O Que Fazer Com Nossos Vazios Existenciais? – Por Emílio Figueira

Num sábado à noite, eu estava com um amigo de infância no Skype em um daqueles papos bem gostosos pelo prazer de se estar com quem realmente se gosta! Em dado momento, falamos rapidamente sobre os Vazios Existenciais que estão afetando muitas pessoas nesta modernidade com grande capacidade de esvaziar as pessoas de suas possibilidades de ser!

Ao me deitar, comecei a lembrar de quando era universitário, como eu realmente gostava das disciplinas de psicologia existencial-humanista. Não me contentava só com as aulas, queria ir a fundo, na biblioteca da USC, cheguei a estudar o existencialismo – corrente filosófica que põe o primado do existir sobre a essência, tomando como objetivo de análise a existência humana concreta e vivida. Calma, vou explicar melhor! Há pessoas essencialistas que acreditam que tudo já está determinado pelo destino e nada podem fazer para mudar seus destinos, acomodam-se como se a vida já fosse um fato consumado. Mas existem as pessoas existencialistas que não se acomodam, lutam pelos seus destinos, pelos seus sonhos, por mudar, melhorar a realidade que lhes cercam e suas vidas materiais e afetivas.

Nesses meus estudos, li muito os principais pensadores do existencialismo: Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Køren Kierkegaard, Edmund Husserl, Friedrich Nietzsche e Arthur Schopenhauer. Claro que agora consultei o São Google para escrever corretamente esses nomes. Mesmo porque, já há um bom tempo não dialogo com esses filósofos. Eu os “trair” quando fui beber no boteco da rapaziada da psicanálise. Mas gosto e tenho um profundo carinho pelo existencialismo. E, naquele momento deitado na minha cama, cobrei-me: Você precisa escrever alguma coisa sobre os vazios existências!

De onde vem nossos vazios existências?

 

Basicamente, eles surgem todas as vezes que uma pessoa descobre que muita coisa no que ela vivia era pura ilusão, então fica um buraco. É a assimilação que temos que nunca vivemos o que realmente desejamos. Um dos primeiros e mais fortes sintomas do vazio existencial e a solidão. E surgem os grandes perigos desse sintoma, sendo que muitas pessoas buscam freneticamente as diversões, prazeres e vícios, relações amorosas vazias ou artificiais, apenas para ter companhia. Não se suportam, temem a solidão de modo doentio, e tentam de mil maneiras (nem sempre equilibradas de evitá-la), ou talvez, pelo pavor de se enxergarem por dentro, que o confronto com o “estar sozinho” propicia.

Surgem as lutas internas, buscando o autoconhecimento que nos causam essa sensação de solidão, “pesada” e doentia, levando-nos a depressão, se a gente não tiver uma visão mais ampla do que é a nossa existência, questionamo-nos: “Para que serve a nossa vida?” Aliás, esta é a grande expressão dos vazios existenciais: “Minha vida não tem mais jeito!”

Mas tem. E eu como psicólogo e psicanalista sei que tem! A diferença entre eu e a pessoa que sofre de vazio existencial, é que sei os caminhos para nos livrarmos dela; enquanto a pessoa que sofre, cria em sua mente uma dimensão muito maior de sofrimento do que realmente pode ser, ela não conhece por si mesma, os caminhos para preencher esses vazios. Infelizmente, ao longo de minha curta experiência como terapeuta, convivi e ouvir vários relatos de pessoas que, diante de seus vazios existências, são levadas ao desespero. São cruéis consigo mesmo, exigindo-se perfeição em suas atividades. Esquecem-se que nós apenas somos perfectíveis, ou seja, vamos sendo completos dentro de nosso processo de aperfeiçoamento, uma construção humana dia a dia!

 

A autoestima como caminho

 

Sinceramente, acredito que um dos principais caminhos que nos levam aos vazios existências é quando cai a nossa autoestima e passamos a alimentar pensamentos negativos sobre nós mesmos. Autoestima é a opinião e o sentimento que cada pessoa tem por si, a capacidade de respeitar, acreditar e amar a si mesmo. Perdemos a autoestima quando se passa por muitas decepções, frustrações, em situações de perda, ou quando não se é reconhecido por nada que se faz. O que nos abala na realidade não é a falta de reconhecimento por parte de alguém, mas principalmente a falta de reconhecimento por si próprio. Muitas vezes quando estamos com baixa autoestima, tendemos criar nossos próprios fantasmas e alimentá-los fortemente. Ou seja, como sempre digo, “fazemos de uma formiguinha um elefante!”

Muitas pessoas que tende manter as emoções ocultas internamente gera a diminuição da autoestima! Mas mesmo que alguém tenha a vida toda tentado guardar seus sentimentos, esta pessoa não está destinada a sofrer seus efeitos negativos para o resto de sua vida. A menos que ela faça esta escolha. E para quem deseje parar de sofrer, chega a hora de começar a mudar. Nunca é tarde para isso! Primeiro, comece com você, construa o seu amor-próprio. Busque o autoconhecimento; manter-se em forma física (gostar da imagem refletida no espelho); identificar as qualidades e não só os defeitos; aprender com a experiência passada; tratar-se com amor e carinho; ouvir a intuição (o que aumenta a autoconfiança); manter diálogo interno; acreditar que merece ser amado(a) e é especial; fazer todo dia algo que o deixe feliz. Pode ser coisas simples como dançar, ler, descansar, ouvir música, caminhar.

Outros resultados que podem nos levar à autoestima elevada: mais à vontade em oferecer e receber elogios, expressões de afeto; sentimentos de ansiedade e insegurança diminuem; harmonia entre o que sente e o que diz; necessidade de aprovação diminui; maior flexibilidade aos fatos; autoconfiança elevada; amor-próprio aumenta; satisfação pessoal; maior desempenho profissional; relações saudáveis; paz.

Voltando ao assunto dos vazios existenciais, eles realmente têm suas raízes em fatos e frustrações passadas. Uma coisa que sempre digo é que o ser humano já tem de forma natural uma tendência para ser negativo ou derrotado – os essencialistas! Mas foi o próprio Kierkegrard que disse genialmente: “A vida só pode ser entendia olhando para trás; mas só pode ser vivida olhando para frente!” Seja uma pessoa existencialista no sentido de reagir contra os seus próprios vazios existências. Reflita sobre o que Carl Jung escreveu: “Percebi que o passado não faria mais diferença, então resolvi mudar o futuro”.

Certa vez fui fazer uma palestra na faculdade de pedagogia da USP. Num momento, respondendo há uma pergunta de uma aluna, disse sem intenção: “Ao adquirir uma deficiência no meu parto, a vida só me deu duas opções; viver triste e me lamentando por minha fatalidade; ou viver alegre e produtivo, buscando um viver de tantas possibilidades. Optei pela última”. Naquele momento fui surpreendido ao ser aplaudido de pé!

Com relação ao título desta crônica, “O QUE FAZER DE NOSSOS VAZIOS EXISTENCIAIS?”, as pessoas podem fazer o que quiser. Acreditar que a vida realmente seja um fato consumado e continuarem a ser cadáveres de si mesmo. Ou acreditarem nas suas capacidades de reações e, colocando o passado no seu devido lugar, irem buscas novas possibilidades, inclusive a de ser novamente felizes e realizadas! Tenho certeza que quem optar pela última, também será aplaudido de pé pelas pessoas que realmente as amam! Como dizia o meu cantor preferido, Tim Maia, “eu vou à luta porque a vida é curta, não vale à pena sofrer em vão!“.

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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