PSICOLOGIA E INCLUSÃO: AULA 3 – ASPECTOS PSICOLÓGICOS, INTERVENÇÕES CLÍNICAS, DIFICULDADES E POSSIBILIDADES PROFISSIONAIS


PALAVRA DO PROFESSOR

 

Olá, tudo bem?

Estamos na terceira aula do nosso curso. Recapitulando, na primeira fiz uma revisão geral sobre as relações da psicologia e pessoas com deficiência no Brasil, a necessidade de revermos o ensino dessas disciplinas quebrando paradigmas e a importância de novas pesquisas de campo.

Na segunda aula virmos as contribuições dos psicólogos ao processo de Educação Inclusiva.

Hoje, como o próprio título diz, veremos aspectos psicológicos, intervenções clínicas, dificuldades e possibilidades profissionais.

Na aula quatro, falarei sobre as Dificuldades de Aprendizagem, que tem levado muitos a nós procurar enquanto psicólogos.

E na quinta aula, veremos como nós psicólogos podemos ter uma nova visão das pessoas com deficiência e nossas contribuições sociais à Inclusão.

Como tenho dito, independente dessas conversas, neste site há muito material sobre essa temática. Basta consultar os Menus na narra do cabeçário acima.

E ao final de cada Conversa, sempre estarão os links de todas elas.

Se vocês desejarem, deixe comentários ou dúvidas abaixo, enriquecendo o nosso relacionamento.

Desejo-lhes uma boa aula e um bom aproveitamento do conteúdo!

Prof. Emílio Figueira

 

AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA EM NOSSAS CLÍNICAS

Embora minha intenção seja abordar neste capítulo pontos, comportamentos e aspectos psicológicos de quem nasce ou adquire algum tipo de deficiência ao longo da vida, é preciso acentuar, logo de início, o grande erro em pensar na existência de técnicas especiais para atendimento psicológico de pessoas com deficiência. O que podemos dizer é que, dependendo da deficiência, poderá haver peculiaridades relacionadas à sua condição orgânica e, sendo congênita, física ou intelectual, ter implicações no desenvolvimento ou ajustamento da criança que, segundo Amiralian (1997, p. 35), “já ao nascer, apresenta uma condição orgânica diferente e que, portanto, vai constituir-se como pessoa a partir de uma estrutura orgânica peculiar. Enquanto psicólogos dispostos a atuar nesta área, é fundamental o conhecimento das implicações geradas pela perda orgânica para a dinâmica de personalidade e ajustamento pessoal e social daqueles que, por diferentes razões, vieram adquirir uma deficiência. Esses conhecimentos pressupõem a compreensão das limitações fundamentais impostas pelas deficiências e a compreensão das limitações das condições afetivo-emocionais que as acompanham”.

Nunca é demais lembrar que estamos falando de pessoas. E pessoas não são todas iguais. Assim como as que têm algum tipo de limitação não são todas iguais, não formam um grupo homogêneo. Do mesmo modo, a Psicologia não é uma ciência exata. Portanto, toda afirmativa pode ser perigosa, correndo o risco das generalizações, ou seja, cada caso é um caso!

A minha amiga professora Lígia Assumpção Amaral acentuava que muitos profissionais têm dificuldades em trabalhar com pessoas com deficiência. Isto porque, independente de sua formação profissional, são pessoas. E, como a maioria da população, trazem no inconsciente coletivo mitos, “pré-conceitos” e mecanismo de defesa com relação às pessoas com deficiência. Nem todos que se formam em Psicologia estão prontos ou desejam construir uma relação profissional-cliente com pessoas com deficiência.

Ter uma deficiência interfere tanto na pessoa que a possui (no desenvolvimento, aprendizagem, personalidade, relações familiares e sociais, aspectos estruturais ou funcionais), quanto no profissional que a atende. Na pessoa com deficiência essa intervenção está ligada a inúmeros fatores, tais como: tipo de deficiência, intensidade, extensão, época de sua incidência. Olhando o seu histórico, leva-se em consideração as oportunidades de desenvolvimento e ajustamento que foram oferecidas ou negadas ao paciente.

