O DESAJEITADO (1986) – Emílio Figueira

SINOPSE: É a história de um moço simples de uma pequena cidade de interior que queria arrumar uma namorada no dia de São João, mas era meio tímido e desajeitado com as palavras. Um amigo seu tenta lhe ajudar; porém nos momentos de conquistas, ele se atrapalha todo, criando situações engraçadas. Até que no fim ele descobre que o importante é sermos nós mesmos, com todos os nossos defeitos e qualidades.
CENÁRIO: O enredo ocorre numa pequena praça de uma cidade do interior. Alguns bancos simples, alguns vasos de flores (aqueles mesmos que são o xodó da vovó) e outras coisas que podem passar pela sua cabeça que há em uma praça. Já temos o nosso cenário.
 PERSONAGENS:
 NARRADOR: Que lerá alguns trechos do texto.
 ZEQUINHA: O caipira desajeitado, porém muito simpático.
ROBERTINHO: O seu amigo inteligente.
MOÇA: Quem ele tentará conquistar pela primeira vez.
SENHORITA: Quem encenará com o Zequinha no fim.      

AÇÃO DRAMÁTICA
ENTRAM DUAS FIGURANTES VESTIDAS COMO SENHORAS:
FIGURANTE 01: Sabe comadre, têm momentos que cansa em morar nesta típica cidadezinha de interior no fim do mundo. Além dessas ruas sem asfalto, todas lameadas em dias de chuva, nem luzes artificiais temos por falta de energia elétrica. Às vezes temos que ficar desviando de vacas pastando, galinhas ciscando e outros animais passeando calmamente pelas ruas.
PASSAM ALGUNS FIGURANTES REPRESENTANDO ESTAR CAVANGANDO OU ANDANDO DE CARROÇA.
FIGURANTE 02 (COM UMA LATA D’ÁGUA NA CABEÇA): É mesmo, nem água encanadas temos e muito menos em torneiras em casa. Alguns a retiram dos poços com baldes amarrados em cordas. Acabo de buscar água lá no um pequeno riacho. Temos que tonar banhos no mesmo riacho de água da cristalina ou em bacias.
FIGURANTE 01: Nossa cidade é formada só de trabalhadores rurais, vivemos da roça que plantamos e colhemos. Nossos maridos levantam cedo, antes do Sol, com suas enxadas nos ombros, vão todos rumo ao campo. Levam suas marmitas, que nunca são esquentadas na hora de comer, por isso são chamados de boias-frias.
FIGURANTE 02: Dizem comadre que lá na cidade grande tem uma tal de tecnologia, um montão de novidades. Mas aqui neste fim de mundo, logo no começo da noite, já vamos dormir, pois além de não existir televisão ou outro tipo de diversão, precisamos estar descansados para o próximo dia de trabalho…
AS FIGURANTES VÃO SAINDO DE CENA.ENTRAM VÁRIAS CRIANÇAS DANDO ASAS A IMAGINAÇÃO, BRINCANDO DE CAVALO DE PAU COM UM PEDAÇO DE MADEIRA, OU CRIANDO BRINQUEDOS E SITUAÇÕES COM OUTROS OBJETOS QUE ENCONTRAM PELO PALCO.
AQUI PODE ENTRAR UM NÚMERO MUSICAL COM UMA CANTIGA DE RODA.
AS CRIANÇAS VÃO SAINDO DO PALCO BRINCANDO FELIZ. AO MESMO TEMPO, ZEQUINHA VAI ENTRANDO, OBSERVANDO AS CRIANÇAS SAINDO. DEPOIS ELE FICA POR ALGUNS INSTANTES OBSERVANDO CURIOSAMENTE A PLATEIA EM UMA TROCA DE OLHARES SILENCIOSA.
ROBERTINHO(ENTRANDO): Tarde, Zequinha.
ZEQUINHA: Tarde, Robertinho.
