, a respeito de outra ou algo. Assim, toda e qualquer palavra que denota emoções quando usada, pode ser classificada como sentimento quando se refere a algo que podemos ou não escolher fazer (se é um ato pode-se cometê-lo ou não, não é um instinto fora do controle da consciência), ou seja, que possua uma forma verbal.

Mas são decisões ou disposições mentais que vão promover emoções no corpo que, estas sim, serão sentidas. Por isso, uma pessoa que ama outra, por haver tomado essa decisão de continuar amando-a, mesmo depois de sofrer algum mal cometido pela pessoa amada. Muitas vezes sem entender como pode amar ao mesmo tempo em que sente a emoção característica do momento da ira, dor da traição, ou alguma outra emoção que, racionalmente, poderia conduzir a pessoa que ama a querer deixar de amar.

Isso pode confundir o entendimento nesta concepção do que é sentimento. Geralmente, os nomes usados pra se referir a um sentimento, também são os mesmos usados pra se referir às emoções mais características destes mesmos sentimentos. E aqui cabe uma rápida explicação sobre o que é Emoção. Diferenciando-se do sentimento, a emoção, em uma definição mais geral, é um impulso neural que move nosso organismo para a ação em um estado psicofisiológico. O sentimento, por outro lado, é a emoção filtrada através dos centros cognitivos do cérebro, especificamente o lobo frontal, produzindo uma mudança fisiológica em acréscimo à mudança psicofisiológica.

Há também a Emoção Cognitiva, que diz respeito ao conhecimento, ao que sentimos e sabemos definir o por senti-la. Uma avaliação cognitiva é importante, pois por meio dela, podemos aprender a controlar uma determinada emoção. E as emoções são: aborrecimento, agressividade, afetividade, aflição, alegria, amizade, amor, angústia, ansiedade, arrependimento, antipatia, carinho, ciúme. coragem, culpa, curiosidade, dó, egoísmo, empatia, esperança, euforia, felicidade, histeria, hostilidade, indecisão, inveja, ira, mágoa, medo, nojo, ódio, orgulho, paixão, pânico, pena, prazer, preguiça, preocupação, raiva, remorso, resignação, saudade, simpatia, susto, sofrimento, solidão, surpresa, tédio, tristeza e vergonha.

Mas sou um psicólogo. E minha intenção aqui é abordar os sentimentos e as relações interpessoais. O que leva as pessoas a namorar, apaixonar-se, amar umas as outras, casar-se, formar família, aspectos do erotismo e sexualidade? Certamente, acabo de levantar vários tópicos em uma só questão. O ideal é que eu fale um pouco sobre esse “o que leva”!

Começando a dissertar os tópicos, por meio do namoro temos um relacionamento interpessoal com função da experimentação sentimental e/ou sexual entre duas pessoas. A troca de conhecimentos e uma vivência com um grau de comprometimento inferior a do matrimônio. A grande maioria utiliza o namoro como pré-condição para o estabelecimento de um noivado e casamento, definido este último ato antropologicamente como um o vínculo estabelecido entre duas pessoas mediante o reconhecimento governamental, religioso ou social. Com a evolução da tecnologia, já é comum encontrar casos de pessoas cujo namoro se dá através das modernas formas de telecomunicação, como o telefone ou a internet, permitindo aos casais namorar apesar de estarem em cidades, estados, países ou continentes distintos.

Com função de também permitir as pessoas se conhecerem antes para um compromisso sério futuro, mas com menos carga de cobrança de comprometimento que o namoro, hoje tem o “ficar”. Ficar é uma gíria brasileira que designa uma relação afetiva sem compromisso, que normalmente tem natureza efêmera. Como um namoro “relâmpago”, pois o namorar tradicional envolve um compromisso que comumente envolve fidelidade e característica a durabilidade (pelo menos de meses), enquanto que o ficar (ou a ficada) acontece por minutos ou horas. De modo que o(a) garoto(a) possa ficar com quem quiser e depois não precisa sentir ciúmes se vê-la(o) com outro(a), nem ligar no dia seguinte.

Quando duas pessoas ficam por vezes sucessivas, sem começar um namoro sério, estabelece um chamado “namoro sem compromisso”, com a seguinte expressão: “ficar de rolo”. O termo rolo vem de o verbo enrolar, por causa da situação, que é indefinida. Na maioria dos casos, o ato de ficar não envolve relações sexuais, apenas beijos mais ou menos ardentes e certas liberdades aceitas por ambos os ficantes – como são denominadas essas pessoas, muitas vezes é confundido com o de amizade colorida, relacionamento aberto e relacionamento sexual.

