UMA PSICÓLOGA EM MINHA VIDA (1997) – Emílio Figueira

SINOPSE: A peça é um monólogo romanceado, misturando memórias com poesias, onde o rapaz em seu quarto, enquanto se veste para o seu casamento, revive e declama com simplicidade o seu amor por sua noiva, uma psicóloga. Passa pela fase que a conheceu, o complexo de inferioridade, o momento da confissão, quando ela não respondeu nem sim nem não, deixando um clima no ar, sem responder suas cartas e poemas. Depois o dia do sim, o namoro, o dia do casamento e suas perspectivas futuras. Todavia, o enredo mantém a linha do otimismo, onde pelo simples fato de estar apaixonado por uma pessoa tão especial, o reanimou a viver! O texto é uma verdadeira e sincera homenagem ao amor…
PERSONAGEM: É um moço honesto e sincero em seus sentimentos. Sempre muito alegre e expressivo, cativa o dão da escrita, sendo apaixonado por música romântica. Acredita no verdadeiro amor e se prepara para ser eternamente fiel a uma única mulher.
CENÁRIO: O enredo se passa no quarto do protagonista, tendo o básico: guarda-roupa, cama de solteiro, penteadeira, cortinas, uma escrivaninha e um computador com impressora.

TRILHA SONORA:
PRIMEIRO AMOR – Sandy & Jurnior
SEGUINDO NO TRÊS AZUL – Roupa Nova
ESTOU APAIXONADO – João Paulo e Daniel
SANGRANDO – Gonzaguinha
APESAR DE TUDO – Benito di Paula
A PRIMEIRA VISTA – Chico César
CHEGA DE SAUDADE – Vinícius de Moraes e Tom
VOCÊ – Tim Maia
 
AÇÃO DRAMÁTICA
ATO ÚNICO
CENA I – A DESCOBERTA DO AMOR E O MEDO

O PERSONAGEM ENTRA SÓ DE MEIAS E CUECA SAMBA-CANÇÃO. ESTÁ FELIZ.
FALA: Enfim, chegou o grande dia do meu casamento. (SENTA NA CAMA) Lembro-me de quando há conheci, sendo apresentado por uma amiga. À primeira vista me encantei. Ela era linda. Psicóloga. Uma mulher de grande porte, cabelo longo e o um jeito de uma verdadeira lady! Charme então, nem se diga… Era a chamada “mulher de fazendeiro”, não sendo para qualquer um. Eu comentava com meus amigos que nunca, nem na televisão nem na vida real, havia visto uma mulher com tanta beleza como ela. (LEVANTA E COMEÇA A CAMINHAR) Os dias foram passando, nossos encontros pelos corredores do local onde trabalhávamos tornaram-se comuns, embora resumissem em apenas três beijinhos e um “como vai?”. (COMEÇA A TOCAR AO FUNDO A CANÇÃO “PRIMEIRO AMOR”, COM SANDY & JURNIOR) Mas foram o suficiente para me apaixonar. Me sentia um verdadeiro adolescente vivendo a descoberta e medos do primeiro amor. Foi quando, criando toda uma situação imaginária, lhe fiz a primeira poesia que dizia justamente sobre a necessidade de um discurso amoroso…
COMEÇA A RECITAR:
Preciso escrever um clássico…
Que fale de alegria,
sorrisos, flores,
poesias…
Escrever um clássico…

Preciso escrever um clássico…
Não no sentido
público universal;
Apenas no singular,
mas, sobretudo,
um clássico…

