SOLIDÃO DÁ UM TEMPO E VAI SAINDO! – Por Emílio Figueira

Esta semana, num desses momentos de baixa autoestima, abrir o meu coração e desabafei minhas angústias com uma querida amiga. Foi só me desabafar e pronto; estava aliviado e novamente animado para continuar minha caminhada. Sou personagem do mundo atual. E como todos, tenho meus altos e baixos…

Nas ultimas décadas avançamos demais. Só que a vida moderna também trouxe outros problemas. Talvez um dos maiores seja a solidão. Há quem diga, dentre os muitos conceitos errôneos que desenvolvemos, que ser solitário é uma vergonha, pois são pessoas sem competência de encontrar parceiros. Em uma sociedade onde foi “estabelecido o conceito” que felicidade é estar acompanhado, muito não percebem que ficar sozinho também pode ser uma opção de vida, onde a pessoa desenvolve a capacidade de ficar só e ser feliz assim. Mas como estamos sempre com a maldita mania de querer determinar o que é melhor para o outro, jogamos cobranças em cima do nosso próximo.

Sabe-se que cerca de 25% da população mundial sente-se solitária em algum período de sua vida. Solidão é um sentimento comum, mas cada pessoa o experimenta de forma diversa e condições diferentes. E, qualquer que seja a origem da sua existência, esse sentimento pode ser resolvido a partir do momento em que a pessoa solitária aceita a si mesma.

Há dois tipos de solidão. A “solidão situacional”, que ocorre após um acontecimento que implica na perda de pessoas importantes, tais como o fim de um relacionamento, o divórcio, mudança de cidade, morte na família, etc., manifestando-se subjetivamente e com diversos sintomas psicossomáticos como ansiedade e depressão. De período variável, com duração em torno de um ano, seus efeitos tendem a diminuir; a dor maior passa e a pessoa organiza sua vida de outra forma.

Mas quando pessoas desenvolvem a “solidão crônica”, permanecem nelas por períodos longos de mais de dois anos, passando a configurar um modo de vida, sentindo-se aprisionadas, querendo sair e ao mesmo tempo convencidos que não podem fazer nada para melhorar essa condição; acham que buscar uma companhia é muito trabalhoso, pode trazer muita dor de cabeça e, usando essa desculpa como um mecanismo de defesa para não ter iniciativas e esforços para mudar suas situações. Muitos dos solitários conscientemente têm certa contribuição para sua situação, dadas características pessoais, tais como pessoas tímidas, por exemplo. E por isso são mais solitárias, mas ao mesmo tempo elas não se esforçam para vencer a timidez.

Diferenciar esses dois tipos de solidão nem sempre é algo simples. São graduações de intensidade e extensão e o que era um problema específico torna-se padrão de vida. Mas ambas têm uma característica comum, a falta de qualidade nos contatos que a pessoa solitária faz com outras pessoas, muitas vezes de qualidade é que parece ser precária, não conseguem identificar as oportunidades e por isso não aproveitam plenamente. Há pessoas que possuem vários amigos, mesmo assim se sentem solitárias.

Pelo lado psicológico estar só, assemelha-se a um espelho que promove o encontro com alguém que a pessoa não pode evitar: ela mesma. Algo que torna a solidão tão assustadora para quem não assume o desafio de olhar para si e aprender a se aceitar. Surge o mecanismo da fuga como se a procura compulsória da solidão fosse uma fonte de sofrimento e expressão de falta de liberdade interior. E o primeiro desafio para vencer a solidão deverá ser enfrentar-se, entender-se e aprender a gostar da própria companhia e, só depois, procurar se relacionar bem com outras pessoas.

Encontrar o outro não é garantia de escapar da solidão, por ser possível estarmos pensando viver um relacionamento quando não estamos, já que se não estamos inteiros, não nos damos por inteiros. Precisamos uma razoável relação com o nosso eu para criar a intimidade que acolhe nossa condição de seres vulneráveis e assim nos vincularmos ao outro.

A solidão ganha novos contornos no mundo moderno. Hoje é possível fazer muitas coisas sem ser obrigado a falar com outra pessoa, muitos serviços na base do “self-service”, por exemplo. A Internet ao mesmo tempo em que une pessoas que estão em lados opostos do mundo, acaba tendo um papel desagregador, já que muitas pessoas trocam os relacionamentos reais pelos virtuais. O sentimento de solidão passa a ser cada vez mais frequente no meio da multidão anônima nos espaços públicos, nos edifícios residenciais e nos espaços privados.

A violência das ruas fez com que muita gente se resguarde dos estranhos ao mesmo tempo em que permanecem estranhos. Precisamos exercitar a nossa capacidade de ficar só e, consequentemente, vincular-se satisfatoriamente com outros. E essa capacidade precisa passar pelo desenvolvimento da coragem de viver, significando não temer os nossos sofrimentos, dificuldades e perdas; perceber a si mesmo, aprendendo a conhecer honestamente o mundo de ideias, sentimentos, valores, preconceitos e crenças; desenvolver o difícil exercício de aprender aceitar os próprios erros e aprender com eles, facilitando a tolerância com os outros e o equilíbrio entre interesses pessoais e o interesse do próximo; a percepção do outro e das suas necessidades.

A nossa solidão pode acabar quando do nada, surge uma pessoa do jeito que a gente sempre sonhou. Vamos conhecendo-a aos poucos e se encantando cada vez mais. Desejamos tê-la ao nosso lado, dar-lhe carinho, ter muito diálogo nos momentos alegres ou nas dificuldades, compreendê-la e ser compreendido, aceitar e nunca cobrá-la em suas limitações e defeitos; sair juntos, cinemas, teatros, passeios, restaurantes, mostrar um para o outro os programas que gostam de fazer; sem inseguranças, incentivar e criar meios para que cada um cresça em sua profissão.

Acomodá-la no coração e, ao mesmo tempo, ser acomodado no coração dela. Construir um relacionamento maduro, um lar de paz e prazer de ser estar juntos. Tudo isto que tenho sentido por uma pessoa tão especial que apareceu já alguns meses na minha vida e que me devolveu a esperança de ainda ser feliz! E é um sentimento estranho, como se algo em meu coração afirme a todo instante que ela será a grande mulher da minha vida. Só estar faltando dois pequeninos detalhes que poderão ser decisivo em nossas vidas: eu ter a coragem de contar tudo isso à ela e Deus, se for da vontade Dele, abençoar a nossa união. Ele querendo, quem há de impedir???

Com relação à minha amiga, agradeço por ter me ouvido…

Foto: Google Imagem

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

2 comentários em “SOLIDÃO DÁ UM TEMPO E VAI SAINDO! – Por Emílio Figueira

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.