ROBERTINHO: Posso saber por que você está tão espantado assim?
ZEQUINHA: Sabe o que é compadre? Eu queria saber por que toda essa gente está aqui hoje?
ROBERTINHO: Ué compadre… Você não sabe que hoje é dia de São João…?
ZEQUINHA: Ah é? Não estava sabendo, não.
ROBERTINHO: É Zequinha… E ainda tem mais. Logo mais à noite vai ter um bailão lá no arraiá da Curva Torta.
ZEQUINHA(DANDO  PULOS DE ALEGRIA): Oba! É hoje que eu arrumo uma namorada.
ROBERTINHO: Como se você não tem coragem?
ZEQUINHA: Você vai ver, Robertinho.
ENTRA E SENTA NO BANCO DA PRAÇA UMA LINDA MOÇA. NOS CABELOS UM RABO-DE-CAVALO E UM BELO VESTIDO DE RENDA.
ROBERTINHO(OLHANDO PARA A MOÇA): Olha lá que linda menina. Por que você não vai até lá e convida ela para o baile?
ZEQUINHA(RESPONDE SEM JEITO):  Eu não, Zequinha. Estou com vergonha…
ROBERTINHO: Ué Zequinha, você sempre diz ser o bom. Não ter medo de nada. Agora está com medo de uma moça???
ZEQUINHA(BRAVO): Não estou com medo!!!
ROBERTINHO: Então qual é o problema?
ZEQUINHA(SEM JEITO): Sabe o que é compadre, há muito tempo eu não namoro, esqueci como que é que se faz…
ROBERTINHO: Se esse for o problema, eu te ajudo a lembrar, ué…
ZEQUINHA(ALEGRE): Você faz isto por mim, Robertinho…?
ROBERTINHO: Lógico, amigos são pra essas coisas…
ROBERTINHO(CHEGA MAIS PERTO E DIZ AO SEU OUVIDO): Olha, você chega lá, diz “oi”, começa a puxar conversa…
ZEQUINHA: Mais… mais… mais se eu errar, ou falar alguma besteira?
ROBERTINHO: Faz o seguinte. Você vai pensando: “Eu vou conseguir, eu vou conseguir”. que você vai ver dar tudo certo.
ZEQUINHA: Deixa comigo…(CAMINHA ATÉ A MOÇA E DIZ ENVERGONHADO): Oi…?
MOÇA(TÍMIDA) Oi…
ZEQUINHA(DEIXA ESCAPAR): “Eu vou conseguir”.
MOÇA: Conseguir o quê, moço?
ZEQUINHA: Sabe que eu também não sei? Pêra aí… Vou perguntar para o meu amigo. (CORRE ATÉ ROBERTINHO) Compadre, o que eu vou conseguir?
ROBERTINHO: Conquistar a moça, Zequinha!
ZEQUINHA: Áh, sim.. (CORRE ATÉ PERTO DELA, VIRA-SE E VOLTA) E agora, Robertinho, o que eu faço?
ROBERTINHO: Você vai até lá, elogia o vestido dela, pergunta o seu nome sei lá…
ZEQUINHA: Mas o meu nome eu já sei…!
ROBERTINHO(BRAVO): Não o seu, anta de chapéu de palha, o dela!!! (JÁ CALMO) Tenta alguma coisa, enfim, o que vier a cabeça…
ZEQUINHA(VAI ATÉR A MOÇA): Sabe que você é muito bonita…?
MOÇA(AGRADECE ENCABULADA): Obrigada…
ZEQUINHA: Este seu vestido branco com machinhas vermelhas é muito bonito…?
MOÇA(ALEGRE): Verdade?
ZEQUINHA: Verdade! Lembra minha cabra quando ela está com vergonha.
MOÇA(CARA FEIA): Engraçadinho!!!
ZEQUINHA(CORRE ATÉ ROBERTINHO ALEGRE): Robertinho, Robertinho, ela disse que sou uma gracinha.
ROBERTINHO: Aproveita e diz uns versinhos para ela.
ZEQUINHA: Boa ideia, Roberinho. (DESANIMA-SE) Mas eu não sei nenhum.
ROBERTINHO: Faz o seguinte Zequinha, chega lá, e com um ar romântico, recite:
“Desde a primeira vez que te vi
Meu coração por ti, se palpou;
Nas correntes de seus braços,
Repousarei o meu amor!”