Preciso escrever um clássico…
Com todos sons, ritmos, rimas,
versos, cores e musicalidade…
Mas que seja
(simplesmente)
clássico…
FALA: Um dia, porém, tive uma agradável surpresa. Ela me convidou para ir a uma festa de aniversário de sua mãe, que seria realizada em sua casa na tarde de domingo. Lá, eu estava me sentindo o dono do pedaço, ao lado da pessoa que eu estava gostando. Certo que éramos apenas amigos. Mas, em minha fantasia, éramos mais. Cheguei até ao ponto de ver a sua mãe já como minha futura sogra. E por que não, no meio de todas aquelas pessoas, imaginei só eu e ela ali…
PEQUENA PAUSA. RECITA:
No ritmo da chuva lá fora
descansam nossas descansadas consciências
enquanto a vida se projeta
na tela de um cinema mudo…
Não seremos Romeu e Julieta
Malíria e Dirceu, Abreu e Iraci!
Mas sim, eternamente,
tão somente… eu e você…
Brindemos o amor mentalmente feito:
o amor em presente projeção
e o amor que ainda há por se fazer…
COMEÇA A PEGAR A ROUPA PARA IR SE TROCANDO.
FALA: Mas minha alegria durou pouco. Uma amiga minha me perguntou (MUDA O TOM DA VOZ PARA FEMININA) Já pensou como será quando você vê-la com o seu namorado? (VOLTA AO NORMAL) Foi quando eu entendi, de um modo bem adolescente que, amar é…
RECITA:
Encantar-se ao vê-la passar
telefonar para não lhe dizer nada
elogiar a sua família e o seu cachorrinho
oferecer-lhe o último pedaço de meu chocolate
convidá-la para comer pizza com coca-cola
imaginar e abraçar o travesseiro como um adolescente
ajudá-la a lavar o quintal
querer passear no banco de passageiro de seu carro
trocar para ela, o pneu sorrindo
fazer dela uma dama,
sentindo-se um vagabundo
(e nunca sentir ciúmes
ao vê-la com o seu namorado)!
FALA(UMA PEQUENA RISADA): Legal, né? (DESANIMA) Mas nem tudo foram flores de início. De repente, ela começou a se tornar algo muito além de mim. Ou melhor, passei a ter um enorme complexo de inferioridade. Não me julgava ninguém para ter ao meu lado, uma mulher daquele nível. Começou-se então um enorme medo. Quantas vezes eu, ao vê-la, corria ou me escondia. Era como se ela fosse um monstro pronto a me engoli. Outras vezes, além de me esconder, eu chorava como se fosse um garoto pobre de rua vendo um lindo brinquedo numa vitrine, sabendo que nunca iria tê-lo… (UM SORRISO. VAI ATÉ EM FRENTE AO COMPUTADOR, PROCURA UM POEMA QUE COMEÇA A LER EM SEGUIDA, ENQUANTO TOCA AO FUNDO “ESTOU APAIXONADO”, COM JOÃO PAULO E DANIEL) Mas mesmo assim, traçava as minhas memórias futuras.
Que ao entrar o outono
estejamos juntos;
sejamos amigos embarcando
no barco dos amantes,
navegando nas entrelinhas
de nossas inevitáveis ilusões.
E que possamos assistir
ao brotar de muitas quimeras
no amadurecer de cada fruta!
No inverno, fecharemos as janelas…
Debaixo de cobertores
assistindo a filmes no vídeo,
tomando chocolate quente,
no riso e no carinho afetivo
do aconchego de um lar materno!
Nós, inocentes crianças,
sairemos pelas ruas
(com pesadas roupas, de mãos dadas),
observando o clima romântico do frio,
o parecer de uma civilização
nos passos acelerados das pessoas…
Depois jantaremos
num restaurante com forno à lenha,
num papo descontraído, em sorrisos,
regando os lábios com vinho doce
ouviremos música clássica,
dançaremos de rostos colados…
Seremos sonho, seremos realidade…
E não importa se depois,
no florescer da primavera,
haja uma despedida…
Ficando todos os nossos momentos
em saudosos poemas…
FALA: É, às vezes vale mais um momento de ilusão do que uma vida toda. Tinha que resolver aquele meu problema de complexo de inferioridade. Mas a única forma que achei para isso, foi me afastar complemente dela. E foi justamente o que fiz durante um ano. Mas em um mundo onde até as pedras se encontram, revê-la outra vez foi inevitável…
SAI DO COMPUTADOR E PEGA OUTRA PEÇA DE ROUPA PARA VESTIR.

