“O BRASIL TEM A MELHOR LEGISLAÇÃO REFERENTE ÀS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA” – Por Emílio Figueira



Quando nasceu, ele foi diagnosticado com paralisia cerebral, mas as limitações impostas por sua condição nunca o atrapalharam a fazer o  que queria da vida. Para ele, há muitos avanços a serem comemorados

Por CLAUDIA FELIZ – Entrevista de 2013 – A Gazeta – Espírito Santo

Paulista, 42 anos de idade, psicólogo, psicanalista, quatro pós-graduações, um doutorado, 38 livros e inúmeros artigos científicos publicados, Emílio Figueira também registra em seu currículo invejável sua experiência como professor e jornalista. Esse homem que não se curvou

às muitas limitações causadas por uma paralisia cerebral que o afetou durante o nascimento sabe o quanto uma educação inclusiva é importante para que pessoas com deficiência possam ter uma vida plena e produtiva como ele.

Como é a sua rotina?

Moro ao lado de uma grande praça. De manhã tomo o meu café, depois vou fazer caminhada e um pouco de alongamento para fortalecer as pernas, senão começo a cair.  Volto, trabalho no escritório de casa. Estudo, escrevo, atualizo meus blogs. Duas vezes por semana faço atendimentos clínicos na Igreja Batista dois quarteirões de casa, qual sou membro. Atendo meus alunos e preparo minhas aulas, pois sou professor em cursos a distância. Mas também saio para dar palestras, viajo pelo  Brasil, sempre falando sobre Educação Inclusiva. Atualmente comecei a  estudar teatro. Já tenho peças de minha autoria montadas e premiadas. Mas agora entrei de cabeça no universo cênico, pois além de escrever mais, pretendo participar de produções, direções, profissionalizar-me.

Sua deficiência teve origem no pato?

Com relação há minha deficiência, eu era o primeiro filho, meus pais queriam o melhor. Contrataram uma médica particular para acompanhar toda a gravidez. No dia em que minha mãe entrou em trabalho de parto e foi para a maternidade, essa médica estava fora da cidade num congresso. Como era uma paciente particular, nenhum outro médico quis atender. Minha mãe ficou das 10 horas da manhã até as 11 da noite sofrendo fortes dores, até que nasci de parto normal. Mas tive asfixia, fui para o balão de gás e fiquei por cinco horas sem sinal de vida. Após isso, comecei a reagir. Isso atingiu e afetou parte do cérebro, ocasionando a lesão. Por volta dos três meses minha mãe me levou há um posto de saúde para tomar as tradicionais vacinas. Um médico, ao me examinar, disse que eu tinha um retardo motoro. Minha mãe entendeu que eu tinha um retardo mental e chorou por três dias. Após isso, foram feitos vários exames e diagnosticado a paralisia cerebral. Basicamente o meu andar, os movimentos dos braços, das mãos e muito a fala. Comecei a andar com quase 6 anos de idade, após muito tratamento. Não parei mais. E hoje ando até sozinho pelo Brasil inteiro devido as minhas atividades profissionais.

– E a sua vida escolar? Você foi para uma escola especial ou cursou uma regular? Acho que pode falar bem das limitações dos professores, muitas vezes despreparados para lidar com alguém “diferente”. Isso o incomodou? Foi difícil superar as barreiras? Aliás, é difícil? Sim, porque elas existem aos montes por aí…

Minha infância foi vivida aqui em São Paulo. Mas pelo fato de já muito cedo ter iniciado os meus tratamentos, eu era aluno semi-interno na AACD. Ou seja, estudava das 7 horas da manhã até às 5 horas da tarde. Dentro desse período tinha as atividades escolares, as mais diversas terapias e momentos para alimentação e recreação. E depois ainda ficava duas horas na perua bege com o logotipo da AACD, rodando por São Paulo até chegar em casa exausto, indo dormir para levantar às 6 horas da manhã e começar tudo de novo. E isso durou toda a década de 70. Já na adolescência, eu tinha mudado para uma pequena cidade do interior chamada Guaraçaí e lá fui estudar no grupo escolar regular.

Sentiu alguma resistência?