Com relação aos profissionais que têm dificuldades de atender e se relacionar com essa classe de pessoas, essa convivência pode levar-lhes a aflorar suas próprias limitações ou suas “deficiências” – num desabar de falsas sensações de onipotência. Por isto, a negação torna-se um mecanismo de defesa para o não atendimento. Amiralian (1997, p. 34), citando Fedidá, acentua que para muitos – e os profissionais de psicologia não estão isento disto -, “a deficiência é intolerável, não só por fazer ressurgir insuportáveis angústias de castração, destruição e desmoronamento, mas também por lembrar que o deficiente é sempre um sobrevivente que escapou de um cataclismo, de uma catástrofe que já ocorreu, o que poderá acontecer a qualquer um. (…) Como um espelho perturbador, pode fazer reviver angústias primitivas”.

Por outro lado, segundo Amaral, (1991, p. 19), “no exercício de suas funções dois “mundos diferentes” se encontram. (…) Alertados, conscientizados e, ao mesmo tempo, respaldados por esse saber recém-construído, muitos profissionais têm podido re-ver, re-pensar e re-fazer sua prática, tanto do ponto de vista técnico como das relações interpessoais”.

Por meio de experiências pessoais de suas significações de deficiências, o psicólogo estará apto a rever suas emoções, afetos, aprender com suas negações, sendo capaz de “conquistar a percepção da deficiência como um objeto compartilhado e de proporcionar ao nosso cliente um ambiente acolhedor e condições facilitadoras para sua aceitação dessa condição, favorecendo e possibilitando seu próprio desenvolvimento” (Amiralian 1997, p. 34).

Após toda a avaliação psicológica e fechamento do diagnóstico, é necessário avaliarmos realisticamente os nossos limites enquanto psicoterapeutas. Já nos chegaram notícias de colegas que atenderam casos além de seus níveis de habilidades e conhecimentos sobre questões que envolvem pessoas com deficiência. E o prejuízo foi ainda mais para o paciente.

Aspectos iniciais das deficiências adquiridas

Tanto os acidentes automobilísticos ou em ambientes de trabalho, mas principalmente as armas de fogo como outros motivos, têm sido as principais causas de aquisição de deficiência permanente no Brasil. Essas vítimas poderão passar por vários estágios iniciais assim estabelecidos:

CHOQUE: Quando elas realmente não captam o que está acontecendo, ou seja, que agora ela tem uma deficiência e, com isto, ainda não há sinais de ansiedade.

LUTO: Perda da motivação de conviver com essa realidade.

NEGAÇÃO: Fruto de uma carga de cobrança. É quando a pessoa que adquiriu uma deficiência sente o status de desvalorização da sociedade. Uma sensação de impotência pessoal e profissional que geram estados de autodesvalorização, sentimentos de segregação ou opressão. À medida que a pessoa seja capaz de rompê-los, liberta-se da falsa “proteção” gerada pelo mecanismo de defesa da negação.

RAIVA: Um estado importante de ser manifestado durante a percepção da dimensão de sua perda, permitindo ao sujeito uma “válvula de escape”. Às vezes, essa raiva é projetada no médico, na equipe de enfermeiras, nos familiares, podendo comprometer ou não o processo de reabilitação.

DEPRESSÃO: Pode resultar na diminuição de motivação, refletindo nos tratamentos e atividades.

DEFESA: Gera hostilidade, sendo que algumas pessoas podem permanecer nesse estágio indefinidamente, enquanto outras, numa defesa considerada saudável, somam esforços para enfrentar e buscar sua normalização tão normal quanto possível, reconhecendo as barreiras e buscando alternativas para contorná-las.

EXPECTATIVA DE RECUPERAÇÃO: Ao notar agora que uma nova realidade a cerca, surge a preocupação com a melhora de sua deficiência.

AJUSTAMENTO: Quando a pessoa deixa de considerar suas deficiências como algo que tenha que lutar, não mais como uma barreira intransponível, procurando formas de satisfazer suas necessidades e ser uma pessoa inclusa na sociedade.