Em qualquer caso o principio de toda atração e gostar de alguém sempre será o reforço positivo. Gostamos daqueles que nos gratificam e desgostamos daqueles que nos punem. Somos atraídos por aqueles prediletos e fatores recompensadores, uma balança entre custos e benefícios que nos levam a sentir atraídos por alguém pelas suas qualidades pessoais, suas similaridades conosco, a familiaridade a proximidade, elementos como honestidade, lealdade, confiabilidade, atitudes, valores, interesses, personalidade também pesam em nossas escolhas. Pessoas similares a nós usualmente nos recompensam, possuem os mesmos desejos sociais. Familiaridade significa atração entre pessoas, aumentando o apreço entre elas, trazem com o tempo mais conforto entre si. Nas convivências físicas temos a oportunidade de nos recompensar ou punir, tornar-se amigos, amantes ou inimigos. Sabemos o quanto é bom conviver com quem a gente gosta; mas também o quanto é estressante conviver com quem a gente não gosta.

Claro que todo relacionamento em suas fases iniciais implicam muito mais em incertezas, levando as pessoas a prestar mais atenção em questões de equidade. O nível de satisfação que um indivíduo pode alcançar em um relacionamento estar ligado a sua subjetividade e a qualidade dessa relação. Há fatores que influenciam mutuamente – geralmente não gostamos de nos sentir explorados ou de explorar o outro. A satisfação dessa relação dependerá, em última instância, de uma comparação que fazemos dos resultados – positivos e negativos – da relação e seu padrão interno, individual de satisfatoriedade. Esse padrão também pode ser determinado pelas experiências passadas da pessoa – se for acostumada a muitos resultados de experiências satisfatórias, possuirá um nível de comparação muito alto, resultando em expectativas maiores no futuro. Se final do balanço custos e benefícios for positivos para as pessoas envolvidas, a relação satisfará as expectativas e dará prazer ao casal.

Somos por natureza um “ser desejante” com energia que nos impulsiona a agir, buscar e alcançar nossos objetos desejados. No amor, essa relação intersubjetiva de busca tornar-se, sobretudo, o reconhecimento do outro. Um amante não deseja apenas apropriar do outro, mas sim capturar a consciência do outro, fundamentando essa relação amorosa na reciprocidade entre ambos de afetos e reconhecimentos. Almeja o desejo da atração entre dois corpos. Amar de forma sadia e sem egocentrismo é sair de si mesmo, ouvir o apelo do outro. Os narcisistas têm muitas dificuldades de viver um amor verdadeiro e recíproco. Para se viver um grande o verdadeiro amor, essa conquista terá que passar pela conquista da nossa maturidade.

Interessante que na sociedade contemporânea falamos muito mais sobre sexo do que sobre amor. Isso por que neste momento de desejos imediatos, estamos muito mais interessados em prazeres instantâneos que em decifrar enigmas – o que é o amor? – ou construir relações duradouras que demandam de tempo e investimentos pessoais – dividir e se dar aos outros -, o que é condenável pela cultura do individualismo. Falar de amor tornou-se um vazio conceitual nesta multidão solitária, onde caminhamos como zumbis lado a lado sem um encontro verdadeiro. São reflexos de nossos empobrecimentos interpessoais não só sentimentais, mas também nas relações familiares, ambientes de trabalho, comunidades religiosas, dentre outras.

Nesta sociedade capitalista que estimula a competição pelo individualismo, exigindo um ritmo exaustivo em trabalhos alienados, rotineiros, repetitivos, as pessoas perdem cada vez mais a capacidade de extrair do cotidiano prazer real. Estabelecer um relacionamento amoroso e verdadeiro então, nem pensar! Cada vez mais, os motéis se multiplicam. Hoje é muito mais vantagem ir para um deles acompanhado por alguém ou contratando uma ou um profissional do sexo. Por alguns momentos satisfazer nossas necessidades usando uma ou mais camisinhas de Vênus. Depois jogá-las no lixo, representando simbolicamente estar descartando momentânea ou definitivamente a pessoa que nos serviu. Realmente, também no sexo estamos nos comportando de maneira biologia apenas para nossa satisfação carnal. E quanto ao amor duradouro e com compromisso, sinto que falta pouco para assinarmos o seu Atestado de Óbito.

Foto: Google Imagem

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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