CENA II – A CONFISSÃO       
FALA: Estava bonita como nunca. O charme da moça fina, delicada e, por incrível que pareça, ainda sozinha. Meu Deus, como eu amava aquela mulher. Eu precisava dizer isso ela. Até tentei uma primeira aproximação com ela lhe presenteando como amigo no dia dos namorados. (TOM IRÔNICO) Tá certo, era um livro de antropologia; mas acredito que quando queremos dividir com alguém alguma coisa que gostamos, isso sim, pode ser considerado uma prova de amor!!! (PAUSA PENSATIVA) Dias após, comecei a escrever uma carta que começava com a seguinte poesia…
COMEÇA A TOCAR “SEGUINDO NO TREM AZUL”, COM O CONJUNTO ROUPA NOVA.
Preparo uma carta de amor
como quem prepara um testamento,
prestes a se atirar de um abismo
confiante no pára-quedas dos sentimentos!

Como quem caminha em longínquos campos
sendo que há uma rosa tão próxima de ti
para ser colhida.

Como quem sonha e, acordando,
prepara-se para entregar-se
em tuas mãos!!!
FALA: Mas não. Uma carta de amor não seria uma coisa digna daquela moça. Ela merecia muito mais. (SUSPIRO) Então tomei coragem e, com a força de Deus, convidei-a para jantar. Qual não foi a minha surpresa, quando ela aceitou de imediato. Me preparei todo. Aquela tinha tudo para ser uma noite inesquecível. E foi. Ela veio numa simplicidade, já começando a destruir todo aquela imagem de madame que eu fazia dela. Começamos com assuntos variados. (COMEÇA A TOCAR “SANGRANDO”, COM GONZAGUINHA) Não sabia como começar a me declarar. Então resolvi falar que eu estava gostando muito de uma pessoa, fiz muitos elogios e por fim disse: Essa pessoa é você!!! Lembro-me que ela tomou um choque tão grande e me olhou com uma profunda ternura. Continuei a elogiá-la. Falei dos meus planos futuros que eu tinha para nós dois e as conquistas que eu poderia ter, acaso tivesse uma companheira como ela. Foi quando ela, calmamente me perguntou: (AFINA A VOZ) Você tem certeza do seu sentimento? (VOLTA AO NORMAL) Já pensou, eu ali passando o maior medo para lhe confessar o meu amor e ela ainda me pergunta isso? Porém, diante de sua pergunta, olhei no fundo de seu rosto. Me veio uma profunda confiança, que falei durante quase uma hora e meia sobre o meu sentimento. E ainda lhe entreguei todas as poesias que lhe escrevi, as quais fiz a arte de computador e mandei encadernar.  (AGORA TOCA “APESAR DE TUDO”, COM BENITO DI PAULA) Ela ficou muda e não sabia e me confessou não saber o que falar. A ternura do seu rosto e o seu afeto aumentava ainda mais. Tomei a iniciativa de lhe propor que a partir daquele momento poderíamos apenas começar a sair juntos para irmos nos conhecendo melhor… Estava tão feliz, como quem estava vivendo um momento poético. Embora ela afirmasse não ser exatamente o “mito” que eu imaginava, descobri naquela noite que, na realidade, ela era bem melhor!!!
COMEÇA A RECITAR FELIZ:
Minha paz repousa em tua alma
Tranquilidade do sempre eu
Teu sorriso transpira minha calma
Fim da ensâna dor… Dor que já morreu.

Sorria, serenamente, para mim
Que humildemente ofereço-te uma flor
Colhida em longínquo jardim
Para alegrar um futuro amor.
FALA: Quando nos despedimos na porta de minha casa, ela me agradeceu pelas poesias.  Fui atrevido e lhe disse que queria fazer ainda muitas outras. Só dependeria dela. Antes de acelerar o carro, ainda me deu um olhar com ternura. Certamente pensou: (AFINA A VOZ) Isso só acontece comigo…
LEVANTA-SE, PEGA O SEU VIOLÃO E SENTA NA CAMA.
FALA: Naquela época tinha uma música que começava a fazer sucesso. Ela parecia realmente relatar a nossa história. Então a escolhi como a nossa canção…
COMEÇA A TOCAR E A CANTAR UM TRECHO DE “A PRIMEIRA VISTA”, DE CHICO CÉZAR.