Segundo Vash (1988, p. 14), há três níveis de reconhecimentos em quem adquire uma deficiência:

Nível 1: Reconhecimento dos Fatos A pessoa entende a natureza e a extensão das limitações, a probabilidade de permanência e as realidades da estigmatizarão social, mas detesta cada parcela disso. A deficiência é vista como tragédia e tem valência negativa.

Nível 2: Aceitação das ImplicaçõesA pessoa tem conhecimento das realidades de suas condições sem um sentido de perda e demonstra aceitação do que é sem recriminação. Os fatos e as implicações da deficiência estão interados num estilo de vida escolhido. A deficiência é vista como um inconveniente que pode ser controlado e tem valência neutra.

Nível 3: Acolhida da ExperiênciaA pessoa reconhece que sem a deficiência seria diferente do que é e não tem vontade de ser diferente. Existe a valorização do fato de que a deficiência foi, é, e continuará sendo um catalisador do crescimento, desde que lhe seja permitido sê-lo. A deficiência, como todas as outras experiências de vida, é vista como uma oportunidade ou dom, e tendo valência positiva.

Esses conhecimentos básicos são fundamentais para o início de nossa atividade de intervenção. Para não corrermos certos riscos, não podemos considerar algumas dificuldades ou problemas, manifestados pela pessoa com deficiência, como decorrentes da deficiência em si, e sim encará-las como decorrentes de condições ambientais insatisfatórias ou de perturbações em interações precoces. Nossa intervenção enquanto psicólogos deverá ser em amenizar as consequências das deficiências secundarias, não considerando as dificuldades pessoais como um impedimento para a pessoa ter comportamentos mais independentes ou produtivos devido ao seu problema orgânico. Separe as dificuldades apresentadas pelo paciente e as limitações realmente impostas pela deficiência, observando se são decorrentes de outros fatores dificultantes de sua atuação. “A deficiência não deve ser considerada como a causa de manifestação de perturbações psíquicas, mas como uma condição dificultadora para as interações com o ambiente”, segundo Amiralian (1997, p. 35).

Hoje, com tantos avanços sociais, legislativos, tecnológicos na engenharia da reabilitação e na medicina, há exemplo de terapias com células-troncos, em que muitas pessoas com deficiência adquiridas ou não, estão cada vez conquistando autonomia, superando suas próprias expectativas, transcendendo-se. Caberá a nós, enquanto psicólogos, estimular essa transcendência, conduzindo a pessoa admitir, em primeiro lugar, sua deficiência no reconhecimento dos fatos, aceitação das implicações e acolhida da experiência.

 

AS INTERVENÇÕES CLÍNICAS DO PSICÓLOGO

Ao se trabalhar clinicamente com uma pessoa com deficiência, a construção da relação psicoterapeuta e pessoa deverá ser o alcance para os resultados satisfatórios apoiados em duas condições básicas fundamentais: a compreensão das vicissitudes causadas pela deficiência no desenvolvimento, ajustamento da pessoa e a atitude do profissional de psicologia. Para que o paciente atinja a chamada aceitação efetiva, muitas vezes, enquanto psicólogos, precisaremos “chegar” aos seus conteúdos inconscientes que geram sofrimentos oriundos de sua deficiência, causando empecilhos para aceitação e acolhimento de seu real estado. E, para se dar tal acolhimento, precisará haver no paciente disponibilidade interna para equacionar limites e possibilidades, perdas e virtualidades.

Nesse universo, a transcendência deve significar a superação dos próprios limites impostos pela deficiência, ou seja, enquanto profissionais, devemos atuar na estimulação e amenização das deficiências secundárias da pessoa, suas dificuldades, expectativas sociais e implicações emocionais. Quanto mais a pessoa se aproximar de sua própria realidade, eliminando mecanismo de defesa ou negação, mais seu plano de consciência lhe permitirá ser um cidadão equilibrado e “pronto” para continuar vivendo no meio que a cerca. Por meio dessa normalização, ela terá oportunidades e direitos iguais, riscos iguais, responsabilidades iguais, alegrias, angústias e inquietações como qualquer outra pessoa.