Tive uma adolescência totalmente normal, com todas as possibilidades e aventuras como qualquer amigo da minha idade. O povo do interior tem uma cultura acolhedora e de ajuda mútua. Fui rapidamente acolhido por eles. Um círculo de colegas se formou a minha volta. Eu participava das atividades dentro e fora de sala de aula, das comemorações, brincadeiras de pátio. E essas amizades se estenderam para fora da escola. Brincava e andava com meus amigos por toda a cidade. Íamos nadar, andar de bicicleta, enfim, até bola no campinho em jogava. Na adolescência, saiamos à noite, frequentávamos bares e bailes. Sabe, desde muito cedo, tive uma queda muito grande pelas artes, produzindo entre os 2 e 5 anos de idade, inúmeros desenhos e pinturas. Fui alfabetizado aos 5 e aos 7 já escrevia meus primeiros poemas e ensaios. Aos 11, fiz a minha grande e primeira loucura; sai da casa de meus pais em São Paulo, indo morar com meus avós maternos em uma pequena cidade do interior paulista, chamada Guaraçaí, como já disse. Aos 12, já realizava e escrevia reportagens para a “Folha de Guaraçaí”; aos 16, escrevia o jornal praticamente sozinho, além de colaborar com outros da região e, aos 18, formei-me em jornalismo técnico. E daí a minha carreira de jornalista deslanchou.

 

Seu perfil profissional é invejável. O que o fez superar tantas dificuldades, que, suponho, tenham existido na sua vida, e chegar tão longe? Muita gente se fecha, se esconde em casa…

Pois é, são duas faculdades, quatro pós-graduações, um doutorado, escrevi 82 livros dos quais joguei 40 no lixo por considera-lo que foram apenas um exercício de estilo e ritmos de escrita. Foram mais de 500 textos jornalísticos publicados e como cientista. Publiquei 87 artigos científicos no Brasil e exterior. Dificuldades foram muitas, mas nunca parei para pensar o que realmente me motivou. Acho que foi o prazer que tenho pelo conhecimento, querer aprender. Tenho também um enorme prazer no processo de criação, de pegar uma ideia ou uma opinião e transformá-la em texto.

Qual é a sua visão sobre a educação inclusiva? Há pais que garantem que as escolas regulares não estão preparadas para receber seus filhos, preferindo o atendimento na Apae e na Pestalozzi.

Em todas minhas palestras e no meu livro “O que é Educação Inclusiva”, da Coleção Primeiros Passos/Brasiliense, falo muito disso. Tenho 42 anos de estrada. Posso dizer que muita coisa já melhorou nesse sentido. A inclusão escolar ainda está com muitos pontos para serem melhorados, estudados e corrigidos. No geral, sou bem otimista em dizer que estamos no caminho certo. Aliás, o Brasil tem a melhor legislação referente às pessoas com deficiência do mundo. Claro, volto a repetir, ainda temos muito que melhorar e conquistar. Mas não aguento ouvir pessoas que dizem que nada mudou, os pessimistas de plantão! Melhorou sim, temos muitas coisas boas já para contar! Infelizmente, casos como dessa mãe são muito comuns e me entristecem. Mas mesmo assim, não podemos recuar. A Educação Inclusiva é um movimento bem organizado e podemos ir  corrigindo, mudando essas coisas, esses ajustes. Precisamos de pais comprometidos a participar também desse processo. Qualquer escola precisa estar preparada para receber alunos inclusivos. Mas há uma grande necessidade, principalmente por parte dos pais. A importância de se atentar às necessidades específicas de cada criança, terapias e acompanhamentos especializados, o desenvolvimento global de alunos incluídos como os aspectos psicológicos que precisam ser observados, valorização dos pontos positivos de uma deficiência, possibilidades de uma criança se desenvolver em outras áreas que não sejam impostas pelos padrões culturais. Entrando no campo pedagógico, há a importância de uma parceira em tripé: Escola, Família e Sociedade! E reafirmo, para que o processo de inclusão escolar de uma criança com deficiência realmente dê certo, será fundamental a participação plena da família junto aos professores e todo o contexto escolar!

Há um modelo ideal?