CENA III – A ESPERA
FALA: De fato saímos algumas vezes para jantar ou almoçar. Claro, sempre por insistência minha. Também sempre era só eu quem falava nessas ocasiões. Nunca conseguia tirar nada dela, como por exemplo, sobre o seu passado, os seus gostos ou planos. Ela apenas me olhava, chegando, às vezes, apoiar o queixo na mão como um antigo filósofo grego. Diante de seu olhar, chegava até a me sentir um de seus pacientes em uma sessão de análise. Mas existia um lado positivo. Quando estávamos conversando, eu percebia que já não tínhamos mais aquela amizade informal. A minha confissão fez crescer mais a nossa relação e estávamos muito mais amigos e, às vezes, mais aberto um com o outro! Embora saindo apenas como bons amigos, mas sentia tão feliz por poder estar desfrutando de sua companhia. Praticamente vivendo os melhores dias de minha vida. Já tinha tanta certeza do nosso futuro, que lhe fiz ou outro poema, imaginando como seria a convivência de uma vida a dois…
RECITA COM ELOQUÊNCIA:
Não que eu afirme que te amo
no sentido real do sentido;
mas digo que te desejo,
amiga, companheira, amante…

Por que não tentarmos
o que aí está para ser tentado;
brincarmos de dois
transformando-nos em apenas um!
Caminhar abraçados,
executando reais beijos…

Sentir ciúmes. Por que não?
O tolo sentimento de posse…

Vamos co-habitar… Por que não?
Brincaremos de um homem, uma mulher
comunicando-nos entre olhares e gestos!
Dividiremos todas as nossas coisas
responsabilidade, afetos reservados
e o colo nos momentos poeticamente amargos.
Receberemos os nossos amigos, famílias
e as sem graças piadas de seu pai.
Iremos juntos ao supermercado
Vamos comer nossos pratos preferidos,
dividir as tarefas, alegrias, frustrações,
os programas na televisão, os CDs
e a cama (principalmente!).

Não me importarei, se bagunçares o meu jornal;
porém, saibas que mexerei no controle-remoto
quando estiveres assistindo novelas;
às vezes, só para ver-te zangada,
ficarei até tarde no boteco com os meus amigos!
E, ao chegar em casa, saberei que
o velho sofá estará a minha espera!

E com o tempo, quem sabe,
poderemos ter uma conta conjunta no banco…

Está vendo? Temos tudo para dar certo.

E se o amor, um dia chegar,
ele será apenas um detalhe!!!
FALA: Mas minha alegria durou pouco. De repente, sem mais nem menos, ela não quis sair mais comigo. Sempre tinha uma desculpa. Aliás, ela sempre foi uma grande especialista em criar desculpas. Nunca vi ninguém igual. Mandava-lhe poemas, cartas cartões, telemensagens, flores… Nunca lhe cobrei nada, me limitando apenas demonstrar a sinceridade de meus sentimentos e planos para com ela. Mas não havia qualquer manifestação de sua parte. Diante de seu silêncio, não me sentia no direto de ir procurá-la; mas sempre me sentia no direito de enviar todas essas coisas, pois não vejo nada de mais alguém manifestar o seu amor por outra pessoa. Apesar de escondida, eu tinha certeza que no fundo de seu ego, ela estava gostando de saber que era amada. Qual a mulher que não gosta de ser desejada com respeito e ainda mais receber longas cartas de amor, flores e poesias?  (UM SUSPIRO)
PAUSA PARA TROCAR MAIS ALGUMAS PEÇAS DE ROUPAS.
FALA: Foram quase oito meses sem qualquer sinal dela. Era estranho todo aquele silêncio. Mas eu continuava a manifestar os meus sentimentos para com ela. Foi num desses momentos, relembrando aquela pergunta sobre a certeza de meu sentimento, que lhe fiz um poema. Acho até que ele deve estar por aqui…
VAI ATÉ A GAVETA DA PENTEADEIRA, ABRE, PEGA UMA FOLHA DE PAPEL E COMEÇA A LER ENQUANTO CAMINHA PELO PALCO:
Tenho tanta certeza de meu sentimento
que de tanta certeza, tenho medo!
Temo as horas que longe estás.
Alegro-me quando te telefono,
mesmo sem ter nada a te dizer.