Há três tópicos no aconselhamento da pessoa com deficiência:

Problemas Comuns – Apoio emocional já no começo do processo de reabilitação, visando o enfrentamento do choque, do medo, da raiva, dentre outros. Segundo Vash (1988, p. 204), três áreas de grande importância desafiam as pessoas ao longo de toda a extensão da deficiência:

  • a perda dos mecanismos de descarga emocional.
  • a perda das fontes de recompensa e prazer.
  • perda da independência física e econômica.

Caberão à Psicologia os apoios necessários para neutralizá-los, orientando a pessoa na descoberta de formas de lutas mais efetivas e menos debilitantes, tendo como alvo a conquista do equilíbrio emocional.

Necessidades de treinamento de habilidades – Como dito, durante o processo de reabilitação poderão surgir aspectos particulares do caso em andamento, precisando ocorrer a identificação de atendimento ou treinamento formal em habilidades específicas pessoais e interpessoais. “A deficiência cria exigências incomuns em relação à assertividade, à tomada de decisões e ao estabelecimento de objetivos bem como em relação à coordenação da vida e da família.” (Vash, 1988, p. 206)

Aplicabilidade de abordagens individuais ou aconselhamento em grupo – Caberá ao psicólogo avaliar se o caso pode ter maiores resultados numa psicoterapia individual ou em aconselhamento em grupo. Recomenda-se que, sempre que possível, opte-se por esse último por razões de estimulação inter-relacionais, de convivência social, dentre outras. Mas se o caso for mesmo a primeira opção, nas palavras de Vash (1988, pgs. 207-208), “uma das principais razões para escolher trabalhar com alguém em particular na psicoterapia é que sua capacidade de confiança nos seres humanos está, não raramente, tão debilitada que é mais viável começar a reconstruí-la com uma outra (profissionalmente habilitada a desenvolver a confiança), do que com um grupo de várias pessoas (algumas das quais podem ter tendências agressivas)”.

Após uma avaliação correta sobre o funcionamento psicossocial e profissional da pessoa que pretendemos atender, podemos traçar a nossa meta de intervenção psicoterapêutica individual ou coletiva em seu processo de reabilitação. Porém, nunca é demais lembrar que não existe uma Psicologia específica para a pessoa com deficiência. A princípio, ao atendê-las, vamos praticar as mesmas técnicas que utilizamos com qualquer outro paciente. O único diferencial que pode ocorrer será a identificação dos aspectos específicos dos estágios já descritos, o quais trabalharemos para amenizá-los.

A pessoa que adquiriu uma deficiência em seu processo de enfrentamento da nova realidade precisará dispor de recursos físicos, psicológicos, cognitivos e sociais para preservar a integridade somática e psíquica, visando alcançar a adaptação à organização psíquica, à capacidade de procurar ajuda, ao planejamento para o futuro, manter a angústia em limites toleráveis, incrementar relações pessoais significativas e recuperar as funções físicas.

Segundo Kovács (1997, pg. 107), as etapas relacionadas com o modo de enfrentamento da pessoa são as seguintes: Contato e manejo do problema, eliminando certas condições, promovendo modificações; Alteração do significado de experiência, objetivando neutralizar ou diminuir o seu caráter problemático e regulação da intensa angústia gerada pelo problema.

Frequentemente, envolvem-se aspectos relacionados à Doença/deficiência (natureza, sintomas, local afetado, estágio, tipo de tratamento, opção de reabilitação); Aspectos pessoais (estágio de desenvolvimento, valores – incluindo doenças anteriores, costumes e crenças) e Aspectos socioculturais (apoio, social, ajuda da comunidade, recursos disponíveis). (Kovács, 1997, pg. 107)

Aqui, a memória em outras situações já experienciadas com doença e/ou deficiências anteriores, próprias e de pessoas próximas, podem tanto colaborar no processo de reabilitação como também prejudicar, caso essas recordações forem de morte e sofrimento. As crenças religiosas do paciente podem tanto estimulá-lo, quanto prejudicá-lo, sendo usado como um mecanismo de defesa do tipo “à espera de um milagre”. Kovács (1997, pg. 108) acentua que “os modelos de enfrentamento mais eficazes têm um elevado grau de flexibilidade: o que pode ser altamente adaptativo num período pode não o ser em outro. Um exemplo bem ilustrativo é o da negação que, nos primeiros estágios, pode facilitar e afetar negativamente, no sentido de evitar que a pessoa busque exames e tratamento eficazes para si”.