ZEQUINHA: Tudo bem, Robertinho, lá vou eu… (CHEGA PERTO DELA E RECITA):
“Desde a primeira vez que te vi
Meu coração por ti se palpou;
Nas correntes de seus braços,
Amarrarei a égua do meu avô!”
 
MOÇA(DAR-LHE UM TAPA E EXCLAMA BRAVA): Atrevido!!!
ZEQUINHA(CORRE ATÉ O AMIGO APAVORADO): Robertinho, ela me deu um tapa…
ROBERTINHO: É Zequinha, você está por fora mesmo… Olha, vamos fazer o seguinte. Eu vou lá e você fica olhando como eu vou fazer… Está certo?
ZEQUINHA: Está certo… Vá lá… (EMPURRA O AMIGO).
ROBERTINHO(CHEGA PERTO DA MOÇA COM UM AR DE ROMÂNTICO): Que dia lindo. O azul do céu está belo. Os raios do Sol, estão mais brilhantes. Os pássaros cantam canções de amor. O ar puro, trás a noite e o luar, que nos convidam para amar!
MOÇA(EMOCIONADO): Que lindo. Parece até um poeta….!
ROBERTINHO: Para o dia se completar inteiramente belo, a moça poderia me dar a honra de ir comigo ao baile do arraiá…?
MOÇA: Sim, cavalheiro…
E OS DOIS SAEM DE BRAÇOS DADOS.
ZEQUINHA(OLHA PARA A PLATEIA) Ah! Se é prá fazer isto, é fácil…
OUTRA MOÇA ENTRA EM CENA E SE SENTA NO BANCO.
ZEQUINHA OLHA PARA O BANCO E AO VÊ-LA SENTADA SOZINHA, PENSA UM “LÁ VOU EU”, SE DIRIGINDO-SE ATÉ ELA. AO CHEGAR PERTO, FEZ UM AR DE ROMÂNTICO E VAI DIRETO AO ASSUNTO:
ZEQUINHA: Aceita ir ao baile comigo hoje!?
SENHORITA: Eu não, nem te conheço rapaz…
ZEQUINHA: Como não!? O dia está tão lindo! O céu está todo estrelado. As vacas pulam de galho em galho. Os pássaros estão alegremente pastando…
ELE DESANIMA, CALA-SE, SENTA-SE NO CHÃO, COLOCA A CABEÇA ENTRE AS PERNAS E COMEÇA A DIZER:
ZEQUINHA(DESANIMADO): Não adianta. Sou mesmo um desajeitado. Nunca vou conseguir nada…
A MOÇA ABAIXA-SE PERTO DELE, COLOCA AS MÃOS EM SEUS OMBROS E FALA COM TERNURA:
SENHORITA: Não, você não é um desajeitado. Cada um de nós somos de um jeito. Uns são bons com certas coisas os outros com outras. O bonito é o sentimento que há dentro de cada um. Você apenas não se deu bem com as palavras. Mas tentou. Isto é que importa… Somos importantes e realmente sábios a medida que somos nós mesmos, com todos os nossos defeitos e qualidades, sem se preocupar o que os outros vão pensar ou achar de nós…
ZEQUINHA(TRISTE): A senhorita acha?
SENHORITA: Acho… E pensando melhor, gostaria de ir com você ao baile…
ZEQUINHA OLHA-A POR ALGUNS INSTANTES, SEM LHE DIZER NADA. A SENHORITA LEVANTA E ESTICA A MÃO PARA ELE:
MOÇA: Vamos?
ZEQUINHA(LEVANTA, PEGA NA SUA MÃO, RESPONDENDO ANIMADO): Vamos, senhorita….
DÃO OS BRAÇOS E ENQUANTO CAMINHAM SAINDO DO PALCO, ZEQUINHA OLHA PARA A PLATEIA, DIZENDO:
ZEQUINHA: É hoje…!
E SAEM DE CENA.
FIM

Emilio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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