Perco-me nas poesias que não consigo escrever,
mas te encontro em cada música que ouço.
Não me importa esperar uma vaga em tua agenda,
Apoiando-me nas poucas horas que
desfruto de tua companhia
e nas coisas que só consigo dizer para ti.
Na vontade de afagar o teu cabelo,
acariciar a tua face…
Poder ter a tua confiança,
ouvir o teu desabafo e, depois,
oferecer-te o meu ombro para repousares…
Repartir contigo, o mesmo copo de vinho.
Ou simplesmente olhar dentro de teus olhos
com tantas coisas a se falar,
inclusive, nada…

Tenho tanta certeza de meu sentimento
que de tanta certeza, tenho medo!
Porém, de tanta certeza,
é que te peço para que não sejas
a minha primeira namorada;
mas sim, a última…
FALA: Gostei tanto dessa poesia, que mandei fazer um quadro e lhe enviei no dia de seu aniversário. Sim, como dizia a poesia, ela seria minha primeira namorada. Até aquele momento, eu ainda não havia tocado em mulher nenhuma e nunca beijado ninguém. (ALEGRA-SE) Mas só o fato de pensar que ela poderia ser a primeira, me deixava feliz. Ela, pelo seu comportamento, já demonstrava não ser qualquer uma. Era alguém muito especial, realmente preparada por Deus. Minha fé dizia isso! Não me importava de esperar o tempo que precisasse. Estava tão animado, pelo simples fato de saber que no mundo havia uma pessoa como ela, que isso me incentivava lutar e acreditar em meus projetos e em mim mesmo. Afinal, precisava ser alguém digno de tê-la ao meu lado. Só Deus sabe o quanto eu estava lutando e mudando a minha vida para um dia ser digno de tê-la. Deus sempre foi meu grande amigo que desde o começo segurou a minha mão, me guiando pelos caminhos certos da vida. Foi Ele que desde o começo encheu o meu coração de esperanças e alegrias futuras. Mas apesar de eu ter as minhas vontades e sonhos próprios, sempre lhe disse: Senhor, sobretudo, sejas feita a tua vontade!  E assim espero e hoje acredito que não os meus, mas os planos do Mestre sejam todos cumpridos em minha existência…
ALGUM TEMPO DE SILÊNCIO, ENQUANTO ELE ARRUMA ALGUMAS DE SUAS PEÇAS DE ROUBA.
FALA: Aquele silêncio continuava estranho. Apesar de eu manter sempre o otimismo, havia os momentos de fraqueza. (FALA MANSA E MELANCÓLICA) Principalmente nos finais de tarde, momentos de solidão, onde, dentro de minhas ilusões, desejava tanto encontrá-la e, no entanto, estava só. Esses sentimentos aumentavam ainda mais nas tardes de sextas-feiras; mais um fim de semana só! Eu sentia muito a falta dela, tendo cada vez mais o desejo de lhe contar pessoalmente tudo de bom que estava acontecendo comigo.  Porém, vencidos alguns momentos de solidão, não me cansava de esperar o momento certo. Ela havia se tornado um grande quebra-cabeça em minha vida. Cada peça montada, dava-me a certeza e alegrava-me em saber que finalmente estava gostando da pessoa certa; ou melhor, o que sinto por ela jamais sentir por ninguém, pois ao mesmo tempo que era um amor distante, era paz e esperança. De minha parte sempre me questionavas se estava conseguindo lhe transmitir isso e se, de alguma forma, também estava lhe fazendo bem. Certa vez, tentando reanimá-la, eu até citei um pensamento de Érico Veríssimo: ”Felicidade, é a certeza que a nossa vida não está passando inutilmente”!
DE REPENTE ELE OLHA PARA O INFINITO E RECITA:
É na ausência que se resolvem os sentimentos.
Na vontade de telefonar, não ligando
na vontade de gritar, ficando mudo
na vontade de ir, ficando
na vontade de achar, preferindo perder
na vontade de perder, para ganhar
na vontade de perguntar, não querendo saber
no sentimento de posse, sem ter.