Deficiência real e imaginária

A deficiência pode ser classificada como real, com limites bem definidos com os quais a pessoa terá que conviver, ou ser uma deficiência imaginária, na qual os limites são mais frutos de fantasias mórbidas que uma realidade crua e dura do indivíduo. Essa última origina-se mais do medo de fracassos do que da deficiência propriamente dita. Há grande diferença entre ser e se sentir com uma deficiência. Uma pessoa que está muito mais preocupada com a aparência, por exemplo, de usar uma órtese ou prótese, do que a funcionalidade e facilidade que tais aparelhos poderão lhe proporcionar, evitam até o aparecimento em público, uma vida social, transformando o que deveria ser apenas uma deficiência numa sequela de peso muito maior do que verdadeiramente tem, dificultando ainda mais o tratamento.

Tanto a negação, quanto a dramatização excessiva de uma pessoa com deficiência geram distorções de percepção, dificuldades de convivência, administração de problemas comuns, alimentados pelas deficiências imaginárias. Esse comportamento de sentimentos comprometidos pode não advir necessariamente da pessoa, mas de condicionantes sociais, tais como preconceitos, estereótipos, estigmas. Uma das fantasias clássicas são pessoas que esperam curas milagrosas, divinas – o que também pode ser interpretado como um mecanismo de defesa para a pessoa fugir de sua realidade, ou não querer encarar os novos desafios pela frente: aceitação da nova realidade, o processo de reabilitação e reinserção social, dentre outras.

A intervenção psicológica nesses casos deverá acontecer, quando possível, de imediato à ocorrência do fato gerador das deficiências imaginárias. Trazer o sujeito sempre para seu mundo verdadeiro, proporcionando conhecimento de sua real situação tanto das dificuldades que terá que enfrentar, mas também dos recursos material e humano que ele poderá contar nessa nova empreitada e, principalmente, todas as possibilidades de fracasso e sucesso que terá na vida como qualquer outra pessoa. Estaremos oferecendo-lhe dados para um processo de racionalização, a busca de respostas lógicas, partindo das falsas premissas em direção de uma construção com alicerces sólidos. Nessa fase, o relato de outros casos idênticos e bem-sucedidos poderá ser uma ferramenta de motivação.

Deficiência e qualidade de vida

O foco principal de um psicólogo como sempre deve ser orientar seu paciente na busca de uma qualidade de vida, visando a saúde mental e a possibilidade de conseguir a adaptação sua nova realidade. E para Kovács (1997, p. 109), citando Hawthorn, quando esse paciente tem uma deficiência, é fundamental verificar:

  1. as preocupações físicas;
  2. as habilidades funcionais;
  3. o bem-estar dentro da família;
  4. as redes de apoio social;
  5. a orientação para o futuro (planos, expectativas, esperanças);
  6. a intimidade e as relações sexuais;
  7. a ocupação, a espiritualidade e a satisfação com o tratamento.

Tendo como base o respeito à pessoa, devemos orientá-la quanto uma possibilidade de autonomia e controle sobre a própria vida. Esse processo passa por uma conversa sempre aberta com os nossos pacientes, tendo sempre um compromisso ético do “que e como contar ao paciente sobre a sua doença, as deficiências resultantes, assim como o estágio em que se encontra, devendo sempre ser estas as preocupações do profissional de saúde” (Kovács, 1997, pg. 110). Diz essa autora:

“Por se tratar de um conceito altamente subjetivo, cada pessoa considera aspectos diferentes como essenciais para sua vida. Perguntar ao paciente como pretende gerir sua vida, o que gostaria que fosse feito, quais são as suas necessidades, são essenciais para o profissional de saúde, que busca facilitar e promover a qualidade de vida dos seus pacientes. Uma boa avaliação da qualidade de vida tem como objetivo orientar a escolha de tratamentos e cuidados a pessoas gravemente enfermas e/ou com sequelas incapacitantes. Um dos aspectos que consideramos importante quando se discute qualidade de vida, é o direito da pessoa de ter informação sobre o seu problema e sobre as possibilidades e intercorrências dos tratamentos. Existe um temor generalizado de que se o sujeito souber a respeito de sua situação poderá deprimir-se ou, numa hipótese mais catastrófica, tentar o suicídio. Entretanto, nossa experiência tem demonstrado que a incerteza, o silêncio e as palavras da situação provocam, por exemplo, mais dor e isolamento. O segredo faz com que o paciente seja alienado de sua própria vida, que se sinta infantilizado, dependente, e não mais como sujeito de si, já que não pode participar de sua própria vida e tomar suas decisões”.