Ela é um processo pedagógico, mas se puder contar com a afetividade de todos os envolvidos, ajudará muito. Fundamental para o sucesso da Escola Inclusiva não será apenas jogar essa responsabilidade nas costas dos professores. Todas as demais pessoas, diretores, inspetores, atendentes, o pessoal da cantina, da limpeza, da manutenção, os demais alunos, as famílias e comunidade em geral estejam envolvidas no mesmo objetivo. Professores com alunos em processo de inclusão, se necessário, poderão receber apoio e auxiliares na sala de aula. Esses educadores precisão receber treinamentos constantes. A escola poderá receber de tempos em tempos, a visita dos professores itinerantes e/ou outros especialistas no assunto para avaliar como anda o processo, passar instruções, tirar dúvidas, dar treinamentos. Enfim, o que quero dizer com tudo isso, é que o professor dentro de uma Sala de Aula Inclusiva é o personagem direto da Inclusão Escolar; mas por trás dele, deverá estar todo um arsenal de apoio material e humano. O trabalho em equipe entre os profissionais de uma escola pode contribuir, e muito, para uma convivência harmoniosa, construída coletivamente, que certamente irá refletir na relação educador/educando e no processo de ensino e de aprendizagem.

As escolas e professores estão preparados para a inclusão?

Gosto de dizer que ninguém está realmente preparado para uma situação até o momento de enfrentá-la. Aqui saberemos se o professor estará realmente preparado só no momento que ele receber um ou mais alunos para serem incluídos. Surge aqui a necessidade de treiná-los e habilitá-los, criar estratégias no preparo de professores e alunos sem deficiência para receberem colegas com deficiência, conhecendo o perfil dos alunos a serem incluídos. Suas reais necessidades. O desenvolvimento de estudos, gerando conhecimento acerca das práticas e procedimentos que melhor atenderão às suas peculiaridades, necessidades e possibilidades. Desenvolver projeto pedagógico consistente com todos os dados colhidos. Realizar um bom projeto pedagógico que valorize a cultura, a história e as experiências de todos. E há as questões Culturais.

Por exemplo.

O conceito que um professor tem de um aluno com deficiência pode determinar o modo de relação e trabalhos entre ambos. O educando, antes de sua deficiência, precisará ser visto como uma pessoa que têm desejos, expectativas e dificuldades. O professor deve acreditar que é capaz de promover o crescimento do aluno, da sua família, e da classe a que pertence, possibilitando que eles entendam suas dificuldades e organizem-se para resolvê-las. O professor deve estabelecer metas e cumpri-las, tendo em vista o objetivo geral que é o de tornar o aluno cada vez mais independente e possivelmente produtivo. O professor deve vê-lo como pessoa, inserido num contexto, tentando entender as relações presentes no mesmo. É importante que entenda o porquê aprender habilidades e para quê. O professor deve conscientizá-lo de que pode ajudá-lo, mas que o seu envolvimento com a aquisição de novos repertórios é fator importante para que o processo educacional tenha êxito.

– Emilio, vi na Folha que você quer encontrar um amor, mas que admite dificuldades. Na sociedade em que vivemos, que valoriza mais a forma que o conteúdo, isso é muito difícil? Se tivesse que falar sobre você para conquistar alguém, o que diria em seu favor?

 O senhor declarou, numa entrevista recente, que quer conquistar um amor, mas que, na internet, ao revelar sua deficiência, as moças recuam. Vivemos numa sociedade que valoriza mais a forma que o conteúdo. Se tivesse que falar sobre si mesmo para conquistar alguém, o que diria?

Esse assunto deu pano pra manga. (risos). Concordo que vivemos num momento que se valoriza mas a forma que o conteúdo. Na verdade estou num momento de auto-avaliação. E um dos pontos que estou revendo é este: O ano passado fiquei amigo de um professor de psicologia e psicanalista o qual tenho um profundo respeito, mora há um quarteirão de casa, a gente papeia quase todos os dias. Ele leu a minha autobiografia, acompanhou o meu primeiro namoro no mundo  real o ano passado, conversamos muito. Segundo ele levantou, a minha questão amorosa nem é a deficiência ou rejeição, preconceito, coisas assim; eu sempre gostei de solidão, do meu escritório em casa, de uma rotina só minha e criei o meu mundo. Na verdade, a minha consciência deseja muito ter uma companhia feminina na minha vida; mas o meu inconsciente, diante das oportunidades que tive, criou barreiras, não querendo dividir esse mundo com alguém. E ontem ele me disse que isso também fica claro no final da entrevista na Folha, que eu espanto as oportunidades que surgem. Sabe que eu passei a acreditar nisso e trabalhar a minha cabeça nesse sentido? Agora quando alguém se aproximar querendo me conhecer, vou me policiar ao máximo para não criar barreiras.

 

COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:

FIGUEIRA, E. O Brasil Tem A Melhor Legislação Referente às Pessoas Com Deficiência. In: Jornal A Gazeta. Espirito Santo, maio de 2012.

Emilio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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