E nas tantas coisas que desejamos dizer
mesmo sabendo que na presença
nunca serão ditas!!!
SENTA NA CAMA E PENSA POR ALGUNS INSTANTES. PEGA O VIOLÃO E TOCA UM TRECHO DA MÚSICA “CHEGA DE SAUDADE”, DE TOM JOBIM E VINÍCIUS DE MORAES. VOLTA A FALAR.
FALA: Como era complicado entender o que se passava na cabeça dela. (REANIMA) Ela não se manifestava, mas estava gostando. Eu tinha certeza disso, pois uma pessoa que recebe uma declaração de amor, sabe que se ela não dizer nem sim nem não, a outra continuara mantendo e aumentando as suas esperanças. E, consequentemente, estará sustentando o seu sentimento. E ela como uma psicóloga, sabia disso melhor do que ninguém…(PEQUENA RISADA) Lembro-me que eu tinha um amigo que dizia que cabeça de mulher é igual a bolsa que ela carrega; agente nunca sabe o que tem dentro. (PAUSA PENSATIVA) Acho que o romance de Romeu e Julieta deu certo, porque ela não era psicóloga!!! (VOLTA O TOTAL OTIMISMO) No fundo, eu sabia que valeria a pena esperar… (LEVANTA-SE E CAMINHA UM POUCO)

CENA IV – O NAMORO E O CASAMENTO
FALA: De vagar eu fui descobrindo a pessoa tão especial que existia dentro dela. Através de conversas informais com algumas amigas nossas, elas começaram a  me contar coisas maravilhosas a seu respeito, que encheram de felicidade o meu coração. Foi quando descobrir que ela era uma “criança” que, devido a acontecimentos tristes do passado, temia o presente e o futuro. É o que a psicologia chama de estado de luto.  Mas isso só o tempo poderia cicatrizar. Foi quando comecei a lutar para ela entender que nem todo mundo era igual. Ela iria compreender um dia que havia alguém que, por misericórdia de Deus, estava se preparando cada vez mais para saber reconhecer a pessoa maravilhosa que existia dentro daquela “criança”, honrá-la, respeitá-la e ser somente seu… O tempo passou naquele silêncio. (IRÔNICO) O mulher difícil!!! (UMA RISADINHA) Enquanto o tampo passava, eu me pegava com fé e coragem em minha profissão e objetivos, em busca de um futuro melhor para nós dois. Até que certo dia, estava trabalhando no computador em meu setor, quando ela entrou de repente. Foi uma surpresa ao nos olharmos. Ficamos os dois sem jeito, nos limitamos apenas num rápido ”como vai”. Ela me sorriu e após rápidas palavras perguntando por minha chefe, virou-se a começou a caminhar para ir embora. Abaixei a cabeça e iria começar a chorar, quando ela voltou repentinamente e me disse com ternura… (AFINA A VOZ) Olha, não tenho nenhum compromisso para esta noite. Se você quiser, podemos jantar. (UM SORRISO DE CONTENTAMENTO E VOLTA A VOZ AO NORMAL) Porém, a minha surpresa estava apenas começando. Naquela noite, ela confessou ter descobrido que me amava. Foi uma coisa tão forte, que começamos a chorar abraçados. E naquele clima de fascinação, demos o primeiro beijo. Sim, eu estava vivendo a emoção de meu primeiro beijo. O primeiro toque, as primeiras carícias, o primeiro afago em seu cabelo e o primeiro êxtase de ser amado!!!
DÁ UMA PAUSA PENSATIVA, LEVANTA-SE E RECITA PARA A PLATEIA:
Vou te encontrar em mais um soneto
E nele, perpetuar-te para a posteridade
Fazer do desencontro, um encontro
Repousar em ti… Minha ansiedade.

Quero ser único… Único em tua vida
Chamar-te de minha… Sendo só eu
Ao teu ouvido, falar poemas de momento
Jamais publicados… Tão somente teus!