É bom lembrar que ninguém é tão ingênuo a ponto de não perceber o que passa a sua volta; o paciente sempre nota que os familiares e profissionais estão diferentes, e que algo de muito grave está ocorrendo. Negar informações corretas ao paciente, além de antiético, é como isolá-lo, aliená-lo de sua própria realidade, o que também pode prejudicar o seu processo de reabilitação.

A família no processo terapêutico

No processo de diagnóstico e plano de reabilitação precisamos considerar a família; ela será a unidade de cuidado da pessoa que adquiriu uma deficiência. E como a pessoa, sua família passará por estágios de choque, realização de perda, integração, luto crônico. O ocorrido gerará uma revolução e mudanças específicas, considerando o lugar que a pessoa ocupa – pai, mãe, filhos. Entrará em cena o psicólogo, visando orientar essa família a lidar com o medo, o sofrimento, a incerteza. Podem ocorrer perturbações de ordens diversas – tais como a hospitalização e afastamento do paciente de todas as atividades cotidianas. Uma nova organização varia entre desorganização e rompimento com algumas coisas ou reorganização, reunião e fortalecimento.

Segundo Kovács (1997, pg. 106), a forma de lidar com o aparecimento de um membro com deficiência dependerá de características da dinâmica familiar, podendo ter problemas como:

  1. Família desunida, sem tolerância, num sistema rígido e sem flexibilidade;
  2. Dificuldades de comunicação, segredos, bloqueios e situações tabus;
  3. Dificuldades econômicas, poucas relações e com pequena rede social;
  4. Dificuldades para substituir as funções do paciente;
  5. Situação de conflito e briga por ocasião da instalação da doença/deficiência; Sistema de crenças da família e formas de lidar com a culpa.

Outros pontos importantes no processo psicoterapêutico

Será importante oferecer apoio emocional não só ao paciente, mas também a toda equipe envolvida no processo e no ambiente de reabilitação. Seria interessante que o psicólogo participasse já do processo de seleção dos profissionais que irão integrar a equipe multidisciplinar. Do mesmo modo, os meios reabilitacionais precisam utilizar-se de uma linguagem também indicada para uma educação pública destinada à redução dos estereótipos da deficiência. Nos anos 1980, a Doutora Carolyn L. Vash já defendia a adoção de uma linguagem “limpa” que achamos muito oportuna reproduzir suas cinco cláusulas aqui:

1 – Evitar os termos laquigráficos, como “o incapacitado” e “o deficiente”. Esses termos têm a vantagem da brevidade, mas carregam o ônus oculto de reduzir a pessoa descrita ao nada, sendo mais uma das muitas características que se tornam negativas nas mentes da maioria das pessoas. Elas podem, também, ser republicanas, democratas, advogadas, católicas, budistas, lindas, caseiras ou representar quaisquer outros papéis e possuir quaisquer outros traços. Tudo isso está esquecido ou perdido quando elas são “atomizadas” na única categoria de “incapacitada/deficiente”.

2 – Evitar a descrição imprecisa de uma pessoa como “incapacitada”, quando se pretende dizer que ela é “deficiente”. (…) Não faz sentido falar de uma pessoa “incapacitada” porque virtualmente ninguém fica incapacitado por uma deficiência em todas as atividades. As referências à incapacidade devem sempre especificar em que ocupação o indivíduo estar incapacitado.

