Os Pacientes Especiais E Sua Inclusão Aos Serviços Odontológicos Por Meio Da Afetividade – Por Emílio Figueira

Minha palestra  realizada ontem na UNIP durante o “V Simpósio de Pacientes com Necessidades Especiais da FOUNIP”, realizado na Faculdade de Odontologia da Universidade Paulista.

Foi um momento único e muito lindo pelo carinho e receptividade de todos!

Olá…

Talvez vocês estranhem eu apresentar a minha palestra desse modo. Mas é como tenho feito nos últimos anos, escrevo o que desejo dizer, minha irmã Ana Luiza grava o áudio e monto em vídeo. Tudo isso para compensar o meu problema de dicção. Pois se eu fosse contar minhas histórias ao microfone, me cansaria rápido e ninguém entenderia nada.

Bem, vamos lá…

Quando iniciei a minha apresentação mostrando o filme da minha trajetória, quis mostrar que pessoas com deficiência, seja qual for sua limitação, podem ser desenvolverem em diversas áreas e, por meio da inclusão, atingirem lugares imagináveis…

Só que pessoas com deficiência também têm problemas dentários. E nem sempre encontram atendimentos de acordo às características de suas limitações. E para expor isto, vou relatar minhas próprias memórias…

 

A JORNADA DO HERÓI EM BUSCA DE UM DENTISTA

Na verdade, minha trajetória por atendimentos odontológicos pode ser considerada uma verdadeira “Jornada do Herói”, como diria Joseph Campbell.

Minhas primeiras lembranças de dentista remetem-me à época da AACD quando eu, ainda muito pequeno, era atendido por um especialista dentro da Instituição entre uma aula ou terapia. Não são nítidas as lembranças, mas recordo-me que era tudo ainda muito precário.

Como também, lembro-me de quanto os meus pais nos anos 70 procuravam muito por dentistas que quisessem me atender. Quase todos se recusavam devido aos meus movimentos involuntários que, quando pequeno, eram ainda maiores.

No início dos anos 80, eu me mudaria para Guaraçaí. Em uma cidade pequena as dificuldades para se encontrar profissionais especializados eram maiores. Ainda mais naquela época onde o número de dentistas em geral era bem menor fora dos grandes centros. Meus avós conseguiram uma dentista que aceitou me atender para alguns tratamentos paliativos.

Até que, não me recordo direito como, fui encaminhado para fazer tratamento no Centro de Assistência a Excepcionais da UNESP de Araçatuba.  Era uma verdadeira saga. Sempre acompanhado por algum parente, pegávamos o ônibus em Guaraçaí e após duas horas de viagem, chegávamos à cidade e tomávamos o coletivo até a UNESP. No final do dia, retornávamos à rodoviária para mais duas horas de viagem de volta.

Muitas vezes perdíamos um dia para ter um atendimento rápido. Por exemplo, a obturação de uma carie por vez…

Até que a prefeitura começou a me disponibilizar transporte municipal, um direito dos pacientes especiais e o tempo e canseira dessas viagens diminuíram.

Já morando em Bauru, perdi o vinculo com a UNESP. Voltei à jornada da procura de um dentista que aceitasse a me atender. Em uma cidade com duas faculdades de odontologia, havia praticamente um profissional em cada esquina. Só que nem todos estavam abertos à pacientes com o meu tipo de deficiência. Por algumas vezes, tive dores de dentes e canais e não tinha a tem recorrer. Até cheguei a ser atendidos por alguns de mal humor ou estúpidos no tratamento.

Nessa época eu até criei uma frase bem humorada: “Eu não tenho medo de dentista. São eles que têm medo de mim…!”

Alguns anos depois, trabalhando como pesquisador do Centrinho, consegui ser matriculado como paciente do hospital. Inicialmente fazia os tratamentos em consultório e cadeira comum mesmo.

Lembro-me que cheguei até a usar uma placa para puxar para fora um dente que não havia nascido para o lugar de outro que foi extraído.

Tempos depois, o chefe do setor sugeriu que eu passasse a ser tratado com anestesia geral. Gostei! A cada dois anos, eu passava dois dias fazendo exames gerais. Era internado e, desacordado, era feito tudo que precisasse em meus dentes: novas ou trocas de obturações, canais, pivôs, clareamentos, enfim, tudo. E essas intervenções levavam de cinco a sete horas.

 

A JORNADA DE UM PIVÔ

O tempo passou e tive que voltar a morar em São Paulo. Geralmente, após àquelas intervenções com anestesia geral , levavam em média dois anos para aparecer problemas em minha dentição. Assim, em uma bela tarde tomando um café, meu dente pivô direito caiu no prato, fazendo um barulho alto.

Eu nem me lembrava mais que que tinha esse pivô com pino. Ele havia sido feito há uns quinze anos atrás lá no Centrinho.

Àquela queda me trouxe medos inconscientes. Eu estava morando aqui em São Paulo. Novamente teria que encontrar um dentista que quisesse me atender, resolver a questão desse pivô. Novamente a jornada iria começar…

Minha mãe me levaria no dia seguinte a um dentista que já cuidava de parte da família, mas que eu ainda não o conhecia. Naquela noite em nem dormir direito pensando como seria recebido por ele, seu jeito e tratamento.

Só que o doutor José Ricardo Ruiz foi tão amável comigo, carinhoso, brincalhão, que logo me senti em casa. Calmamente colou o meu pivô que, tempos em tempos insistia em soltar. Sempre voltava lá para colá-lo e aproveitava para fazer outros serviços dentários.

Com o devido respeito, doutor Ricardo era tão grande que, durante o tratamento na cadeira, eu ficava com minha cabeça encostada em sua barriga. Esse dentista era um amor de amigo e profissional. Foi quando comecei a conhecer o que aqui vou chamar de atendimento pela afetividade!