FALA: Nossa relação foi ao mesmo tempo linda e fulminante. Parecíamos dois adolescentes querendo ficar um ao lado do outro todo o tempo. Começamos a descobrir uma série de afinidades e um grande universo foi se abrindo. Poucos dias tínhamos tanta certeza que fomos escolhidos por Deus para sermos o companheiro um do outro, que resolvemos não perder tempo e nos casarmos. Eu sei. Pode até parecer loucura nossa. Mal começamos a nos conhecer e já decidimos frequentar o altar do matrimônio. Mas nem tudo precisa ser como sempre foi. Às vezes, é necessário que dois malucos quebrem o que reza a tradição, como por exemplo, os longos namoros… Em pouco tempo, em seu olhar, fui entendendo muitas coisas de meu passado, além de compreender que o amor e as relações precisão ser constantemente repensadas…
COMEÇA A TOCAR OU FUNDO “A PRIMEIRA VISTA”, COM CHICO CÉSAR, ENQUANTO ELE OLHANDO NO ESPELHO, RECITA:
Tu és o futuro explicando águas passadas;
o nada simplesmente tornando-se  tudo;
a razão,  a calma, palavras  dos  momentos  mudos.
És a certeza, mesmo quando oculta… Calada…

Não… Não temas o que haverá de acontecer.
O destino já escreveu a nossa história;
a nós já está reservada a Glória.
Resta-nos tão-somente a alegria de viver!

Presente inesperado que amiúde recebo;
tu, que serás a minha eterna companheira;
cuja felicidade, vagarosamente  já bebo.

Bebo-te enquanto uma brasa queima à lareira;
na tranquilidade de um ser poeticamente soberbo
festejando a chegada de ti… a primeira e derradeira!
FALA: A nossa convivência irá realmente começar agora, como marido e mulher. A cada toque, a cada momento de alegria, a cada decepção, a cada briga, a cada reconciliação e a cada amanhecer juntos! (ARRUMA AS ÚLTIMAS PEÇAS E SUSPIRA) Enfim, o dia de meu casamento. Sinto muito que alguns amigos de minha infância e adolescência não poderão estar presente, mas não faz mal. Agora a minha grande amiga será ela; a minha esposa!!! A leoa que me ajudará a comemorar os momentos de vitórias; mas também a que levantará a minha cabeça e me incentivará nas horas difíceis. E, quando ela precisar, serei o seu leão! Sim, as dificuldades sempre surgirão, porém o nosso amor maduro fará enfrentarmos e vencer a todos. (DÁ O NÓ NA GRAVATA) Engraçado a vida… Quando pequenos, a companhia de nossos pais é tudo. Mais tarde os amigos, o pessoal da escola e da farra, preenchem o nosso vazio. Até que chega o momento em que precisamos de outro tipo de afeto. O outro tipo de intimidade e companheirismo, o que conquistaremos através do casamento. Será o que começaremos hoje; eu serei a cabeça e ela o corpo de nossa família,  dois corpos unidos em um só…
RECITA:
Não importa o sentimento criança
Se a soma final sempre é o amor
Vento menino sopra, canta e dança
No ventre da noite… No calor!

Em ti, a inauguração de novas poesias
Mitos, receios, preconceitos, tabus quebrados
Bocage moderno, sonetos sem elegias
Nos orgasmos, dois sonhos realizados.

Na alcova dois corações solitários
Rezando em cada um, nossos rosários
Resumo na união de nossas bocas.

Nos jardins públicos inúmeras flores
Sepulcros de tantos ex-amores
Levados por ingênuas fadas loucas.
FALA: Viveremos um tempo só para nós. Até que venham os nossos filhos. Outros tipos de sentimentos e outras necessidades surgirão. Por eles, também haverão momentos alegres; momentos de preocupações e tanta coisa para ensiná-los. E, juntos, iremos assistir ano a ano, nossas crianças crescerem e desenvolverem. Até que um dia, cada um criará asas e seguirá o seu caminho. (COMEÇA A TOCAR AO FUNDO A MÚSICA “VOCÊ”, COM O TIM MAIA. COLOCA O PALETÓ) E então, eu e minha psicóloga, novamente sós, lhe perguntarei… (VOZ MELANCÓLICA) “Será que nós fomos felizes?”  E, certamente ela me abraçará e me responderá… (COM TERNURA) “Não meu velho; nós ainda somos felizes…!”
AUMENTA O VOLUME DA MÚSICA. ELE VIRA-SE E SAI ANDANDO LENTO.
FIM.

Emilio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo e personal coach com formação em Programação Neurolinguística. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de cinquenta títulos lançados. Ator e autor de teatro. Várias entrevistas na mídia e em jornais. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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