3 – Sempre que possível, evitar o uso do verbo “ser” e suas conjugações ao discutir a respeito de pessoas com condições incapacitantes e deficiências. Por exemplo, em vez de dizer “Sally é artrítica” é preferível dizer “Sally tem artrite”, atentando-se que as sutilezas da linguagem induzem a um estereótipo. A primeira afirmação, da mesma forma como o “incapacitado”, reduz Sally ao nada mais do que sua artrite; a última implica que ela é mais que Sally, entre outras coisas, tem artrite. A índole nominal do verbo “ser” se torna muito evidente ao falar de pessoas com deficiências que provocam desaprovação social. (…)

4 – Sempre que possível, colocar a pessoa antes da deficiência na construção da sentença. “Pessoa com deficiência” é preferível a “deficiente”. A primeira coisa a ser enfatizada é a característica de pessoa do sujeito ou objeto da sentença. Uma vez estabelecida a imagem mental básica, a adjetivação, o qualificativo “com uma deficiência” terá menor probabilidade de dominar o conceito transmitido.

5 – Recusar as construções passivas tais como “pessoa em ou confinadas a uma cadeira de rodas”, em favor de construções ativas tais como “pessoa que usa cadeira de rodas”. A primeira fornece uma imagem de passividade e vitimização. A última sugere uma pessoa que estar ativamente usando uma cadeira de rodas como um instrumento para viver a vida. A diferença é a que existe entre o “inválido impotente” de cinquenta aos atrás e o “ativista consumidor” de hoje. (Vash, 1988, p. 211)

Habilitar ou Reabilitar

Há algumas palavras e expressões que, embora pareçam ter a mesma expressão, elas contam com significados diferentes. Motivo pelo qual, achamos necessário explicá-las para que elas tenham o seu emprego de forma correta nos textos e abordagem em conversas profissionais ou informais. Duas palavras que podem oferecer dúvidas são habilitar e reabilitar. Mas a diferença é simples. A primeira deverá ser usada quando alguém nasce ou adquiri uma deficiência nos primeiros momentos da vida: ele receberá um tratamento ou treinamento, às vezes com algumas adaptações, para mesmo com sua limitação ele poder fazer as coisas comuns que todos fazem e ter uma educação adequada com sua capacidade. Já a reabilitação ocorre quando uma pessoa adquire a deficiência ao decorrer de sua vida, como em acidentes automobilísticos. Essa pessoa terá um tratamento, treinamento e adaptações para poder voltar fazer, de acordo com a sua nova realidade, as coisas que faziam antes. Por isso, a reabilitação implica, dentre outros aspectos, trabalhar tanto a parte física, como psicológica e social da pessoa.

 

FONTES DESTA AULA:

AMARAL, L.A. Intervenção “extramuros”: resgatar e prevenir. in. Deficiência: alternativas de intervenção.  São Paulo; Casa do Psicólogo, 1997.

AMARAL, L.A. Conhecendo a deficiência (em companhia de Hércules). São Paulo, Robe, 1995.

AMARAL. L.A. Pensar a diferença/deficiência. Brasília, CORDE, 1994.

AMIRALIAN, M.L.T.M. O psicólogo e a pessoa com deficiência. in. Deficiência: alternativas de intervenção.  São Paulo; Casa do Psicólogo, 1997.

KOVÁCS, M.J. Deficiência adquirida e qualidade de vida – possibilidades de intervenção psicológica. in. Deficiência: alternativas de intervenção.  São Paulo; Casa do Psicólogo, 1997.

VASH, C.L. Enfrentando a deficiência – a manifestação – a psicologia – a reabilitação. São Paulo; Pioneira/EDUSP, 1988.

 

SUMÁRIO COMPLETO DAS CONVERSAS

 AULA 1 – QUEBRANDO PARADIGMAS

AULA 2 – LEV VYGOTSKY E AS BASES PSICOLÓGICAS PARA INCLUSÃO ESCOLAR

AULA 3 – ASPECTOS PSICOLÓGICOS, INTERVENÇÕES CLÍNICAS, DIFICULDADES E POSSIBILIDADES PROFISSIONAIS

AULA 4 – AS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM NA ATUALIDADE A COLABORAÇÃO DOS TESTES PSICOLÓGICOS EM SEU DIAGNÓSTICO

AULA 5 – COMO UMA NOVA VISÃO DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

 

Emilio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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