Nesse meio tempo, apareceu um canal no último dente do lado esquerdo debaixo. O doutor Ricardo começou a tratá-lo. Mas por ser nos fundos e pelos meus movimentos involuntários, seria um pouco complicado para concluir o tratamento.

Comecei a pesquisar possibilidades para ajudar no termino daquele tratamento. Pensei até no uso da hipnose e troquei vários e-mails com o famoso Fábio Poentes. Mas isso foi só uma ideia.

Em seguida, fui procurar alguns dentistas que estavam inscritos em meu convênio médico como especialista em pacientes especiais. Foi uma grande decepção, pois baseados nesse título, eles cobravam valores até três vezes acima de tratamento comum. Alguns até alegavam que era caro porque o tempo de atendimento por causa da minha movimentação de cabeça precisaria ser maior.

Nessa busca por um dentista especializado para atender o meu caso, cheguei ao doutor Marcelo Cesar Fúria, com larga experiência em pacientes especiais. Além de sua formação acadêmica e práticas como docente dessa disciplina, por curiosidade, sua primeira experiência com esse tipo de pacientes, fora como dentista assistente na AACD.

Passei a ser acompanhado clinicamente por ele nos tratamentos dentários. Inclusive com sua equipe tiveram que interver algumas vezes para colar o pivô que sempre insistia e cair nos mementos mais inusitados.

Só para descontrair um pouco, certa vez eu estava fazendo uma palestra em Aparecida. Enquanto eu falava ao microfone, meu pivô caiu no palco. Eu, que não quis perder a deixa para uma piada, disse: “Pessoal, o meu dente acaba de cair. Quem achar ganha um livro de presente”!

Por duas vezes, em férias em Guaraçaí, esse pivô resolveu pular de minha boca e tive que bater à porta do consultório do doutor Flávio Cestari, meu amigo de infância, popularmente chamado de Canina.

Fiquei por dois anos no consultório do doutor Marcelo. Além do seu atendimento e de nossa amizade, uma coisa que me marcou muito, era a segurança de pensar eu tinha um profissional a quem recorrer sempre que eu precisasse!

Até que minha mãe, já aposentada como professora, foi trabalhar meio período como secretária em um consultório odontológico há um quarteirão de onde residíamos. Lá conheci a doutora Mariana Missi, uma jovem dentista com várias especializações. Entre elas a de atender pacientes especiais.

Comecei a ser tratado por ela. Por várias vezes fomos colando o meu velho pivô de sempre. Até que chegou o ponto que resolvemos partir para o implante. O que seria realizado ali mesmo em seu consultório, mas por outro profissional.

Como nas vezes anteriores, eu sempre tenho um pouco de receio antes de conhecer o dentista que iria me atender. Chegou o dia do implante e, ao conhecer doutor Tadeu Bresser, um buco com larga experiência, foi como conhecer um amigo de infância, tamanha carisma e segurança que ele me passou. No inicio de fevereiro do ano passado, fizemos o implante. Foi tão tranquilo o procedimento e já outros implantes estão em andamentos.

 

O QUE NOS MOSTRAM OS NÚMEROS

Todavia, pergunto-me por que tive que passar por toda essa “Jornada do Herói”? E alguns dados atuais podem nos responder.

Já com 16 anos de reconhecimento pelo Conselho Federal de Odontologia, a especialidade que atende pacientes com necessidades especiais, englobando pessoas com má formação, deficiências motoras, paralisias, síndromes e autismo, ainda só conta com 560 profissionais no Brasil. Ou seja, um número quase irrisório se considerarmos um universo de, 45 milhões de pessoas que possuem algum tipo de deficiência em nosso país.

E fazendo outro recorte, no Estado de São Paulo de acordo com o Conselho Regional, apenas 181 dentistas atuam nessa área!

Sem ficar especificando deficiências, grande parte desses pacientes possuem maior dificuldade de higiene bucal por conta das limitações, necessitando ainda mais de cuidados preventivos odontológicos e procedimentos básicos de limpeza da boca.

Para um paciente com necessidades de cuidados especiais, o maior desafio é contar com profissionais capacitados para o atendimento. Muitas pessoas com má formação, deficiências motoras, paralisias, síndromes e autismo ficam na dependência de assistência de ONGs, onde o tempo de espera é muito longo e infelizmente há poucas unidades.

E quais os caminhos para resolvermos isso?

Que os profissionais já formados procurem especializações nessa área. E para os que ainda vão se formar, precisamos que essa disciplina torne-se obrigatórias nos cursos de Odontologia, para que ainda na faculdade, futuros profissionais aprendam a lidar com as limitações físicas e intelectuais dos pacientes e, consequentemente, abram seus consultórios a esse público.

Olhando para esses dados, faz necessário focarmos em ampliar cada vez mais o número de dentistas que atendam de forma profissional e afetiva pacientes com necessidades especiais. E que quem necessite de atendimentos assim, não precise realizar a “Jornada do Herói” como realizei quase a vida toda. Que eles possam ter um atendimento digno, sem ter receios inconscientes de memórias traumáticas.

Digo que além de todo o conhecimento técnico, a afetividade também é importante, porque hoje eu posso afirmar o quanto foi importantes para eu cruzar os caminhos dos doutores Ricardo, Marcelo, Flávio, Mariana e Tadeu.

Eu sei o quanto é importante saber que, a qualquer tempo que precisar, tenho um dentista por perto para me receber, cuidar do que for preciso, sempre com muito carinho, paciência e competência profissional de ser atendido com  o mesmo nível de  excelência que os  demais pacientes.

E sempre ao final de cada consulta, posso me despedir deles com abraços de quem se despede de grandes amigos!!!

 

 

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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